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CAPÍTULO 01. Dominação, práticas empresariais de relacionamento, e resistências comunitárias

1.3 As resistências comunitárias contra as práticas empresariais

As “ações sociais” são utilizadas como estratégia empresarial em diversos sentidos. Nesta tese destacam-se os interesses corporativos na busca pela posição de dominação, e no estabelecimento de referenciais simbólicos que ampliem suas avaliações positivas por trabalhadores rurais, situados nas cercanias dos seus aparatos logísticos, industriais e florestais. Mas é importante considerar que os movimentos sociais não são passivos a estes dois mecanismos, pois empenham-se na ampliação das suas capacidades de ação, visando a redução dos ganhos simbólicos empresariais.

Para Gohn (2011), há uma articulação entre os movimentos sociais urbanos e rurais, principalmente quando se buscam ampliar as visibilidades dos problemas enfrentados no campo. Deve-se considerar que estes caracterizam-se como “[...] formas particularistas de resistência, reativas aos rumos do desenvolvimento socioeconômico e em busca da reapropriação de tempo, espaço e relações cotidianas.” (ALONSO, 2009, p. 52).

Os movimentos sociais do campo ampliam sua participação em diversas temáticas importantes para seu cotidiano. Dentre estas destacam-se: a luta pela melhoria da educação (DAMASCENO; BESERRA, 2004); por melhorias na agricultura camponesa (FERNANDES, 2000); realizam debates sobre um novo modelo de desenvolvimento para o Brasil (CALDART, 2001); além da busca pela distribuição de terras e riquezas (VENDRAMINI, 2007). Scherer- Warren (2005, p. 68) destaca que movimentos “[...] valorizam a participação ampliada das bases, a democracia direta sempre que possível, e opõem-se, pelo menos no nível ideológico, ao autoritarismo, à centralização do poder e ao uso da violência física”. E ainda se unem pela ampliação dos investimentos públicos na agricultura familiar.

Para Fernandes (2000, p. 66), depois de passarem por momentos de intensos embates com diversos setores, os movimentos sociais do campo receberam mais atenção, e “[...] esses camponeses sem-terra falam suas próprias linguagens, conquistando o respeito e a admiração de alguns e a aversão de outros.”. Além disso, estabelecem redes de solidariedade para o fortalecimento da luta política (SANTOS, 2014).

Considerando-se o processo de relação entre comunidades rurais e empresas, há sempre uma discordância entre os ganhos e as perdas para os trabalhadores rurais. Para Abramovay (2007, p. 96) cabe ao Estado possibilitar que os pequenos agricultores acessem as modernas tecnologias. Kautsky (1980) enfatiza que a ampliação dos investimentos públicos traria maiores benefícios do que a dependência às empresas. Considera-se também que as políticas de investimento público em atividades do campo devem garantir a participação dos movimentos

sociais, e a efetiva atuação na elaboração e na realização dos projetos de desenvolvimento da agricultura (FERNANDES, 2008a). Destacando a pluriatividade na agricultura familiar, Schneider (2003) cita que o Estado tem papel significativo na participação das famílias rurais em outras atividades que não as restritas à agricultura; ao reduzir os investimentos nestas comunidades, reduz-se suas possibilidades de subsistência.

Sobre os problemas econômicos relacionados com a viabilidade das comunidades rurais, Coletti (2005) cita uma deficiência na contribuição necessária a estes movimentos, pois priorizam-se os investimentos em grandes projetos empresariais. Mas, para Sennet (2006), observa-se uma individualização das pessoas, repercutindo intensamente nos processos de “comunitarismo” e de “partilha” de ideias e motivações. Esta é uma importante situação a ser considerada, pois ocorre uma desarticulação, não das lideranças ou das organizações que defendem políticas de melhoria da agricultura familiar, mas nos seus componentes de base. Ao perceberem que não há apoio do Estado para suas atividades, estes, na maioria dos casos, afastam-se das suas atividades agrícolas, ou até mesmo “vendem o direito de uso” da terra recebida. Questões de desestabilização de bases que se tornou um dos pontos centrais desta tese.

A relação entre as colocações de Sennet (2006) e Colletti (2005) são possíveis e justificáveis, considerando-se que, mesmo sabendo que os investimentos em comunidades rurais beneficiam diretamente uma maior quantidade de pessoas, o Estado prioriza os grandes projetos econômicos que, na maioria dos casos, resultam em danos às populações pobres. Ao contratarem trabalhadores rurais das cercanias destes grandes investimentos, as grandes empresas estimulam a entrada de outro entendimento sobre as relações de trabalho, e, principalmente, de vivência coletiva, e de compreensão da importância dessas comunidades.

Na luta contra essa “desarticulação” dos movimentos em defesa da agricultura familiar, certos setores da igreja católica apoiam as resistências comunitárias. Ainda que sejam apenas os representantes dos seus ramos mais “engajadas socialmente”, estes contribuem nas lutas, e na organização dos movimentos sociais do campo (IOKOI, 1996). Para Bogo (1999), estes representantes da igreja apoiam os movimentos adotando-se o ecumenismo, ampliando o poder conjunto na luta política; e reduzindo a divisão por questões religiosas, mesmo que na prática, ainda se perceba uma maior influência católica. Prioriza-se a luta pela terra, e pela viabilização das atividades agrícolas, mas cresce o receito sobre a expansão empresarial no cotidiano das comunidades.

Ao considerar a expansão da ação empresarial junto às comunidades rurais, Zhouri (2008) nos apresenta análises importantes, destacando que todo o processo de investimentos na

primarização das economias, resulta na concentração de terras e no baixo nível de empregabilidade; além do baixo investimento nas pequenas propriedades. Dentre estes projetos se destacam os “[...] projetos envolvendo mineração, hidrelétricas, monoculturas de eucalipto, de soja, entre outros concentradores de grandes extensões territoriais.” (ZHOURI, 2008, p. 06).

Ilustrando a problemática citada por Zhouri (2008), Sousa (2012, p. 240) destaca que, prevendo a exaustão das minas de ferro de Carajás no Pará, o Estado e a mineradora Vale batalham para resolver questões econômicas; mas não se esforçam com a mesma intensidade na resolução dos problemas socioeconômicos que surgem na região, principalmente no meio rural. Incentivam pesquisas de inovação para a sustentabilidade financeira das grandes empresas no mercado internacional, mas pouco se investe na geração de renda para as pequenas comunidades.

Em termos de análise do contexto social, e da avaliação que os trabalhadores rurais fazem dele, é importante considerar as representações disseminadas pelas empresas, objetivando os ganhos materiais, políticos e simbólicos. Deve-se considerar que “[...] a relação com o mercado, longe de poder ser apenas vista pelo aspecto da subordinação e da estratégia de minimização dos efeitos perversos, deve ser lida como fator importante na constituição econômica e política dos assentados.” (NEVES, 1999, p. 21).

Ao identificar articulações e as resistências dos trabalhadores rurais, Marin e Castro (2009) destacam que novas configurações políticas, como a ampliação das mobilizações, a elaboração de coordenações estruturadas junto às organizações de nível nacional, e a busca pelo estreitamento do diálogo com o Estado, fortalecem os movimentos de permanência no campo. Considerando-se ainda que estes movimentos “[...] constroem seus espaços e se espacializam para conquistar o território, promovendo assim a territorialização da luta pela terra e pela moradia.” (FERNANDES, 2005, p. 32).

Ao tratar da necessidade da ação estratégica em resposta aos agentes públicos e privados, Silva e Fagundes (2011, p. 70) citam que o movimento social do campo, “[...] precisa se colocar primordialmente como um ente planejador de seu território, caso contrário, ficará sempre a margem da lógica do planejamento do Estado, que, pela experiência, entendemos que é a lógica do capital.” Arguedas (2017) acrescenta ainda que três dimensões devem estar relacionadas, quando as comunidades rurais decidem defender seus territórios: o fortalecimento da identidade comunitária; o relacionamento com os movimentos sociais; e as lutas em defesa do território.

Como se percebe, a ação do Estado e a relação deste com os movimentos sociais do campo pautam a análise da questão agrária no Brasil. Principalmente quando se trata de áreas

de uso comum, como assentamentos de reforma agrária e reservas extrativistas, por exemplo. A partir dos anos de 1990, com a criação do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF)18, o sindicalismo rural brasileiro passou a cobrar do Estado políticas públicas voltadas especificamente para sua categoria, como por exemplo, juros menores, maior apoio institucional, dentre outros (SCHNEIDER, 2003, p. 100). Mas como cita Martins (2000), há um histórico movimento de “deslegitimização” do Estado no seio do Movimento dos Sem Terra (MST).

Os problemas da ação do Estado e das empresas junto aos trabalhadores da agricultura familiar são objeto de estudo em todo o mundo. Como já mencionava Marx (1996b), a ação de controle do Estado foi de grande importância para a transformação dos pequenos agricultores em proletariado, ainda em tempos de constituição do trabalho, e no nascimento da sociedade capitalista. Atualizando este entendimento, Ferrante e Silva (1988, p. 35) citam que, em termos de antagonismos e interesses conflitantes, “[...] a política estatal frente aos trabalhadores não pode ser analisada somente da ótica das suas reivindicações, das suas necessidades, mas deve, necessariamente, ser articulada às necessidades de reprodução do capital.”

De qualquer forma, é importante citar que os movimentos sociais, em geral, se articulam e resistem. Buscam aplicar o que Certeau (1998) chama de “rede de antidisciplina”, que visa aplicar estratégias para fazer frente à toda tentativa de disciplinação por parte das empresas e dos órgãos estatais. E sobre esta busca pela articulação, Ferreira (2011) cita que

Os movimentos sociais, conectados à rede informacional, articulam, em um ambiente midiático, difuso, em tempo real, agentes dispersos no território físico, mas que estão em relação (impactam e são impactados), por uma mesma organização, área da indústria ou entidade governamental, mesmo com diferentes posições, visões de mundo, perspectivas culturais e políticas, ganham força, legitimidade e voz, em função de sua articulação, capacidade de mobilização e ramificação da própria rede. Passam a constituir uma inteligência coletiva com potencial transformador, se isolados desaparecem, mas se conectados, ganham visibilidade e força (FERREIRA, 2011, p. 53).

Ainda que exista a estratégia da articulação entre os movimentos, como citado por Ferreira (2011), há uma investida empresarial para que estas comunidades relacionem-se também com os agentes do mercado. Para Morsello (2002) a relação entre as empresas e as comunidades rurais é estabelecida segundo duas principais realidades: o crescimento da comercialização de produtos com “selos verdes”; e a ampliação da tendência de que as empresas

18 Programa governamental lançado em 1995, com o objetivo de reduzir os custos de produção, e ampliar os

multinacionais invistam mais em “ações sociais”. O objetivo é sempre a ampliação da visibilidade positiva das empresas. Elas ganham em duas frentes: na cooptação das comunidades que participam dos seus projetos; e na ampliação da inculcação destinada à população em geral, que avalia estes projetos como incentivos aos pequenos produtores locais. A maioria das parcerias entre empresas e comunidades de reservas extrativistas são voltadas para a comercialização de Produtos Florestais Não Madeireiros - PFNM (FIGUEIREDO, 2005). Dentre os resultados desta parceria, Nahum e Santos (2016), Figueiredo (2005) e Ros-Tonen et. al. (2008) destacam: alteração das relações comunitárias de convivência e de produção; potencialização da exploração dos recursos, independente do auxílio financeiro do Estado; e possibilidades de ganhos financeiros para as empresas e as comunidades. Alguns exemplos desta parceria são analisados por Anderson e Clay (2002), que trazem outra avaliação: indicam que estes podem se tornar meios para ampliação da renda nas comunidades, inclusive contanto com o apoio de instituições públicas de ensino e pesquisa.

Como citado, existem avaliações diferentes sobre este tema. Mas estas parcerias entre empresas e comunidades rurais, sejam elas assentamentos de reforma agrária ou comunidades extrativistas, são “midiatizadas” como meios para a melhoria da qualidade de vida no campo. Isto, principalmente pelos baixos investimentos realizados pelo Estado, verdadeiro responsável por estas áreas, e pelos recursos existentes nelas. Todavia, o que ocorre de fato, considerando as análises dos dois casos de relação estudados nesta tese, é uma incessante busca de assentados e quebradeiras de coco por melhores condições de vida. Seja através de investimentos públicos, ou até mesmo privados. Como cita Fernandes (2008b):

Um fator importante da territorialização do campesinato é, sem dúvida, a luta pela terra e as políticas de reforma agrária que possibilitaram a expansão dos territórios camponeses. Todavia, a expansão e o refluxo dos territórios são resultados de conjunturas econômicas e com a nova onda da agroenergia, há a tendência de expansão principalmente do território capitalista. Mas além desta tendência, o capital tem o poder de se territorializar mais rápido que o campesinato por causa das desigualdades geradas pelo modo de produção capitalista, que expropria o campesinato de seus territórios. A territorialização do campesinato ocorre predominantemente por meio da luta popular e de políticas públicas. (FERNANDES, 2008b, p. 296).

A luta, seja ela política, organizacional, ou simbólica, demonstra a capacidade das comunidades rurais na busca pela ampliação do seu poder de decisão, o que influi nos seus cotidianos. Buscam, acima de tudo, ampliar seu poder decisório, mas também sua capacidade de estabelecer seu legítimo poder sobre os seus territórios. A estratégia de ampliação do poder do movimento camponês, historicamente, tem uma vertente pautada na ocupação espacial,

principalmente de babaçuais, seringais, castanhais, e outras expressões extrativistas destes movimentos (ALMEIDA, 2004b). Oliveira (1991) cita que o próprio MST tem como estratégias, tanto o processo de ocupação de áreas, que é a espacialização, quanto o estabelecimento do poder comunitário. Como destaca Shiraishi Neto (2011), as lutas cotidianas podem influenciar nas estratégias destes grupos de trabalhadores de diversas formas, dentre elas citam-se:

Os deslocamentos das ações e estratégias para o plano jurídico local, especificamente para o da elaboração e proposição de leis vêm servindo para reconhecer a existência social dos grupos sociais e, sobretudo legitimar as suas ações. Trata-se de promover a passagem de uma situação de “invisibilidade” para a de “visibilidade” jurídica, pois o direito somente protege os visíveis. Contudo, esse processo é pouco refletido, em função dos resultados positivos até aqui alcançados. Os grupos sociais vêm apostando suas lutas nesse processo que, sem dúvida, contribui com a construção de suas identidades. A elaboração e proposição dos dispositivos legais auxiliam no reforço e atualização dos laços sociais. Os indivíduos passam a se identificar enquanto membro do grupo. (SHIRAISHI NETO, 2011, p. 35).

Sobre a luta pela posse da terra, especificamente a dos sem-terra, Fernandes (2000) a caracteriza como uma luta por terra e o trabalho, em contrapartida da posse para a exploração, que integra o cotidiano dos grandes latifúndios. Ao tratar do processo de resistência dos movimentos sociais do campo, Almeida (2004a, p. 10) cita que, “[...] funciona como fator de identificação, defesa e força. Laços solidários e de ajuda mútua informam um conjunto de regras firmadas sobre uma base física considerada comum, essencial e inalienável [...]”.

Apesar das dificuldades, e de serem evidenciados os exemplos de derrotas comunitárias, há casos em que se observam vitórias, e elas devem ser consideradas, pois “[...] muitas sociedades rurais estão reivindicando com sucesso seus próprios espaços, territorial e/ou político, onde eles estão procurando construir suas próprias alternativas ao ataque violento da globalização.” (BARKIN, 2004, p. 281, tradução nossa). E Tavares, L. (2008) demonstra que a luta dos movimentos camponeses em defesa do seu território, pode ser realizada através do estabelecimento de redes de enfrentamento das ofensivas empresariais.

Como Lopes (2012) destaca, a organização dos agentes sociais é de grande relevância para que as comunidades apliquem suas estratégias de resistência contra a dominação empresarial. Almeida (2003) destaca que, mesmo com as constantes investidas das empresas agroindustriais, os movimentos de defesa da agricultura familiar conseguem estimular resistências que logram êxitos nos processos de estabelecimento do poder camponês em seus territórios. Como exemplo destas possibilidades, Batista (2014) cita o caso da Via Campesina que se tornou uma das principais organizações na luta contra a hegemonia das grandes

corporações no campo. E ao tratar dos movimentos sociais camponeses, e suas buscas pela manutenção do poder sobre seus territórios, Marques (2008) cita que

Há um processo de recriação e territorialização camponesa em curso que corta o território brasileiro e lhe impõe novos conteúdos, decorrentes das novas maneiras como se organizam e se autodefinem os diferentes grupos. Os movimentos sociais acima mencionados objetivam sujeitos em existência coletiva, que apresentam territorialidades específicas e desenvolvem um conjunto de práticas organizativas que traduzem transformações políticas profundas na capacidade de mobilização destes grupos em face do poder do Estado. São estruturadas redes de organizações, contrapondo-se à fragmentação e dispersão que marcam o período inicial dessas lutas, podendo uma mesma entidade estar vinculada a mais de uma rede. (MARQUES, 2008, p. 64).

No caso do MST, segundo Fernandes (1998), o processo de resistência é pautado na luta pela posse da terra. Cita-se os estudos realizados por Alves, Silveira e Ferreira (2007) que destacam a luta de famílias agricultoras contra a hegemonia do latifúndio e da monocultura; bem como os casos citados por Martins e Cleps Júnior (2012), que tratam das mudanças ocorridas e das lutas cotidianas com a retirada de comunidades rurais para assentamentos, devido à formação de uma Unidade de Conservação no estado de Minas Gerais.

Para Brito e Almeida (2017), a luta pelo fortalecimento identitário das quebradeiras de coco, compreende o cotidiano destas trabalhadoras; além da constante luta com o Estado, que são fundamentadas “[...] pela garantia de direitos sociais, econômicos e ambientais, como forma de preservar suas identidades coletivas.” (NOVAES; ARAÚJO, 2016, p. 185). Barbosa, V. (2013) e Lopes (2007) destacam o MIQCB19 como um exemplo de luta pelo fortalecimento das suas identidades e das suas resistências, bem como na busca pela defesa dos seus territórios de vivência e de trabalho, citando que:

O MIQCB foi fundado em consonância com as experiências de mulheres dos estados do Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins, de localidades muitas vezes geográfica e culturalmente descontínuas. Fruto de conjuntura sociopolíticas e econômicas da segunda metade do século XX, o movimento de quebradeiras de coco se gestou no período em que o sindicalismo tradicional havia cedido espaço ao novo sindicalismo, em que a agricultura familiar se tornava objeto de novas políticas desenvolvimentistas e a política das identidades, tanto quanto a identidade na política, apresentava-se mais múltipla e acentuadamente. (BARBOSA V., 2013, p. 192).

19 Maiores informações sobre o MIQCB, da atual relação das quebradeiras de coco da Ciriáco, e das estratégias

Inserido em relações de conflitos sociais, de forma ambivalente, esse movimento empreende “exercícios pedagógicos” de formação política que têm por características a articulação das diferenças econômicas das localidades em torno de uma identidade em construção, orientada para garantir o controle das áreas de babaçuais e da produção de seus derivados, como estratégia para conquistar melhores condições de vida e de trabalho. Nesse sentido, o MIQCB tem realizado encontros interestaduais das quebradeiras de coco, anualmente, onde se discutem e planejam as ativi.dades das coletividades, assim como do próprio Movimento. Em tais encontros, evidenciam-se estratégias de enfrentamento de conflitos cotidianos e estruturais, dialogicamente refletidas, fazendo com que a estrutura do Movimento harmonize as decisões de base com uma organização que também é construída e toma forma na medida em que cresce o Movimento. (LOPES, 2007, p. 22-23).

Em relação ao caso específico da mineradora Vale, Santos e Milanez (2015, p. 762) destacam que as comunidades rurais prejudicadas pela DEFC, mas apoiadas por diversos movimentos sociais, pressionam a empresa através da “[...] disrupção de atividades operacionais [...]”. De acordo com dados disponibilizados por Almeida (2015), foram realizadas três grandes manifestações em 2012, seis em 2013 e quinze em 2014. Todas destacando os problemas socioambientais relacionados com a DEFC. Para Hanna et al. (2015):

Protest is thus a legitimate and necessary way for communities to seek redress for the issues being ignored by decision-makers. In such mobilization processes, social capital and collective identity is built, and communities ultimately enhance their collective wellbeing by ensuring improvements in the assessment of impacts, the distribution of benefits, and the implementation of mitigation and enhancement measures. (HANNA et al., 2015, p. 22).20

Ainda que se desenvolvam capacidades das comunidades realizarem estratégias de enfrentamento às investidas empresariais, Almeida (2004b) destaca que o processo de dominação corporativo, causa a perda das “territorialidades de referência” das comunidades, principalmente rurais. Mas uma alternativa que cresce nos debates dos movimentos sociais é a estruturação de resistências em rede, utilizando-se dos meios digitais para ampliar, tanto a visibilidade das ações, quanto os agentes participantes, sejam eles individuais ou organizações (CASTELLS, 2013). Sant’Ana Junior (2016) acrescenta que:

A luta por manter o controle do território por parte de comunidades tradicionais é também a luta para não permitir que o avanço do desenvolvimento funcione como rolo compressor, relegando seus moradores para processos de periferização e, portanto, de ampliação da miséria. A manutenção dos territórios significa a manutenção da dignidade e o combate à ampliação de injustiças sociais e ambientais.