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Revisão bibliográfica

4 O CONCEITO DE CAMINHABILIDADE

4.1 AS VANTAGENS DA CAMINHABILIDADE

O campo de estudo da psicologia ambiental sugere que a qualidade do meio físico afeta diretamente o comportamento humano, através das nossas experiências e percepções de cada lugar. Assim, o planejamento urbano deve levar em consideração as percepções humanas com relação ao espaço habitado. “O objetivo de qualquer área de planejamento

é permitir que as pessoas alcancem um nível de qualidade de vida tão alto quanto possível” (Churchman, 2002). Nossas cidades carecem de dimensão humana. E o alcance dessa dimensão humana começa quando se coloca o pedestre como prioridade.

Praticamente todo deslocamento urbano envolve o andar a pé, e portanto demanda a existência de espaços para o pedestre em alguma parte do percurso. Dificilmente um único meio de transporte garante a realização da viagem toda e geralmente o último trecho é percorrido a pé. Nesse sentido, é possível estabelecer que os espaços do pedestre são parte de um modal de transporte tão importante quanto os demais. O transporte urbano só funciona de verdade quando todos os elementos funcionam harmonicamente. Ora, se o ônibus transporta um usuário até determinado ponto, mas não há calçada adequada que o permita continuar seu deslocamento – lembrando que a viagem ainda não acabou! – há aí uma falha na infraestrutura de mobilidade. Garantir calçadas e passeios confortáveis e seguros também é um investimento em transporte. A ausência de calçadas adequadas, especialmente em zonas residenciais, pode desestimular a utilização do transporte público. Calçadas sem pavimentação e mal iluminadas aumentam a chance de que o usuário opte cada vez mais pelo transporte individual.

Os benefícios dos ambientes propícios à caminhada são imensamente subvalorizados. Isso se dá principalmente por se assumir que “o pedestre consegue se virar”, considerando que é possível, para a maior parte das pessoas, caminhar pelo asfalto ou sobre o piso 'ao natural' em áreas desprovidas de calçadas ou de caminhos adequados ao pedestre. Os espaços públicos urbanos de qualidade e planejados para o pedestre são mais do que lugares visualmente interessantes na cidade. São espaços que atraem as pessoas, estimulam o uso e melhoram a qualidade de vida da população. Uma boa calçada, por exemplo, permite um caminhar confortável e agradável, ao mesmo tempo que comporta outros usos, como o descanso, os encontros, a apreciação da paisagem...

Como se nota, são vários os benefícios e vantagens dos espaços caminháveis. Além da criação de lugares mais agradáveis, seguros e confortáveis ao pedestre, do incentivo à apropriação do espaço, da promoção da vivacidade, da diversidade e da

equidade no meio urbano, e é claro, da garantia do direito à cidade e à mobilidade urbana, é possível identificar benefícios em outras dimensões. Vamos explorar aqui os aspectos relacionados à saúde, à economia e à sustentabilidade, por se tratarem possivelmente dos benefícios de maior impacto, ou talvez de maior visibilidade.

4.1.1 Saúde

Caminhar é provavelmente a atividade física aeróbica mais comumente praticada pelas pessoas, já que não requer grandes investimentos e é facilmente acessível a todas a pessoas. Ao mesmo tempo, a inatividade física é o quarto maior fator de risco para mortalidade no mundo (WHO, 2009). O baixo grau de atividade física pode ser associado ao aumento do número de automóveis, ausência de infraestrutura para o pedestre, falta de espaços de recreação e tráfego de alta densidade (Arup, 2016). Além do impacto à saúde física, o uso de carro também conduz a um menor grau de interações sociais, mais estresse e horas produtivas de trabalho e lazer perdidas nos congestionamentos (Veras

et al., 2017).

Gehl (2013) relata o alastramento dos problemas de saúde relacionados a um estilo de vida auto-dependente a diversos outros países, da Austrália ao Canadá, com consequências nos gastos com a saúde e na diminuição na expectativa de vida das populações. Bairros compactos e diversificados em uso, essência do ideal de caminhabilidade, estimulam a prática dessa atividade (Berke et al, 2007), bem como a locomoção a pé, refletindo em uma redução no uso de automóveis e melhoria na qualidade do ar. Nesse sentido, o estímulo à produção de espaços na cidade voltados para o pedestre faz todo o sentido em termos de saúde pública. Estudo recente na área de saúde ambiental encontrou evidências entre o nível de caminhabilidade de uma região e a pressão arterial dos seus moradores. Os pesquisadores descobriram que quanto maior o grau de caminhabilidade, menores eram os resultados de pressão sanguínea e de risco de hipertensão, independente de quaisquer outros fatores (Sarkar

Curiosamente, a importância dos ambientes que propiciam a caminhada começa a ganhar destaque na área da saúde, a partir da publicação do livro Urban

Sprawl and Public Health (Frumkin et al, 2004), que relaciona os efeitos do

espalhamento urbano à epidemia de obesidade nos Estados Unidos, especialmente devido à inatividade induzida pela conveniência do uso do automóvel, as altas velocidades nas vias, e a poluição causada pelos veículos. Até então, os principais argumentos para a construção de cidades caminháveis eram sociais e estéticos (Speck, 2013).

Os benefícios vão além da saúde física. Há tempos já é conhecido que a qualidade do ambiente urbano e as interações sociais promovidas por ele têm grande impacto na saúde mental da população (House et al, 1988; Halpern, 1995). Estudos mostraram que quem caminha mais de 8,6 minutos por dia têm 33% mais chance de apresentar melhor saúde mental (Sinnett et al, 2011). Certos lugares criam proximidades entre os usuários, incentivando a criação de laços sociais, promovendo a formação de uma identidade de lugar e a sensação de pertencimento e de comunidade, além do desenvolvimento do que se chama de capital social, a formação de redes de confiança, reciprocidade e valores comuns (Sullivan, 2011).

Nesse sentido, fica clara a necessidade de desenvolvimento de políticas públicas de saúde vinculadas às políticas urbanas, buscando uma melhor qualidade de vida nas cidades. O investimento em ambientes caminháveis leva a um estilo de vida mais saudável, conduzindo a um aumento da nossa resiliência aos riscos à saúde e pode reduzir o número de pessoas afetadas por doenças crônicas (Arup, 2016).

4.1.2 Economia

Uma das faces normalmente ignorada dos espaços caminháveis é o benefício econômico. O estudo desenvolvido por Todd Litman, Economic Value of Walkability (Litman, 2004), descreve os benefícios econômicos da caminhada enquanto atividade, e da caminhabilidade enquanto qualidade de um determinado lugar. Litman argumenta suas ideais a partir dos impactos econômicos relacionados à caminhabilidade.

Alguns desses impactos são os custos ao consumidor (relacionando o grau em que a opção pelo caminhar traz de economia em custos com o transporte), economia de gastos públicos (em que verifica a redução dos impactos negativos relacionados ao transporte motorizado, como poluição e mortes no trânsito), eficiência no uso da terra (onde avalia a medida em que o caminhar ajuda a reduzir a necessidade de utilização dos espaços urbanos para criação de ruas, avenidas e locais de estacionamento), desenvolvimento econômico (no sentido em que a caminhabilidade torna áreas comerciais mais atrativas, revertendo em maior atividade econômica local e geração de empregos) e equidade (distribuição dos recursos públicos de forma a atingir uma maior parcela da população, e não apenas os proprietários de veículos).

É claro, o desenvolvimento econômico da região também se beneficia quando o espaço público não é negligenciado. Além da valorização dos imóveis, diversas cidades reportaram melhoras no comércio de áreas onde foram implantados projetos de renovação urbana que incluíram pedestres e ciclistas no desenho urbano.

Como já mencionamos, nos EUA o walk score é uma ferramenta que passou a ser bastante utilizada pelo mercado imobiliário para categorizar as localidades de acordo com o grau de caminhabilidade e de dependência do automóvel. Isso reflete uma procura cada vez maior por moradia em locais amigáveis à caminhada, especialmente pelas gerações mais novas, atraídas pelas facilidades de se morar nos centros das cidades e próximas ao transporte público (Speck, 2013).

O contrário também é verdadeiro. O espalhamento urbano gera um custo alto aos trabalhadores que precisam se deslocar diariamente entre a casa e o trabalho, somando os gastos com o transporte e combustível, e também as horas perdidas no trânsito. Por outro lado, a construção de espaços caminháveis requer baixos investimentos e equipamentos de tecnologia simples, diminuindo custos de manutenção, ao contrário da infraestrutura viária, que requer manutenção constante para garantir a segurança e a eficiência das vias (Arup, 2016). Indiretamente, ao propiciar melhores condições de saúde aos cidadãos, os custos ao sistema de saúde também diminuem.

Diversas cidades já descobriram os benefícios econômicos da caminhabilidade. A implantação do Plano de Ação de Transporte de Londres levou em conta estudos que demonstram que os ganhos econômicos do incentivo ao transporte não motorizado (TNM) ultrapassam em larga escala os custos de eventuais ônus causados pela exposição a poluição ou ao risco de acidentes, por exemplo (Transport for London, 2014). A administração da cidade de Nova York, por exemplo, ao transformar uma área de estacionamento subutilizada na região do Brooklyn em uma praça de pedestres, observou um aumento de 172% nas vendas no comércio do entorno (Living Streets, 2014). O segredo está no fato de que os ambientes urbanos caminháveis atraem mais pedestres, potenciais compradores do comércio presente nessas áreas, incentivando a economia local.

Litman (2004) conclui que são necessárias análises mais detalhadas do custo-benefício das políticas de incentivo ao TNM, que considerem o todos os impactos econômicos, incluindo impactos indiretos, justificando assim a alocação de mais recursos aos projetos relacionados à caminhabilidade.

4.1.3 Sustentabilidade

Caminhabilidade e sustentabilidade urbana andam lado a lado. O conceito de sustentabilidade aplicado à escala urbana abrange questões ambientais, como o consumo de energia e emissões dos edifícios, atividade industrial, transportes, responsáveis por boa parte da poluição urbana, até questões sociais, quando se pensa na dimensão democrática, na acessibilidade, e na igualdade de direitos (Gehl, 2013).

Andar a pé é um meio de transporte altamente sustentável. Ambientalmente falando, bairros caminháveis, por apresentarem maior densidade, compacidade, e diversidade de usos, garante uma otimização dos recursos e das infraestruturas urbanas. A maior utilização dos TNMs nesses lugares também significa uma redução nas emissões de poluentes. No lado social, o investimento nos transportes coletivos e não motorizados ajuda a alcançar equidade social, pois garante o acesso e o uso dos espaços urbanos a uma parcela maior da população, além de melhorar a eficiência nos

deslocamentos urbanos. Outros benefícios ambientais incluem a melhora do microclima urbano, redução da poluição sonora, maior área de superfícies permeáveis, além do potencial embelezamento dos espaços urbanos (Arup, 2016).

O DOT, já mencionado anteriormente, é um bom exemplo de como o planejamento pensado para as pessoas pode se traduzir em vantagens sociais, ambientais e também econômicas. Esse tipo de desenvolvimento busca maximizar o acesso ao sistema de transportes públicos através do adensamento de média e alta capacidade nas áreas localizadas a distâncias caminháveis dos nós do sistema, como terminais e estações. "O incentivo ao DOT se alinha a uma preocupação mais ampla no que diz respeito a estilos de vida e um futuro sustentáveis, bem como uma preocupação com a injustiça social e questões de equidade, já que o DOT permite que jovens, velhos, pobres e portadores de deficiência acessem serviços onde estes se situam próximos uns dos outros e são servidos por um transporte público eficiente” (Curtis et al., 2009).

4.2 QUALIDADES (OU ESTRATÉGIAS) DE DESENHO URBANO RELACIONADAS À