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FOTO 27 – FÁBRICA REFRIGERANTES COROA EM 2002

4. A TRAJETÓRIA DA FAMÍLIA KAUTSKY

4.1. OS PRIMEIROS ANOS NO BRASIL

4.1.2. Aspectos importantes da comunidade de Domingos Martins

Antes de iniciar a descrição de uma nova fase da família Kautsky é importante explicar alguns aspectos sobre o município de Domingos Martins, anteriormente conhecido por Campinho, onde está instalada a Refrigerantes Coroa. O município possui uma área de aproximadamente 1.231Km2 e fica há menos de 42 Km de distância de Vitória, capital do Estado do Espírito Santo. O seu principal acesso se dá através da Rodovia BR262, que liga a capital Vitória a Belo Horizonte/MG.

Com essa descrição se espera contribuir para compreensão das mudanças nos negócios da família Kautsky que são diretamente influenciados pela dinâmica econômica e social local. A dinâmica nacional também é um fator importante, contudo, na época a criação da empresa, as informações sobre os acontecimentos nacionais eram muito dispersas e longe de serem compreendidas pelos colonos para qualquer tomada de decisão. Esse aspecto fica claro quando, em plena crise do café, o pai do senhor Roberto investe todos o seus recursos na compra do café e perde tudo por causa da crise de 1930. Além disso, por um período longo os colonos permaneceram isolados na região, por causa da animosidade dos colonos açorianos de Viana que não comercializavam com os colonos de Campinho e da ausência de uma boa estrada que ligasse a capital à colônia.

O município de Domingos Martins foi colonizado em 1847, por imigrantes alemães. Esses colonos emigraram da Região do Hunsrück/Alemanha, no Navio “Philomena”, em 20 de outubro de 1846, e chegaram em Vitória em janeiro de 1847 (DON PE. DOLD, 1896). Roberto Anselmo Kautsky também é descendente desses primeiros alemães que aqui se estabeleceram. Os pais de sua mãe Elisabeth Schwambach Kautsky - Augusto Schwambach e Catharina Faller Schwambach - eram filhos desses imigrantes. Posteriormente, juntaram-se a esses imigrantes, pomeranos, holandeses, austríacos, italianos, suíços, dentre outros.

Nas primeiras décadas, os imigrantes sobreviveram às custas de uma agricultura de subsistência. Cultivaram variados produtos (milho, tubérculos, mandioca, feijão, etc) através da mão-de-obra familiar e agregados e ainda socorriam os vizinhos nas suas necessidades.No início século XX a sua população era distribuída irregularmente em pequenas propriedades familiares rurais, distantes umas das outras, somente ligadas por “estradas de chão” (picadas), o que dificultava a movimentação e o comércio na localidade.

A história registrada por Wagemann (1949) mostra que o início da colonização em nada foi fácil: promessas do governo brasileiro não cumpridas, doenças, fome, abandono/isolamento, para citar apenas algumas das dificuldades. Nesse isolamento cada qual estava fadado a se virar sozinho (WEBER, 1998). Mas, como a viagem havia sido feita sem condições de retorno, foi preciso submeter-se às restrições dadas e procurar melhorá-las aos poucos.

Nesse contexto, as principais preocupações dos imigrantes alemães, após sua instalação na localidade foram a educação e instrução de seus filhos na religião, pois davam grande valor a uma sólida formação moral e cristã (RICHTER, 1994). Assim, a religião assumiu um papel decisivo na comunidade, marcando presença e auxiliando na medida do possível, principalmente no que tange a essas preocupações (FOTO 04).

A estrutura familiar do imigrante estava centrada no sistema patriarcal, nuclear, portanto, o casamento dos filhos não eliminava a unidade familiar que seguia dependendo da autoridade paterna. Os filhos, quando não continuavam morando com o pai, eram sempre bem-vindos e a mãe era a principal responsável pela educação das crianças. A vida pioneira, o isolamento, a consciência de formar um grupo à parte num país estranho contribuíram para fortalecer os laços familiares desses colonizadores. A união da família estava sedimentada, sobretudo, pelos princípios religiosos.

FOTO 03 – VISTA DA VILA DE CAMPINHO EM 1925.

Fonte: Coletânea Documentos e Fotografia – Museu Histórico de D. Martins

FOTO 04 – ESCOLA PAROQUIAL CAMPINHO (DÉCADA DE 1930).

Fonte: Coletânea Documentos e Fotografia – Museu Histórico de D. Martins

A vida social na comunidade estava “limitada aos domingos, quando todos se dirigiam à igreja, e, depois do culto, confraternizavam com os amigos e parentes” (COSTA, 1999, p. 43). Essa era uma das únicas distrações das famílias, além das festas de casamentos, aniversários e batismos (FOTO 05). Também, após essa confraternização, as famílias – esposa, marido e filhos - aproveitavam para visitar o comércio e se abastecer com mantimentos para a semana. Vale lembrar que o homem possuía mais liberdades que a mulher e freqüentemente visitava a

venda para saber dos acontecimentos, vender os seus produtos ou adquirir mantimentos, utensílios ou outros materiais.

FOTO 05 – FESTA NA ESCOLA PAROQUIAL DE SANTA ISABEL

Fonte: Coletânea Documentos e Fotografia – Museu Histórico de D. Martins

FOTO 06 – ESTAÇÃO GERMÂNIA.

Fonte: Coletânea Documentos e Fotografia – Museu Histórico de D. Martins

Assim, o crescimento da comunidade foi influenciado por tradições culturais e religiosas de origem germânica, que guiavam sua maneira de ser, sejam quando determinavam as suas amizades ou quando tratavam de seus negócios. A língua alemã foi utilizada por longos anos, isso também contribuiu para a união e o isolamento dessa população. A administração pública

tardiamente interferiu na educação da comunidade construindo escolas e contratando professores que falavam o português.

A partir do desenvolvimento de uma agricultura comercial, principalmente de café (ROCHA, 1980), e da construção de melhores vias de escoamento da produção para a capital da província, é que os imigrantes puderam comercializar a sua produção. Essa movimentação na comunidade começou a melhorar a partir de 1896, quando foi construída a ponte que ligava o vilarejo à capital e, em 1900, quando foi ampliada a estrada de ferro até a estação Germânia em Santa Isabel (FOTO 06). Isso impulsionou a comercialização do café na região e abriu caminho para passagem dos tropeiros que cortavam o vale para vender seus produtos nas Minas Gerais.

Apesar da localidade ser eminentemente rural, esses fatos impulsionaram o comércio, tornando a Vila de Santa Isabel um pólo econômico na região, onde os tropeiros descansavam, onde trocas de mercadorias eram realizadas e onde as notícias circulavam. Além disso, a sede do município permaneceu durante longos anos na colônia de Santa Isabel, sendo transferida, posteriormente em 1917 para o Distrito de Campinho - Domingos Martins. Em 1921, o presidente do Estado do Espírito Santo - Nestor Gomes, sancionou uma nova denominação para o município de Santa Isabel que passou a denominar-se Domingos Martins, em homenagem ao herói capixaba Domingos José Martins que lutou na Revolução Pernambucana em prol da independência do Brasil. Somente em 1938, a vila Campinho foi elevada à categoria de cidade.

Vale ressaltar que a venda dominava quase todo o comércio na região das colônias. “Die

Vende”, como diziam os colonos, era a casa de negócios, onde eles se proviam de todos os

bens que o sítio não lhes podia fornecer, e onde eles entregavam os seus produtos, ou seja, o café. As casas comerciais, do mesmo modo que os sítios, eram esparsas, instaladas em encruzilhadas ou caminhos de maior movimento, freqüentemente na proximidade de uma igreja ou capela (WAGEMANN, 1949).

O intercâmbio entre o vendeiro e o colono acabou assumindo aspectos de troca em espécie: em regra, não recebia pagamento à vista pela mercadoria que fornecia, mas anotava a compra em uma caderneta (conta) do colono, que saldaria o débito com o café de sua colheita. Assim, o agricultor vendia sua colheita de café anualmente e em troca fazia constantemente compras

na venda debitando do valor de seu crédito. Não raro, o vendeiro adiantava dinheiro ao freguês ou servia de intermediário em algum pagamento. Assim, tornou-se o banqueiro dos colonos.

FOTO 07 – COMÉRCIO DE OTTO KOEHLER (DÉCADA DE 1930)

Fonte: Coletânea Documentos e Fotografia – Museu Histórico de D. Martins

FOTO 08 – VILA DE CAMPINHO DÉCADA DE 50

Fonte: Coletânea Documentos e Fotografia – Museu Histórico de D. Martins

As vendas, em geral, eram empresas minúsculas. O círculo de fregueses de um negociante atingiria em média 30 famílias. Já significava muito ter 40 fregueses ou "Fregesen", como diziam os colonos, germanizando a palavra. Os negociantes menores não tinham empregados; além de darem conta de todo o trabalho da venda, exerciam certas atividades agrícolas; os

maiores tinham um a três caixeiros, o pessoal da tropa e alguns mensageiros. Por outro lado, os negociantes mais fortes organizavam seu próprio transporte, dispondo de tropas de muares que mantinham o transporte de mercadorias entre as praças, fossem elas próprias ou de outros negociantes.

Por certo, faz o colono, de vez em quando, uso amplo do direito de autodeterminação. Quando lhe dá na telha, em lugar de às 6, termina seu labor às 5 da tarde. Ou, em vez de ir para o trabalho, dirige-se à venda, onde, em virtude de uma pequena compra, permanecem várias horas. Tal só acontece raramente e essas ocorrências se limitam, em geral, aos sábados. (WAGEMANN, 1949, p. 49).

Enfim, as vendas costumavam ser o centro social de toda a vizinhança, um ponto de encontro para distração dos colonos, além de serem utilizadas como estalagem. O vendeiro convertia-se na pessoa com quem o colono se aconselhava, se desabafava, quando estava em dificuldades ou apuros.

Com a mudança da sede da colônia e a crise do café em 1930, a economia da Vila de Santa Isabel começou a declinar. Campinho, então surgiu como centro comercial e social da colônia. Os caminhões começaram timidamente a trafegar pelo distrito pouco antes da década de 20. Mas por mais de 20 anos eles conviveram com as tropas no interior. As estradas, abertas a picaretas, enxadas e pás, eram estreitas e precárias, e intransitáveis em épocas de chuvas, de sorte que, não raro, os caminhões ficavam agarrados em atoleiros, enquanto as tropas passavam firmes e destemidas, desafiando a inovação. Somente a partir do término da segundo guerra mundial, 1945, que se intensificaram a construção de estradas pelo interior do Estado e os caminhões foram avançando e as tropas se afastando, de modo que na década de 50, não mais existiam tropas com a imponência, a organização e função de escoar a produção rural para os pontos de comércio e exportação, restando apenas o uso dos muares nos serviços internos das fazendas.

Mesmo com o desenvolvimento do comércio, o colono teuto-capixaba não procurou desenvolver uma cultura industrial (ROCHE, 1968). Ele não se interessou em produzir o seu próprio vestuário ou ferramentas, nem beneficiar os gêneros alimentícios cultivados. Raras são as exceções, dentre elas, o empreendedorismo de Roberto Carlos Kautsky, fundador da fábrica de vinhos e futura Refrigerantes Coroa.

Atualmente, a divisão político-administrativa de Domingos Martins está distribuída em cinco distritos: Sede, Santa Izabel, Parajú, Aracê e Melgaço. De acordo com o senso IBGE de 2000, o município contém 30.559 habitantes, dos quais 5.820 são urbanos (principalmente na sede). O seu clima é tropical de altitude (máxima de 28oC e mínima de 8oC, sendo a média 18oC) e o relevo acidentado, montanhoso, fazendo parte da região denominada centro-serrana do Espírito Santo. A altitude predominante varia de 500 a 1.000m. A sede tem 542m. Nos vales do município correm diversos rios e córregos, sendo os principais o rio Jucú Braço Norte e o rio Jucú Braço Sul, que são formadores do rio Jucú. No final do rio Jucú Braço Sul está instalada uma usina hidrelétrica com potencial de 2.240KW.

O município permanece eminentemente rural, destacando-se a produção agrícola de café, banana e hortifrutigranjeiros. Nos vilarejos e mesmo na sede é possível observar a presença de elementos tipicamente rurais. Há algumas empresas, como a indústria de Refrigerantes Coroa, Água Ingá, e vários hotéis e restaurantes. Nas duas últimas décadas vem crescendo o número de empreendimentos menores, visando atender à demanda de turistas. Destaca-se a confecção artesanal de souveniers, objetos (bordados, crochês, pinturas, peças decorativas, etc) e alimentos (vinhos, licores, doces cristalizados, biscoitos, etc). As propriedades rurais, com suas comidas típicas, paisagens e peculiar modo de vida, são opções do crescente turismo rural e agroturismo. Muitas fazendas têm alojamento e proporcionam ao turista a participação em atividades rurais, passeios por trilhas na Mata Atlântica, banhos de cachoeira e muita emoção nas corredeiras do Rio Jucú. A beleza natural, o clima, a proximidade da capital, o fácil acesso e o povo hospitaleiro, são fatores que influenciam positivamente esse tipo de iniciativa.