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3 O QUE É AYAHUASCA?

3.5 ASPECTOS LEGAIS DA BEBIDA AYAHUASCA

Desde tempos pré-colombianos o chá Ayahuasca está presente em rituais de sociedades autóctones. Além dos grupos indígenas, as três principais tradições ayahuasqueiras brasileiras Santo Daime, Barquinha e União do Vegetal fazem uso da bebida desde os anos 1930, 1945 e 1960 respectivamente. Com o advento de religiões neo-ayahuasqueiras, em centros urbanos, que possui elementos tanto das doutrinas tradicionais, como de outras religiões e a participação de culturas ameríndias que fazem o uso ritualístico do chá, têm-se levantado cada vez mais questões sobre dificuldades concernentes às políticas públicas sobre drogas e religião no Brasil. Embora questões relativas ao uso e legislação do chá Ayahuasca não estejam plenamente claras pela jurisdição brasileira veremos a seguir quais os impasses e os avanços referentes ao tratamento jurídico brasileiro dado ao uso do chá.

O principio ativo DMT do chá Ayahuasca é controlado no Brasil pela Portaria SVS/MS 344/1998 do Conselho Nacional de Drogas9 (CONAD) e, internacionalmente, pela Convenção das Nações Unidas desde 1971. A legislação brasileira não especifica quais substâncias são proibidas, deixando a cargo do setor executivo do Governo Federal. As substâncias são classificadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) desde 1999, quando ainda era denominada como Divisão Nacional de Medicamentos (DIMED).

Em 1985 o DIMED classificou o cipó Banisteropis caapi como planta proibida, através da Portaria n°2 de 1985. O Conselho Nacional de Entorpecentes, órgão antecessor ao CONAD, propôs um Grupo de Trabalho (GT) da Ayahuasca para aprofundar o tema e em 1986 ela foi temporariamente retirada da lista de plantas proibidas. Após reuniões, o GT da Ayahuasca recomendou a suspensão definitiva da proibição da B.caapi, autorizando seu uso religioso através do Relatório Final do GT da Ayahuasca de 1987. Porém, o GT nunca cogitou a exclusão da molécula DMT que permanece proibida no Brasil (LABATE, 2012). Os debates em

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O CONAD é o órgão normativo do Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (SISNAD) e suas decisões ―deverão ser cumpridas pelos órgãos e entidades da Administração Pública integrantes do Sistema‖ (arts. 3o, I, 4o, 4o, II e 7o, do Decreto no 3.696, de 21/12/2000).

torno da Ayahuasca prosseguiram e com a Resolução n°26 de 2002 do CONAD ficou proibida tanto a exportação da bebida, como o consumo para indivíduos menores de 18 anos. Na Resolução n°26, de 31 de dezembro de 2002 do Conselho Nacional Antidrogas (CONAD), ficou definido a deliberação de normas de controle social referente ao chá Ayahuasca com as seguintes atribuições:

- considerando que o uso ritualístico do ―chá ayahuasca‖ constitui-se em manifestação cultural e religiosa regional de há muito reconhecida pela sociedade brasileira;

- considerando que os responsáveis pelas diversas confissões religiosas usuárias do ―chá ayahuasca‖ estão cientes da proibição de sua comercialização, bem como das ervas que o compõem, em razão de seu alcance estritamente religioso;

- considerando que as confissões religiosas conhecem sobre a proibição da exportação do ―chá ayahuasca‖ ou do cipó Jagube/Mariri – Banisteriopsis caapi, e da folha Rainha/Chacrona – Psychotria viridis, haja vista o seu uso exclusivamente ritualístico, peculiar a uma manifestação cultural regional brasileira, e mais as restrições decorrentes da legislação brasileira e de Acordos Internacionais assinados pelo Brasil;

- considerando que os responsáveis pelos rituais religiosos são, também, responsáveis pela não administração do ―chá ayahuasca‖ aos menores de dezoito anos e às pessoas portadoras de deficiência mental;

- considerando a importância de que os usuários praticantes restrinjam o uso do ―chá ayahuasca‖ exclusivamente aos rituais religiosos, realizados no interior dos templos das seitas;

- considerando a necessidade de que as entidades religiosas exerçam, como atividade de controle próprio e de sua particular responsabilidade, sujeita às restrições da legislação vigente, a atenção sobre o cultivo, a colheita e o transporte do cipó Jagube ou Mariri – Banisteriopsis caapi e da folha Rainha ou Chacrona – Psychotria viridis; (CONAD, 2002, p.1)

Em 2004, foi criado o Grupo Multidisciplinar de Trabalho (GMT da Ayahuasca) que tinha por finalidade estabelecer parâmetros deontológicos para o uso da Ayahuasca em contexto religioso. Tais parâmetros estabeleciam regras relativas ao transporte da Ayahuasca e os grupos deveriam plantar as espécies

garantindo a sustentabilidade ecológica. Além disso, os grupos ayahuasqueiros deveriam constituir-se como entidades legais registradas junto ao CONAD.

Em 2006 o GMT entregou o Relatório Final e que, posteriormente, foi incluído na Resolução n°1, de 25 de janeiro de 2010. O Grupo Multidisciplinar de Trabalho, instituído pela Resolução nº. 5 do CONAD, em 2004, para levantamento e acompanhamento do uso religioso da Ayahuasca, bem como para a pesquisa de sua utilização terapêutica, em caráter experimental, foi oficialmente instalado pelo Ministro-Chefe do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República e Presidente do Conselho Nacional Antidrogas, Jorge Armando Félix, em 2006, e teve como objetivo final a elaboração do documento que traduzisse a deontologia do uso da Ayahuasca, como forma de prevenir seu uso inadequado.

Nos termos da referida Resolução, o GMT foi composto por seis estudiosos, indicados pelo CONAD, nas áreas que atenderam, dentre outros, os seguintes aspectos: antropológico (representado pelo Dr. Edward John Baptista das Neves MacRae), farmacológico/bioquímico (Dr. Isac Germano Karniol), social [Drª Roberta Salazar Uchoa], psiquiátrico [Dr. Dartiu Xavier da Silveira Filho] e jurídico [Drª Ester Kosovski] e seis membros, convidados pelo CONAD, representantes dos grupos religiosos que fazem uso da Ayahuasca.

Com isso, foi instaurado um conjunto de regras, normas, princípios éticos a serem seguidos e a proibição da comercialização, do turismo, da publicidade e do uso do chá associado a outros tipos de substâncias ilícitas. Com a Resolução de 2010, a preparação, o armazenamento e o consumo do chá ficaram permitidos para o uso restrito em rituais religiosos. A Resolução também incentivou as pesquisas cientificas sobre os potenciais terapêuticos do uso da Ayahuasca.

Assim como os EUA, o Brasil é signatário da Convenção das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas (CPS) de 1971, que relaciona a molécula DMT como substância de controle nível I:

De acordo com a CPS (Art. 32[4]), os países signatários podem isentar do controle ―plantas que crescem espontaneamente e contém substâncias psicotrópicas, incluídas no Nível I e que são tradicionalmente usadas por

grupos pequenos e claramente demarcadas, em ritos mágicos ou religiosos.‖ Alguns poucos países recorreram a essa provisão – Bangladesh (não especificado), Canada (peiote), México (não especificado), Peru (San Pedro e ayahuasca), e os EUA (peiote) – mas o Brasil não estava entre eles (CPS, Declarations & Reservations) (LABATE, p.7, 2012).

Quando a Convenção das Nações Unidas entrou em vigor em 1976, os grupos religiosos ayahuasqueiros no Brasil encontravam-se isolados na floresta amazônica e não havia preocupação nacional relativa a esses grupos. O interesse por tais religiões começa a se expandir pelo Brasil a partir da década de 1980 com a exposição na mídia brasileira das doutrinas ayahuasqueiras. Com o advento da Constituição Federal de 1988 destacou-se os princípios de liberdade religiosa e de proteção do Estado às manifestações culturais, populares indígenas e afro-brasileiras, respaldando as manifestações religiosas tradicionais amazonenses.

[...] quando uma prática pouco conhecida e geograficamente circunscrita à região norte do Brasil insere-se em novas dinâmicas, adquirindo um novo status e visibilidade crescente, sobretudo a partir do posicionamento de novos agentes no debate – foi fundamental para a consolidação da concepção do uso da ayahuasca enquanto manifestação religiosa ligada a uma tradição cultural amazônica de longa duração. (ANTUNES, p.9, 2012)

Segundo Labate (2012), a CPS de 1971 traz algumas dúvidas a respeito da regulamentação da bebida Ayahuasca. A CPS considera a DMT como substância controlada, porém não proíbe explicitamente a Psycotria Viridis, planta que possui a molécula e faz parte da fórmula Ayahuasca. A dúvida está na provisão que afirma que ―uma preparação está sujeita as mesmas medidas de controle que as substancias psicotrópicas nela contidas‖ CPS (1971, Art. 1[f]). O caso levanta dúvidas a respeito se a Ayahuasca está coberta pela CPS, já que é uma bebida composta por duas plantas. A dúvida permaneceu até 1988 quando foi adotada a UN Convention Against Illicit Traffic in Narcotics Drugs and Psychotropic Substances:

Segundo o Comentário a essa Convenção, uma ―preparação‖ de substâncias psicotrópicas deveria ser compreendida como ―a mistura de uma dada

quantidade de uma droga com uma ou mais substância diferentes‖. (LABATE, p.8, 2012)

Embora não haja um consenso referente à CPS internacional sobre a regulamentação da Ayahuasca, a interpretação individual de cada nação é importante para que cada signatário possa implementar políticas nacionais mais restritivas ao controle do consumo da bebida. Cada país pode interpretar a CPS de modo diferente e formular leis mais estritas, mas questões relativas à importação e exportação da bebida, por exemplo, continuam a tingir o debate sobre a regulamentação e expansão do uso da Ayahuasca. Esse aspecto é frágil na Resolução de 2010 que não fornecem diretrizes a respeito (LABATE, 2012).

Embora a questão da segurança não tenha predominado durante a preparação da Resolução do CONAD de 2010, vários aspectos indicam que considerações de saúde e segurança são elementos importantes no debate no Brasil: a proibição do uso de ayahuasca por menores de 18 anos, que vigorava numa resolução anterior atualmente extinta, o debate ainda em aberto sobre o uso de ayahuasca por gestantes (Labate, 2011b), e o estimulo ao aprofundamento da pesquisa cientifica recomendado pela Resolução atual são alguns desses aspectos. Embora tenham surgido novas pesquisas cientificas sobre as consequências da ayahuasca sobre a saúde (Labate & Cavnar, 2010; Labate et al., 2009), preocupações com a segurança permanecem indubitavelmente um ponto de controvérsia e preocupação na esfera internacional. (LABATE, p.23, 2012)

No Brasil, o consumo do chá Ayahuasca é permitido em contexto religioso. Embora não haja definição do que é religião na Constituição Federal ou em qualquer outro estatuto legal, a liberdade de crença e de culto está protegida de modo geral pela Constituição de 1988, Arts 1°, III, 5°, VI. Apesar da ausência de definição constitucional sobre o que é religião, o governo federal reconheceu o uso sacramental da Ayahuasca com a Resolução de n°5 do CONAD em 2006 e a Resolução n°1 de 2010 apoiou-se nesse processo.

Apesar da colaboração do governo brasileiro, questões sobre autenticidade religiosa e legitimidade tradicional permanecem como fonte de controvérsia entre os grupos ayahuasqueiros. Devido a cada instituição e doutrina

atribuir uma visão de mundo diferente com relação ao chá e sua relação cosmogônica. Além do que, certas doutrinas levantam em questão da legitimidade de outros grupos ayahuasqueiros. Como por exemplo, o caso da Doutrina do Santo Daime em que há uma cisão entre a instituição liderada por Madrinha Peregrina e a deixada por Padrinho Sebastião, em que a primeira considera a segunda ilegitima. Nesse sentido, a indefinição sobre o conceito de religião na Constituição Federal pode excluir modalidades como o xamanismo ayahuasqueiro por não representar o modelo ocidental de religiosidade (LABATE, 2012).

Em abril de 2008, representantes das três principais doutrinas ayahuasqueiras tradicionais (Barquinha, Santo Daime e União do Vegetal), com apoio de autoridades das Fundações Culturais do Acre e do município do Rio Branco encaminharam o pedido de patrimonialização da bebida Ayahuasca em rituais religiosos ao ministro da cultura da época, Gilberto Gil, e ao Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN), para que a bebida se tornasse um bem cultural imaterial brasileiro. No mesmo ano, no Peru, o uso tradicional da Ayahuasca tornou-se patrimônio cultural da nação por comunidades nativas. Em 2006, o Centro de Iluminação Cristã Luz Universal (Santo Daime – CICLU) de Alto Santo foi tombado por decretos simultâneos do governador e do prefeito como patrimônio histórico cultural do Acre e de Rio Branco.

O poder político local reconheceu a relevância histórica e cultural dessa instituição para a formação da Doutrina do Santo Daime e da sociedade acreana. Um ano antes, em 2005, foi criada a primeira Área de Proteção Ambiental (APA) do Acre na Vila Irineu Serra, chamada de Área de Proteção Ambiental Raimundo Irineu Serra (APARIS). Essas realizações comprovam que tanto o Governo do Estado do Acre, como a Prefeitura do Rio Branco tem realizado esforços para desenvolver ações de caráter prioritariamente cultural e ambiental para reconhecimento e valorização das comunidades ayahuasqueiras. A solicitação do pedido de patrimonialização da Ayahuasca, que é um reflexo dessas políticas de valorização da cultura ayahuasqueira iniciada há alguns anos pelo estado do Acre, causou impacto junto à imprensa e a opinião pública brasileira. O processo já nasce sob o estigma da polêmica e sofre fortes reações e resistências durante o andamento do processo, além dos entraves burocráticos.

Em reunião realizada em 26/11/2008, a Câmara do Patrimônio Imaterial recusou o registro da Ayahuasca como patrimônio cultural do Brasil sob a alegação de que o pedido não representaria elementos suficientes para a identificação do objeto do Registro em relação às categorias e critérios estabelecidos pelo Decreto 3551/2000. Segundo a ata da reunião, ―comidas, bebidas, assim como crenças, filosofias e teologias, não constituem em si bens culturais passíveis de Registro, mas sim, referências para a produção e reprodução de processos, representações e práticas culturais‖. (SANTOS, p.3, 2010)

Como parte desse movimento de discussão sobre o uso contemporâneo do chá Ayahuasca ocorreu a II World Ayahuasca Conference 2016 foi realizada na cidade de Rio Branco (Acre), entre os dias 17 e 22 de outubro de 2016, tendo como principal promotor a ICEERS Foundation. Esta Conferência reuniu pesquisadores, estudantes, religiosos, representantes governamentais e lideranças indígenas, interessados nos usos contemporâneos da Ayahuasca. Esta substância psicoativa tem sido utilizada em rituais religiosos no Brasil (aqui legalmente aceita) e em outros países, suscitando um variado número de interesses, sejam científicos, religiosos, tradicionais e jurídicos. O evento reuniu temas diversos, associados diretamente à Ayahuasca, tais como: tradições e saberes indígenas, psicologia e saúde pública, uso terapêutico, religiões, shamanismo, patrimônio, sustentabilidade, aspectos jurídicos, dentre outros.

Representantes dos povos indígenas da região amazônica estiveram presentes, tais como os Yawanawá, Jaminawa, Kaxinawa, Kuntanawa, Ashaninka, dentre outros. Eles confirmaram o uso tradicional das plantas sagradas, a luta pela terra, a importância da espiritualidade, a resistência dos povos indígenas, a reverência à floresta, dentre outros temas. Sua presença foi relevante, pois, no processo de patrimonialização da Ayahuasca, iniciado em 2008, eles não assinaram a solicitação formal, tendo sido feito apenas pelos representantes das três linhagens religiosas, isto é, UDV, Santo Daime de Mestre Raimundo Irineu e a Casa de Mestre Daniel Pereira de Matos.

O evento trouxe experiências terapêuticas não religiosas que vem sendo praticadas mediante o uso da Ayahuasca. Uma das entidades é a Associação Beneficente Caminho de Luz, cujo trabalho teve início em 1994, sendo entidade filantrópica no Acre, atuando na recuperação e reinserção social de pessoas acometidas pelo uso abusivo de álcool e outras drogas10. Outra instituição é o Centro de Reabilitação Emocional e Espiritual Vida Livre (CDI Luz do Vegetal), localizado em São Paulo, sendo uma entidade voltada para recuperação de pessoas com transtornos emocionais e problemas de dependência de substâncias químicas, em que várias técnicas são utilizadas, entre elas o uso da Ayahuasca11.

No debate sobre a patrimonialização da Ayahuasca foi questionado o longo período para a conclusão do processo, iniciado em 2008. O Sr. Deyvesson Israel Alves Gusmão, representante do IPHAN (Departamento de Patrimônio Imaterial), explicou que a demora se deve ao importante fato de que os povos indígenas usuários da Ayahuasca não foram consultados e nem subscreveram o documento de pedido para transformar a Ayahuasca em patrimônio cultural imaterial no Brasil. O IPHAN estaria então consultando diversas comunidades indígenas que, por sua diversidade étnica e uso tradicional das plantas sagradas, exige um trabalho alongado de identificação. O Sr. Deyvesson esclareceu que os técnicos do IPHAN têm avaliado o que pode ser objeto da política de patrimônio, no caso do uso ritual da Ayahuasca, considerando a multiplicidade de usos, linguagens, crenças e aspectos étnicos em jogo. Até o momento, o IPHAN tende a limitar o objeto da política pública ao processo de elaboração ritual do chá, o que parece ser um elemento comum a todos os interessados no assunto.

Mesmo com os impasses iniciais, o IPHAN abriu o respectivo processo de patrimonialização e em seguida o Inventário Nacional de Referências Culturais - INRC que é um procedimento desenvolvido a partir de métodos etnográficos que visam levantar dados, informações e dar consistência aos pedidos de registro e salvaguarda de um bem imaterial. Mas o processo ficou embargado, e desde então o IPHAN ainda não se posicionou a respeito da situação da Ayahuasca.

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Site da instituição: <www.cadesac.com.br> 11

O INRC é um instrumento que cataloga e registra determinado bem de natureza imaterial. Este levantamento visa ―Inventariar‖ os bens culturais que remetem á identidade cultural de um grupo social. Quando determinado bem cultural é conhecido através do INRC ele será, em seguida, reconhecido através de outro instrumento do IPHAN chamado Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial. Antes do Registro do Bem imaterial, o conselho consultivo do IPHAN, ligados á diferentes esferas de atuação, decidirão se a proposta é consistente e se deve ser feito o registro.

O bem cultural imaterial, já devidamente registrado será inscrito em um dos Livros de Registro de Bens Culturais de Natureza Imaterial que, atualmente está dividido em quatro categorias: Livro de Registros de Saberes – para a inscrição de conhecimentos e modos de fazer das comunidades; Livro de Registros de Celebrações – para rituais e festas, da religiosidade e outras práticas da vida social; Livros de Registro das Formas de Expressão – registro de manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas, lúdicas; Livro de Registro dos Lugares – espaços como mercados, feiras, praças e santuários, onde se reproduzem práticas culturais (IPHAN, 2007).

Porém, o pedido do IPHAN para a realização do INRC da Ayahuasca não conta apenas com a pesquisa de religiões ayahuasqueiras que solicitaram o pedido, mas também dos povos indígenas que fazem uso do mesmo chá e das comunidades urbanas mais recentes, categorizadas como neo-ayahuasqueiras. Isto nos sugere que a realização do INRC da Ayahuasca é um empreendimento amplo acerca dos rituais em que se faz o uso do chá. Essa amplitude ocorre devido à diversidade cultural em torno da bebida levantando questões do que se pretende inventariar afinal (SANTOS, 2010).

A proposta apresentada pelos técnicos do IPHAN dividiu o projeto em três campos de pesquisa: campo dos originários, campo tradicional ou tradicionalista e campo eclético ou neo-ayahuasqueiro. Nesse vasto leque em que a Ayahuasca está presente, surgem as delimitações e dificuldades para a execução do INRC. É necessária uma grande equipe de pesquisadores e de financiamento, além da execução desse amplo projeto. No INRC, são feitas pesquisas etnográficas,

produção em audiovisual, registros fotográficos, pesquisas bibliográficas e documentais (IPHAN, 2007).

O pedido de patrimonialização da Ayahuasca levanta questões polêmicas e controversas. Caso venha a ocorrer, representará uma grande conquista para as comunidades ayahuasqueiras que ao longo do tempo foram bastante discriminadas e marginalizadas por suas práticas religiosas. Mas, ao mesmo tempo, preservar este bem imaterial pode significar cristalizá-lo, como se houvesse apenas uma prática religiosa legítima a ser reconhecida. No caso da Ayahuasca, as práticas religiosas e terapêuticas são dinâmicas, sincréticas e às vezes contraditórias (LABATE, 2011).

O uso da Ayahuasca envolve complexas redes sociais onde diversos grupos possuem relacionamentos diferentes com esta substância enteógena12. Além da variedade sociocultural presente nessas comunidades, a relação com a Ayahuasca é diferente em cada grupo, que a trata e percebe diferentemente de acordo com sua doutrina ou visão de mundo.

A realização do INRC da Ayahuasca, segundo Santos (2010), pode ser um caminho promissor para se mapear o uso ritual da bebida. É importante levar em consideração que as práticas em torno do chá modificaram-se muito, principalmente no contexto urbano contemporâneo. É necessário considerar todos os fatores que envolvem a interação entre ser humano e Ayahuasca a nível simbólico, social e cultural, definindo parâmetros de mediação entre a cultura, as práticas sociais e o ritual em torno da Ayahuasca. A interação entre ser humano e substâncias psicoativas não depende apenas da atuação química da substância, mas, sobretudo dos fatores psicológicos, biológicos e sociais presentes: como o estado psicológico no qual a pessoa se encontra ao ingerir a substância, incluindo-se aí sua estrutura de personalidade e expectativas a respeito da substância e o meio físico, social e cultural onde ocorre o seu uso (MACRAE, 1999).

Nos próximos capítulos iremos aprofundar a compreensão a respeito dos impasses e limites para que o processo de patrimonialização da Ayahuasca ocorra, bem como a análise das políticas públicas de patrimônio cultural imaterial no Brasil. O pedido de patrimonialização da Ayahuasca reforça a necessidade de avaliação da

12 Enteógeno: palavra grega que significa ―Deus dentro‖. Utilizo essa palavra para me referir às substâncias psicoativas que agem ampliando o estado de consciência do indivíduo.