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4 PATRIMÔNIO CULTURAL

4.2 O CONCEITO DE PATRIMÔNIO: ALGUNS APONTAMENTOS

Em primeiro lugar, devo investigar a origem do termo patrimônio e os seus significados ao longo da história. O termo patrimônio origina-se da palavra pater que significa pai. Patrimônio representava e ainda representa um conjunto de heranças transmitido de forma parental. Ao longo do tempo, passou a ser qualquer bem material ou conhecimento que transmitisse e perpetuasse relações de poder e afirmação de soberania cultural da aristocracia. Patrimônio era um bem que tinha como característica o fato de ser de natureza privada e elitista pertencente a determinado grupo social privilegiado na sociedade.

O termo patrimônio que no século XVI designava apenas os bens materiais de natureza privada e geralmente elitista de uma sociedade, adquiriu a partir do século XVIII horizontes mais amplos. O conceito hierárquico de patrimônio passou, gradativamente, ao de algo comum à humanidade ou de uma determinada comunidade. É com a Revolução Francesa que se inaugura a noção de Estado laico e também o uso do patrimônio cultural como aglutinador de uma identidade nacional.

Aos símbolos nacionais cabe uma função central, uma vez que visualizam de modo marcante os valores e os conteúdos da auto definição política de uma comunidade, através dos quais os cidadãos conhecem e reconhecem sua identidade política (JURT, 2012, p.44).

Deste modo, compreendo que patrimônio é uma construção sociocultural que mobiliza um conjunto de práticas, agentes e agências no processo de patrimonialização de um bem, assim como os valores que o legitimam (MOTTA, 2014).

A predominância dos monumentos que reafirmam os poderes políticos, religiosos e militares reforça essa versão. Os bens culturais não pertencentes às elites foram durante muito tempo relegados ao esquecimento (CORÀ, 2014, p.2)

Apesar dos conceitos elitistas terem sido à base de comando e fomentação de políticas culturais por muitas décadas, hoje em dia, há um avanço na política adotada pelo IPHAN. De acordo com Camargo (2002) as atividades não se limitaram apenas à preservação, mas ao restauro e à reabilitação dos bens, à ampliação e à codificação dos conhecimentos relativos à temática arquitetônica e artística da "arte tradicional brasileira", principalmente com a incorporação do patrimônio imaterial, como festas, danças, procissões, gastronomia etc.

Podemos falar em património cultural como a representação simbólica das identidades dos grupos humanos, isto é, um emblema da comunidade que reforça identidades, promove solidariedade, cria limites sociais, encobre diferenças internas e conflitos e constrói imagens da comunidade. (CRUCES, 1998, p. 85).

Como o autor fala acima, essas representações simbólicas criam um repertório cultural que guarda a história e a identidade de um determinado povo.

Esses bens são chamados de patrimônio histórico de uma coletividade. O patrimônio histórico seja ele material ou imaterial artístico ou arquitetônico exige um processo de selecionar, guardar, transmitir uma memória social ao qual se atribui significados resguardados pela ―força da tradição‖.

A partir dessa reflexão, me atento que os conceitos de Patrimônio e Patrimônio Cultural são diferentes e que devem ser compreendidos separadamente. O conceito de Patrimônio Histórico, no entanto, está dentro do conceito de Patrimônio cultural. A definição de Patrimônio Histórico é o conjunto de bens móveis, imóveis e naturais que possui valor inestimável a um país ou sociedade. Patrimônio cultural, além dos bens materiais e imateriais está presente às tradições, as manifestações populares, religiosas entre outros.

Quando falamos em patrimônio histórico não estamos nos referindo a coisas, a uma ou algumas classes de objetos, e sim ao resultado de ações humanas, a um processo contínuo de selecionar, guardar, conservar e transmitir determinados bens, materiais e imateriais, a que se atribuem determinados valores. O termo ―patrimônio‖ é usado devido à analogia com o processo que ocorre na família quanto aos bens que passam de pais para filhos, portanto, à herança, o que envolve não apenas valores econômicos como também simbólicos e afetivos. No caso dos patrimônios históricos, pode-se dizer que esse processo de selecionar, guardar, conservar e transmitir se caracteriza por uma dimensão mais ampla, necessariamente coletiva, que integra o modo como os grupos sociais organizam sua memória (LONDRES, 2005, p.162).

A noção de patrimônio histórico e artístico, tal como é entendido hoje se tornou possível no período do Renascimento, quando o mundo deixa de ser visto como sacro e o ser humano se percebe em evolução temporal na cadeia da história. Com o advento dos Estados-nações no século XVIII, houve o surgimento de políticas de Estado voltadas para a proteção do patrimônio histórico e artístico. Ao mesmo tempo, durante a Revolução Francesa, desenvolveu-se um sentido de patrimônio que é um marco característico desta nação europeia.

O estatuto do que venha a ser um bem que pertença a uma nação como parte de seu legado artístico, cultural e histórico, perpassa temáticas e conceitos complexos e diversos como ―memória‖, ―nacionalismo‖ e ―identidade‖, etc. O que deve ser patrimônio e, sobretudo, o que deve ser

feito desse patrimônio tombado, está diretamente ligado ao que venha a ser a identidade nacional de cada nação [...] (BISPO, 2011, p.95).

Segundo Londres (2005) o modelo francês de preservação do patrimônio histórico tornou-se artigo de exportação e foi introduzido a partir do século XX em vários países do mundo inclusive no Brasil. A nação brasileira, que diferentemente da França, já nasceu como colônia era completamente influenciada pela metrópole portuguesa através do controle político, econômico e cultural que ditava os padrões, gostos e comportamentos ao povo brasileiro. Qualquer obra que não seguisse o padrão europeu era considerada ‗tosca‘ pelo poder público. Com o movimento modernista do século XX veio à necessidade de proteger o estilo artístico genuinamente brasileiro no intuito de construir uma tradição cultural brasileira junto com a proteção dos bens histórico e artístico nacionais, que deveriam ser iniciativas visíveis do ponto de vista das políticas públicas.

As primeiras ações do Estado brasileiro para preservação dos bens patrimoniais no Brasil ocorreram na década de 1930. Vale destacar brevemente o contexto sócio-político e econômico que vivia o Brasil nessa década, com o fim da chamada ―política do café-com-leite‖ e a ascensão de Getúlio Vargas pela primeira vez ao poder, como chefe do Governo Provisório, cargo que ocupou até 1934. A partir deste período, o país passou de um Estado com modelo agrário-exportador para um urbano-industrial (BISPO,2011, p.99).

Durante o período de 1930 a 1945 houve uma séria de questões articuladas na área de cultura gerando políticas públicas para a área de patrimônio cultural. Ao mesmo tempo a esta ação federal foi criada em São Paulo o Departamento de Cultura sob tutela de Mário de Andrade. Apesar do crescimento da indústria cultura no Brasil entre os períodos de 1946 a 1960, a presença do Estado nesse setor ainda era incipiente.

Mário de Andrade ficou a frente do Departamento e também acumulava a gestão da Divisão de Expansão Cultural. Além disso, ele vai ter papel importante na elaboração do anteprojeto de criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN) em 1936, a pedido de Gustavo Capanema. A partir do documento elaborado pelo modernista, caberia ao SPHAN ―determinar e organizar o tombamento, sugerir a

conservação e defesa, determinar a conservação e restauração, sugerir aquisição e fazer os serviços de publicidade necessários para a propagação e o conhecimento do patrimônio artístico nacional‖ (BISPO, 2011, p.100).

O Serviço de Patrimônio Histórico Artístico Nacional (SPHAN) foi criado em 13 de janeiro de 1937 apesar de algumas controvérsias quanto ao anteprojeto de Mario de Andrade. Além disso, o Decreto-Lei n°25 de 1937 que é responsável por organizar o serviço de patrimônio está vigente até hoje com pouquíssimas alterações. Hoje SPHAN se chama IPHAN, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e está vinculado ao Ministério da Cultura.

Apesar da proposta de Mário não ter sido aprovada, tendo em vista que a prerrogativa da época era de ser preservar os ―monumentos‖, tomados como ―símbolos nacionais‖, as suas idéias foram retomadas por Aluísio Magalhães, que incentivou a valorização da diversidade cultural brasileira no processo de desenvolvimento do país, e desenvolveu experiências significativas no ―Centro Nacional de Referência Cultural‖- CNRC e na ―Fundação Nacional Pró-Memória‖- FNPM. Nas décadas de 70 e 80 do século passado, Aluísio recontextualizou a política cultural do IPHAN, procurando substituir ―a visão anteriormente empregada a respeito da proteção do ‗patrimônio histórico e artístico brasileiro‘ pela noção de ‗bens culturais‘ (DO CARMO , 2010,p.3,).

De acordo com Bispo (2011) com o golpe de 1964 e a ascensão dos militares ao poder houve mudanças nas políticas na área da cultura. Houve uma forte centralização no Conselho Federal da Cultura e uma reformulação na estrutura pública e um aumento da institucionalização na área. Até o fim dos governos militares, nos anos 80 até os anos 90 o Estado reduziu sua participação na formulação de políticas públicas bem como financiamento na área cultural, reflexo de uma política neoliberal. Nesse período de 20 anos houve um aumento das leis de incentivo cultural. A partir do primeiro mandato do Governo Lula em 2003, surge uma tentativa de institucionalização no campo.

Dentro da categoria Patrimônio encontramos a divisão entre bens de natureza material e de natureza imaterial. O conceito de patrimônio cultural é relativo aos domínios social e simbólico de determinados povos ou culturas que visam à preservação da memória e identidade de determinado grupo social. As comunidades

ayahuasqueiras13 que visam à legitimação de suas doutrinas através do processo de patrimonialização da Ayahuasca utilizam-se do artifício do poder simbólico estatal (BOURDIEU, 2010) como instrumento de validação e inserção cultural na sociedade brasileira. De acordo com a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial da UNESCO de 2003, patrimônio cultural imaterial é:

[...] as práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas - junto com os instrumentos, objetos, artefatos e lugares culturais que lhes são associados - que as comunidades, os grupos e, em alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante de seu patrimônio cultural. Este patrimônio cultural imaterial, que se transmite de geração em geração, é constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função de seu ambiente, de sua interação com a natureza e de sua história, gerando um sentimento de identidade e continuidade e contribuindo assim para promover o respeito à diversidade cultural e à criatividade humana. Para os fins da presente Convenção, será levado em conta apenas o patrimônio cultural imaterial que seja compatível com os instrumentos internacionais de direitos humanos existentes e com os imperativos de respeito mútuo entre comunidades, grupos e indivíduos, e do desenvolvimento sustentável (UNESCO,2003).

A política pública de patrimônio cultural é um instrumento do poder do Estado que detém a centralidade hierárquica de criar, governar, através de instrumentos ideológicos. Poder esse que é exercido sobre toda uma sociedade. Nesse movimento o Estado legitima seu poderio através da construção de uma identidade nacional, surgindo políticas de constituição do patrimônio histórico, cultural nacional no Brasil. Os objetos das políticas públicas de constituição do patrimônio histórico e cultural partilham de uma ideia de carisma para serem considerados legítimos e aceitos como componentes de uma identidade cultural.

As políticas públicas do Estado, de modo geral, podem ser entendidas no contexto do que Shils chama de centralidade. Para este autor, "a centralidade é constituída pelo seu poder formativo ao iniciar, criar, governar, transformar, manter, ou destruir aquilo que é vital na vida do homem" [Shils, 1974, p. 395]. Tal poder central de que nos fala Shils [1974]

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As entidades envolvidas no pedido de patrimonialização são: Centro de Iluminação Cristã Luz Universal Alto Santo (CICLU – Santo Daime); Casa de Jesus Fonte de Luz (Barquinha) e Centro Espírita Beneficente União do Vegetal (CEBUDV).

tem sido concebido como um poder transcendente divino ou outro que controla ou influencia a vida humana e o cosmo dentro do qual ela existe. Mas para ele essa é apenas uma das possibilidades de ser carismático, entre outras. O carisma pode se manifestar em personalidades individuais, conforme salientado em Weber [2002], "mas pode vir a residir, em graus variados de intensidade, em instituições – nas qualidades, normas e crenças que seus membros são supostos abraçar ou que se espera que possuam"[Shills](CANANI,2010,p.396).

O bem patrimonial para ser considerado legitimo por um determinado grupo também se faz necessário ter forças sociais afetivas, ou seja, as forças sociais não racionais que criam uma polaridade essencial entre racionalismo e carisma. A centralidade do poder está hierarquicamente atribuída a instituições de salvaguarda nacional onde se originam tais políticas e se difundem pela sociedade o caráter de ―sacralidade‖.

O carisma é a grande força revolucionária nas épocas com forte vinculação à tradição [...] O carisma destrói [...] em suas formas de manifestação mais sublimes regra e tradição e inverte todos os conceitos sacrais. Ao invés da piedade em relação àquilo que é, desde sempre, considerado comum, e por isso sacral, ele força a sujeição interna sob aquilo que nunca antes existiu, sob o absolutamente singular, e por isso divino. Nesse sentido puramente empírico e neutro, é, porém, o poder especificamente criativo e revolucionário da história (Weber, 1991, p. 161).

O conceito de dominação social carismática de Weber, nesse ponto amplia-se de sentido tornando-se um instrumento tanto do Estado como de grupos sociais que buscam a legitimação social. Weber reconhece o carisma como uma força social criativa ou destrutiva que pode dar novos rumos à história, destruir instituições ou abrir caminhos para novas políticas. Segundo Bach (2011) o carisma ―força‖ a ―sujeição‖ como consequência da lealdade aos valores, no nível da ação. Assim, o carisma se transforma em um recurso de poder e passa a constituir, ao mesmo tempo, uma relação de dominação. Ou seja, se o patrimônio cultural é uma construção, ela é influenciada e moldada também através do que cativa as pessoas.

Através dessa construção o bem cultural ganha legitimidade através de laços afetivos criados em sociedade. Essa afeição gera nas pessoas um sentimento de identidade e pertencimento, criando um imaginário social e reafirmando-o através do bem patrimonializado.

A utilização do conceito de Patrimônio para a criação simbólica de identidades tem operado de forma fundamental para a legitimação e afirmação de uma identidade nacional14. Isso acarretou na seleção de bens determinados pelo interesse do Estado (e por suas classes dominantes), excluindo partes da cultura não elitista e privilegiando um patrimônio cultural dominante. A lógica da construção de patrimônio cultural tem seguido as regras do jogo mercadológico que seguem os modelos do capitalismo global ocidental. As discussões da atualidade sobre a política de patrimônio cultural, segundo Beatriz Labate (2010) advogam para a ampliação do conceito de patrimônio cultural para que esta política pública alcance manifestações da diversidade cultural de cada nação.

[...] investigações sociologias e antropológicas mostram que os diversos setores sociais se apropriam de forma desigual da herança cultural de um país. E vai além, ao dizer que não basta que existam políticas culturais que criem museus, bibliotecas e outras instituições afins, e ainda programas de incentivos à população, para que esta frequente tais locais. À medida que se desce na escala social e econômica da sociedade em direção àqueles que têm menos recursos e acesso à educação, percebe-se uma redução da capacidade de apropriação do capital cultural transmitido pelas instituições. Para o autor, o motivo dessa desigualdade seria a diferença de participação dos vários grupos sociais na formação deste patrimônio. Ele ainda ressalta

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Identidades podem ser partilhadas em sistemas mais vastos, como, por exemplo, a identidade nacional, que tem uma relação densa com a noção de patrimônio cultural. A consolidação dos Estados nacionais resultou de processos, ao longo dos séculos XVII, XVIII e XIX, que envolveram disputas e estratégias diversas para o estabelecimento de um sentimento de cultura partilhada entre os membros da nação. A identidade nacional dependeu, sobretudo, do reconhecimento de um ―passado comum‖ sustentado por ―tradições inventadas‖ [HOBSBAWM, 2012] ou reapropriadas, mitos fundadores da nação, lendas de tradição oral, versões oficiais da história no espaço geograficamente delimitado do Estado-nação. Os bens que formam o patrimônio histórico e artístico viriam objetivar, conferir realidade e legitimar a ―comunidade imaginada‖ [ANDERSON, 2008] que é a nação, materializando a sua ancestralidade [GONÇALVES, 1996] (BRANDÃO, 2017, p.1)

que, mesmo em nações que adotam a noção antropológica de cultura, existe uma determinada hierarquia dos capitais culturais (BISPO, 2011, p.97).

No processo de reconhecimento de determinado bem histórico de natureza material ou imaterial há uma relação de poder, hierarquizada que estabelece competências e define os critérios e tipos de saberes que entram no ―jogo‖. Os grupos ayahuasqueiros que lutam pela patrimonialização desta bebida estão utilizando como instrumento o patrimônio na esfera racional- legal do Estado para a legitimação social. Sociologicamente, poderíamos atribuir a essa ação um sentido de legitimação por meio de um sistema legal, que estabelece regras e crenças sociais fazendo-se da impessoalidade e da coerção sua autoridade social. Por meio da burocracia, o Estado moderno define o que é e o que não é cultura, estabelece novos parâmetros culturais através da legitimação racional.

Porém com relação ao trato em lidar com questões ligadas à cultura o modelo racionalista e burocrático é perpassado pela lógica carismática aos quais os bens se fundam. Não é possível nos aprofundar no conceito de cultura ou pensar em políticas culturais sem levar em consideração as lógicas afetivas ou não racionais de uma determinada comunidade.

Weber não considera que a modernidade inaugura a cultura como tragédia, mas, para ele, o homem que experimenta os avanços da racionalidade pode adquirir uma consciência inédita da sua condição trágica, uma vez que a efetiva racionalização de diferentes áreas da cultura desautorizou a grande ilusão com a qual os homens tradicionalmente desviaram-se do problema: a crença de que a vida tem sentido (NOBRE, 2000, p.20).

A crítica à modernidade citada acima também levanta questões de como um modelo racional-burocrático pode então definir quais são as margens para o significado de cultural ou de bem patrimonial? Essa questão sempre esteve presente na construção da política pública de patrimônio cultural e se inaugura o conceito de cultura como tragédia, compreende-se que o modelo racional possui suas limitações frente à multiplicidade da realidade cultural. A cultura na atualidade deve ser visto como algo dinâmico, marcado por traços complexos, variações de identidades e

práticas culturais é um conceito ao qual o esquema racional-burocrático não pode ―abarcar‖.

Vivemos em um mundo em que a intensificação da globalização modifica as maneiras do poder público lidar com as políticas públicas em diversos setores: economia, segurança, saúde, dentre outras. E a esfera cultural não escapa dessas transformações. O patrimônio histórico, e os usos que devem ser feitos desses bens, têm sofrido também modificações neste contexto (BISPO, 2011, p.95)

É importante frisar que o conceito de patrimônio se ampliou ao longo dos anos, expandindo suas designações dependendo de diversos fatores sociais como a economia, a política, a cultura e a saúde por exemplo. Na esfera da cultura as questões se tornam mais complexas que requerem estudo para que a conservação de um determinado bem cultural seja avaliado além das necessidades mercantilistas de uma sociedade.

Também se constatou nesse tempo um outro entendimento de história que centra seu interesse antropológico no homem e em sua existência, e assim busca contemplar todos os atores sociais e todos os campos nos quais se expressa a atividade humana. Tal compreensão implicou a valorização dos aspectos nos quais se plasma a cultura de um povo: as línguas, os instrumentos de comunicação, as relações sociais, os ritos, as cerimônias, os comportamentos coletivos, os sistemas de valores e crenças que passaram a ser vistos como referências culturais dos grupos humanos, signos que definem as culturas e que necessitavam salvaguarda. Esses novos entendimentos levaram à reformulação do conceito de patrimônio. O valor cultural, a dimensão simbólica que envolve a produção e a reprodução das culturas, expressas nos modos de uso dos bens, foi incorporado à definição do patrimônio. A alteração também se deu em face da constatação de que os signos das identidades de um povo não podem ser definidos tendo como referência apenas as culturas ocidentais, assim como a cultura campesina não pode ser vista como menor diante das atividades industriais.