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de crianças e adolescentes

ASPECTOS TRANSGERACIONAIS

Para compreender a constituição psíquica do sujeito, é básico incluir o aspecto transgeracional e sua articulação entre o intrapsíquico e o inter- subjetivo. “É possível pensar na articulação fundamental entre o intersub- jetivo, representado pela família e pelo social, e o intrapsíquico na consti- tuição do sujeito” (Kaës, 1998, p. 55).

O ser humano já nasce inserido em uma cultura que o antecede. Na mente dos seus progenitores ou cuidadores, já se fazem inscritos e vibran- tes os valores, as histórias transgeracionais, os mitos familiares e os proje- tos identificatórios (Lisondo, 2004). A transmissão geracional, então, po- de ser efetivada de forma positiva, vindo pela palavra, em um elo que faz parte da constituição do sujeito desde o seu início. Há também formas de

Crianças e adolescentes em psicoterapia 123 transmissão pelo negativo, resultantes do não-dito, não-nomeável, mas que se repetem por gerações, “amarrando” o sujeito a algo que ele não tem acesso. Situações traumáticas não representadas nem nomeadas podem emergir em gerações seguintes como fantasmas. Assim, o não-simbolizado se repete até se fazer “ouvir” de alguma forma.

Vitória, 8 anos, veio a tratamento trazida por sua mãe por apresentar aftas recorrentes na boca e estar com problemas de rendimento escolar. Ao se inteirar da história familiar, a terapeuta soube de diversos episó- dios que envolviam perdas e lutos em sua família. Rosa, mãe de Vitória, perdeu seu pai na infância; sua mãe casou novamente e teve duas filhas deste relacionamento. Aos 18 anos, Rosa perdeu sua irmã, de 8 anos, vítima de um atropelamento. Em seguida, soube que estava grávida. Seu namorado, pai de Vitória, assumiu a paternidade, mas não convi- veu com Vitória, pois constituiu outra família e a vê poucas vezes. Rosa morou um tempo com a menina na casa da mãe, mas acabou “entre- gando a filha” para a avó criar e foi morar com outro companheiro. Um ano antes da busca de terapia, morre o companheiro da avó, que Vitória chamava de avô.

Logo, a terapeuta observou os vários lutos na família e a falta de espaço para elaborá-los. Esses lutos apareciam nas fantasias trazidas no jogo da menina, como no exemplo a seguir:

Vitória trazia conteúdos de que o pátio de sua casa estava contaminado com um vírus e tinha de ser desinfectado, com o perigo de que “todos os animais da casa morressem”. Em sua caixa individual, reservou um espaço onde colocou objetos confeccionados por ela com massinha de modelar: em miniatura, na cor preta, faziam parte da casinha e tinham que ficar na caixa, guardados, em um “cantinho”.

A terapeuta entendeu que Vitória tinha um “cantinho”, onde jaziam “objetos mortos”, os quais tinha de carregar em seu mundo interno. Esse conteúdo ficou contido na mente do terapeuta à espera do momento propício para ser devolvido para a menina, pois interpretá-lo naquele momento seria saturar a mente da criança.

Esse entendimento possibilitou que a terapeuta trabalhasse com sua mãe nas sessões reservadas a ela. A terapeuta, ao atender a mãe, abriu um espaço para que repensasse seus lutos e suas culpas, buscando novas formas de lidar com a menina auxiliando a entender o “porquê” de sua dificuldade em assumir sua filha e estabelecendo a possibilidade de falar sobre suas perdas trazendo para a consciência os lutos que permeavam

a vida dessa família e que Vitória veio “tamponar”. Através das aftas, Vitória mostrava em seu corpo o choro não-chorado da família, as dores e a raiva que ficavam expressados no sintoma da paciente.

Sua mãe não se sentia autorizada a assumir o papel de mãe; sentiu-se obrigada a “entregar” a filha para a avó no lugar da irmã que havia falecido tragicamente. Vitória, por sua vez, se sentia com um “cemité- rio” (o “cantinho” reservado em sua caixa) em seu mundo interno, sem espaço psíquico para “ser”. O tratamento tinha como foco fazer com que Vitória pudesse expressar seus sentimentos sem ter que somatizar, como fazia através das aftas. Esse luto, ao ser endereçado para tratamento, através do sintoma de Vitória, permite a expressão e ressignificação do “não-dito”, “não-chorado” e não-elaborado pela família.

Além disso, a falha na triangulação que se repete desde as gerações anteriores (a figura masculina ausente ou distante) também é um aspecto transgeracional, como se houvesse uma ausência de figura mas- culina na mente das mulheres da família, que acabam por “descartar” os homens após engravidarem.

A substituição do pai pela mãe na situação triangular edípica é disfuncional e leva à patologia, pois há tendência a anular pelo terceiro vértice do triângulo. Para isso, pode haver a insuficiência do papel paterno ou ausente ou não referido no psiquismo materno. Nessas condições, a entrada de um terceiro (no caso o psicoterapeuta) formaria a outra ponta do triângulo, oportunizado a diferenciação e dessimbiotização. Se essa é impossibilitada, ninguém entra e há certo triunfo (Mazzarella, 2006). Nesse caso, mãe e filha formariam uma “dupla fechada” que prescinde da entrada do terceiro, seja pai ou psicoterapeuta, obstaculizando a integra- ção dos papéis paterno e materno no psiquismo da criança.

Outro objetivo da terapeuta, a partir dessas constatações, seria o de chamar o pai para participar do processo de tratamento da filha, com en- trevistas periódicas. Dessa maneira, a terapeuta se coloca como outro mo- delo, trazendo à tona a possibilidade de desamarrar os fantasmas trans- geracionais dessa família.

Os objetos transgeracionais exercem uma demanda de desinvesti- mento da vida comum, como se houvesse uma “fidelidade” aos mortos. A estruturação familiar fica comprometida com a família transgeracional, que exige sacrifício. É como se houvesse uma dívida com os antepassados. O fantasma apareceria na criança pelas lacunas percebidas daquilo que não é dito pelos pais (Pereira, 2005).

Crianças e adolescentes em psicoterapia 125 No exemplo acima, o trauma vivido como “impensável” pela mãe e avó faz com que a geração seguinte desenvolva sintomas, como, por exem- plo, as aftas que condensam o “não-dito” e “não-pensado” pela família.

O “fantasma” designa algo que está no psiquismo como herança de um trauma, de um luto patológico, que não pode ser elaborado na cadeia ge- racional. A vivência do trauma, com todas as suas vicissitudes, ficará encrip- tada, pairando como uma alma penada. A escuta do terapeuta, voltada ao que não é dito, “favorecerá a elaboração e a metabolização desses conteúdos cindidos, desenvolvendo a possibilidade de pensar e de desenvolver vida psí- quica própria para essas gerações encarceradas” (Pereira, 2005, p. 109).