As etapas da psicoterapia com crianças
FASE INTERMEDIÁRIA – O PROCESSO ELABORATIVO
A fase intermediária do processo psicoterapêutico é o período que se estende desde o momento em que se consolida a aliança terapêutica até a ocasião em que uma séria proposta de término passa a ser discutida entre paciente e terapeuta. É, em geral, a etapa mais longa dos tratamentos, que visa examinar, analisar, explorar e resolver os sintomas e as dificuldades emocionais do paciente. O objetivo dessa etapa é a essência do tratamento (Luz, 2005).
É possível ao terapeuta perceber a evolução para a fase intermediária quando passa a existir continuidade nos temas trazidos pelo paciente entre sessões. Dessa forma, a criança resgata assuntos ou brincadeiras ocorridas em momentos anteriores do tratamento.
Ana, 7 anos, foi encaminhada para tratamento por uma instituição de proteção ao menor, por ter sofrido maus-tratos na família de origem. Ela pouco brincava ou falava, tendo momentos de isolamento. Inicial- mente, passava as sessões produzindo bonecos disformes de massa de modelar, solicitando a ajuda da terapeuta para colá-los com muita cola e durex. Eram produções sempre inacabadas e insatisfatórias para a
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menina, que manifestava muito sofrimento. Aos poucos seu brincar pas- sou a ser mais rico e simbólico, passando a utilizar a personificação com os bonecos que construíra e a se interessar por contos infantis e brinque- dos variados, que alargavam seu contato com seu mundo interno. Estava em terapia havia um ano quando propôs o desenho de um cachor- ro denominado “Buldogue”. Entrou na sessão em busca desse desenho, ocasião em que decidiu fazer uma “Buldoga” para lhe fazer companhia. Nas sessões seguintes, ocupou-se com a construção de uma casa para residirem, de tigelas para sua alimentação e, por fim, com o desenho cuidadoso dos filhotes do casal de cachorros. Construiu o que chamou de “família de cachorros felizes” – elaboração, no início um tanto maníaca, de seus traumas reais vividos, tarefa que ocupou meses de sua terapia.
Paulatinamente, a relação entre a criança e o terapeuta muda à medida que o tratamento passa para a fase intermediária. A criança começa a pensar no terapeuta como uma pessoa da sua vida diária, embora com papel e função bem discriminados das demais relações de sua vida.
A aliança terapêutica e a confiança consolidada possibilitam um clima de intimidade a partir do qual sentimentos de raiva ou aversão ao terapeuta podem também começar a emergir. É comum o uso do banheiro pelas crianças, bem como a vazão de impulsos corporais, tais como eructações e flatulências, expressando conteúdos orais e anais sádicos e agressivos. Nossa função como terapeutas é buscar significados para tais atitudes, rela- cionando-as com os conflitos subjacentes. Muitas vezes, tais ações podem ser entendidas como actings; em outras, apenas como uma forma de expressão. Essa compreensão do terapeuta se dá a partir da relação da dupla e da trama de sentimentos agressivos e amorosos que permeiam o campo psicoterápico. É sempre importante apontar que a criança tem permissão de expressão simbólica para brincar, desenhar ou falar sobre qualquer tema, mas não pode fazer tudo, pois isso coloca em risco o setting. Winnicott (2000) ressalta que “o fornecimento de um ambiente su- ficientemente bom na fase mais primitiva, capacita o bebê a começar a existir, a ter experiências, a constituir um ego pessoal, a dominar os instintos e a se defrontar com todas as dificuldades inerentes à vida” (p. 404). É possível fazer uma alusão com a situação terapêutica, na qual o paciente só poderá ser ele mesmo e mostrar seus aspectos positivos e negativos quando se sentir seguro em um ambiente suficientemente bom, em que ele possa ter expe- riências que remetam às mais diversas emoções e aos estados de seu self. Assim, pode mostrar sua agressividade, seu ódio e sua inveja, pois sabe que
no espaço do setting tais aspectos serão trabalhados, tolerados, respeitados e integrados à sua personalidade. Sem essa espontaneidade, o verdadeiro self poderia ficar encoberto por um falso, que reagiria aos estímulos em uma tentativa de se livrar das experiências instintivas sem vivenciá-las.
Para o psicoterapeuta, uma das tarefas mais difíceis no curso da psi- coterapia é o defrontar-se com o profundo sofrimento da criança. Nestes momentos, é necessário estar atento aos sentimentos contratransferenciais para não entrar em conluio inconsciente com o paciente, evitando tocar nessas situações dolorosas. O paciente também fornece ao psicoterapeuta indícios do momento propício para interpretações ou outras intervenções dirigidas a tais conflitos e dificuldades. Isso pode ocorrer quando ele passa a brincar com o mesmo brinquedo, repetir o mesmo material, mesmo que sob diferentes formas, através de postura física e olhares para o terapeuta, mudanças no jogo e enriquecimento do mesmo (Castro e Cimenti, 2000). O jogo é uma narrativa que faz parte de um campo emocional esta- belecido entre a criança e o terapeuta. O brincar pode ser entendido como texto narrativo que é pré-partilhado pela dupla, não existindo sentidos prontos, ou interpretações previamente saturadas pela mente do terapeuta. A dupla deve buscar descobrir ou criar esses sentidos (Ferro, 1995).
Quando a criança está sofrendo por uma perda real, concreta, por morte ou abandono, ela precisa mais de continência do que de interpreta- ções. Também se evita interpretar quando a criança está tentando entender o que ocorre com ela. Nessas situações, é mais adequado deixar que ela mesma chegue ao insight no seu ritmo (Castro e Cimenti, 2000).2
Em relação a esse aspecto, é importante lembrar que a elaboração não se limita à hora terapêutica; é comum que a criança relate a ocorrência de insights fora da sessão. Essas compreensões afetarão diretamente as relações da criança com os pais ou outras figuras significativas. Na medi- da em que a psicoterapia evolui, pode-se esperar que a criança alcance
insights cada vez mais genuínos e significativos, com consequente alívio
dos sintomas e com crescimento mental (Luz, 2005), passando a utilizar com mais frequência a linguagem verbal, diminuindo o uso de mecanismos regressivos e de actings (Zavaschi et al., 2005).
Mesmo com essas conquistas, os riscos de interrupção não se extin- guem nessa etapa intermediária. As possíveis causas para a interrupção prematura incluem fatores do terapeuta, do paciente e também da realida- de (Luz, 2005). O mesmo se pode pensar para os casos de estagnação do progresso terapêutico. Qualquer paralisação do processo terapêutico pode ser pensada não só a partir da interação entre a transferência do paciente
Crianças e adolescentes em psicoterapia 109 e a contratransferência do terapeuta, mas também sob a ótica de um fenômeno de campo, produto da interação dos três elementos (terapeuta, paciente e pais) (Kancyper, 2002), como aparece no caso de Maria:
Maria, 6 anos, foi levada a tratamento devido a dificuldades para con- ciliar o sono. A menina recusava-se a dormir sozinha, de modo que os pais vinham se revezando para dormir com ela à noite. A psicotera- peuta desde o início percebera as dificuldades sexuais do casal, que estavam vinculadas ao sintoma de Maria. Após alguns meses em psico- terapia, Maria “pegou no sono” em sua própria cama, retirando-se do quarto do casal. Na semana seguinte, seus pais solicitaram uma entre- vista e comunicaram a interrupção do tratamento da menina utilizando como justificativa a possibilidade de anteciparem as férias. As tentativas de trabalhar as resistências parentais foram infrutíferas, pois esbarravam nos conflitos dos pais de Maria, que precisavam do sintoma da menina para encobrir suas próprias dificuldades conjugais e pessoais.3
No caso de não-interrupção do processo psicoterapêutico, a fase intermediária torna-se a mais longa de todo o processo, compreendendo a exploração, a interpretação e a elaboração dos conflitos manifestos e latentes que originaram a busca de tratamento para a criança. Em função disso, no decorrer dessa fase novos conflitos poderão emergir e novas questões poderão ser foco do trabalho terapêutico.