da adolescência atual
Vera Maria Homrich Pereira de Mello
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Em que o adolescente é diferente hoje? Será que não são similares os processos de constituição de uma subjetividade pelo adolescente ao longo de várias gerações?
Sim e não! É inegável pensarmos que há influências do meio na constituição dessa subjetividade. Nesse sentido, a psicanálise abordando o tema da transgeracionalidade, ou seja, transmissão psíquica entre gera- ções, tem trazido contribuições importantes. Embora a matéria-prima do psiquismo, como nos é ensinado pela metapsicologia freudiana, seja a pulsão, esta é inscrita no discurso psíquico mediatizada pela ação do ou- tro. Esse outro adquire várias dimensões desde a da imagem especular (Freud 1974; Lacan 1949; Winnicott, 1956) ou da função porta-palavra (Aulagnier, 1997), como também diz Birman (2006) por meio dos opera- dores sociais e políticos que incidem sobre as pulsões, mediando os registros da imagem e da linguagem, modulando e precipitando os efeitos desses na construção do psiquismo. Sabemos que a adolescência é crono- logicamente mais extensa; é comum vermos jovens com 25 anos morando com os pais, fora do mercado de trabalho, sem muitas perspectivas de uma vida adulta. Ao mesmo tempo, a sociedade proclama que o bom é ser jovem, que aí reside a felicidade, e, contemplando essa ideia, são bus- cadas fórmulas para postergar o envelhecimento. Há um ufanismo de que esse é o lugar ideal. Na sociedade pós-moderna há um grande afluxo de informações, onde a instantaneidade é a tônica, o imperativo é a diver- sidade, fazendo com que provoque no sujeito uma sensação que oscila entre o pertencimento e o estranhamento.
Crianças e adolescentes em psicoterapia 163 Parece-me importante também abordarmos a existência de um grande paradoxo que observamos na nossa cultura, pois ao mesmo tempo em que há um prolongamento da adolescência, uma maior dificuldade em sair da casa dos pais, em se inserir no mercado de trabalho, dificuldades, portanto, em assumir um papel adulto, há concomitantemente uma pressão por maturi- dade e autonomia. A cultura do êxito, do “tenha sucesso”, não contempla o ter medo, o ficar inseguro, o precisar de ajuda. (Mondrzak, 2007).
Vivemos em um tempo de desconstrução, do abandono das utopias, da Modernidade Líquida, como diz Bauman. Foi-se o tempo em que se sabia o que era esperado. Por um lado, isso é extremante rico, mas, por outro, provoca o temor de não sabermos quem somos, uma sensação de perdermos a identidade. Poderíamos pensar que esse estado da sociedade muito se aproxima do estado adolescente.
Neste sentido, como está o adolescente na sociedade atual, já que em nível interno, há toda uma busca premida pela necessidade de se constituir como um sujeito adulto? Pensamos que nesse processo se daria um momento de diferenciação em que tanto em nível interno – pulsional –, quanto externo – do meio dos objetos – se constrói um movimento de ra- tificar, questionar, consolidar, requestionar ou modificar mais ou menos radicalmente as modalidades anteriores do processo de subjetivação, opor- tunizando-se a partir daí a condição do sujeito ter um pensamento próprio, uma autonomia em relação às próprias ideias, bem como a apropriação de seu corpo sexuado, fazendo com que na vida adulta as capacidades de produzir e gerar, possam ocorrer de diversas formas (Cahn, 1999).
Esse movimento que implica abalar modalidades anteriores do processo de subjetivação impõe ao adolescente uma encruzilhada, em que ou terá de lidar com incertezas, acarretando angústia, ou terá que perpetuar modelos anteriores, anulando toda uma condição criativa do próprio momento. Lembramo-nos de Meltzer (1993) ao falar do processo adolescente, quando pontua que o mesmo se move em três mundos durante o processo de desen- volvimento de sua estrutura interna: o mundo dos adultos, o mundo infantil no âmbito familiar e o mundo de seus pares. Nesse sentido, destaca a impor- tância do grupo como forma de compartilhar com seus iguais as dores e dissabores que o abalar verdades históricas pode provocar. Anteriormente, na puberdade, se daria uma ruptura da estrutura da latência, ancorada por um severo e obsessivo splitting do self e dos objetos, emergindo as confusões típicas das etapas pré-edípicas (bom/mau, adulto/criança, feminino /mas- culino). O grupo de pares teria como função não somente a socialização, mas a possibilidade de conter essas confusões que são intensificadas pela apari-
ção dos caracteres sexuais secundários. Dessa forma, nos grupos sempre existe o nerd, o desligado, o irreverente, o contestador, o sedutor, o tímido, enfim, personagens que representam partes do sujeito, que ficam projeta- das e contidas por cada elemento do grupo, fazendo com que o grupo tenha uma importância fundamental, pois ele tem uma identidade própria, tarefa que, nesse momento, individualmente ainda está em construção para o adolescente.
Podemos encontrar também outras formas de agrupamentos e de identidade grupal, tais como comunidades no orkut ou defensores de algumas causa, ou, até em casos extremos grupos ligados a seitas.
A frase de Kestenberger (1984) “tudo se prepara na infância, mas tudo é jogado na adolescência”, encontra sintonia na forma como penso o processo adolescente, em que, para ingressar com reais condições nele, é fundamental observarmos como se deu a passagem pela infância e pela latência, ou seja, a forma como se deu a complexa rede de conflitos que o sujeito vivencia na sua evolução. Nesse sentido, a neurose infantil seria para Ungar (2004) um primeiro organizador diferenciando, nesse mo- mento, as crianças que conseguiriam armar uma neurose infantil, cons- truindo uma latência, de outras que não conseguiram fazê-lo, acarre- tando uma detenção no desenvolvimento, um quadro psicótico ou ainda um quadro de pseudomaturidade (Ungar, 2006). Ressalta a autora que esse processo de latência precisa ser desmontado na adolescência opor- tunizando novas transformações para atingir a subjetividade adulta.
Atualmente, na clínica, percebemos um maior encurtamento no pe- ríodo de latência, bem como uma menor delimitação quanto às suas ca- racterísticas. Observamos meninos e meninas de 8 ou 9 anos, com ques- tões típicas da adolescência, como preocupação em relação ao corpo, se são atraentes para o sexo oposto, se vão conseguir “ficar” com alguém nas festinhas do grupo de amigos. Talvez como uma radiografia do que ocorre a nível social – a cultura do prazer instantâneo, a necessidade de gratifi- cação rápida, sem postergação –, possamos pensar que no nível psíquico há uma similaridade de processos (Pereira de Mello, 1999).
O período de latência pode ser considerado um período-chave para o desenvolvimento da personalidade, já que é uma fase onde se dá o pro- cesso pleno de simbolização, com o exercício de todas as capacidades (intelectual, motora, emocional, etc.), ocorrendo um verdadeiro traba- lho, na medida em que é realizado um esforço para a organização, dife- renciação, complexidade e ampliação do aparato psíquico, possibilitan- do, dessa forma, um melhor trâmite do pulsional (Urribarri, 1999).
Crianças e adolescentes em psicoterapia 165 À medida que se consolida o processo de simbolização durante a latência, a adolescência passa a se restabelecer na integração dos aspec- tos orais, anais e fálicos, estabelecendo uma genitalidade, possibilitando um ego mais integrado, mais forte e um superego menos severo. Funda- mental observarmos que a existência de perturbações prévias ou trans- tornos durante a latência poderão travar ou alterar os processos do tra- balho de latência acarretando um grau variado de patologização ao pro- cesso adolescente (Urribarri, 2003).
Observa-se que a dificuldade em estruturar uma latência, denuncia- ria falhas no estabelecimento da repressão secundária, assim como na utilização de várias defesas típicas dessa fase.
Nessa linha de pensamento, Meltzer (1979) aponta que há jovens que não tolerando o distúrbio central da adolescência, que consiste na confusão de identidade, regridem a um estado de latência de forma muito estruturada, sendo difícil a percepção deste movimento, a não ser no transcurso do processo analítico. Dessa forma, o que mobiliza esse tipo de funcionamento é a busca da utilização de mecanismos que anteriormente possibilitavam uma paz ao enfrentar o sofrimento edípico e que, nesse momento da adolescência, quando ocorre um novo embate no terreno da sexualidade, são novamente utilizados.
Aqui lançamos uma questão que nos tem inquietado e que pensamos ser importante para refletir e que diz respeito à grande exposição que nossas crianças têm recebido, principalmente da mídia, em horários diur- nos, onde são apresentadas cenas de forte apelo sexual, bem como temá- ticas de violência e drogas, típicas do universo adulto. Birman (2006) pontua que “essas experiências confrontam as crianças radicalmente com a quase ausência dos limites, de forma que a frouxidão dos interditos se destaca aqui como uma problemática fundamental na constituição psí- quica”. Até que ponto o psiquismo dessas crianças consegue metabolizar esse quantum de excitação?
Retomamos Freud (1974) que disse haver um quantum de angústia que pode ser metabolizado ou pensado. Dessa forma, o indivíduo subme- tido até certo grau de estímulo teria condições de responder com um fluxo de representação próprio e elaborar essa situação. No entanto, se o
quantum de excitação supera o limite de tolerância psíquica, o aparelho
se desorganiza, não havendo uma metabolização desse quantum de ener- gia e se dando uma ruptura do pensável, podendo provocar sérias pato- logias. Bion (1998) nos contemplou com Teoria do pensamento e do conhe-
emocional e ela não é processada para formar representações simbólicas que possam ser utilizadas para o sonhar e o pensar, será necessário eva- cuá-las, pondo para fora o excesso de estímulos que sobrecarrega a men- te. Entre as vias utilizadas para essa evacuação, encontra-se o próprio corpo “nas perturbações psicossomáticas”. Observamos com maior incidência na infância quadros como enxaquecas, gastrites, úlceras, etc.; a conduta “nas atuações”; contemplamos um incremento de situações onde o limite não é observado, seja nas agressões, utilização de drogas, iniciação sexual precoce, etc.; as percepções e o pensamento “nos delírios e nas alucinações” e, ainda, conforme o mesmo autor, “o comportamento grupal”.
Os quadros patológicos atuais são escritos na literatura psicanalítica como sendo marcados com mais intensidade por um predomínio do “vivido” sobre o “pensado” (Jeammet e Corços, 2005). Observamos com maior ênfase a incidência das patologias das condutas agidas, como ano- rexia, bulimia seguida de vômitos, práticas toxicomaníacas, atos suicidas e, mais recentemente, automutilações. Essas patologias exigem de nós alterações em relação ao enquadre e à conceitualização teórica, fazendo com que haja um deslocamento, em que passa a ser necessário nos cen- trarmos nas verdadeiras relações de objetos, bem como nas relações nar- císicas de objeto, em vez da análise dos conflitos ligados à repressão, abordagem esta, típica, no campo das neuroses.
Essas patologias graves, em que muitas vezes o risco à vida do ado- lescente é significativo, colocam em evidência uma falha no processo de simbolização, denunciando a ineficácia dos mecanismos utilizados na repressão dos aspectos pulsionais, o que, provavelmente, já poderia estar sendo denunciado nas dificuldades tanto de construção como de descons- trução do processo de latência, que tanto se observa na clínica atual. Claro está que essas questões remetem às relações precoces com o objeto materno, bem como com as rupturas que se deram na construção desse aparelho psíquico, acarretando falhas no processo simbólico.
Usando o modelo digestivo, Bion (1962) faz uma ampliação da geo- grafia dos espaços mentais, valorizando o fato de que, no processo de es- tabelecimento de dentro e fora, torna-se fundamental a capacidade de a mãe poder conter as identificações projetivas de seu bebê, que teriam a função de comunicar estados mentais. No seu entender, essas identificações projetivas seriam metabolizadas mediante a ação da função alfa materna, passando a ser nomeadas e internalizadas com algum significado. Nesse sentido, a mãe teria a função de filtrar e transformar os elementos proto-
Crianças e adolescentes em psicoterapia 167 mentais em um elemento capaz de constituir um pensamento. No entanto, por vezes, esse processo apresenta dificuldades e nos deparamos com várias patologias, em que a tônica é a falha no processo de representação.
Sabemos que algumas situações traumáticas provocam tanta violên- cia e desamparo que ficam impossibilitadas de serem traduzidas, e pas- sam a ocupar um lugar na mente, funcionando como um corpo estranho, estabelecendo uma topografia própria que Meltzer (1998) denominaria de protomental.
Nesse momento, detemo-nos em um aspecto que tem atraído a aten- ção, que é a realização, cada vez mais frequente, da utilização da pele em tatuagens, piercings, body art, chegando à utilização de artefatos sob a pele. O que estaria significando esta busca intensa de tatuagens, colo- cação de piercings nos olhos, língua, genitais?
Muitas vezes se observa no adolescente, marcado pela tatuagem, uma tentativa de redimensionar a imagem do corpo com o qual nasceu, diferenciando-o e se apropriando dele, estabelecendo uma identidade diferente dos pais. Nesse sentido, o uso de tatuagens e piercings, tão co- muns na comunidade adolescente atual, pode estar significando uma ten- tativa do jovem em se apropriar do seu corpo, diferenciando-o, deixan- do-lhe marcas. Por outro lado, é importante observar a necessidade tão presente de deixar marcas externas, que poderiam estar significando, em alguns casos, a ausência de registros internos que configurem uma subje- tividade, uma sensação de ser único.
Na prática clínica com adolescentes, detecta-se com frequência for- mas de condutas aditivas, denunciando antecedentes de carência ou de distorções afetivas graves, demonstrando frágeis capacidades de repre- sentação e de elaboração (Jeammet e Corços, 2005). Observa-se ainda, nesses quadros, intensa impulsividade, uma angústia de pânico desperso- nalizante, por vezes um risco de desorganização psíquica ou até mesmo somática. Nesse sentido, é comum ouvirmos desses pacientes, frases do tipo: “Eu só me acalmo quando eu me corto”, expressando que por meio da dor sentida na pele, há uma tentativa de encontrar um continente, uma representação diante de uma angústia impossível de ser colocada em palavras. Percebe-se nessas situações com clareza, a pele funcionando como o envelope do corpo, assim como a consciência tende a envelopar o aparelho psíquico (Anzieu, 1998). O bebê adquire a percepção da pele como superfície, por meio do contato da pele de seu corpo com o corpo da mãe, e da forma tranquilizadora que esta se coloca diante de suas angús- tias. Como consequência desse processo, constitui-se a noção de um limi-
te, entre o exterior e o interior, bem como a confiança necessária para o controle de seus orifícios, estabelecendo-se, assim, uma confiança na in- tegridade de seu envelope psíquico. Sendo assim, já nos primórdios da vida do sujeito vão surgindo formas de lidar com angústias muito primi- tivas, tais como de esvaziamento e de fragmentação. Esses registros são reativados no momento de intensa turbulência como é a adolescência, em que questões como dependência, separação, alteridade são novamente colocadas em xeque, acrescidas, então, com o reencontro com as questões edípicas, em que fica colocada em cena a necessidade da desidealização parental, requisito básico para o ingresso na brecha geracional, bem co- mo no papel de adulto.
Na clínica, são percebidas situações em que esse envelope psíqui- co, quando ameaçado, desencadeia sentimentos de angústia, em que a tônica não é de fragmentação, mas de escoamento e de esvaziamento (Anzieu, 1998). Lembro-me aqui de um filme; Aos treze, da diretora Catherine Hardwicke, que retrata com clareza essa questão que estou levantando em relação a angústia de escoamento e fragmentação, sen- tida por uma adolescente que busca ser contida por meio de cortes no corpo, como tentativa de reencontrar um continente, nem que seja pela dor provocada na pele. Recordo-me, nesse momento, de uma paciente que dizia, ao se referir aos momentos em que se cortava, que “dessa dor eu cuido”, fazendo menção ao fato de que a dor psíquica seria muito maior e intolerável.
Ao pensarmos na família nuclear da modernidade, essa era consti- tuída pelas figuras do pai, mãe e filhos, e tinha como característica uma clara demarcação entre o poder paterno e materno. Enquanto à figura paterna cabia a governabilidade do espaço público, a figura materna se ocupava do espaço privado, envolvendo-se com a prole. Dessa forma, fi- cando sob sua responsabilidade os cuidados relativos à saúde, à educação e à qualidade de vida da família.
Atualmente, o panorama se mostra diferente diante da entrada da mulher no mercado de trabalho, houve uma revolução nesse cenário, fa- zendo que a mulher passasse a ter projetos próprios não só mais exclusi- vos ao âmbito familiar, demarcando uma nova configuração nesse estabe- lecimento de papéis, tanto materno quanto paterno. Por vezes, essas alte- rações provocam uma turbulência tal que provoca nos pais sentimentos de perda e de impotência, dificultando o processo que é primordial para o adolescente, que é o confrontamento e a desidealização das figuras pa- rentais para o estabelecimento de sua subjetividade.
Crianças e adolescentes em psicoterapia 169 Gostaria de trazer uma questão, que me parece extremamente im- portante nesse momento de construção de subjetividade, que vive o ado- lescente, e que consiste nas influências que a história de seus antepas- sados podem exercer nesse campo. A questão da transmissão psíquica entre gerações, da transgeracionalidade, fala de aspectos que são repeti- dos por gerações, subsequentes na tentativa de encontrar uma possibili- dade de elaboração.
Embora a questão da transmissão psíquica entre gerações seja um tema presente também na obra de Freud, tanto em Totem e tabu (1913),
Introdução ao narcisismo (1914), bem como em Luto e melancolia (1917),
foi a partir da clínica com pacientes, sobreviventes ou descendentes do holocausto que chegavam aos consultórios, que os psicanalistas passaram a dar uma nova atenção a essas questões. Foi sendo percebido que os segredos, os traumas, as violências vividas, quando não faladas, eram transmitidas em bloco para a geração seguinte.
Revisitando o texto de Freud, Totem e Tabu (1913), percebemos que por meio da teoria da horda primeva e do comportamento dos povos pri- mitivos, o autor aborda o aspecto da origem dos preceitos morais, da reli- gião, sustentando a existência de disposições psíquicas através das gera- ções. Em Introdução ao Narcisismo (1914), Freud demarca que o sujeito é o elo de uma cadeia de transmissão, sendo beneficiário e herdeiro da mesma. Portanto, poderia ser considerado um trabalho psíquico de transmissão o processo onde o resultado é uma série de ligações psíquicas entre aparelhos psíquicos, bem como da forma como se dão as transformações operadas por essas ligações. Ao mesmo tempo, esse olhar para a transmissão aponta para as falhas na mesma, demarcando a existência de criptas, da formação de fantasmas, enfim, de um não-trabalho de transmissão, impedindo um processo de historização do sujeito.
Entendo como sendo de vital importância o tema da transmissão psíqui- ca entre gerações, na medida em que toma como vértice a constituição do psiquismo do sujeito, sendo este resultante de um processo em que interagem vários elementos, enfatizando a submissão do sujeito aos conjuntos dos quais ele procede, seja a família, o grupo, as instituições ou a massa. (Kaës 2001).
Dessa forma, o enfoque dado à questão da transmissão psíquica entre gerações é a formação do inconsciente e dos efeitos na subjetividade que, produzidos na intersubjetividade, dela derivam. Volto a enfatizar o quanto o olhar para essas questões na psicanálise e na psicoterapia de orientação analítica de crianças e adolescentes é de fundamental relevância, pois esse período demarca uma possibilidade de uma reorganização psíquica.
Sendo assim, o vértice de minha abordagem é nas dificuldades da transmissão, ou seja, quando ela se dá sem possibilidade de transforma- ção, sem a existência de espaços psíquicos entre os sujeitos, muitas vezes procurando encobrir segredos, faltas, aspectos não-simbolizados, sendo utilizados mecanismos como encriptação, forclusão ou rejeição. Isso faz com que um sujeito se constitua, tendo no seu inconsciente partes das formações inconscientes de um outro que vem habitá-lo e “persegui-lo como um fantasma” (Kaës, 2001).
Relembrando Freud em 1913, em Totem e tabu, nada do que foi retido