3.5.1. As fisionomias florestais
Grande parte da massa vegetal natural primária que medrava na bacia do Rio Verde em tempos pré-colonização foi removida. Ainda assim, é apreciável a diversidade de fisionomias vegetacionais que se encerram e que podem ser constatadas nos remanescentes originais e em ecossistemas secundários ou em vias de regeneração natural.
A bacia do Rio Verde encontra-se localizada no domínio morfoclimático tropical atlântico, muito embora na sua porção oeste possam ser constatados indicativos de transição pela ocorrência mais conspícua de variados gradientes do cerrado.
A mata latifoliada estacional semidecidual representa a categoria vegetacional predominante na maior parte da região, ocorrendo ainda em nossos tempos sobre consideráveis extensões nas escarpas mais íngremes da linha de falha principal da Serra da Mantiqueira (fotos 3.12 e 3.13). Transpostas as rupturas de declive que marcam a passagem para os compartimentos embutidos mais rebaixados, os corredores florestais dão lugar a situações fragmentárias a subsistirem nas altas encostas onde envolvem as nascentes. As condições de conservação das fisionomias florestais são espacialmente variáveis, assinalando quadros favoráveis em municípios mais próximos do sistema Mantiqueira como Itamonte, Itanhandu e Passa Quatro, e situações mais desoladoras como as áreas de atividades agropecuárias intensivas, como os municípios cafeicultores de Carmo de Minas e Soledade de Minas ou no caso da pecuária secular de Cruzília que aprofundou o desmatamento em prol das pastagens.
Entre as sub-bacias componentes da bacia do Rio Verde, a do Rio Capivari é a que apresenta o quadro mais favorável de conservação da vegetação nativa, presente de forma contínua em praticamente metade de sua área. Isso se deve ao fato da presença do Parque Nacional do Itatiaia e do Parque Estadual Serra do Papagaio constarem em seu perímetro.
As fisionomias florestais da área não são homogêneas, e as dominâncias ecológicas são variáveis. Em setores mais elevados, a dominância pode ser exercida pela araucária (Araucaria angustifolia) ou pela candeia (Eremanthus sp), a primeira aparecendo mais conspicuamente em setores de solos profundos, onde se forma a chamada floresta ombrófila mista (foto 3.14), e a segunda em ambientes de solos rasos e de considerável rochosidade. De forma geral, as araucárias são bastante corriqueiras, e chegam a formar autênticos pinheirais nas altitudes mais proeminentes. Por estes terrenos elevados e de invernos mais rigorsos
também são recorrentes, embora em menor abundância em relação às araucárias, pinheiros do gênero Podocarpus, de um fantasmagórico inconfundível.
Em áreas mais baixas e fundos de vale, é distinta a dominância ecológica da embaúba (Cecropia sp), espécie pioneira extremamente comum em áreas alteradas em regeneração. Outras espécies pioneiras aparecem nesses ambientes de forma corriqueira, como o angico (Anadenanthera sp), a quaresmeira (Tebouchia sp) – comum em bordas de fragmentos florestais – o pau ferro (Caesalpinia ferrea), o ingaí (Inga laurina) e o ingazeiro (Inga vera), esta típica em mata ciliar, Euterpe edulis e outras palmáceas (em profusão no Parque Estadual Nova Baden em Lambari, onde foi reintroduzida), a própria Araucaria, entre outras.
Os grupos ecológicos superiores ocorrem mais denunciadamente em áreas de menor pressão antrópica, destacadamente nas unidades de conservação e grotões e encostas íngremes e escarpadas da Serra da Mantiqueira. Espécies como o jequitibá-rosa (Cariniana legalis) e jacarandá do gênero Dalbergia ainda podem ser encontrados.
Foto 3.12. Extensão de mata latifoliada em continuidade adjacente ao Parque Nacional do Itatiaia
Foto 3.13. Mata de encosta montana e alto montana em corredor na vertente oeste da Serra do
Papagaio; nas cumeadas ocorrem os campos de altitude (Baependi, MG).
Foto 3.14. Floresta ombrófila mista com araucárias (Araucaria angustifolia) conspícuas em Lambari
3.5.2. As fisionomias abertas: campos e cerrados
As elevações topográficas determinam a ocorrência de formações herbáceas na forma de campos de altitude. Tomando por referência a localização geográfica, Romariz (1974) subdivide as vegetações herbáceas que partilham da flora brasileira em campos meridionais (campos gerais do Paraná, campos da Campanha Gaúcha e campos de vacaria), campos da Hiléia (campos de várzea e outros enclaves ocorrentes na região amazônica) e campos serranos, cuja ocorrência está restrita aos planaltos elevados e que a autora citada atribui tipicidade máxima no maciço do Itatiaia.
O sistema de classificação proposto pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) (1992) não faz menção direta a fisionomias de altitude, reservando a designação
campo a fisionomias de caráter antrópico. A mesma classificação reconhece também a
chamada savana gramíneo-lenhosa, cujo aspecto natural é dado por gramados contínuos entremeados por plantas lenhosas raquíticas.
Ferri (1980) dissocia as formações campestres em campos rupestres e campos de
altitude, uma vez que as formações rupestres bem podem medrar em altitudes extremamente
baixas condicionadas a biótopos rochosos. Coube a Semir (1981) propor diferenciação entre os Complexos Rupestres de Quartzito e os Complexos Rupestres de Granito, conforme o substrato em que os mesmos ocorrem.
Nos altos cumes da Mantiqueira ocorrem os chamados complexos rupestres de granito (e também em gnaisses e migmatitos, comumente), que aparecem na Serra do Papagaio e nos altos cumes da Serra Fina e Pedra da Mina. Tais complexos vegetacionais também são aqueles referentes aos campos de altitude do Planalto de Campos do Jordão. Na região do Planalto do Alto Rio Grande aparecem os campos rupestres em quartzito vinculados às cristas quartzíticas que atravessam a média bacia do Rio Verde no sentido NE-SW, distintos dos ecossistemas em rochas graníticas tanto no que tange à fisionomia como as espécies ocorrentes. Benites et al. (2003) propõem o uso do termo Complexo Rupestre de Altitude, bastante providencial para diferenciar as formações rupestres das áreas elevadas dos demais rupestrebiomas que aparecem em áreas mais baixas condicionados a fatores de ordem litoestrutural, acatando a diferenciação proposta por Semir (op cit.) e reconhecendo diferenças notórias entre as formações que ocorrem em gnaisses e granitos pré-cambrianos e aquelas típicas das rochas supracrustais proterozóicas, destacadamente o quartzito.
Nos complexos rupestres em quartzito a vegetação se desenvolve predominantemente condicionada às diáclases onde uma vegetação lenhosa anã incide seu sistema radicular e
onde brotam tufos de gramíneas e cactáceas (fotos 3.15 e 3.16). Estas formações campestres ocorrem ao longo da faixa quartzítica de altitudes pouco superiores a 1000 metros até aproximadamente 1500 metros, estando assim muito mais condicionadas pela litologia do que pela elevação topográfica.
No setor oeste da bacia do Rio Verde, a partir da região de Cambuquira-São Thomé das Letras-Três Corações transpostas às cristas quartzíticas, começam a ocorrer manchas de campo cerrado distalmente aos quartzitos e cerrado strictu sensu em setores de solos mais profundos, fisionomias estas intercaladas com fragmentos de mata latifoliada, além de uma mancha de cerradão localizada no território municipal de Três Corações em área de LATOSSOLO VERMELHO AMARELO Distrófico excessivamente ferralitizado. Tais elementos indicam uma grande faixa de tensão ecológica definindo o corredor transicional para o cerrado, que tanto mais se tipifica quanto mais se interioriza.
Nos altos cumes do Itatiaia ocorre uma vegetação campestre distinta daquela que medra em litologia quartzítica, e mesmo daquelas que são verificadas nas demais litologias pré-cambrianas da região, encerrando um significativo número de endemismos, característica comum nos ambientes campestres.
Foto 3.15. Fisionomia dos complexos rupestres de altitude em quartzito: forte relação entre a
Foto 3.16. Fisionomia dos complexos rupestres de altitude em quartzito (Conceição do Rio Verde,
MG).