2.2 Os quadros vivos
2.2.3 Assuero e Ester de Nicolas Poussin
O francês Nicolas Poussin (1594-1665) foi o maior dos mestres
“acadêmicos”112. Assuero e Ester apresenta tema bíblico referente ao velho
testamento. A rainha Ester, esposa de Assuero, rei da Pérsia, vai ao rei para pedir pelos judeus que moravam na Pérsia. O rei não sabia que sua esposa era judia.
Observamos neste quadro dois blocos de personagens: à direita o rei acompanhado por seus súditos e à esquerda Ester com seus auxiliadores, que a
112 “A arte desenvolvera-se a tal ponto que os artistas inevitavelmente ficaram conscientes das opções de métodos que se lhes apresentavam. E, uma vez que aceitemos isso, estamos livres para admirar o modo como Reni executou o seu programa de beleza, como descartou deliberadamente qualquer detalhe na natureza que considera-se baixo ou feio ou inadequado para as suas ideias grandiosas, e como sua busca de formas mais perfeitas e mais ideais do que a realidade se viu recompensada pelo sucesso. Foram Annibale Carracci, Reni e seus seguidores que formularam o programa de natureza idealizada, de natureza “embelezada”, segundo cânones estabelecidos pelas estátuas clássicas. Chamamos-lhe programa neoclássico ou “acadêmico”, para distingui-lo da arte clássica, a qual não está vinculada a nenhum programa. É improvável que as disputas em torno dele venham cedo a cessar, mas ninguém nega que, entre os seus defensores, grandes mestres nos ofereceram o vislumbre de um mundo de pureza e esplendor, sem o qual seríamos todos mais pobres”. (GOMBRICH, 1999, p. 394)
socorrem quando ela desmaia em frente ao rei. O ambiente é suntuoso e clássico com as colunas e estátuas.
Era a conhecida tela de Poussin, Assuero e Ester. Dessa vez Luciane refletira melhor. Usou de todos os seus encantos ao representar a rainha desmaiando e inteligentemente escolhera, para os papéis das jovens que a rodeavam e a amparavam, somente moças bonitas, bem-feitas, mas entre as quais não havia absolutamente nenhuma que pudesse se equiparar a ela. Ottilie ficou fora deste quadro e de todos os outros. Para representar o rei, semelhante a Zeus, sentado em um trono de ouro, escolhera o homem mais robusto e mais belo do grupo, dando a esse quadro uma perfeição realmente incomparável.113 (GOETHE, 1998a, p. 171)
Nas três obras, encenadas como quadros vivos, as personagens principais da obra pictórica estão em posição desfavorável, em pedido de clemência, necessitadas de socorro. As mãos retratadas nessas obras ora se estendem para apaziguar, ora estão estendidas para pedir ajuda. As personagens pictóricas dessas obras, que podem ser consideradas como parte do lado privilegiado, aqueles que podem oferecer auxílio, não exercem força extrema ou não impõem terror ou temor diante dos que estão em situação desfavorável.
As quatro personagens do romance também têm necessidade de auxílio. Precisam ser orientadas e ajudadas, pois não sabem para onde ir não sabem
113 “Es war die bekannte Vorstellung von Poussin: Ahasverus und Esther. Diesmal hatte sich Luciane besser bedacht. Sie entwickelte in der ohnmächtig hingesunkenen Königin alle ihre Reize und hatte sich klugerweise zu den umgebenden, unterstützenden Mädchen lauter hübsche, wohlgebildete Figuren ausgesucht, worunter sich jedoch keine mit ihr auch nur im mindesten messen konnte. Ottilie blieb von diesem Bilde wie von den übrigen ausgeschlossen. Auf den goldnen Thron hatten sie, um den Zeus gleichen König vorzustellen, den rüstigsten und schönsten Mann der Gesellschaft gewählt, sodaß dieses Bild wirklich eine unvergleichliche Vollkommenheit gewann”. (GOETHE, 1998b, p. 160).
como resolver aquilo que saiu do controle após o casal, Eduard e Charlotte, ter recebido seus amigos, Ottilie e o Capitão.
No momento da representação o tempo para; só existe o tempo do quadro. O espectador se torna parte do quadro. Uma função possível para a inserção de quadros vivos dentro do romance pode ser a de pausar a narrativa e abstrair de toda preocupação e tensão vivida pelas personagens principais do romance. Ou ainda, sair do centro de tensão da ação e assim a observá-la com olhar mais experimentado e atento.
“O sentido (ou função) de um elemento da obra é a sua possibilidade de entrar em correlação com outros elementos desta obra e com a obra inteira”. (TODOROV, 1972, p. 210). Temos por vários momentos n’As afinidades eletivas a admiração de cenas narradas como se fossem quadros, já transcrevemos três desses exemplos nesta tese. Temos ainda a contemplação do arquiteto diante do caixão de Ottilie:
Já uma vez estivera assim parado diante de Belisário. Agora involuntariamente ficou na mesma posição; e dessa vez quão natural ela era! Aqui também uma certa dignidade indescritível projetava-se de sua grandeza; e se naquela ocasião lastimavam-se, como irreparavelmente perdidos, a coragem, a inteligência, o poder, a reputação e a fortuna de um homem; se não se apreciavam, ao contrário, reprovavam-se e repeliam-reprovavam-se as qualidades imprescindíveis a uma nação, a um príncipe, em momentos decisivos, aqui, por sua vez, havia muitas outras virtudes implícitas, que a natureza fez surgir de suas naturezas fecundas, aniquilando-as logo em seguida por sua mão indiferente; virtudes raras, belas, delicadas, cuja influência pacífica o mundo carente, em todos os tempos, recebe com deliciosa satisfação e sente a sua
ausência com saudosa tristeza. 114 (GOETHE, 1998a, p. 262-263).
Outra forma de enquadramento é o registro feito pelo Capitão a partir de suas medições e estudos das áreas das propriedades de Eduard:
[...] Eduard viu claramente as suas propriedades irem surgindo no papel como uma nova criação. Parecia-lhe que só agora começava a conhecê-las, que só agora lhe pertenciam de fato.115 (GOETHE, 1998a, p. 40).
Eduard só tem a dimensão das margens de suas propriedades quando o Capitão as desenha em um papel. A visualização do real enquadrado em um desenho técnico causa admiração.
O grupo que promove as noites com as encenações dos quadros vivos e também assiste e aplaude, tem a presença forte da arte. É interessante pensar que os atores estão ali estáticos, passando toda a emoção que captam do pictórico. “O quadro é silêncio e é por meio do olho e do pensamento que o
114 “Schon einmal hatte er so vor Belisar gestanden. Unwillkürlich geriet er jetzt in die gleiche Stellung; und wie natürlich war sie auch diesmal! Auch hier war etwas unschätzbar Würdiges von seiner Höhe herabgestürzt; und wenn dort Tapferkeit, Klugheit, Macht, Rang und Vermögen in einem Manne als unwiederbringlich verloren bedauert wurden, wenn Eigenschaften, die der Nation, dem Fürsten in entscheidenden Momenten unentbehrlich sind, nicht geschätzt, vielmehr verworfen und ausgestoßen worden, so waren hier soviel andere stille Tugenden, von der Natur erst kurz aus ihren gehaltreichen Tiefen hervorgerufen, durch ihre gleichgültige Hand schnell wieder ausgetilgt, seltene, schöne, liebenswürdige Tugenden, deren friedliche Einwirkung die bedürftige Welt zu jeder Zeit mit wonnevollem Genügen umfängt und mit sehnsüchtiger Trauer vermißt”. (GOETHE, 1998b, p. 258)
115 “Eduard sah seine Besitzungen auf das deutlichste aus dem Papier wie eine neue Schöpfung hervorwachsen. Er glaubte sie jetzt erst kennenzulernen, sie schienen ihm jetzt erst recht zu gehören”. (GOETHE, 1998b, p. 22).
movimento verdadeiro se manifesta. É uma fala que se movimenta com sua própria língua”. (GONÇALVES, 1994, p. 249). Sendo que o quadro num só momento narra uma história e instiga a imaginação do admirador de arte, isso causa reação no espectador.
A reação do público também é descrita: a apresentação real de algo pictórico provoca e emociona aos visitantes.
[...] suscitando um fascínio geral. Não paravam de bisar, e o desejo muito natural de olhar de frente uma criatura assim tão bela, vista o suficiente de costas, cresceu tanto, que um engraçadinho impaciente exclamou bem alto as palavras que, às vezes, se costuma escrever no final de uma página:
Tournez, s’il vous plait!, suscitando a aprovação geral.116
(GOETHE, 1998a, p. 172).
Quanto mais próximos ficamos de determinadas obras pictóricas, mais penetramos em sua esfera. A encenação traz à presença dos espectadores um momento do passado que imita a realidade. Na representação dos quadros vivos, a narrativa literária imita a arte pictórica. Nos limites do quadro encenado está a cópia da cópia. Consequentemente, congela-se a imagem, para que o tempo não passe, fixando-o para sempre na memória. Passemos agora à novela como narrativa enquadrada.
116 “[...] ein allgemeines Entzücken erregte. Man konnte mit dem Wiederverlangen nicht endigen, und der ganz natürliche Wunsch, einem so schönen Wesen, das man genugsam von der Rückseite gesehen, auch ins Angesicht zu schauen, nahm dergestalt überhand, daß ein lustiger, ungeduldiger Vogel die Worte, die man manchmal an das Ende einer Seite zu schreiben pflegt: "tournez s'il vous plaît", laut ausrief und eine allgemeine Beistimmung erregte”. (GOETHE, 1998b, p. 161).