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Em terra firme também ocorrem muitos naufrágios, recobrar-se e restabelecer-se deles, o mais rápido possível, é belo e louvável. (GOETHE).117

Pretendemos nesta parte analisar a novela, narrativa menor, dentro do romance, narrativa maior, e apontar também a relação que se estabelece entre

essas duas narrativas. A novela – Die wunderlichen Nachbarskinder (“Os

vizinhos singulares”) – indica como se realizará o desfecho do romance – As afinidades eletivas – de forma espelhada.

Novella, Nouvelle, Novelle, Novela, nas literaturas de língua italiana,

francesa, alemã e portuguesa, denomina um acontecimento que não é habitual, aquilo que não é comum. Ela é formada por um acontecimento central que gera um ponto de viragem na linha narrativa e em torno dele desenrola-se uma ação que a partir daí se fecha.

A novela chega na Alemanha na Idade Média ainda em versos. Somente

em 1795, com a obra Unterhaltungen deutscher Ausgewanderten (Conversas

entre emigrados alemães) de Johann Wolfgang von Goethe, é que temos a

novela no modelo de Decamerone (1348-1353) de Boccaccio (1313-1375)

(VOLOBUEF, 1999, p. 51).

                                                                                                                117  (1998a, p. 205)  

[...] criou-se na Europa uma maneira original de enquadrar as novelas, maneira na qual a narração é um fim em si mesma. Falo aqui do Decameron. O Decameron, assim como sua posteridade literária, é ainda muito diferente do romance europeu dos séculos XVIII e XIX porque os mesmos personagens não ligam os episódios particulares. Mas ainda: aqui não encontramos personagens; a atenção concentra-se sobre a ação, o agente é a carta do jogo que permite que a trama se desenvolva. (CHKLOVSKI, 1978, p. 221).

Em conversa com Eckermann, no dia 25 de janeiro de 1827, Goethe

discorre sobre a sua obra Novela (1828), que assim é intitulada e comparada

com a novela que faz parte d’As afinidades eletivas.

‘Sabe o que mais? Intitulemo-la simplesmente Novela’, decidiu ele, ‘pois o que é afinal uma novela senão um acontecimento excepcional? Essa é a definição própria, e muito do que circula pela Alemanha sob essa denominação, não é novela alguma, é apenas um conto ou o que quer que seja. É com aquela acepção primitiva de um fato extraordinário, que se apresenta também nas Afinidades Eletivas’. (ECKERMANN, 2004, p. 176).

Para Aldous Leonard Huxley (1894-1963), “Pode-se fazer o que se puder do assunto. Os cânones da novela não são estabelecidos pelos deuses.

Tudo que é preciso é que seja interessante” (ECKERMANN, 2004, p. 176)118.

Desde Boccaccio até Goethe, o que observamos é que o principal para que uma narrativa seja denominada novela está na ação. O foco é a ação e ela deve ser incrível.

Lucien Dällenbach, no capítulo “Intertexto e Autotexto”119, discorre

sobre a novela e o romance.                                                                                                                

118 nota do editor.

A [...] novela inserida ‘Die wunderlichen Nachbarskinder’. Novela-tipo – como o testemunham os seus caracteres genéricos, o seu subtítulo (‘Novelle’) e uma declaração do próprio Goethe [a Eckermann] – esta última não é exemplar sem intenção: antítese temática, mas também estrutural da narrativa que engloba, ela afirma-a romance afirmando-se

novela, e permite-lhe dialeticamente merecer também o seu subtítulo: Die Wahlverwandtschaften, ‘Um Romance’. (DÄLLENBACH, 1979, p. 69-70, grifo do autor).

Os subtítulos dados – “novela” e “romance” –indicam como Goethe via

tais narrativas. Para Walter Benjamin, a novela n’As afinidades eletivas é

apresentada como um exemplar puro do seu gênero, o que reforça a narrativa maior como romance.

Goethe quis colocar a novela como exemplar – não menos, mas em certo sentido até mais do que o romance. Pois, embora o acontecimento relatado seja concebido no próprio romance como real, ainda assim a narrativa é denominada novela. Ela deve valer como ‘Novela’ de maneira tão categórica quanto a obra principal deve valer como ‘Um romance’. (BENJAMIN, 2009, p. 75).

Massaud Moisés, em seu Dicionário de termos literários, define o

verbete romance quanto à sua estrutura, contrapondo-o à estrutura da novela:

[...] o romance apresenta menos células dramáticas que a novela: esta pode estender-se para além do derradeiro episódio, ao passo que o romance termina completamente na última cena. Na perspectiva da macroestrutura, a novela é aberta no epílogo, enquanto o romance é fechado. Por outro lado, a novela se fecha para a vida, como se a pusesse entre

parênteses, ao passo que o romance estabelece com a realidade um permanente intercâmbio. De onde a polivalência do romance e um dinamismo análogos à vida real, e a petrificação da novela”. (MOISES, 1974, p. 452, grifo nosso).

Usamos a definição de Massaud Moisés, em especial a partir do trecho destacado, para abordar a novela que faz parte d’As afinidades eletivas. “Os vizinhos singulares” é sim um parênteses dentro do romance, mas ao mesmo tempo é recebida pelas personagens como um desejo de vida. Essa novela não se fecha para a vida. Ela é antes algo já vivido pelo Capitão e após a sua narração é uma intenção impossível para Charlotte. A novela convida as personagens do romance à reflexão.

A novela, na sua definição teórica, é uma obra fechada, que não estabelece conexão direta com o real ou com o possível. Nela a imaginação justifica tudo. Entretanto, o seu final é aberto e após o desfecho seria possível retomar as células que a compõem e até mesmo acrescentar novas personagens no seu novo desenrolar.

Para Walter Benjamin, As afinidades eletivas fica entre o romance e a

novela. Destacamos ao longo da análise que se segue, momentos em que o romance se aproxima da estrutura própria da novela. Contudo, dada a sua extensão, As afinidades eletivas só pode ser considerada romance.

O romance e a novela não são formas homogêneas mas, pelo contrário, formas completamente estranhas uma a outra. Por isso, não de desenvolvem simultaneamente, nem com a mesma intensidade numa mesma literatura. O romance é uma forma sincrética (pouco importa se ele é desenvolvido diretamente a partir da compilação de novelas, ou se é tornado complexo pela inclusão de descrições de costumes); a novela é uma forma fundamental, elementar (o que não

quer dizer primitiva). O romance provém da história, do relato de viagens; a novela provém do conto, da anedota. De fato, trata-se de uma diferença de princípio, determinada pela extensão da obra. (EIKHENBAUM, 1978, p. 161-162).

Como já tratado no primeiro capítulo desta tese, As afinidades eletivas

foi concebida como novela para fazer parte de Os anos de peregrinação de

Wilhelm Meister. No entanto, a elaboração se desenvolveu a ponto de tornar-se por si só um romance, composto também por narrativas menores enxertadas dentro da narrativa maior.

Encontramos relações significativas ao longo de todo o romance e nas narrativas nele enquadradas. “Podemos dizer em geral que também o enquadramento assim como o picaresco, ajudaram a integrar cada vez mais as matérias exteriores no corpo do romance” (CHKLOVSKI, 1978, p. 226). Isso é possível observar, por exemplo, do romance para a novela e da novela para o romance. As teias de ligação são percebidas antes da inserção da narrativa menor, ao longo dela e no retorno à narrativa maior para o seu desfecho.

O romance prepara a inserção da novela e a novela prepara o desfecho do romance. Dessa forma, essas narrativas encontram sentido uma na outra. O romance se reflete na novela e a novela se reflete no romance.

Podemos estabelecer muitos tipos de novelas que servem de padrão a outras ou que são antes uma maneira de introduzir uma novela em outra. O meio mais divulgado é o de contar as novelas ou contos para retardar a conclusão de uma ação qualquer. Assim, através de suas estórias, os sete vizires impedem o rei de executar seu filho; em As Mil e Uma Noites, Sheherazade retarda, com suas histórias, o momento de sua própria execução [...]. (CHKLOVSKI, 1978, p. 220).

A novela “Os vizinhos singulares” não suaviza o teor do romance. Ela apresenta seu sentido contrário e direciona-o para um desfecho disfórico. O gênero romance acolhe outras possibilidades narrativas como parte dele e isso é o que o caracteriza como tal. Sua matéria é bastante ampla; segundo Massaud Moisés, ele pode comportar tudo o que é reflexo da vida.

Todas as metamorfoses do real, todas as formas de conhecimento cabem no perímetro do romance, assim transformado numa espécie de síntese ou de superfície refletora da totalidade do mundo. Dessa conjuntura promana a sua função gnoseológica: mais conhecimento que entretenimento, o romance permite ao escritor construir um projeto ambiciosamente globalizante das multiformes experiências humanas, e ao leitor, desfrutá-lo de modo privilegiado, sem risco para a sua própria existência; o prosador conhece o mundo por meio do romance, e dá-o a conhecer ao leitor; não existe, nos quadrantes da criação literária, meio mais completo para se chegar a uma imagem totalizante do Universo”. (MOISES, 1974, p. 452).

A matéria universal como tema e a interferência de outros textos no romance também podem ser observados como característica da novela.

Portanto, “em esquema, a novela não passa duma sucessão de cenas dialogadas e cenas de movimento (estas mais raras) grudadas por trechos narrativos mais ou menos sóbrios e abstratos, exposições, observações psicológicas e morais, cartas, digressões, expansões líricas. O processo da narração é sucessivo, aditivo; a novela pode dizer-se um relato linear, cujo ritmos é determinado pelos próprios eventos, que constam dos ‘apontamentos’ verdadeiros ou fictícios de que o novelista fala de quando em quando: o ‘cronista’ obedece a Cronos” (Jacinto do Prado Coelho, Introdução ao Estudo da

Novela Camiliana, 1946, p. 525 apud MOISES, 1974, p. 364-365).

A novela funciona dentro deste romance como um espelho. Segundo Gustav Fridrich Hartlaub (1884-1963) em Zauber des Spiegels (1951), reflexo é o “fenômeno da reprodução da imagem, a característica plana, reluzente, superfície não transparente que encontra um raio de luz para refletir e produz

uma imagem daquilo que emite”.120 (HARTLAUB, 1951, p. 11, tradução

nossa).

O espelho dá-nos a única possibilidade de vermo-nos, apenas através dele somos capazes de nos olharmos nos olhos. Com isso não se separa o processo do resultado do reflexo. Isto é, a novela não deve ser enxergada apenas como resultado de uma ilustração no romance, mas também, como a narrativa menor em que se realiza o momento crucial para desencadear o desfecho do romance. Ela liga os dois mundos na sua narração. O romance se vê na novela e se reconhece para então tomar a decisão final.

A novela “Os vizinhos singulares” está inserida na segunda parte do romance, em um momento em que Charlotte e Ottilie estão sozinhas no castelo e recebem a visita do lorde inglês e de seu acompanhante. Eles estavam de passagem pelas redondezas e decidiram conhecer as propriedades do amigo Eduard. Após ter feito comentários desagradáveis às anfitriãs, o lorde, por mais

                                                                                                               

120 “Das Phänomen des Widerscheins, die Eigenschaft glatter, glänzender, nicht durchsichtiger flächen, auftreffende Lichtstralen regular zu reflektieren und so von den Dingen die sie aussenden ein Abbild zu geben”. (HARTLAUB, 1951, p. 11).

uma infelicidade, pede ao seu acompanhante que conte uma de suas histórias para entretê-las.

A intenção é tornar o ambiente mais agradável, sem suspeitar o mal que isso causaria às ouvintes. E assim se dá a narração da novela “Os vizinhos singulares”, que surpreende, pois a história já é conhecida por Charlotte. Ao final da narração, Charlotte, extremamente abalada, retira-se assim que o acompanhante do lorde termina seu relato.

A narração da novela não valoriza o passado das personagens, mas sim as relações construídas. Tais relatos situam o leitor ou informam dados que contribuem para o desenvolvimento da ação. Assim a narrativa não se alonga demais e o narrador não se perde em detalhes desnecessários para a novela.

Na novela o tempo acompanha a estrutura linear. Apesar de ter a possibilidade de narrar toda a história das personagens desde o seu nascimento, prefere fazer de maneira rápida e demorar-se nos momentos de relevância narrativa. Observamos, no trecho abaixo, a diminuta narração que aborda a infância das personagens principais.

Faremos uma apresentação de “Os vizinhos singulares” a partir dos seus pontos mais relevantes destacados em negrito.

Os protagonistas ainda crianças são prometidos em casamento:

‘Duas crianças da vizinhança, um menino e uma menina, filhos de importantes famílias, em idades equivalentes para que pudessem se casar um dia, cresciam juntos sob essa agradável perspectiva, e os pais de ambos alegravam-se com essa futura união. Contudo logo notaram que esse plano parecia fadado ao fracasso, pois manifestava-se entre essas

duas excelentes naturezas uma estranha antipatia. [...] ‘Esse relacionamento singular evidenciou-se já nas brincadeiras infantis e intensificou-se com o passar dos anos.121

(GOETHE, 1998a, p. 211).

Cada um toma seu rumo:

Em suma, parecia faltar-lhe algo e não havia nada à sua volta que fosse digno de despertar o seu ódio. Também não havia achado ninguém que fosse digno de seu amor122. (GOETHE, 1998a, p. 212).

Retorno do rapaz:

Mas agora, pela primeira vez após tanto tempo, algo a perturbava; não era ódio; tinha se tornado incapaz de odiar; mesmo aquele ódio infantil que não passava de um obscuro reconhecimento do valor íntimo, transformara-se em alegre admiração, em agradável contemplação, em amável confissão, em aproximações meio voluntárias, meio involuntárias, porém necessárias; e tudo isso era recíproco.123

(GOETHE, 1998a, p. 213).

A moça se apaixona pelo inimigo da infância:                                                                                                                

121 “Zwei Nachbarskinder von bedeutenden Häusern, Knabe und Mädchen, in verhältnismäβigem Alter um dereinst Gatten zu werden, lieβ man in dieser angenehmen Aussicht miteinander aufwachsen, und die beiderseitigen Eltern freuten sich einer künftigen Verbindung. Doch man bemerkte gar bald, daβ die Absicht zu miβlingen schien, indem sich zwieschen den beiden trefflichen Naturen ein sonderbarer Widerwille hervortat. […] Dieses wunderliche Verhältnis zeigte sich schon bei kindischen Spielen, es zeigte sich bei zunehmenden Jahren”. (GOETHE, 1998b, p. 202-203).

122 “Im ganzen schien ihr etwas zu fehlen, nichts war um sie herum, das wert gewesen ware, ihren Haβ zu erregen. Liebenswürdig hatte sie noch niemanden gefunden”. (GOETHE, 1998b, p. 204)

123 “Aber nun stand ihr zum erstenmal seit langer Zeit wieder etwas entgegen: es war nicht hassendswert, sie war des Hasses unfähig geworden; ja der kindische Haβ, der eigentlich nur ein dunkles Anerkennen des inneren Wertes gewesen, äuβerte sich nun in frohem Erstaunen, erfreulichem Betrachten, gefälligem Eingestehen, halb willigem, halb unwilligem und doch notwendigem Annahen, und das alles war wechselseitig”. (GOETHE, 1998b, p. 205)

[...] o jovem ambicioso não fazia nenhum segredo de seus sentimentos, de seus planos e intenções e comportava-se diante dela apenas como um irmão fiel, mas não carinhoso, falando somente de sua breve partida; assim o antigo espírito infantil dela pareceu despertar novamente em toda a sua maldade e violência, e, nessa fase mais elevada da vida, muniu-se de despeito para agir com maior eficiência e crueldade. Resolveu morrer para punir o rapaz, antes tão odiado e agora amado com tanta veemência, por sua indiferença, e unir-se eternamente a ele, ao menos em seu pensamento e em seu arrependimento, já que não estava destinada a possuí-lo.124 (GOETHE, 1998a, p. 214).

A moça prefere morrer:

‘Não vou atrapalhá-lo mais’, gritou ela, ‘não me verá nunca mais!’ Dizendo isso, correu para a proa do barco e atirou-se à água.125 (GOETHE, 1998a, p. 215)

O novo acontecimento:

Passar da água à terra, da morte à vida, do seio da família ao desamparo, do desespero ao deslumbramento, da indiferença à afeição, à paixão, e tudo isso num instante... a cabeça não teria forças para conceber tudo isso: explodiria ou enlouqueceria. Nesse caso, cabe ao coração a tarefa de tornar suportável uma tal surpresa”.126 (GOETHE, 1998a, p. 217).

                                                                                                               

124 “[...] der emporstrebende Jüngling gar kein Geheimnis von seinen Gesinnungen, Planen und Aussichten machte, sich nur als ein treuer und nicht einmal zärtlicher Bruder gegen sie bewies, und nun gar von seiner unmittelbaren Abreise die Rede war, so schien es, als ob ihr früher kindischer Geist mit allen seinen Tücken und Gewaltsamkeiten wieder erwachte, und sich nun auf einer höheren Lebensstufe mit Unwillen rüstete, bedeutender und verderblicher zu wirken. Sie beschloβ zu sterben, um den ehemals Gehaβten und nun so heftig Geliebten für seine Unteilnahme zu strafen und sich, indem sie ihn nicht besitzen sollte, wenigstens mit seiner Einbildungskraft, seiner Reue auf ewig zu vermählen”. (GOETHE, 1998b, p. 206-207).

125 “Ich store dich nicht weiter, rief sie: du siehst mich nicht wieder! Sie sprach’s und eilte nach dem Vorderteil des Schiffs, von da sie ins Wasser sprang”. (GOETHE, 1998b, p. 208).

126 “Sich vom Wasser zur Erde, vom Tode zum Leben, aus dem Familienkreise in eine Wildnis, aus der Verzweiflung zum Entzücken, aus der Gleichgültigkeit zur Neigung, zur Leidenschaft gefunden zu haben, alles in einem Augenblick – der Kopf wäre nicht

Benção paterna:

‘Abençoem-nos!’ Exclamaram ambos, já que todo mundo tinha emudecido de espanto. ‘Abençoem-nos!’ ressoou pela terceira vez, e quem poderia recusar essa bênção?127

(GOETHE, 1998a, p. 218).

A novela termina com a benção dos pais para o casamento, que se realiza independente dos obstáculos. “o narrador se sente livre para o fazer, sem qualquer respeito às leis da verossimilhança: num breve lapso de tempo, faz que a personagem se transfira para lugares remotos e por vezes inacessíveis” (MOISES, 1974, p. 364).

Os vizinhos têm poder para renunciar à tragédia e obter o sucesso no salvamento. Assim, o casal consegue encontrar-se renovado. Tudo se consuma, todavia, tão repentinamente, que não é possível falar de um momento, mas de uma rápida reviravolta.

Entretanto, o ‘destino’ da novela não se encontra no epílogo, e sim em cada célula. Vale dizer: as células não se acumulam para um desfecho determinado ou para solucionar um drama que se avoluma progressivamente; não existem para, mas

por si, na medida em que cumprem uma trajetória própria, posto que enquadrados num universo ficcional de que não podem escapar. (MOISES, 1974, p. 367, grifo do autor).

                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

hinreichend das zu fassen, er würde zerspringen oder sich verwirren. Hiebei muss das Herz das Beste tun, wenn eine solche Überraschung ertragen werden soll”. (GOETHE, 1998b, p. 209).

127 “Gebt uns euren Segen! Riefen beide, da alle Welt staunend verstummte. Euren Segen! ertönte es zum drittenmal, und wer hätte den versagen können?”. (GOETHE, 1998b, p. 210).

Desse modo, reflexo pode ser então transformação, isso vale sobretudo para a relação entre o romance e seu reflexo na novela. Na primeira, a surpreendente virada para o final afórico e no segundo um lento desdobramento para o desfecho trágico.

Pois nela [na novela] o mistério é a catástrofe disposta em posição central como princípio vivo da narrativa, enquanto no romance o significado da catástrofe, como aquele do acontecimento final, permanece fenomênico”. (BENJAMIN, 2009, p. 75).

O romance conhece a catástrofe só no final, quando as personagens já não têm mais chance de reagir. Contudo, a novela e o romance usam a catástrofe como ponto de mudança. Em “Os vizinhos singulares” a tentativa de suicídio pela noiva; n’As afinidades eletivas o imprevisto acidente com o afogamento do bebê. São dois momentos que envolvem a água com possibilidade de desfecho para o afogamento ou para o salvamento.

Na novela, o ambiente é claro e nítido. Ela é elaborada a partir de decisões e de soluções e não por dúvidas, incertezas e contrariedades como o romance. É com esses aspectos que ela define os acontecimentos que se seguem após sua narração no romance. A partir daí, Charlotte percebe sua situação com mais clareza.

No entanto, Ottilie parece continuar sem enxergar os seus próximos passos, apesar de ser considerada, conforme já visto anteriormente, como um “colírio para os olhos” daqueles que se aproximam dela. Ottilie agrada e acalma

os olhos das outras personagens, mas seus olhos não encontram clareza no que está diante de si. A novela não abre nenhuma nova perspectiva ou não ilumina nenhum acontecimento anterior nem posterior à sua narração para essa personagem. Daqui em diante, Ottilie se fecha cada vez mais até a sua morte. Não existe para ela o salvamento, ao contrário da noiva da novela.

Na novela – “Os vizinhos singulares” –, toda palavra está ligada a gestos. O romance – As afinidades eletivas –, em comparação, é algumas vezes mudo, pois há momentos em que as personagens não ousam falar. “Toda

palavra dita suscita o seu sentido oposto”.128 (GOETHE, 1998a, p. 162).

Contudo, a novela está presente no romance. Ela é contada como parte da ação do romance para que nele aconteça o ponto de viragem. A partir da novela, o romance é explicado e seu desenrolar é determinado. Assume uma característica de texto auto explicativo.

O final dessa novela é então o prenúncio espelhado – invertido – do final do romance e também sugere ao leitor elementos e fatos mencionados anteriormente na primeira parte d’As afinidades eletivas. Dessa forma, os prenúncios referentes à água, ao afogamento, ao salvamento são indicados na narrativa maior na sua primeira parte e voltam significativamente na narração da novela.

Na novela não temos nenhum nome próprio, pois as personagens são denominadas como: “os pais”, “duas crianças”, “o menino”, “a menina”, “um jovem”, “o rapaz”, “a bela jovem”. É como se nesses papéis pudessem ser

                                                                                                               

128 “Jedes ausgesprochene Wort erregt den Gegensinn”. (GOETHE, 1998b, p. 151) –

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