2.1 Sobre o Diário de Ottilie
2.1.1 Ottilie
É necessária uma alma muito perturbada para realmente se deixar enganar pelas miragens do rio. (BACHELARD).65
N’As afinidades eletivas, Ottilie é introduzida ao leitor por meio de informações lidas por Charlotte nas cartas recebidas do internato. As cartas são usadas para apresentar a personagem, assim como bulas que descrevem elementos químicos. O Capitão também é acrescentado ao romance por meio de cartas enviadas por ele a Eduard. Essas personagens funcionam como novos integrantes de um experimento.
Essas cartas acentuam, logo no início da narrativa, o momento adverso
de Ottilie. “A amável menina”66 (GOETHE, 1998a, p. 59), como é tratada pelo
narrador, encontra-se impotente e precisa novamente da ajuda de Charlotte. Quando era criança, após a morte de sua mãe, foi entregue aos cuidados de Charlotte. Agora, adolescente, com mais ou menos 17 anos, Ottilie está em uma situação sufocante no internato. Não consegue se descobrir e não se dispõe a mostrar nenhuma capacidade ou habilidade.
Em caligrafia, quase nenhuma outra tem a letra tão bem-feita, embora tenham traços bem mais livres; em cálculos são todas mais rápidas, e os problemas difíceis, que ela resolve bem melhor, não fizeram parte da prova. Em francês, várias a superaram, tanto em gramática como em conversação; em
65 (2002, p. 21).
história de imediato não tinha à mão nomes e datas; em geografia, percebia-se a desatenção quanto à divisão política. Para a execução musical de suas poucas e singelas melodias, não houve tempo nem tranquilidade. Em desenho, ela certamente teria ganho o prêmio; os seus esboços eram perfeitos e executados com esmero e graça. Infelizmente quis fazer algo demasiado grande e não conseguiu acabar.67
(GOETHE, 1998a, p. 56).
A formação oferecida pelo internato é bastante ampla: exatas, humanidades e habilidades artísticas. Ela não demonstra interesse pelo conhecimento oferecido e não se relaciona bem com os que com ela convivem, permanecendo fechada em si mesma. Ottilie não se enquadra ao ensino regular, comum às outras alunas da mesma etapa escolar, pois parece não ter nenhuma intenção em receber notas pelo que apreende das matérias ensinadas. Ottilie não tem ação quando se sente avaliada ou sob pressão, por isso apresenta-se despreparada para competir socialmente.
Charlotte recebe correspondências da diretora e do assistente de ensino do internato. A diretora, que prefere não se pronunciar sobre as dificuldades da aluna, diz apenas que Ottilie continua “modesta e solícita”. Quem realmente disserta sobre as atitudes e sobre o desempenho da menina é o assistente da diretora. Ele relata suas características e seu modo de pensar e de aprender em
67 “Im Schreiben hatten andere kaum so wohlgeformte Buchstaben, doch viel freiere Züge; im Rechnen waren alle schneller, und an schwierige Aufgaben, welche sie besser löst, kam es bei der Untersuchung nicht. Im Französischen überparlierten und überexponierten sie manche; in der Geschichte waren ihr Namen und Jahrzahlen nicht gleich bei der Hand; bei der Geographie vermißte man Aufmerksamkeit auf die politische Einteilung. Zum musikalischen Vortrag ihrer wenigen bescheidenen Melodien fand sich weder Zeit noch Ruhe. Im Zeichnen hätte sie gewiß den Preis davon getragen; ihre Umrisse waren rein und Ausführung bei vieler Sorgfalt geistreich. Leider hatte sie etwas zu Großes unternommen und war nicht fertig geworden”. (GOETHE, 1998b, p. 40).
oposição as colegas de turma. “[...] ela não aprende como alguém que precisa ser educado, mas como quem pretende educar; não como aluna, mas como
futura mestra”.68 (GOETHE, 1998a, p. 44). Essa sentença prenuncia o
desenvolvimento que Ottilie manifestará ao longo do romance. O olhar do professor assistente a diferencia das outras alunas, não de maneira pejorativa, mas elevando-a.
Isso de fato não acontece no internato, pois ela não consegue as notas necessárias nas disciplinas. Identifica-se com as matérias artísticas, em que pode usar sua imaginação livre e naturalmente, mas não tem êxito nem mesmo nessas avaliações. Segundo o assistente, isso se deve ora à falta de agilidade, ora à falta de capacidade. O assistente adverte o leitor de que pode aguardá-la e atentar para ela, pois Ottilie o surpreenderá no decorrer da narrativa. Ainda que só consigamos observar sua inabilidade diante de testes práticos, de ações reflexivas e de convívio social, Ottilie mostra-se indefesa sob qualquer situação e despreparada para agir em momentos que precisa devolver respostas rápidas diante do imprevisto.
Ottilie é uma figura notável no romance, principalmente no que se refere a sua beleza. Ela é a concretização do ideal masculino, mais do que qualquer outra personagem feminina. Desperta o interesse de Eduard, do Capitão, do arquiteto, do assistente da diretora, do noivo de Luciane, que é filha de Charlotte e rival de Ottilie.
68 “[…] sie lernt nicht als eine, die erzogen werden soll, sondern als eine, die erziehen will; nicht als Schülerin, sondern als künftige Lehrerin”. (GOETHE, 1998b, p. 27).
[...] embora Ottilie se vestisse de maneira muito simples, ela continuava sendo – ou ao menos assim parecia – a mais bela para os homens. Uma atração suave os reunia a sua volta, estivesse ela, nos grandes salões, em primeiro ou em último lugar; até o próprio noivo de Luciane conversava frequentemente com ela, chegando mesmo a pedir os seus conselhos e a sua cooperação em um assunto qualquer que o estivesse preocupando.69 (GOETHE, 1998a, p. 166).
Ottilie é, especialmente para os homens, uma companhia interessante. Aqui, ela também exerce a função daquela que ensina, apesar de ser silenciosa ou até mesmo calada, como aponta o assistente da diretora. Sua presença efetua mudanças no comportamento dos homens: Eduard e o Capitão tornam-se mais pontuais e envolvidos nas atividades realizadas em grupo, seja no castelo, seja nos passeios.
“Na cultura grega, de modo particular, beleza fora do comum sempre assustava”. (BRANDÃO, 2010, p. 182). Ottilie provoca, involuntariamente, o desprezo ou despeito por parte das personagens femininas, como a diretora do internato, a Baronesa e Luciane.
[...] em sua relação com Ottilie, porém, [Luciane] mostrava sempre uma amargura autêntica. Via com desprezo a atividade tranquila e ininterrupta da boa menina, admirada e enaltecida por todos [...].70 (GOETHE, 1998a, p. 166).
69 “denn obgleich Ottilie sehr einfach gekleidet ging, so war sie doch, oder so schien sie wenigstens immer den Männern die schönste. Ein sanftes Anziehen versammelte alle Männer um sie her, sie mochte sich in den großen Räumen am ersten oder am letzten Platze befinden, ja der Bräutigam Lucianens selbst unterhielt sich oft mit ihr, und zwar um so mehr, als er in einer Angelegenheit die ihn beschäftigte, ihren Rat, ihre Mitwirkung verlangte”. (GOETHE, 1998b, p. 155).
70 “[...] aber eine wahrhafte Bitterkeit hatte sich in ihrem Verhältnis zu Ottilien erzeugt. Auf die ruhige ununterbrochene Tätigkeit des lieben Kindes, die von jedermann bemerkt und gepriesen wurde [...]”. (GOETHE, 1998b, p. 154).
Sobre Ottilie, como já foi dito, a diretora não quer se pronunciar. Ela demonstra irritação diante das características da aluna. A Baronesa a percebe como uma rival perigosa ao observar o modo como os homens se distraem com ela e como a admiram.
Da conversa com Goethe, em 22 de outubro de 1828, Eckermann anota:
Hoje à mesa, falando-se em mulheres, Goethe expressou-se com encanto. ‘As mulheres são salvas de prata, nas quais colocamos maçãs de ouro. Minha ideia sobre as mulheres não abstrai da realidade, é congênita ou formada em mim sabe Deus como. Os caráteres femininos que representei em meus livros são por isso todos bem sucedidos, e melhores do que os encontrados na vida real. (ECKERMANN, 2004, p. 259).
Ottilie não é apenas melhor do que toda mulher real, é a personagem
idealizada de Goethe, a mulher perfeita. É a moça preferida 71, que representa o
modelo ideal. Ottilie é referida pelo narrador como das Kind, substantivo
neutro que significa “criança”, mas é também usado para designar moças. Além disso, esse termo pode ser relacionado com algo de infantil do caráter de Eduard, como conta o narrador: “Eduard tinha conservado, apesar dos anos
decorridos, algo de infantil, que condizia bem com a juventude de Ottilie”.72
(GOETHE, 1998a, p. 67).
É interessante lembrar que Ottilie vem para esse convívio também para ajudar na organização doméstica. Ela cumpre funções dentro do castelo e na área do jardim. Ela tem a liberdade de interagir tanto no ambiente feminino como no ambiente masculino, enquanto Charlotte pertence apenas ao interior
71Lieblingskind.
72 “Eduard hatte bei zunehmenden Jahren immer etwas Kindliches behalten, das der Jugend Ottiliens besonders zusagte”. (GOETHE, 1998b, p. 52).
do castelo, área delimitada e fechada em quatro paredes. Os homens cuidam da área externa, que é mensurada pelas fronteiras das propriedades, e, consequentemente, aproveitam espaços mais extensos, e passam a maior parte do dia ao ar livre. Tais características pontuam as funções masculinas e femininas na época do romance.
Em relação a Eduard, Ottilie preocupa-se em agir de maneira a agradá-lo, atentando para os seus gostos e preferências. Ele a vê, depois de sua morte, como um anjo da guarda e, no final da narrativa, eleva-a à posição de santa.
Em relação a Ottilie, Charlotte se coloca como mãe e como amiga. Sente-se na obrigação de direcionar a sua vida preocupando-se com o seu futuro, mas pensa também no destino de seu casamento. Em relação à Charlotte, Ottilie é denominada como sobrinha, filha adotiva e amiga, desde o início até o final. Charlotte não muda seu tratamento nem seu sentimento por Ottilie. Até mesmo quando quer distanciá-la de Eduard ou após a morte do bebê.
O Capitão admira a beleza física de Ottilie. Contudo, a ligação que Eduard e Charlotte planejaram não ocorre entre essas duas personagens. Eles não estabelecem, em geral, nenhuma relação significativa. Eduard e Charlotte convidam Ottilie para participar de suas vidas, juntamente com o Capitão. Esperavam que ela e o Capitão se identificassem e dali surgisse uma relação amorosa. A relação resultante de afinidades eletivas é oposta à escolha racional feita inicialmente. Segundo o próprio título, Wahlverwandtschaften, como já foi tratado, é uma questão química de identidade com o outro. É uma escolha livre e não uma escolha racional.
Ottilie é uma personagem complexa, e, ainda que possua o lado formoso e inocente, é obscura e misteriosa. Ela vai contra as convenções morais e sociais, desacata o amor materno e a gratidão que sentia por Charlotte e se desliga dessa relação passando por cima de sua formação de boa moça. Quando chega do internato, ajoelha-se aos pés de Charlotte em sinal de respeito. Pouco tempo depois, seu amor por Eduard é muito maior do que a consideração inicialmente demonstrada a Charlotte. Ottilie cria seu próprio caminho. Não apenas pelo amor adúltero, mas também ao ultrapassar os limites entre as gerações.
O narrador refere-se a Ottilie de forma amável até mesmo após a morte do bebê. Charlotte frente a tragédia de perder um filho consegue ter lucidez e ser cuidadosa com seus amigos a ponto de chamar para si a responsabilidade da morte: “Devia ter-me resolvido há mais tempo; por minhas hesitações, minha
relutância, matei esta criança”.73 (GOETHE, 1998a, p. 236). Diante da mesma
situação Ottilie, nas palavras do narrador: “Nesse momento recobra toda a sua
presença de espírito, mas isso só aumenta a sua dor. [...]”. 74 (GOETHE, 1998a,
p. 233). Ela não demonstra força interior para superar a morte do bebê, que caiu de seus braços na água.
[...] mas aqui a sua bela alma não a deixa desamparada. Olha para cima. Cai de joelhos e com ambos os braços ergue a criança enrijecida, colocando-a sobre o seu seio inocente, que por sua alvura e, infelizmente, também por sua gelidez, assemelhava-se ao mármore. Dirige para o céu os seus olhos molhados e clama por socorro de lá, onde um coração
73 “Ich hätte mich früher dazu entschließen sollen; durch mein Zaudern, mein Wiederstreben habe ich das Kind getötet”. (GOETHE, 1998b, p. 229).
74 “In dem Augenblicke kehrte ihre ganze Besonnenheit zurück, aber um desto größer ist ihr Schmerz [...]”. (GOETHE, 1998b, p. 226).
delicado espera encontrar em grande abundância o que falta em toda parte75. (GOETHE, 1998a, p. 233).
Ela não renuncia ao amor por Eduard, contudo, após a trágica morte do bebê, prefere morrer. Sente não ter mais direito a vida e, como em um retorno ao estado inicial, repete a cena da infância dormindo no colo de Charlotte.
Pela segunda vez – disse a magnífica menina, com irresistível e graciosa gravidade –, pela segunda vez me acontece a mesma coisa. Você um dia disse-me que na vida das pessoas ocorrem, com frequência, fatos parecidos, de maneira semelhante e sempre em momentos significativos. Agora acho que essa observação é verdadeira e vejo-me obrigada a fazer-lhe uma confissão. Pouco depois da morte de minha mãe, quando ainda era criança, empurrei o meu banquinho para perto de você: estava sentada no sofá como agora; minha cabeça recostada sobre seus joelhos; eu não dormia, nem velava; cochilava apenas”.76 (GOETHE, 1998a, p. 238).
O narrador demonstra, no trecho abaixo, certa ironia diante da tragédia que invade a almejada tranquilidade idílica de suas personagens. Pouco antes da morte do bebê, narra o encontro inesperado, mas desejado, entre Eduard e Ottilie:
75 “aber auch hier läßt ihr schönes Gemüt sie nicht hülflos. Sie wendet sich nach oben. Knieend sinkt sie in dem Kahne nieder und hebt das erstarrte Kind mit beiden Armen über ihrer unschuldige Brust, die an Weiße und leider auch an Kälte dem Marmor gleicht. Mit feuchtem Blick sieht sie empor und ruft Hülfe von daher, wo ein zartes Herz die größte Fülle zu finden hofft, wenn es überall mangelt”. (GOETHE, 1998b, p. 227).
76 “Zum zweitenmal – so begann das herrliche Kind mit einem unüberwindlichen anmutigen Ernst – zum zweitenmal wiederfährt mir dasselbige. Du sagtest mir einst: es begegne den Menschen in ihrem Leben oft Ähnliches auf ähnliche Weise, und immer in bedeutenden Augenblicken. Ich finde nun die Bemerkung wahr, und bin gedrungen dir ein Bekenntnis zu machen. Kurz nach meiner Mutter Tode, als ein kleines Kind, hatte ich meinen Schemel an dich gerückt: du sassest auf dem Sofa wie jetzt; mein Haupt lag auf deinen Knien, ich schlief nicht, ich wachte nicht; ich schlummerte”. (GOETHE, 1998b, p. 231).
[...] [Eduard] olhando-a agora com paixão e apertando-a fortemente em seus braços. Ela [Ottilie] o abraçou também, comprimindo-o carinhosamente contra seu peito. A esperança passou sobre as suas cabeças como uma estrela caindo do céu. Supunham, acreditavam que se pertenciam e pela primeira vez trocaram beijos ardentes, voluptuosos; separaram-se dolorosa e violentamente.77 (GOETHE, 1998a, p. 232).
Toda a ingenuidade, inocência e candura dadas a Ottilie após a morte do bebê, indicam o desejo de inocentá-la por seu descuido. As palavras do narrador relativizam o momento anterior ou existe ai uma tentativa de tirar o peso do adultério, da suposta relação incestuosa e da traição em relação a Charlotte, inocentando-a então por tudo? Como se sua beleza, sua amabilidade, seu cuidado com os amigos, sua forma tranquila de agir no cotidiano e sua pouca idade retirassem dela a responsabilidade de seus atos.
Contudo, Ottilie não é inocentada, entrega-se à morte, não se permite viver com Eduard ainda que Charlotte conceda o divórcio. Ela não suporta conviver com sua falha. No começo deste capítulo desta tese, observamos que ela não faz boas escolhas em seus testes no internato. Isso reflete-se em suas atitudes diante da vida, aqui também suas ações são insatisfatórias não tem coragem de realizar sua paixão por Eduard e não tem forças para retomar sua história.
77 “indem er sie erst leidenschaftlich anblickte und sie dann fest in seine Arme schloß. Sie umschlang ihn mit den ihrigen und drückte ihn auf das zärtlichste an ihre Brust. Die Hoffnung fuhr wie ein Stern, der vom Himmel fällt, über ihre Häupter weg. Sie wähnten, sie glaubten einander anzugehören; sie wechselten zum erstenmal entschiedene freie Küsse und trennten sich gewaltsam und schmerzlich”. (GOETHE, 1998b, p. 225).
Durante a apresentação de “quadros vivos”78, a sua personagem é a Virgem Maria. Conforme é seu desejo, apenas alguns amigos estão na plateia. Ela faz parte de um quadro vivo, somente após a partida de Luciane. Essa representação a desconcerta, pois tem consciência do sentimento adúltero que nutre por Eduard. Ao desconfiar que na plateia está presente o assistente da diretora do internato, questiona a sua figura em cena e sua situação entre seus amigos:
‘Serei capaz de revelar-lhe e confessar-lhe tudo? Quão pouco digna estou sendo, ao aparecer diante dele sob esta forma sagrada e quão estranha lhe deve parecer, com esse figurino, aquela que ele contemplou somente ao natural!’ Com uma rapidez inigualável defrontavam-se no seu íntimo sentimento e reflexão. O seu coração estava aflito, os seus olhos encheram-se de lágrimas, enquanto se esforçava para manter-se imóvel [...]. 79 (GOETHE, 1998a, p. 182).
Aqui estão relacionados simbolicamente o sagrado e o profano. No entanto, tal relação não agrada ao assistente da diretora, que de fato está na plateia, como suspeita Ottilie. Ele acaba de chegar para participar do convívio das duas mulheres. Na segunda parte da obra, Charlotte e Ottilie estão como que suspensas em relação à narrativa. O assistente toma parte nesse novo contexto, praticamente em substituição ao arquiteto que as deixa triste e enciumado, mas não pode mais adiar sua partida.
78 sobre os quadros vivos trataremos na próxima parte.
79 “[…] darfst du ihm alles bekennen und gestehen? Und wie wenig wert bist du, unter dieser heiligen Gestalt vor ihm zu erscheinen, und wie seltsam muß es ihm vorkommen, dich, die er nur natürlich gesehen, als Maske zu erblicken?' Mit einer Schnelligkeit, die keinesgleichen hat, wirkten Gefühl und Betrachtung in ihr gegeneinander. Ihr Herz war befangen, ihre Augen füllten sich mit Tränen, indem sie sich zwang, immerfort als ein starres Bild zu erscheinen”. (GOETHE, 1998b, p. 172).
Junto ao arquiteto a rotina é ativa e divertida, cercada de trabalhos artísticos, objetos de viagens, conceitos estéticos. Ele completa seus dias de forma prazerosa, sendo também muito agradável e cortês. Com a colaboração do arquiteto são elaborados os quadros vivos e a ornamentação da capela. Ele contribui também para a continuidade das construções e reformas que estão em andamento nas propriedades. Torna belo o sagrado e o profano, não os diferencia diante do seu trabalho.
O assistente dá novo tom a narrativa. É reflexivo, traz conversas longas sobre as relações humanas e não aprecia a ornamentação profana em local sagrado. Desmerece as atividades dirigidas pelo arquiteto nas propriedades.
Existem ainda as marcas das gerações que separam Eduard, Ottilie e o bebê, conforme fica expresso nas palavras de Eduard a Ottilie: “eu já plantava
árvores quando a Senhorita ainda estava no berço”. 80 (GOETHE, 1998a, p.
81). Ou ainda, como conta o narrador: “O dia e o ano em que plantou aquelas
árvores era o mesmo dia e o mesmo ano do nascimento de Ottilie”.81
(GOETHE, 1998a, p. 111). Para Eduard isso era um presságio e, segundo
Rosenfield 82 (1998, p. 269-270), é a confusão irracional e infeliz das gerações.
Um vínculo obscuro liga Ottilie a Eduard – uma geração acima –, e ao filho de Eduard – uma geração abaixo. Eduard é seu pai simbolicamente, enquanto marido de Charlotte, que a tem como filha. Por outro lado, Ottilie
80 “Ja, liebes Kind, ich pflanzte schon, da Sie noch in der Wiege lagen”80 (GOETHE, 1998b, p. 67)
81 “Der Tag, das Jahr jener Baumpflanzung ist zugleich der Tag, das Jahr von Ottiliens Geburt”. (GOETHE, 1998b, p. 99).
82 nas notas da terceira edição d’As afinidades eletivas da Editora Nova Alexandria.
assume, pelos seus gestos e cuidados, a maternidade do filho de Charlotte. Ora como a irmã mais velha, ora como mãe do filho de Eduard. Assim, desaparecem os limites nítidos, próprios das relações de parentesco, retiram-se as margens das relações socialmente estabelecidas.
Eduard representa para Ottilie um misto de amante e de figura paterna. Correspondendo a isso ela ocupa um espaço neutro e indeterminado. Ela escapa dos atributos humanos determinados pelas relações de parentesco. Quando assume a posição de criança (das Kind) na relação filial, coloca-se como um ser ainda indeterminado sexualmente. Está aí também a semelhança que seu olhar possui com o do filho de Eduard. No que diz respeito à questão da indeterminação, menciona-se a relação de identificação que Ottilie desenvolve pouco a pouco com Eduard. Quando ela faz a cópia do contrato de venda da propriedade de Eduard, sua letra modifica-se e torna-se idêntica a dele. Isso pode ser relacionado aos presságios já tratados anteriormente.
Certa vez, as quatro personagens saíram para um passeio e, como Eduard conhecia o caminho para o velho moinho, adiantou-se com Ottilie. Ao chegarem no local desejado, Eduard pediu a ela que tirasse o medalhão que lhe