1.2 As afinidades eletivas
1.2.2 Die Wahlverwandtschaften
O termo químico Wahlverwandtschaft foi empregado pela primeira vez em 1785 na tradução da obra do químico sueco Torbern Olof Bergmann,
denominada De attractionibus electivis (1775). Antes da publicação de As
afinidades eletivas, Goethe anuncia seu novo romance em 4 de setembro de
1809 no periódico Morgenblatt für gebildete Stände, direcionado ao público
culto. Goethe deixou clara a relação do título de seu romance com estudos contemporâneos de química analítica. Tal afirmação encontra-se no trecho
abaixo conforme tradução de C.G.S.M10:
Parece que o constante estudo da física induziu o autor a este título singular. Ele deve ter observado que, na física, muitas vezes, nos servimos de exemplos práticos para aproximar do alcance da ciência humana algo que esteja distante; desta maneira pretendeu também aplicar, num caso moral, uma fórmula química, sublimando-a à sua origem espiritual, tanto mais que a natureza é uma só. Através dos serenos domínios do livre arbítrio, arrastam-se, incessantemente, os vestígios da sombria e impulsiva necessidade, que somente com o auxílio de uma força superior e, decerto, não nesta vida, serão completamente apagados11. (1966, p. 26).
10 Prefácio a As afinidades eletivas na edição de 1966 da Ediouro, p. 26.
11 “Es scheint, dass den Verfasser seine fortgesetzten physikalischen Arbeiten zu diesem seltsamen Titel veranlassten. Er mochte bemerkt haben, dass man in der Naturlehre sich sehr oft ethischer Gleichnisse bedient, um etwas von dem Kreise menschlichen Wissens weit Entferntes näher heranzubringen, und so hat er auch wohl in einem sittlichen Falle eine chemische Gleichnis Rede zu ihrem geistigen Ursprunge zurückführen mögen, um so mehr, als doch überall nur eine Natur ist und auch durch das Reich der heitern Vernunftfreiheit die Spuren trüber, leidenschaftlicher Notwendigkeit sich unaufhaltsam hindurchziehen, die nur durch eine höhere Hand und
Segundo Renhard Baumgart (1980), a narrativa começa como em uma estufa, e depois torna-se claro, que essa estufa – na verdade a própria narrativa – é o grande tubo de ensaio de seu autor.
Goethe ia além de sua época, e As afinidades eletivas também. O
romance não foi aceito, nem entendido no momento de sua publicação. Os leitores o consideraram mais que uma audácia: uma análise crítica negativa do matrimônio, subversivo, imoral e pagão. Para o autor, isso não passava de mesquinharias. “Só depois de 1900 se tornou possível a amadurecida
compreensão d’As afinidades eletivas, do Divã Oriental e Ocidental e da
segunda parte do Fausto” (MARTINI, 1971, p. 231).
Para Thomas Mann, essa talvez seja a obra de Goethe mais repassada de espírito cristão. Isso porque um dos focos do romance é a tentativa da
superação das paixões por meio da disciplina consciente e da renúncia. “As
Wahlverwandtschaften são o romance da vitória moral sobre o demônio [...]”. (CARPEAUX, 2008, p. 1321).
Novas experiências eróticas inspiraram o romance Die Wahlverwandtschaften (As afinidades eletivas), história nobre e contida de um adultério meio sonhado meio realizado. As muitas digressões e delongas são capazes de cansar o leitor moderno. Mas a leitura atenta revela a necessidade estrutural mesmo daqueles capítulos: os episódios constroem a ponte entre a vida sentimental e a vida ativa dos personagens; constituem o fundo do problema
vielleicht auch nicht in diesem Leben völlig auszulöschen sind”. (GOETHE, 1809
moral, que eleva as Wahlverwandtschaften à categoria de um dos romances mais sérios da literatura universal. (CARPEAUX, 1964, p. 82).
N’As afinidades eletivas temos um romance de fatos. Sua matéria é
pautada nas relações humanas e a interferência das narrativas enquadradas acrescenta maior reflexão sobre tais temas. Walter Benjamin inicia seu ensaio
sobre As afinidades eletivas discorrendo longamente sobre o teor factual e o
teor de verdade. Nessa linha de reflexão, o casamento seria o ponto chave de análise das relações humanas nos parâmetros éticos e morais. Contudo, Benjamin observa que o objeto d’As afinidades eletivas não é o casamento, mas sim “aquelas forças que dele nascem no processo de seu declínio” (BENJAMIN, 2009, p. 21). Aí está uma matéria delimitada e separada do convívio social para análise científica do elemento humano.
O romance é dividido em duas partes, cada uma das quais com dezoito capítulos. Na primeira parte, a ação desenvolve-se no ritmo de Eduard: apaixonado, vivo, mimado e viril. Neste momento, as personagens reúnem-se, escolhem-se, apaixonam-se de maneira inesperada, segundo a química das relações. Acontecem as festas, os planos de reformas e de novas construções, como também os planos de organização de escritos e de embelezamento do cotidiano. A atividade é intensa e a ação é guiada por um impulso alegre e pleno. Cada personagem imprime sua força vivaz de acordo com o seu instinto. Na segunda parte, o foco é Ottilie e a narrativa apresenta mais fortemente características que se aproximam dessa personagem: introspectiva, obscura, misteriosa e insegura. Aqui as quatro personagens principais se afastam. Elas não têm ímpeto para seguir seus desejos, demonstram fraqueza e
indecisão. Com a notícia da gestação e da morte do bebê, que é denominado Otto e é fruto do adultério subjetivo, as personagens reagem distanciando-se do núcleo de atração entre os quatro amigos. Essas personagens romanescas assemelham-se às características próprias das personagens de novelas, na indicação de Massaud Moisés em seu Dicionário de termos literários:
Quais títeres, obedecem ao comando do escritor e a circunstâncias artificiais criadas à sua volta. Em suma: personagens planas, bidimensionais, carentes de profundidade, estáticas, monolíticas. E podem ser substituídas, regra geral, sem comprometer o todo da obra, uma vez que o novelista está voltado precipuamente para o enredo. (MOISES, 1974, p. 366-367).
“Eduard ⎯ assim denominaremos um rico barão em plena virilidade
[...]12”. (GOETHE, 1998a, p. 21), é o segundo nome da personagem, nome
escolhido em detrimento de ‘Otto’, o primeiro nome. Esse último é substantivo próprio palíndromo, pois pode ser lido da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda, sem qualquer alteração. É um nome que marca o núcleo da história, a centralidade de atração e de repulsão entre Eduard, Charlotte, Ottilie e o Capitão, que também se chama Otto. E por fim, a criança, fruto do duplo adultério subjetivo, que recebe o mesmo nome, mas não o carrega por muito tempo, por conta da morte trágica. Os nomes todos juntos figuram da seguinte forma: OTTilie, CharlOTTe, OTTo Eduard, OTTo (Capitão > Major), e o bebê OTTo.
12 “Eduard – so nennen wir einen reichen Baron im besten Mannesalter” […]. (GOETHE, 1998b, p. 3).
Nada vincula tanto o ser humano à linguagem quanto seu nome. Dificilmente haverá em qualquer outra literatura uma narrativa da extensão das Afinidades eletivas em que se encontrem tão poucos nomes. (BENJAMIN, 2009, p. 26).
No Dicionário etimológico de nomes e sobrenomes de Rosário Farâni
Mansur Guérios o radical -ot- significa “bens materiais, riqueza, patrimônio”, e por extensão: “fortuna, sorte, fidalguia, nobreza”. (GUÉRIOS, 1981, p. 192). Para o nome Ottilie, o caminho é: Otília – Odilia – Odila – Oda, que significa: “bens, riquezas (materiais)”. (GUÉRIOS, 1981, p. 189). O nome Eduard tem como significado uma função: “guarda das riquezas, dos bens”. (GUÉRIOS, 1981, p. 108). Charlotte é o feminino de Carlos que significa “homem”. “É um dos pouquíssimos nomes germânicos antigos de um só tema; contudo há quem
afirme ser abreviatura de Karalmann. Sentido primitivo: ‘viril, varonil,
vigoroso’. De uso frequentíssimo desde Carlos Magno”. (GUÉRIOS, 1981, p. 86).
É bastante significativa a relação dos nomes das personagens do romance segundo o Dicionário etimológico de nomes e sobrenomes. O material se sobrepõe ao sentimental, que fica apenas na idealização ou no desejo, mas não se concretiza. O fundamento principal dessas personagens é o que elas têm, a terra que possuem e onde estão, o título nobre que carregam e a fortuna que
Charlotte é apresentada como esposa, como mãe, como responsável por Ottilie. Ela existe no romance em decorrência de suas relações. Quanto a Eduard:
Sua irresponsabilidade, a bem dizer, sua rudeza e a expressão de desespero fugidio numa vida perdida. ‘Na disposição toda desse relacionamento’ diz Cohen, Eduard aparece ‘exatamente como se define a si mesmo’ diante de Charlotte: ‘pois na verdade eu dependo mesmo só de você!’ Ele é um joguete, certamente não para os caprichos que Charlotte de maneira alguma possui, mas para o objetivo final das afinidades eletivas, ao qual tende, a partir de todas as oscilações, a natureza central dessas afinidades com o seu centro de gravidade fixo’. (BENJAMIN, 2009, p. 25).
Nesse romance, as personagens são apresentadas aos pares, resultados de atrações químicas inevitáveis. Conforme se separam e se reagrupam, seguindo seus instintos, ocorre o jogo imprevisível de outras formas de afinidades. Como resultado de atrações químicas observamos que: Eduard e Ottilie vivem uma paixão romântica, a despeito da moral e das leis divinas; o Capitão e Charlotte apresentam o amor equilibrado e de compreensão mútua, são racionais e não se entregam ao amor; o Conde e a Baronesa são ligados por um amor comum, de instinto, conveniência e ajuste social.
Os dois primeiros casais são os elementos principais da trama, e inicialmente existem de forma alternada. Eduard e Charlotte, como casal matrimonial, são felizes e bem sucedidos. Decidem, por generosidade, receber, em sua propriedade, o amigo de Eduard, o Capitão, que não consegue uma boa colocação profissional; e a filha adotiva de Charlotte, Ottilie, que passa por
problemas no internato. Concordam, assim, que quatro seria o número ideal, dessa forma o Capitão e Ottilie formariam um novo casal.
Entretanto, nem tudo pode ser tão planejado. Respondendo às forças dos acontecimentos, ocorrem mudanças nesses relacionamentos. Elas não são explícitas, mas profundas. As personagens são influenciadas entre si e assim ocorre o duplo adultério.
O terceiro casal, formado pelo Conde e pela Baronesa, visita seus amigos por duas vezes no decorrer da narrativa. A primeira visita acontece na primeira parte, pouco tempo depois de Ottilie juntar-se ao grupo. Aqui, Charlotte preocupa-se em não expor Ottilie à verdade sobre a relação adúltera do casal. Para resolver isso Charlotte e Eduard decidem separar homens e mulheres em alas opostas do castelo. Assim, cada um, supostamente, dormiria em seu quarto.
Mittler, que estava nas propriedades do casal quando os visitantes chegaram, recusa-se a ocupar o mesmo espaço que esse casal. Repudia a conduta do Conde e da Baronesa. Estar com eles poderia sinalizar um futuro
desfavorável. Mittler“apesar de sua conduta autossuficiente, [apresenta] traços
desse medo verdadeiramente supersticioso perante sinais de mau agouro. (BENJAMIN, 2009, p. 23). Ao saber da chegada do casal adúltero, Mittler enraivece-se:
Uma má estrela paira sobre mim sempre que procuro descansar e distrair-me! Mas por que contrario o meu caráter? Não devia ter vindo, e agora estão me expulsando, pois não quero ficar com aqueles dois sob o mesmo teto; e tomem cuidado, eles só trazem desgraças! Esses seres
parecem o fermento, que se propaga pelo contágio.13 (GOETHE, 1998a, p. 83-84).
Para Benjamin a superstição não é própria das pessoas cultas, dessa forma as outras personagens não se submetem a tais pensamentos desfavoráveis. Eduard, por exemplo, tem uma inclinação a presságios favoráveis. Ele se prende a sinais, mas esses são livres de superstição.
A superstição faz parte da essência humana e, se pensamos poder bani-la por completo, há-de refugiar-se nos mais pequenos espaços, nos recantos mais estranhos, para voltar a sair de súbito, logo que se ache com força suficiente. (GOETHE, 2000, p. 228)
Importa ressaltar que, embora a situação sinalize um desenrolar negativo, as personagens principais preferem acreditar em possibilidades positivas e de final favorável aos seus desejos.
Na segunda visita, o Conde e a Baronesa chegam juntos e estão tranquilos e realizados. O falecimento da esposa do Conde permite então que em breve os dois oficializem a relação. Neste momento, tanto Charlotte como Ottilie sentem-se esperançosas diante de suas expectativas para suas futuras uniões. O casal chega e compõe o momento em que são feitas as produções e encenações dos quadros vivos, o que acontece por sugestão do Conde.
Para Walter Benjamin o ponto principal dessa última relação é a sua nulidade.
13 “Schwebt doch immer ein Unstern über mir, sobald ich einmal ruhen und mir wohltun will! Aber warum gehe ich aus meinem Charakter heraus! Ich hätte nicht kommen sollen, und nun werd’ ich vertrieben. Denn mit jenen will ich nicht unter einem Dache bleiben; und nehmt euch in acht: sie bringen nichts als Unheil! Ihr Wesen ist wie ein Sauerteig, der seine Ansteckung fortpflanzt”. (GOETHE, 1998b, p. 70).
Isso se comprova justamente no fato de que eles não estão conscientes nem da natureza moral de seu presente relacionamento nem da natureza jurídica daqueles relacionamentos que abandonaram. (BENJAMIN, 2009, p. 21).
O Conde e a Baronesa parecem não se importar com tudo o que os cerca, e simplesmente colocam suas forças e expectativas num futuro em comum. Contudo, executam ações que contribuem com a permanência do casamento de Eduard e de Charlotte. A ação do Conde de indicar ao Capitão um novo posto de trabalho na corte é voluntária, mas contribui para o seu afastamento de Charlotte. A Baronesa indica algumas maneiras de afastar Ottilie das propriedades de Eduard. Aqui, no entanto, não existe êxito, mesmo que a paixão de Eduard seja nítida. A Baronesa percebe o perigo que Ottilie representa para o casamento de seus amigos.
A Baronesa não só possui terras produtivas como é também alguém que realiza seus intentos amorosos. O Conde e a Baronesa optam por viver a paixão e renunciam somente às suas situações anteriores que consideram indesejáveis.
E por mais que se fale de propriedade rural, jamais se menciona a semeadura ou se toca em negócios que sirvam, não ao ornamento, mas sim ao sustento. A única alusão neste sentido – a previsão da colheita no vinhedo – conduz do cenário da ação à propriedade da baronesa. (BENJAMIN, 2009, p. 23).
As quatro personagens principais movem-se alheias às suas vontades. Parecem não ter força própria. São observadas em suas propriedades (rurais),
mas não plantam nem colhem dessa terra, nada além de flores, tanto para festas como para funerais.
Na construção da ação apresentam-se reiterados Leitmotive compostos
por objetos que fazem sentido no decorrer da narrativa. Um exemplo de Leitmotiv n’As afinidades eletivas é a taça decorada com as letras “O” “E”, que significa originalmente “Otto Eduard”, mas o Barão prefere, em um novo enquadramento, ler ali “Ottilie” e “Eduard”. Ele questiona seu futuro com Ottilie e mensura a realidade a partir de sinais ilusórios, o que pode ser percebido no trecho que segue:
Tantos presságios consoladores, tantos sinais propícios fortaleceram-me a crença, a ilusão de que Ottilie poderia ser minha. Uma taça gravada com as nossas iniciais, atirada ao ar naquele dia do lançamento da pedra fundamental, não se despedaçou, foi apanhada a tempo e está novamente em minhas mãos. ‘Quero’, exclamei neste lugar ermo, onde passei tantas horas de incerteza, ‘eu mesmo me colocar no lugar da taça, como um símbolo, para saber se a nossa união é possível ou não. Irei para guerra [...].14 (GOETHE, 1998a, p. 223).
Nesse trecho, temos não só menção à taça, mas também a ideia de repetição desse objeto no decorrer do romance. Do início ao fim, ela é bastante significativa para Eduard. Tanto ao notar a coincidência de suas iniciais com a
14 “So manche tröstliche Ahnung, so manches heitere Zeichen hatte mich in dem Glauben, in dem Wahn bestärkt, Ottilie könne die Meine warden. Ein Glas mit unserm Namenszug bezeichnet, bei der Grundsteinlegung in die Lüfte geworfen, ging nicht zu Trümmern; es ward aufgefangen und ist wieder in meinen Händen. So will ich mich den selbst, rief ich mir zu, als an diesem einsamen Orte viel zweifelhafte Stunden verlebt hatte: mich selbst will ich an die Stelle des Glasses zum Zeichen manchen, ob unsre Verbindung möglich sei oder nicht. Ich gehe hin […]”. (GOETHE, 1998b, p. 215-216).
ligação do nome de sua amada ao seu, como também no desfecho, quando descobre que na verdade a taça em que bebe é uma réplica, pois a original se quebrou. A partir daí, ele entende claramente que tudo está acabado. O final trágico é então compreensível para ele ao saber que a taça não existe mais.
O narrador prepara o leitor continuamente com prenúncios, que antecedem as ações das personagens. Faz isso algumas vezes de forma irônica, como no capítulo 13 da primeira parte, em que sabemos sobre a concretização da paixão de Eduard por Ottilie. Esse trecho é demarcado por características negativas que anunciam o desfecho infeliz. No primeiro parágrafo desse capítulo, o narrador apresenta de forma cordial a situação de Eduard, que está enlouquecido com a prova que tem em suas mãos quanto ao amor de Ottilie. Apesar da grande conquista de Eduard, o final desse parágrafo tem um fecho disfórico.
Eduard, por sua vez, está com uma disposição completamente diferente. Pensa tão pouco em dormir que nem lhe ocorre despir-se. Beija mil vezes a cópia do documento, o começo com a letra infantil e tímida de Ottilie; mas no final mal ousa beijar, pois julga ver a sua própria caligrafia. “Oh! Se fosse um outro documento!”, disse para si mesmo; e, todavia, era para ele a mais bela prova de que o seu maior desejo fora satisfeito. Se ele ficasse sempre em suas mãos, então o apertaria constantemente de encontro ao coração, apesar de conspurcado pela assinatura de um terceiro!15 (GOETHE, 1998a, p. 104).
15 “Eduard von seiner Seite ist in einer ganz verschiedenen Stimmung. Zu schlafen denkt er so wenig, daß es ihm nicht einmal einfällt, sich auszuziehen. Die Abschrift des Dokuments küßte er tausendmal, den Anfang von Ottiliens kindlich schüchterner Hand; das Ende wagt er kaum zu küssen, weil er seine eigene Hand zu sehen glaubt. 'O, daß es ein andres Dokument wäre!' sagt er sich im stillen; und doch ist es ihm auch schon die schönste Versicherung, daß sein höchster Wunsch erfüllt sei. Bleibt es ja doch in seinen Händen! Und wird er es nicht immerfort an sein Herz drücken, obgleich entstellt durch die Unterschrift eines Dritten?” (GOETHE, 1998b, p. 91).
Este trecho é também uma indicação do desenvolvimento prometido e esperado da personagem Ottilie: aquela que aprende para ensinar ou a que surpreenderá, segundo o assistente da diretora do internato. A semelhança da letra funciona como um espelho para Eduard – que, assim como Narciso, encanta-se com a sua imagem. A ironia do narrador está no elemento desfavorável, no final da citação: o documento conspurcado por terceiro, indicando que em nenhum momento a relação de Eduard e Ottilie é pura. Até no encantamento tem a marca indesejada de um terceiro.
No capítulo 15, acontece a festa de aniversário de Ottilie, que também está repleta de prenúncios infelizes. Uma imensa felicidade ou um forte sinal de que tudo dará certo, seguidos por uma situação caótica, que invalida a possibilidade de um desfecho harmônico e feliz.
Uma noite tranquila, uma calma absoluta prometiam ser propícias para a festa noturna, quando, de repente, teve início uma gritaria terrível. Grandes torrões de terra desprenderam-se dos diques, e várias pessoas caíram na água. O solo cedera com o peso e a movimentação da multidão cada vez maior. Todos quiseram pegar o melhor lugar, e agora ninguém podia andar nem para frente nem para trás16. (GOETHE, 1998a, p.113-114).
Nesta noite, o Capitão salva um menino já semimorto que se afogou com o rompimento do dique. O acontecimento funciona como prenúncio para a
16 “Ein ruhiger Abend, eine vollkommene Windstille versprachen das nächtliche Fest zu begünstigen, als auf einmal ein entsetzliches Geschrei entstand. Große Schollen hatten sich vom Damme losgetrennt, man sah mehrere Menschen ins Wasser stürzen. Das Erdreich hatte nachgegeben unter dem Drängen und Treten der immer zunehmenden Menge. Jeder wollte den besten Platz haben, und nun konnte niemand vorwärts noch zurück”. (GOETHE, 1998b, p. 101).
morte por afogamento do bebê de Charlotte. Depois de toda tragédia, Eduard insiste em acender os fogos de artifício e os dois amantes assistem ao espetáculo sozinhos.
Os foguetes espocavam, os rojões trovejavam, as balas luminosas subiam, os busca-pés serpenteavam e estouravam, rodas de fogo sibilavam, primeiro isoladas, depois aos pares, por fim todas juntas, girando cada vez com maior violência. Eduard, cujo peito ardia, seguia com o olhar vivo satisfeito aquele espetáculo pirotécnico. Para a alma delicada e sensível de Ottilie, esses brilhos fugazes e ruidosos eram