1.2 As afinidades eletivas
1.2.1 Um romance
Até o século XVIII, o romance é um gênero desprestigiado. “O romance medieval, renascentista e barroco dirige-se fundamentalmente a um público feminino, ao qual oferece motivos de entretenimento e de evasão” (AGUIAR e SILVA, 2007, p. 678). É considerado pelos críticos da época como um divertimento fácil.
O problema principal para a aceitação do romance como um gênero é sua falta de antepassados ilustres na literatura greco-latina. Ele não tem modelos a imitar, nem regras a que obedecer. Aristóteles não conhece o romance e por isso não prevê regras para esse gênero. O romance era considerado uma obra frívola, escrito por autores inferiores a um público de pouco conhecimento literário.
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Na literatura europeia da Idade Média, o que se encontra são longuíssimas composições romanescas em geral elaboradas em verso. Elas apresentam-se em duas vertentes: o romance de cavalaria e o romance sentimental. No século XVII, no período barroco, o romance é repleto de “situações e aventura excepcionais e inverossímeis: naufrágios, duelos raptos, confusões de personagens, aparições de monstros e de gigantes [...]”. (AGUIAR e SILVA, 2007, p. 676).
Dom Quixote de Cervantes pertence a esse momento como um
anti-romance ao satirizar essas características barrocas e entrou na história como o primeiro grande romance. Vale ressaltar que “o romance moderno se constitui não só sobre a dissolução da narrativa puramente imaginosa do barroco, mas também sobre a desagregação da estética clássica. [...]”. (AGUIAR e SILVA, 2007, p. 678).
É curioso verificar até que ponto, antes de meados do século XVIII, era raro os artistas se desviarem dos estreitos limites da ilustração, pintarem uma cena de romance ou um episódio da história medieval ou de seu próprio tempo. Tudo isso mudou muito rapidamente durante o evoluir da Revolução Francesa. De repente, os artistas sentiram-se livres para escolher qualquer coisa como tema, desde uma cena de Shakespeare a um acontecimento do dia, o que quer que, de fato, apelasse para a imaginação e despertasse interesse. (GOMBRICH, 1999, p. 481).
Não é só nas artes plásticas que ocorre essa mudança de atitude tanto do público como do artista. No século XVIII, o desinteresse pela estética clássica e o novo gosto artístico é afirmado por um novo público: o público burguês. “[...]
o romance, o gênero literário de ascendência obscura e desprezado pelos teorizadores das poéticas, conhece uma metamorfose e um desenvolvimento muito profundos [...]”. (AGUIAR e SILVA, 2007, p. 680). Os assuntos preferidos nesse momento pelos leitores ávidos por livros muito longos eram, por exemplo: “a análise das paixões e dos sentimentos humanos [...] em sátira social e política ou em escrito de intenções filosóficas”. (AGUIAR e SILVA, 2007, p. 681). Neste momento, cabe também ao romance o melancolismo, o desespero e a sensibilidade do pré-romântico.
Observamos, antes desse momento, uma sequência de mudanças na narrativa em decorrência do interesse do público. Apenas no século XIX, verificamos a possibilidade de o autor fazer suas próprias escolhas, segundo o trecho de Gombrich transcrito acima. Hoje, “o romance permanece, pelas possibilidades expressivas que oferece ao autor e pela difusão e influência que alcança entre o público”. (AGUIAR e SILVA, 2007, p. 684).
Para esse novo momento, o mundo narrado é então mais pessoal, mais particular e mais solitário (KAYSER, 1976, p. 399). O narrador também tem caráter pessoal, não narrando mais para um público fisicamente presente e sentado ao seu redor, mas para um leitor solitário, que lê em silêncio e para si mesmo.
O romance assimilara sincreticamente diversos gêneros literários, desde o ensaio e as memórias até à crónica de viagens; incorporara múltiplos registros literários revelando-se apto quer para a reprerevelando-sentação da vida quotidiana quer para a criação de uma atmosfera poética, quer para a análise de uma ideologia. (AGUIAR e SILVA, 2007, p. 682-683).
Antonio Candido, em seu ensaio “O Patriarca”, contextualiza o romance a partir da dificuldade em lhe conferir reconhecimento, o que só se dá no século XIX. O romance, aqui, representa a sociedade, o homem, o mundo e a sua multiplicidade. Assim, apenas ao que vem depois de Goethe é possível romper com as estruturas existentes, antes disso não existem estruturas pré-estabelecidas, mas sim um gênero em constante transformação.
Quanto ao Novo Romance, de conceito flutuante e escorregadio, segundo Sandra Nitrini, “pode-se destacar como traço comum aos novos romancistas a oposição visceral à produção, no século XX, de uma literatura tradicionalista, nos moldes do romance de análise psicológica, segundo o modelo de Balzac”. (NITRINI, 1987, p. 42).
O Novo Romance não encarna uma criação absoluta, mas constitui a expressão sistemática de diversas invenções e correntes que antecedem no tempo, como o uso frequente do monologo interior, das ‘mise-en-abyme’, da visão minuciosa e detalhista [...]. (NITRINI, 1987, p. 42-43).
Em Questões de literatura e estética (1988), no capítulo “O discurso no romance”, Mikhail Bakhtin (1895-1975) trata de “uma das formas mais importantes e substanciais de introdução e organização do plurilinguismo no romance: os gêneros intercalados”. (BAKHTIN, 1988, p. 124).
O romance, com sua ascendência sem moldes e sem padrões, aceita ao longo de sua história novas possibilidades. Por isso é admissível enxertar no
romance outros textos como: novelas, cartas, diários íntimos, discursos proferidos em momentos especiais, obras pictóricas, aforismos, sentenças, poemas, questões científicas ou filosóficas, mandamentos bíblicos. Encontramos todas essas inserções n’As afinidades eletivas.
“Os gêneros introduzidos no romance conservam habitualmente a sua elasticidade estrutural, a sua autonomia e a sua originalidade linguística e estilística”. (BAKHTIN, 1988, p. 124). N’As afinidades eletivas, as narrativas enquadradas realmente não alteram a estrutura da narrativa maior, que continua sendo um romance de acontecimentos. As cartas ali inseridas não o tornam um romance epistolar, o diário de Ottilie não o torna um romance-diário, ou ainda, não temos aqui uma série de novelas ou de contos enquadrados numa sequência de histórias dentro de uma história principal. Em nosso romance de análise esses outros gêneros inseridos dão a ele maior complexidade, atrasam o desfecho, retiram o leitor da narrativa principal e ainda assim permanece sempre um romance.
Todos esses gêneros que entram no romance introduzem nele as suas linguagens e, portanto, estratificam a sua unidade linguística e aprofundam de um modo novo seu plurilinguismo. (BAKHTIN, 1988, p. 125).
Dällenbach cita Jean Ricardou,
No estudo apresentado ao colóquio Claude Simon de Cerisy-la-Salle (1974), estabelece-se uma discriminação entre
intertextualidade geral (relações intertextuais entre textos de autores diferentes) e intertextualidade restrita (relações intertextuais entre textos do mesmo autor). (RICARDOU apud DÄLLENBACH, 1979, p. 51, grifo do autor).
E de modo concorrente, Ricardou, em Pour une théorie du nouveau roman (1971), faz “a distinção entre uma intertextualidade externa, entendida como relação dum texto com outro texto, e uma intertextualidade interna, compreendida como relação dum texto consigo mesmo”. (DÄLLENBACH,
1979, p. 52). Em As afinidades eletivas observamos a presença constante da
intertextualidade restrita tanto na novela, como nos quadros vivos, mas, principalmente, no diário de Ottilie. Mas, ressaltamos também a intertextualidade geral ou externa nos quadros vivos e em relações construídas com textos bíblicos, com o mito de Narciso ou ainda com conteúdos científicos. Os textos enquadrados não são felizes coincidências ou meras narrativas curtas facilmente acrescentadas a textos como um romance. N’As afinidades eletivas o enquadramento de novos textos é elucidador em relação ao seu todo. Tal sentido se constrói pela reiterada repetição ao longo de todo o romance.
Crucial para a compreensão da aliança preferencial ‘mise en abyme’-obra de arte, esta intrusão quase fatal do outro no mesmo parece traduzir o destino variável que afeta o processo na história da literatura. Não será a sua incompatibilidade com o dogma da ‘pureza’ dos gêneros que explica a sua marginalização pelo Classicismo? [...] suas relações com esta ou aquela poética histórica nem sempre são francas, e que a articulação dum gênero noutro pode operar-se de diversas maneiras. (DÄLLENBACH, 1979, p. 69).
Goethe não precisa apresentar postura contestadora por meio da estrutura narrativa de seu romance, pois não existe nenhum modelo fechado, ou pré-estabelecido. Contudo, faz experimentos narrativos em sua obra assim como realiza nas estufas e no laboratório.