ASPECTO OBSERVADO OC %
5.2 A OBSERVAÇÃO DAS AULAS
5.2.1 Atividade 1: What do you love or hate? (ANEXO A)
A professora Marisa concebeu essa atividade, aplicada por si própria e pela professora Marina. A atividade apresenta uma série de tópicos relacionados à cultura – livros, filmes, estilos musicais, festividades etc. Os alunos devem fazer perguntas uns aos outros e expressar suas opiniões sobre quais desses itens eles amam ou odeiam.
1) Marina conversa com os alunos a respeito das aulas. Um aluno menciona a dificuldade em entendê-la quando ela fala em inglês. Marina diz que é importante que o aluno atente também para a linguagem corporal e não apenas ao que é dito. O aluno afirma compreender e concordar com a posição de Marina;
2) Marina tenta explicar aos alunos o significado de hate (odiar). Ela pergunta a um aluno o que ele odeia – What do you hate? – faz cara de nojo e afirma: I hate jiló. O aluno demonstra compreender o significado e responde: I hate barata.
A dificuldade em decodificar mensagens verbais é algo comum, não apenas em uma sala de aula, mas no nosso dia-a-dia. Em um encontro entre pessoas de culturas diferentes, essa dificuldade pode significar uma série de problemas, que vão desde um simples mal entendido até mesmo a uma interrupção na interlocução. Dentro dessa compreensão, é de extrema relevância a atitude de Marina em enfatizar a importância da linguagem não verbal para a compreensão de mensagens orais, explicitada nesses excertos. Bennett se utiliza de uma metáfora interessante para abordar essa questão. Para ele,
A linguagem verbal é digital, no sentido de que as palavras simbolizam categorias de fenômenos da mesma maneira arbitrária que códigos de liga/desliga simbolizam números e operações em um computador. O comportamento não-verbal, por outro lado, é analógico. Representa fenômenos mediante a criação de contextos que podem ser experimentados diretamente. (BENNETT, 1998, p. 10)26.
A metáfora de Bennett encontra eco na atitude de Marina. Afirmar I hate jiló é digital, pois utiliza palavras para desencadear a compreensão de um estado afetivo; demonstrar que odeia jiló através de gestos é analógico, pois acessa diretamente este estado afetivo.
26 Minha tradução livre para: "Verbal language is digital, in the sense that words symbolize categories of phenomena in the same arbitrary way that on/off codes symbolize numbers and operations in a computer. Nonverbal behavior, by contrast, is analogic. It represents phenomena by creating contexts which can be experienced directly".
Isso não quer dizer que a linguagem não verbal seja mais importante, ou de mais fácil compreensão, que a linguagem verbal. Em uma comunicação oral, as duas formas devem vir atreladas, como na atitude de Marina, com a linguagem não verbal servindo de background para a compreensão da mensagem verbal, ora tornando-a inteligível, ora trazendo novos matizes ou até mesmo contradizendo a linguagem verbal (LARZÉN, 2005).
3) Um aluno diz amar Arrocha, principalmente Pablo (um conhecido cantor de Arrocha). O colega reage: "Que nojo"! Um terceiro completa: "Pablo é música de corno"!; 4) Um terceiro aluno diz amar livros. Imediatamente, outro aluno discorda do anterior:
"Ele ama Pagode!" Exaltado, o aluno afirma: "Eu nunca respondi isso! Nunca"!; 5) Marina explica aos alunos a conjugação de verbos na 3ª pessoa do singular do presente
simples do inglês, utilizando duas sentenças como exemplo – Tu amas fulano e She
loves her father (Ela ama seu pai). Ela aponta que ambas seguem a norma culta e estão
no singular, apesar do sufixo –s. Em seguida, utiliza mais dois exemplos que desviam da norma culta. Ela diz que, em Feira de Santana, as pessoas costumam usar tu, porém em sentenças como "Tu ama..." ou "Tu odeia...", e que o mesmo ocorre em outras línguas, como: She don't care, na canção Ticket to Ride, dos Beatles. Por fim, Marina conclui que, se a gramatica normativa fosse observada, o correto seria a utilização de tu amas e tu odeias, no primeiro exemplo, bem como she doesn't care, no segundo; Esses excertos refletem o acerto na elaboração da atividade por parte da professora Marisa. A variedade de informações culturais, ainda que de aspectos visíveis, origina uma série de possibilidades de interação reveladoras das concepções dos alunos sobre os temas apresentados. Não obstante, as posições expressas pelos alunos são reveladoras de um problema já discutido nessa fase da pesquisa: o preconceito e o estereótipo. Eles se manifestam, como vemos nos excertos três e quatro, ora com a utilização de palavras fortes para expressar sua visão acerca do estilo musical, no caso, o Arrocha, ora via indignação com a simples menção de um interesse de sua parte pelo Pagode. Em seu livro, Social Identity and European
Dimension, Byram (1999) introduz as noções de "identidade social", teoria desenvolvida
visando à pesquisa de como as minorias são vistas e tratadas pelos grupos hegemônicos, e que é muito utilizada para compreender e explicar o racismo. Não obstante, Byram afirma que ela pode facilmente ser utilizada por professores de LE, uma vez que se relaciona com questões
vivenciadas em sala de aula, como a formação de estereótipos e preconceitos por parte dos alunos acerca dos membros de outra cultura, muitas vezes baseados no "senso comum".
De acordo com ele, quando grupos sociais distintos interagem, direta ou indiretamente, especialmente quando um grupo detém poder ou se vê como superior ao outro, há uma tendência a se exagerar as diferenças entre esses grupos e a se reafirmar semelhanças de crenças e valores dentro do próprio grupo. Como consequência, o simples fato do aluno não gostar de um estilo musical o transforma em "música de corno", ou faz com que ele se exalte com a simples menção da possibilidade de que goste de tal estilo, ainda que seja dito em um tom claro de brincadeira. É importante ressaltar que, apesar das opiniões fortes, não houve, por parte da professora, um aprofundamento da discussão, com vistas a entender a origem desses preconceitos e, quem sabe, relativizá-los.
No excerto cinco, a professora parte de um pressuposto interessante, o de que, assim como no português, o sufixo –s em inglês não é indicativo de plural, quando se refere à conjugação de verbos, para comparar a cultura de origem com a cultura alvo, em seus aspectos linguísticos. Trata-se de uma escolha acertada, pois a professora traz um contexto bem próximo da realidade deles, a cidade de Feira de Santana, segunda maior cidade da Bahia, localizada a 110 km da capital, para ilustrar sua explicação. É muito provável que o aluno seja natural dessa cidade, a conheça ou tenha tido algum contato com alguém de lá.
Todavia, o desejo de trazer para os alunos algo com que eles pudessem se identificar, e o possível improviso na escolha do exemplo utilizado – muitas vezes, nós, professores, fazemos escolhas metodológicas durante as aulas, embora tenhamos um planejamento prévio delas – fez com que a professora servisse de canal para a transmissão de um estereótipo, aqui de natureza linguística.
Ao dizer que, em Feira de Santana, as pessoas dizem tu ama ou tu odeia, em vez de algo como em Feira de Santana, por exemplo – ou assim como em muitas outras cidades – muitas pessoas dizem tu ama ou tu odeia, ela homogeneíza todo o falar de uma cidade. Mais uma vez, não creio ser incorreto afirmar que a professora tem consciência de que o desvio da norma culta apontado, a conjugação da 2ª pessoa do singular, não é uma característica geográfica. Nos mais diversos cantos do país há pessoas que cometem esse desvio. Não cabe aqui um aprofundamento da questão, mas acredito não se tratar também de uma marca socioeconômica, ou de grau de escolaridade. Penso que seja apenas um traço de coloquialismo da língua. Restringir esse desvio do padrão a uma única cidade pode vir a ser interpretado pelo ouvinte como preconceito linguístico por parte da professora.