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Não só o ambiente do auditório chama atenção para a presença do quadro de Martinus Hoyer. No pátio exterior, tem-se uma eloqüente demonstração de preocupação com a memória da ACM. Há exposição de documentos históricos, do livro de Viveiros sobre a História do Comércio, fotos antigas, esculturas de bustos de homenageados pela ACM e, na ante-sala de acesso ao auditório, os rostos em retratos emoldurados com cerca de 30cm², de todos os ex-presidentes da ACM, desde o primeiro em 1854 (quando ainda era Comissão da Praça) até o último que deixou o cargo em 2004. Diante de toda essa “explosão historiográfica”, é significativo o fato do quadro de Martinus Hoyer ser o único de um homenageado exposto no principal local de reuniões da ACM, embora ele nunca tivesse sido um presidente, nem mesmo um de seus diretores. Certamente, essa presença é um elemento a ser considerado na produção de representações que se apropriam da sua imagem.

5.1.1.2 O contexto de produção

Sete dias depois da morte de Martinus, o jornal Diário do Maranhão (23 dez. 1881, p. 2) publica a decisão da diretoria da ACM: “abrir uma subscrição, que ali se acha à disposição de quem quiser subscrever para o produto ser aplicado em um retrato à óleo em ponto grande do falecido negociante Martinus Hoyer em prova de apreço e lembrança do comércio do Maranhão”.

A década de 1880 iniciava com a morte de um ativo comerciante, empreendedor e intelectual do setor mercantil maranhense e com o aprofundamento da crise da economia agro-exportadora. Nos últimos 30 anos, a crescente dificuldade de colocação do algodão e do açúcar no mercado internacional acentuou o abismo entre o setor mercantil e o setor produtor existente desde o início do século XIX. Segundo Reis (2007), ao longo deste século, o setor mercantil impôs duras condições para empréstimos junto aos produtores agravando a descapitalização desse setor que já sofria com as dificuldades da exportação do açúcar e do

algodão e via-se cada vez mais endividado junto às grandes casas comerciais e bancos da capital.

Diante desse quadro, é importante percebermos que no início da década de 1880 as relações entre esses dois setores – que a bem ou mal sustentaram a economia maranhense durante praticamente todo o século XIX –, se não estavam chegando ao fim, pelo menos alcançaram pontos claros de tensões determinadas por interesses claramente distintos.

Esses são aspectos relevantes para entendermos os símbolos e sentidos que perpassaram a homenagem da ACM (representante expressiva do setor comercial) a Martinus Hoyer e como através desse episódio foi agregado à sua imagem um conjunto de sentimentos, valores e comportamentos que o tornaram uma “referência fundadora” para a classe empresarial do Maranhão.

A produção do retrato ocorreu em menos de seis meses, a cargo do pintor Francisco Peixoto Franco de Sá. Isso nos impõe responder a seguinte pergunta: quem é este Franco de Sá?

Desde a década de 1860, Franco de Sá atuava como pintor. Ele faz parte de uma segunda geração de pintores maranhenses, dos quais o mais ilustre era Horácio Tribuzi, filho do pioneiro das artes plásticas do Maranhão, Domingos Tribuzi. Para Mello (2002), Franco de Sá era um homem de sorte. Mas, para além da sorte, enquanto estudava na Europa (1871- 1882), soube construir relações sociais com pessoas influentes no Maranhão e na capital do Império, bem como consolidar seu prestígio como pintor reconhecido nacional e até internacionalmente. Afirmo isso apoiado em escassos documentos elencados por Mello (2002) sobre Franco de Sá, quando foi pensionista do Império desde 1877 até 1882 e viveu em Paris servindo ao Império até 1896, e num interessante artigo de 1928 de José Jansen, no jornal O Imparcial, que parece ecoar ainda o prestígio do pintor na sociedade maranhense do

final do século XIX. Diz ele: “não ignoro também que esse artista concorreu uma ou mais vezes ao SALON oficial da paris, com êxito” (O Imparcial, 14 abr. 1928, p. 2).

Estava em Paris em 1881 quando lhe foi encomendado o quadro a óleo “em ponto grande” de Martinus Hoyer, mais de dez anos depois que saíra do Maranhão, sem jamais ter voltado neste ínterim. Tudo isso sugere que Franco de Sá foi escolhido para criar o quadro de Martinus Hoyer primeiro porque, naquele momento, era o principal pintor maranhense e segundo, porque devia ter contatos pessoais com Martinus, talvez até na Europa, em Paris, já que Martinus Hoyer (que certamente ia muito à Europa) era um admirador dos intelectuais franceses. Em 1896, Franco de Sá voltou para o Rio de Janeiro e ali residiu chegando a falecer em 1904.

Cabe ainda responder qual a relação da biografia de Franco de Sá com a obra que agora analisamos – o retrato a óleo de Martinus Hoyer. Sem dúvida, o quadro de Martinus Hoyer traz as marcas da formação acadêmica neoclássica de Franco de Sá. O tom escuro, pouca variação da luz, a severidade da expressão de Martinus, a sobriedade, a expressão de exatidão dos traços físicos são características gerais dos modelos neoclássicos (BARATA, 1997). Por outro lado, traz também embutida as representações construídas pelos setores dirigentes da sociedade maranhense (da qual Franco de Sá havia originado), sobretudo a elite comercial, sobre Martinus Hoyer, como símbolo dos valores e virtudes da força civilizadora européia. Por certo, devido a sua pertença social, Franco de Sá partilhava dessas representações e valores. E sua obra objetivou expressá-los através da imagem de Martinus Hoyer.

De modo geral, posso afirmar que mais do que um “retrato” de Martinus Hoyer, o quadro é uma representação tangível do discurso das elites da época sobre o progresso e potencial de soerguimento da economia maranhense através da união dos setores comercial e agrário em novos investimentos. Esses sentidos que cercam a figura de Martinus Hoyer serão

analisados mais de perto a partir de três aspectos: 1) os sentidos construídos pela sociedade da elaboração do quadro, perceptíveis na solenidade de inauguração em 1883; 2) as reinterpretações de dois ex-presidentes da ACM sobre a vida de Matinus Hoyer e 3) as reapropriações dos sentidos que a família atual expressou a falar do tal quadro.

5.1.1.3 Descrição e sentidos do quadro

O quadro “retratando” a figura de Martinus Hoyer transmite uma imagem de seriedade e circunspeção de Martinus. Os quase três metros de altura da tela impressionam de fato. A moldura rica em detalhes bem trabalhados pelo artista dá uma sensação de imponência e a predominância de cores escuras harmoniza-se ao ambiente solene da ACM para o qual foi feito.

A cena indica um escritório, mas o quadro não possui muitas imagens e detalhes além da representação de corpo inteiro de Martinus Hoyer. Ele está em pé, com uma grande