Foto 7 – Patamar superior de onde se dirigem os cultos
2 CONSTRUÇÃO DO OBJETO
2.2 Situando-me no campo
Em outubro de 2005, iniciei minha presença no campo mantendo um primeiro contato com a família Hoyer. Apresentei-me como historiador interessado na história da família, como descendentes de Martinus Hoyer e sendo protestante como ele foi. Mas se fiquei conhecido pela família como um pesquisador dos Hoyer do passado, durante quase um ano, para os demais da igreja, eu era apenas um visitante esporádico.
Realmente, fui muito bem recebido pelos Hoyer, que me trataram como “um da família”. Acredito que duas foram razões: primeiro por ser historiador, iria fazer uma pesquisa sobre a família Hoyer, legitimando, pela ciência, o sentimento de importância que já possuíam; segundo, por ter me identificado, desde o primeiro contato por telefone, como um evangélico. Por isso, também fui tratado como alguém confiável, pelo menos, abriram-se as portas para conquistar sua confiança, pois de alguma forma fazia parte do grupo, possuindo gestos e palavras mais familiares.
Essa facilidade em ser um pouco de dentro também se constituiu numa dificuldade, pois, mesmo sendo evangélico, minha vinculação institucional é vista com desconfiança, ou até rejeição pelo grupo. O fato de pertencer a uma igreja classificada pelo grupo como “tradicional”17 causou certa restrição do acesso às informações da igreja,
17 Categoria nativa que designa os membros de igrejas protestantes históricas e que se refere a uma classificação
para acionar oposições identitárias no campo protestante entre “tradicional-pentecostal”. Embora essa oposição não dê conta da diversidade, nem das múltiplas combinações e empréstimos de sentido que há no campo
principalmente por parte da família. Acredito que as próprias classificações e concorrências internas do campo protestante façam com que os indivíduos postos pela oposição “tradicional- pentecostal”, quando se relacionam e, principalmente, quando representam suas instituições, tenham mais escrúpulos e cuidados ao falar dela com este “outro”, como estratégia para mudar a sua percepção. Assim, os membros da família Hoyer, sendo os representantes da igreja pentecostal que fundaram, só se referiam à igreja para corrigir uma imagem deturpada que, na percepção deles, eu poderia ter, a exemplo de uma das primeiras observações que escutei em entrevista: “não fazemos isto aqui por dinheiro”.
Portanto, se o assunto da minha conversa ou entrevista era o passado da família, facilmente tinha as informações e recebia todos os livros que o William Hoyer e outros familiares produziram sobre o assunto, mas se o tema era a igreja, logo percebia certo desconforto em falar sobre o assunto, afinal eu era alguém “de fora” e um pesquisador que pode não entender o funcionamento do grupo e deturpar suas intenções, tal qual os “de fora” fazem, ou pelo menos, a percepção que se tem do que os “outros” imaginam daquela comunidade – a rotulação pejorativa de “igreja da família”.
Por sua vez, as minhas relações com aqueles a quem chamo de administradores e adeptos tornaram-se fundamentais para compreensão das crenças, práticas e ritos, pois como não sabiam da minha vinculação religiosa, muitos viam na conversa que eu “puxava” uma oportunidade proselitista. Adotei, assim, a estratégia de conversas informais para obter informações, por julgar que poderia ser considerado, pelo meu interlocutor, um desrespeito às crenças do grupo questionar sobre o sistema de poder da igreja de maneira direta, ou no mínimo poderia colocá-lo numa situação perigosa, obtendo uma resposta viciada.
Preferi então encaminhar esse tema de forma sutil por meio de perguntas sobre a função da pessoa na igreja e a relação desta com a família Hoyer, ou por que os rituais eram
evangélico, como, por exemplo, o processo de pentecostalização de igrejas protestantes históricas, adoto esta oposição em referência a identidade que me foi atribuída pelo grupo pesquisado.
realizados de uma determinada forma e não de outra. Esse é um dos limites da pesquisa, mas também, penso que um de seus pontos fortes, uma vez que obtive depoimentos mais espontâneos.
Como muitos depoimentos que citarei neste trabalho foram colhidos informalmente e não foram autorizadas para isso, resolvi manter o anonimato desses informantes criando iniciais fictícias, enquanto as entrevistas autorizadas têm o nome das pessoas que concederam as informações.
Nesse processo de conversar com as pessoas e conquistar sua confiança, percebi que após visitar à igreja com a minha esposa, passei a ser melhor aceito no grupo. Cheguei mesmo a tocar um instrumento, participando do “momento de louvor” de um dos cultos, convidado pelo Pastor Carlos Hoyer. A presença da minha esposa foi de fundamental importância não só por me conceder mais prestígio no grupo, mas principalmente por sua ajuda em colher informações conversando com as mulheres (obtendo depoimentos mais espontâneos do que eu poderia conseguir), e dialogando comigo no campo sobre minhas inferências e possibilidades de análise, muitas vezes me alertando sobre a necessária “vigilância epistemológica”.
É preciso lembrar que, embora sendo um trabalho predominantemente antropológico, havia a necessidade de uma pesquisa histórica. As exigências do meu objeto e o pouco tempo disponível para a realização da pesquisa, não me permitiram adentrar mais na vida da igreja, porém tentei manter uma freqüência constante, principalmente de julho a novembro de 2007, de um adepto médio da igreja, isto é, pelo menos duas vezes por semana.
A história da família é a expectativa dos Hoyer na minha pesquisa. Desde o começo o pastor convidou-me a, após a conclusão, apresentá-la à igreja “para que não fosse perdida”. Nesse sentido, os Hoyer contribuíram muito para a elaboração do trabalho. Forneceram toda literatura que tinham sobre os antepassados e todos os livros de William
Santos Hoyer. Espero que a minha produção histórica, embora não sendo o recorte principal do objeto de estudo, atenda essas expectativas. Até por isso esta parte do trabalho ficou um pouco maior do que o pensado originalmente.