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Foto 7 – Patamar superior de onde se dirigem os cultos

3 O PASSADO QUE NÃO CESSA NUNCA

3.1 Martinus Hoyer

3.1.3 De empresário a intelectual

Não podemos perder de vista que Martinus Hoyer é também sujeito da história. Não somente um indivíduo impelido pelas condições objetivas do seu contexto histórico, mas também um agente social que age ressignificando o mundo interiorizado e, pela exteriorização das suas ações e pensamentos, procura estratégias de transformação das condições objetivas a sua volta. Eis a importância de focalizarmos sua atividade como intelectual. Contudo, para compreender as idéias de Martinus é imprescindível avaliarmos as lutas de representações sociais que postulam à hegemonia das visões de mundo na sociedade maranhense nos anos de 1860 e 1870, na qual ele está inserido e é um dos porta-vozes.

No âmbito do jovem estado brasileiro, é importante relembrar que o embate político-ideológico predominante desde a Regência (1831-1840) até o fim do Império, desenvolveu-se entre as ambigüidades de dois partidos: o Liberal e o Conservador. A historiografia brasileira é farta de interpretações sobre as oposições e semelhanças entre os dois partidos. E apesar de reconhecer diferenças nos programas e ideologias e nas bases sociais, Boris Fausto (2003, p. 181) conclui que: “A divisão entre liberais e conservadores tem, assim, muito de uma disputa entre clientelas opostas, em busca das vantagens ou das migalhas do poder”.

No Maranhão, essa lógica político-partidária, como a disputa pelo usufruto particular do estado, não foi diferente. Isso se evidencia na confusão administrativa e hegemônica entre os partidos. Meireles (2001) aponta esta como a principal causa da ausência de um planejamento administrativo a longo prazo para a província:

O Maranhão [...] contaria, nos 49 anos do Segundo Reinado, entre presidentes e vice-presidentes em exercício, nada menos de 92 governantes! Se naquele primeiro período da monarquia [1º Reinado e Regência], a média fora de quase um por ano, nesta segunda subiria para quase dois!

[...] Que se poderia esperar, no campo administrativo, de um executivo assim tão precariamente suprido? Nada; e foi o que ocorreu. (MEIRELES, 2001, p. 244).

Diante das constantes mudanças na direção da burocracia estatal da província, os líderes políticos mais se agrupavam como situacionistas e oposicionistas do que por diferenças ideológicas, o que permitiu às facções um equilíbrio de poder mesmo não estando na situação, pois a expectativa de chefiar a administração provincial era uma realidade sempre próxima. Dessa forma, líderes de uma mesma base social, e até com relacionamentos estreitos, são alocados em um dos partidos de acordo com as suas conveniências mais imediatas: interesses econômicos, laços consangüíneos ou acordos inter-familiares, havendo pouca tolerância para a migração de facção, mas muita para a migração ideológica.

No contexto das décadas de 1860 e 1870, quando Martinus inicia sua carreira de investidor e posteriormente de intelectual, as disputas políticas do período pós-regencial caminhavam-se para consolidação de um acordo entre os partidos com o predomínio dos conservadores na direção da política provincial. Nesse momento de imposição de um frágil equilíbrio político, a vida de Martinus Hoyer é emblemática do papel do intelectual em relação a essas forças políticas. Pelos livros e artigos de Martinus Hoyer, que até então tive contato, percebi um discurso direcionado para os administradores. Predomina um sentido pragmático, harmonizado à idéias das doutrinas em voga na Europa e aplicadas aos dilemas sócio-econômicos específicos e contemporâneos da nação e da província. Os títulos dos cinco livros que escreveu expressam tanto esse caráter pragmático quanto a sintonia com os debates existentes na Europa: “Estudos sobre as instituições de credito real” (1875); “Estudos de Economia Política” (1877); “Democracie et Socialisme” (1879). “Estudos sobre a reforma do meio circulante” (1880) e “Lê probleme economique de l‟impôt” (1882).

Alexandre Theófilo de Carvalho Leal, comentando os “Estudos de Economia Política”, no jornal “O Paiz” de 10 de novembro de 1878, conclui:

Extinguir o papel moeda, revogar a lei Ferraz, suprimir a conscripção militar, separar a Igreja do Estado, fazer eleições diretas, reformar o sistema dos impostos, fundar a independência da magistratura, destruir o monopólio e o privilégio, em suma não governar a sociedade, mas deixa-la a ação única e absoluta das leis naturais são deduções legítimas e necessárias das theorias [sic] do Sr. Martinus Hoyer.

Por sua vez, André Rebouças, fazendo elogios a esse livro, informa que é a reunião dos “artigos, primitivamente publicados no Paiz, depois reproduzido no Globo e em outros jornais do Brasil” (O Paiz, 7 dez. 1878, p. 1). Podemos observar, embora sinteticamente, nas idéias de Martinus Hoyer o seu comprometimento com a ideologia liberal conforme os cânones do liberalismo europeu clássico, tendo Bastiat25, segundo os comentadores de Martinus, o seu principal mestre.

Nos artigos que encontrei de Martinus ou nas apologias a suas obras, o liberalismo martiniano significava um forte anti-catolicismo, uma crítica ao Estado “concentrador de poderes, ofensor dos direitos individuais”, uma crença numa espécie de ordem social, em si boa, onde “leis morais” identificam-se com as leis da natureza, ameaçada apenas pela atuação errada das instituições sociais. Portanto, a liberdade dos indivíduos, quando não limitada pelas instituições sociais, levaria naturalmente a sociedade humana ao progresso, à civilização, ao bem estar26, como podemos ler neste trecho do livro “Estudos de Economia Política” de Martinus Hoyer publicado na imprensa:

Que a força colletiva da sociedade representada e posta em ação pela auctoridade constituída no interesse comum e, portanto destinada a garantir toda a soma de bem, de que a mesma sociedade é suscetível, só deve só pode applicar-se com justiça e

25 Frédéric Bastiat (1801-1850) Escreveu vários panfletos, ensaios e um tratado de economia política. Opôs-se a

Rosseau defendendo a existência de uma ordem natural e harmônica no mundo social, uma ordem que emana do livre intercâmbio entre os seres humanos conduzindo-os a satisfazer seus ilimitados desejos com recursos limitados. O resultado é um progresso seguro ao bem estar material de todos. A interferência nesta liberdade deixa as pessoas mais pobres e mais oprimidas. Isto é assim por que a intervenção impede os indivíduos à ação criadora, que de outro modo poderiam haver se comprometido.(RICHMAN, 2007)

legitimidade, na repressão e na correcção do mal, deixando ao bem invariavelmente o seu curso natural e espontâneo. (O Paiz, 7 dez. 1878, p. 1).

Essas são concepções bem ao gosto da doutrina de Adam Smith e sua “mão invisível”. Também estão bem afinadas com as ideologias civilizadoras e do progresso inexorável da humanidade com base na defesa dos direitos individuais, ou seja, a liberdade política e econômica, e a uma crença no positivismo científico. Dentro dessa corrente filosófica, Martinus denomina-se estudioso das Ciências Econômicas. Estas teriam como preocupação o estudo das leis morais assentadas na liberdade humana, portanto as sociedades seriam regidas por leis tão universais e absolutas semelhantes às leis da natureza, algo bem concorde às doutrinas sociológicas evolucionistas e positivistas de um Spencer e Comte, em voga na Europa.

No contexto da década de 1870, no Brasil, do ponto de vista político, este corolário traduzia-se, para muitos grupos liberais-positivistas, basicamente em anti- monarquia, anti-clericalismo e, do ponto de vista econômico, modernização da produção, inserindo os chamados “melhoramentos” no campo e na cidade, mecanização agrícola, industrialização, urbanização, gradual abolição da escravidão com indenização dos proprietários substituindo-a pelo trabalho livre e a diminuição do controle estatal sobre os mercados, reduzindo impostos, monopólios e subsídios, fortalecendo a livre-concorrência e facilitando a livre-iniciativa.

Evidentemente, a produção intelectual de Martinus traz as marcas dos interesses imediatos da classe social a qual pertence e se coloca como porta-voz. Sendo um comerciante de “grosso trato”, diversificando seus investimentos como meio de acumular ainda mais o excedente de capital, a defesa da não intervenção estatal na economia (e nos demais âmbitos da vida social) é apresentada, nos seus escritos, como uma lei social, cujo caráter de objetividade científica torna-a irrefutável, assim como são certos seus resultados: modernidade e prosperidade.

Convém lembrar que na década de 1870 (período em que escreve seus livros) representantes tanto do setor comercial de exportação quanto dos grandes produtores de algodão e açúcar vão constantemente aos jornais queixar-se dos impostos sobre os produtos. Não atendendo a essas reivindicações, o Governo da Província e a Assembléia Provincial tomam medidas de expansão dos tributos, em busca de receitas para equilibrar suas contas, contrariando ainda mais comerciantes e grandes produtores: “ano a ano, ampliava ao raio de taxação sobre atividades comerciais, o consumo interno, as transferências de propriedade e, principalmente, voltou-se para a criação de barreiras alfandegárias interprovinciais” (REIS, 2007, p. 124). Nesse contexto, Martinus, um homem das “Ciências Econômicas”, escreve seus artigos e livros para propor ao Governo Provincial medidas que interessavam diretamente a essas elites econômicas. Ao mesmo tempo, seu liberalismo radical de total não intervenção do estado na economia agradava aos setores políticos dirigentes (na época, os conservadores do grupo de Gomes de Castro), preocupados com as deficiências de receita do tesouro e com os gastos públicos (administração, justiça, segurança pública, educação, saúde e obras), mas principalmente com os gastos para garantir aliados através da distribuição de favores e recursos, numa época em que a estrutura oligárquica começava a se consolidar. (REIS, 2007).

Tentando equilibra-se com um discurso que atendesse aos interesses do grupo político dirigente e das elites econômicas, Martinus fabricou sua imagem de cientista, como se estivesse neutro e imparcial às forças políticas, o que nos ajuda a compreender como ele conseguiu tecer relações com figuras proeminentes tanto do partido liberal quanto do partido conservador e, ao mesmo tempo, teve a liberdade de apresentar críticas aos dois partidos, embora com cuidado para não se indispor com personalidades de ambos. Essa postura de intelectual-empreendedor possibilitou-lhe, como representante de uma elite econômica, obter facilidades políticas para seus empreendimentos, além de ter propagado sua imagem como

“operário do progresso, da riqueza e da prosperidade da nação brasileira” (O Paiz, 07 dez. 1878) e não como alguém interessado em lucros empresariais privados ou como porta-voz de uma determinada classe ou grupo político.

Nos jornais: O Tempo, O Paiz e O Diário do Maranhão, Martinus travou debates com políticos, intelectuais e administradores. Em uma dessas polêmicas teve como seu oponente o chefe político do Partido Conservador Olympio Gomes de Castro. Passaram muitas páginas de “O Tempo” e de “O Paiz”, em setembro de 1878, debatendo sobre a instrução pública obrigatória a qual Martinus opunha-se. O argumento de Martinus centraliza- se na condenação da intervenção do Estado na esfera privada familiar; enquanto para Castro a instrução pública obrigatória é um direito da família, principalmente dos filhos, que o Estado assegura, visando combater a miséria, com isso “melhoram-se as condições de vida das massas populares, inspirando-lhes mais alta idéia de dignidade humana, iluminando-lhes a consciência, facilitando-lhes o cumprimento de seus deveres.” (O Tempo apud VIVEIROS, 1954, p. 509).

Essa polêmica foi toda transcrita na “História do Comércio do Maranhão” de Viveiros, expondo o pensamento martiniano e sendo importante para compreender como ele se posicionava nas lutas de representações e quais os capitais sociais27 acumulava para propor enunciados de verdade.

Resumindo, percebe-se em Martinus uma ampla capacidade de costurar relações com diferentes forças políticas e econômicas, colocando-se como um intelectual/economista e investidor livre dos interesses facciosos, de classe ou particulares e unicamente interessado no “progresso material da província”, no “bem-comum” e nos “interesses da lavoura”. Gozava, assim, de prestígio entre intelectuais já reconhecidos, também no setor comercial, entre políticos proeminentes dos dois partidos e junto à administração da província, a ponto de

27 Essa noção de Boudieu é útil para compreendermos que no interior de um determinado campo (político,

científico, religioso etc.) os agentes agem conforme determinado quantum de conhecimento e reconhecimento de autoridade que os seus pares atribuem ao agente considerado.

mesmo os seus adversários, a despeito de suas críticas e/ou acusações, reconhecerem-no como “ilustrado economista”, ou “nobre contendor de mão acetinada e fina” 28 (Diário do Maranhão, 22 mar. 1881).