Foto 7 – Patamar superior de onde se dirigem os cultos
3 O PASSADO QUE NÃO CESSA NUNCA
3.1 Martinus Hoyer
3.1.2 O “Gênio Realizador”
Retomando a lição de Bourdieu (2005, p. 190) quanto à elaboração de uma biografia, não podemos compreender uma trajetória de vida sem construir os estados sucessivos do campo no qual ele se desenrolou e, logo, o conjunto das relações objetivas que uniram o agente ao conjunto dos outros agentes envolvidos no mesmo campo e confrontados com o mesmo espaço dos possíveis. Nesse sentido, é imprescindível nos determos ao contexto em que se insere a vida de Martinus e as suas relações sociais mais concretas durante esse curto período de atuação na sociedade maranhense, correspondente à segunda metade do século XIX.
As qualificações mais presentes na vida pública de Martinus são: empreendedor e intelectual. As fontes bibliográficas, documentais e a memória familial ressaltam essas características. Impõem-se descrever o cimento social que possibilitou essa atuação de Martinus e os seus deslocamentos tecendo relações no âmbito político, econômico e intelectual da sociedade maranhense da época.
Não é por força do acaso nem por simples brilhantismo individual que Martinus idealizou, projetou e acionou, entre outros, o Banco Comercial (1869), Companhia de Águas de São Luís (1875), Banco Hipotecário (1878), a Associação Comercial do Maranhão, ACM22 (1878) – depois chamada pelos associados de “Casa de Martinus Hoyer” –, a Companhia Progresso Agrícola (1880) que fundou o primeiro Engenho Central, “O Engenho São Pedro” (1884)23. É preciso ter em mente as posições sociais que Martinus ocupava e as relações sociais que lhe envolveram.
22 Mas já havia em São Luís, desde 1854, uma instituição que agregava aos comerciantes locais, denominada
Comissão da Praça.
23 Este foi um grande empreendimento do final da década de 1870 e início dos anos 1880, tendo os credores e
Primeiramente, a firma que Martinus dirigia com a família Ribeiro, a “Hoyer e Ribeiro”, operava como “agentes das linhas de vapores inglesas que tocam neste porto” (Diário do Maranhão, 13 abr 1881). Logo, ele era essencialmente um empresário do comércio de exportação e importação de produtos ingleses, instalado em São Luís, cidade do principal porto da província, sócio da família Ribeiro, de comerciantes e políticos, líderes das facções liberais do início do século XIX. (MEIRELES, 2001).
No seu estudo sobre a economia do século XIX, o historiador Flávio Reis (2007) afirma que desde a década de 1820, sobretudo a partir de 1850, o acúmulo de capitais no setor empresarial possibilitou uma diversificação dos investimentos financeiros em outros setores. Assim como acontecia em outras partes do Brasil – a partir de 1844, em conseqüência da adoção de novas medidas alfandegárias protegendo a indústria nacional e do fim do tráfico internacional de escravos (1850) –, os capitais excedentes monopolizados pelos grandes comerciantes de São Luís foram primeiro reaplicados no setor de serviços (água, luz, iluminação pública, transportes etc.) e, posteriormente, no setor fabril.
Nesse contexto econômico, o “gênio realizador” (expressão de William Hoyer) de Martinus corresponde a uma prática característica do setor comercial daquela época cujo objetivo imediato era o de ampliar suas fontes de acumulação de riqueza. “Estes empresários, continuando a tradição dos velhos negociantes de „grosso trato‟ do final do período colonial tinham um padrão de reprodução da riqueza através de inversões diversificadas” (REIS, 2007, p. 31). Dessa forma, ocorreu uma concentração urbana das disponibilidades financeiras, levando os produtores a recorreram freqüentemente e com maior intensidade aos grandes comerciantes para requerer-lhes empréstimos em dinheiro ou em fatores de produção, como instrumentos e escravos.
do rio Pindaré, tornou-se não só uma tentativa de reerguer a lavoura de açúcar, mas também o símbolo do progresso, da modernização e do avanço civilizacional do Maranhão. “Era a vida trepidante de um centro de grande produção, servido pelos fatores do progresso: a máquina, a locomotiva, a luz elétrica, o telégrafo”. Este era um cenário inédito no Maranhão que atraía as elites dirigentes a visitá-lo. (VIVEIROS, 1954, p. 538).
O resultado desse processo foi que “o setor comercial de importação e exportação tornou-se o motor do sistema econômico, credor da maioria dos fazendeiros de algodão e senhores de engenho e o principal agente dos surtos de diversificação das atividades econômicas” (REIS, 2007, p. 31). Tal foi essa mobilização financeira que os próprios bancos credores foram criados, em sua maioria, pelos dirigentes das grandes casas comerciais.
Portanto, Martinus Hoyer tinha a posição social possível para ser um investidor e o fundador de dois bancos. O segundo banco criado por ele, o Banco Hipotecário (1878), pelo menos nos seus estatutos, estabelecia como objetivo geral o auxílio à lavoura24. Nos primeiros anos de seu funcionamento, isso foi posto em prática com a concessão de empréstimos para que a Companhia Agrícola iniciasse obras necessárias à instalação do primeiro Engenho Central, ambas iniciativas ligadas ao nome de Martinus Hoyer (VIVEIROS, 1954, p. 534).
É essencial ressaltar as ações de Martinus ligadas à produção agrícola. Elas vão reverberar em seus artigos nos jornais da época onde ele se designa “como defensor da lavoura da província contra o interesse individual” (O Paiz, 7 dez. 1878) ou, ao escrever junto com Moreira da Silva, “a Província do Maranhão não pode deixar de ser agrícola; ou agricultura ou nada; a vida com ela ou a morte sem ela” (O Paiz apud VIVEIROS, 1954, p. 519).
No final da década de 1870, diante da fragilidade do algodão e do açúcar maranhense, dependente de crises dos seus concorrentes internacionais diretos – os Estados Unidos e as Antilhas – para ter uma boa colocação no mercado, o setor agrícola começa a
24 No início do século XX, a maioria dos empréstimos do Banco Hipotecário assentava-se sobre hipotecas de
propriedades urbanas. Para Flávio Reis (2007) essa contradição se explica porque os estatutos do Banco Hipotecário favoreciam, na verdade, os empréstimos de hipotecas urbanas. Entretanto, pode-se considerar que o ideal de reerguer a lavoura (conforme os estatutos do Banco) sofreu uma transformação prática a medida que a lavoura entrava em decadência, principalmente depois da abolição, e as garantias imperiosamente migraram dos bens e propriedades rurais (geralmente escravos) para as propriedades urbanas.
sentir diretamente a queda dos preços em razão da reorganização desses concorrentes diretos. Legisladores, administradores, políticos e intelectuais buscam soluções para salvar a lavoura, desembocando numa lei de auxílios em novembro de 1875. Depois de intensos debates no Congresso Nacional, venceram aqueles que defendiam a introdução dos chamados “melhoramentos” na lavoura, com criação de escolas profissionais, estradas, redução de impostos, braços e capitais através do crédito real a juros baixos e prazos longos, além da construção de Engenhos Centrais.
Essa lei de auxilio à lavoura de 1875 facilitava os empréstimos e concedia juros mais baixos para as companhias que pretendessem construir Engenhos Centrais. Foi nessas condições e na efervescência da propaganda pelos Engenhos Centrais, na qual o próprio Martinus Hoyer gastou sua pena, que ele tomou a iniciativa de encabeçar a formação de uma sociedade – A Companhia Agrícola – cujo objetivo era instalar cinco Engenhos Centrais na província. Mas o que seria um Engenho Central e por que esse interesse? Conforme a explicação de João Antonio Coqueiro num artigo publicado em 1876 em “O Paiz” (apud VIVEIROS, 1954, p. 518):
Entende-se por Engenho Central a empresa que, separando os dois ramos industriais da fabricação do açúcar – a lavoura e o fabrico – deixando somente aos lavradores o fornecimento da cana e reservando à fabrica a sua manipulação, permite interessar grande numero de capitalistas e lavradores, aquinhoando estes com o dobro dos respectivos rendimentos brutos, sem as despesas do próprio fabrico, – e aqueles com dividendos certos e seguros, que até hoje tem variado de 16 a 48%, segundo as localidades.
Apesar desse intenso empreendedorismo, segundo as narrativas históricas, Martinus possuía um temperamento comedido “que preferia às agitações das diretorias o silêncio do seu gabinete no convívio dos economistas e dos filósofos ou nas idealizações das empresas que desejava para o Maranhão” (VIVEIROS, 1954, p. 446). Esse traço de caráter destacado por Viveiros é reinterpretado, na narrativa de William, como fruto do conhecimento que Martinus possuía da Bíblia, que exorta à humildade. Mais uma vez, “fatos” são
ressignificados, retirados do passado, e adequados às representações de uma “identidade protestante” desde a “origem”.