Pelo que é apreendido do quadro, a ênfase da imagem de Martinus recai na sua atividade intelectual, alguém que aponta o caminho para o progresso porque vê à frente do seu tempo. Todavia, enquanto vivo, Martinus era citado por defensores e oposicionistas de sua obra muito mais como um “negociante com lavras literárias”. Para compreendermos essa mudança de ênfase, é indispensável examinarmos as necessidades prementes do contexto social e sua contribuição à construção da imagem de Martinus Hoyer. Nesse sentido, a solenidade de inauguração do retrato nos oferece algumas pistas, sendo ricamente descrita no jornal O Paiz de 25 de dezembro de 1883.
Essa cerimônia ocorreu no dia 23 de dezembro de 1883 e tudo indica que esta data foi cuidadosamente escolhida. Chegado há mais de um ano e meio, quadro a óleo só foi tirado da alfândega uma semana antes da inauguração. No mesmo dia, foi marcada uma “Exposição de Açúcar e Algodão”, promovida pela ACM; portanto, planejou-se o momento adequado para inaugurar o quadro na ACM, esperando uma solenidade significativa.
Isso porque tudo nessa solenidade tentava estabelecer um novo marco para a economia maranhense. Os discursos proferidos, o cenário montado da exposição e o simbolismo utilizado, dentre os quais a imagem de Martinus Hoyer, revelam que a ACM, como instituição representativa do setor comercial, chamava para si a responsabilidade de soerguimento econômico da província, tentando apresentar para sociedade a adoção de medidas modernizadoras na agricultura e uma ampla viabilidade comercial dos principais produtos maranhenses. Foi talvez uma das últimas tentativas de manter uma expectativa otimista dos produtores quanto a lucros futuros, caso os setores produtor e comercial fizessem sua parte. O comércio já garantia os mercados, bastava aos produtores realizar a modernização da produção.
E além dos setores produtores e comerciais, a presença de representantes da burocracia estatal, do legislativo e do próprio presidente da província visava garantir a sua
anuência a esses projetos através de medidas que facilitassem as transações comerciais como a suavização dos encargos e subsídios para novos investimentos agrícolas.
A cerimônia decorreu primeiro com a inauguração do “retrato” do finado negociante, Martinus Hoyer, discursando o seu amigo e presidente da ACM, Themístocles Aranha e foi chamado “para correr o véu que cobria o retrato” seu sócio, João Pedro Ribeiro45. A inauguração se deu ao som do Hino Nacional, para só então ser declarada aberta a primeira “Exposição do Açúcar e Algodão” pelo Presidente da Província.
Na exposição havia duas estantes com os produtos, uma do açúcar com 15 prateleiras e outra do algodão com 24. Nessas estantes, tinham igualmente três escudos: “um com as cores portuguesas, outro com as cores brasileiras e o do centro branco”. Nos dois primeiros, havia inscrições com os marcos inaugurais da produção do açúcar e do algodão no Maranhão, durante a Colônia, o Império e, no escudo branco, ao centro, havia “Associação Comercial-1883”. Em cima deste escudo havia um troféu com bandeiras do Brasil, Inglaterra, Portugal, França, Alemanha, Bélgica e Suécia.
No “salão de sessões” da ACM, sobre uma mesa, encontravam-se duas estátuas (uma do comércio, outra da agricultura), informações sobre os preços do algodão e açúcar em vários países e a bandeira nacional “ladeada das da maior parte das nações da Europa e América”. Na mesma sala estava o retrato inaugurado de Martinus Hoyer. Como podemos perceber, a imagem de Martinus foi fabricada para concretizar as aspirações de progresso e de restauração da economia maranhense. Construindo sua representação como um homem que além de intelectual muito fez pela lavoura e comércio do Maranhão. A imagem anunciava aos demais produtores e comerciantes o exemplo a seguir para alcançar o progresso e a prosperidade. Em outros termos, Martinus Hoyer é construído como símbolo da eficácia da
45 Talvez este seja filho do primeiro “João Pedro Ribeiro”, a qual Viveiros (1954, p. 498), afirma ter falecido
modernização apoiada na ciência positivista, e torna-se modelo da capacidade da iniciativa privada em fazer prosperar e modernizar o Maranhão.
É interessante atentarmos também para uma segunda homenagem oferecida por ricos lavradores de Cururupu46, quase um ano depois, quando houve uma grande comoção popular acompanhando outro retrato de Martinus Hoyer até a Câmara Municipal daquela cidade, numa espécie de procissão. Martinus, que nos discursos dessa segunda homenagem já era chamado “o benemérito”47 (O Paiz, 29 set. 1884), foi ganhando uma áurea mística, um ar de transcendência típica da alquimia social que transforma indivíduos a quem se atribui qualidades especiais e inatas em existências íntimas do sobrenatural e do extraordinário, ou seja, (nas palavras de Weber) a quem se atribui carisma. Martinus tornou-se, porque não dizer, uma espécie de herói mítico do progresso do Maranhão e exemplo de conduta e valores da classe empresarial.
É curioso compararmos os depoimentos de diferentes épocas: um da década de 1950 e outros de 2007 sobre Martinus. Inicialmente, Viveiros, em 1954, descrevendo-o ao apresentar o quadro:
Martinus Hoyer – economista de profunda e larga visão, que se tornou no campo da iniciativa privada, a maior figura das classes produtoras maranhenses, no século passado. (VIVEIROS, 1954, p. 493).
Agora, os depoimentos de dois ex-presidentes da ACM, em entrevistas durante esta pesquisa. O primeiro de Júlio Noronha (atualmente chefe da pasta da Secretaria de Estado de Indústria e Comércio – SINC, do governo estadual).
Durante minha gestão, o propósito de lembrá-lo, afora homenageá-lo, era rememorar um pouco o cenário econômico de sua época e mostrar às novas gerações que muito do que nossa cidade tem hoje não é só iniciativa do poder público, mas principalmente da iniciativa privada.
46 Esta era no século XIX uma região de grandes proprietários de lavouras de açúcar, os mais beneficiados com a
iniciativa de Martinus de criação do Engenho São Pedro.
47 Segundo a definição de Henriques Leal, um amigo de Martinus, na sua obra “Pantheon Maranhense”,
“beneméritos cidadãos são notáveis intelectuais (poetas, escritores) e políticos da província, que se deve evitar que se oblitere de todo a memória das virtudes e feitos deles, ao mesmo tempo de espelho e incentivo às novas gerações.” (1987, p. 5).
Martinus Hoyer contribuiu para a criação de novas culturas e visão empreendedoras. Talvez tenha sido um dos líderes empresariais de sua época que melhor traduz o sentido de ―não veio para servir-se, mas para servir o Maranhão‖ (Júlio
Noronha, 12 jun. 2007, grifo nosso).
O depoimento de Carlos Gaspar é ainda mais significativo, pois além de ex- presidente da ACM, é membro da Academia Maranhense de Letras (AML) e, de certa maneira, um “historiador oficial” da ACM.
Esse foi o homem excepcional que nós tivemos. Se você procurar na vida econômica do Maranhão... da época da colônia pra cá, você não vai encontrar nenhuma pessoa, raramente vai encontrar uma pessoa com as características empreendedoras de Martinus Hoyer. Por que que o nome da casa da Associação Comercial não é João Guaberto da Costa [fundador da Comissão da Praça]? Porque João Guaberto era um comerciante, um pequeno comerciante, que imaginou uma coisa, mas que não foi Martinus Hoyer, não foi homem de visão do futuro, não via o amanhã. (...) Então ele fez a diferença! (Carlos Gaspar, 1 jun. 2007).
Carlos Gaspar disse-me que somente na ACM se preserva a memória de Martinus Hoyer: “é um doutrinamento”. Percebe-se que esse “doutrinamento” consolidou representações sobre Martinus Hoyer – como alguém de “visão do futuro”, “cultura e visão empreendedoras” e de espírito altruísta – nos discursos oficiais. Nos discursos das celebrações de aniversário da instituição, Martinus Hoyer é lembrado como “o homem que mais dignifica a Associação Comercial do Maranhão” (Jornal Pequeno, 17 dez. 2005). Todavia, Carlos Gaspar considera que em outras instituições e para o público em geral ele é desconhecido. Uma das razões apontadas por ele para esse esquecimento é o fato de que depois da morte de Martinus Hoyer, o Maranhão entrou em decadência econômica e muitos dos seus projetos não puderam ser viabilizados, como a estrada de ferro Barra do Corda – Carolina. O interessante é ser essa idéia similar a uma das afirmações da família: que se o Martinus não morresse aos 52 anos (para a atual família, ainda jovem), o Maranhão não entraria em decadência econômica.
Por esses depoimentos, podemos perceber que Martinus foi alçado ao universo “mítico” da instituição. Dessa forma, a ACM e seus agentes autorizados (alguns ligados ao poder político e a instituições de intelectualidade) funcionam como produtores de discursos de consagração da memória de Martinus Hoyer. E, portanto, o sentido atribuído a sua vida é
acionado como exemplo a ser seguido pelos empresários maranhenses, como um modelo para a iniciativa privada: “servir ao Maranhão”. A vida de Martinus fornece elementos inspiradores de uma auto-representação de classe que se pretende transmitir a respeito de sua capacidade de gerar desenvolvimento econômico para um estado empobrecido no século XX, estando a serviço do bem comum e não apenas de interesses exclusivamente privados.
N‟outro exemplo, podemos perceber a releitura e apropriação que o jornalista e membro da Academia Maranhense de Letras, Nascimento de Moraes, faz de sua biografia: “Martinus Hoyer é seu nome em quem a classe conservadora e progressista tem um exemplo e um companheiro a apontar o caminho do progresso do Maranhão” (O Imparcial, 16 dez. 1995, grifo nosso). O trecho revela que “a classe conservadora e progressista” (embora pareça um paradoxo) qualifica o próprio lugar da enunciação deste discurso de Nascimento de Moraes, sendo representativo de uma elite intelectual que idealiza os vultos do passado e os aciona para legitimar projetos progressistas convenientes às elites políticas e econômicas em outras temporalidades. Dessa forma, também a vida de Martinus é reelaborada conforme as auto-representações e interesses atuais dessas elites.
Esses sentidos da vida de Martinus Hoyer, difundidos por uma instituição e partilhados por uma classe social são importantes para entendermos como a família Hoyer se apropria desses sentidos e agrega outros adaptados à sua nova experiência. Decerto, como a família foi várias vezes à comemoração de aniversário da instituição, convidada para homenagens a Martinus Hoyer na ACM, e ainda adotando no Maranhão a profissão de empresários, foram expostos e inculcaram essa representação de classe sobre seu antepassado. Entretanto, os Hoyer criaram e sobrepuseram a essas representações outras de ordem moral e espiritual vinculadas a valores do protestantismo brasileiro do século XX.
Nesse sentido, a memória reelaborada pela família Hoyer sobre Martinus conjugou a representação da classe empresarial com a auto-representação da família,
produzindo um discurso performático de sua identidade ao passo que justifica para si e para os demais a condição de fundadora de uma igreja pentecostal e exige um comportamento conforme essa identidade. Por certo Martinus Hoyer foi reinterpretado como um empreendedor e intelectual bem sucedido no Maranhão exatamente porque era um protestante fiel a sua fé, e assim também seria com os seus descendentes – empreendedores, intelectuais, fiéis a Deus e por isso bem sucedidos.
Essa reapropriação da família pode ser muito bem vista em depoimento de Waldete falando sobre o retrato de Martinus: “Martinus era muito culto, auto-didata, uma visão ampla do mundo e de Deus.” E num dos livros de William:
A história omitiu o fato de Martinus ter sido um protestante. Os homens que se vangloriavam na época, sentir-se-iam invadidos nas suas falsidades e humilhados à divulgação da coragem moral de um personagem incorruptível, embora discriminado veladamente, de “CULTUS DISPARITAS”, que portava, por exclusivo mérito seu, o melhor testemunho de vida cristã consciente, a julgar principalmente pelo seu desprendimento em favor do bem comum e do próximo. (HOYER, 1999a, p. 57).
Nota-se que as qualificações: “culto”, “auto-didata” e “uma visão ampla do mundo” estão bem harmonizadas com a representação que vimos anteriormente sobre Martinus Hoyer, cultivadas nos discursos oficiais, certamente nas cerimônias em sua homenagem na ACM e presentes na historiografia de Viveiros, e até, pode-se dizer, serem reinterpretações extraídas da imagem do quadro. Mas, “a visão de Deus” já é uma ampliação dos sentidos reelaborados pela família. Esses sentidos são melhores explicitados por Wiliam quando apresenta Martinus não só como um homem inteligente e empreendedor, mas diferente dos demais da sua época, com uma moral “incorruptível” e valores de humildade e “desprendimento em favor do bem comum e do próximo” por “ter sido um protestante”.
Para explicar melhor a inserção na biografia de Martinus de valores do protestantismo brasileiro do século XX, é oportuno lembrar a lição de Mendonça sobre a reelaboração cultural que a ética protestante sofreu no território brasileiro:
no Brasil a ética protestante é interiorizada e individualizada. O fiel recorre à disciplina comportamental não para transformar o mundo, mas para dominar-se e reprimir-se. Ele tem consciência de que é diferente e de que o mundo seria bem melhor se todos fossem iguais a ele. (MENDONÇA apud SANTOS, 2006, p. 254).
Dessa forma, o comportamento de Martinus é reapropriado a partir de valores da família descendente, valores retirados de uma ética protestante que não era a de Martinus (pelo menos a ética deste era mais próxima ao modelo de ética protestante européia e americana do “asceticismo intra-mundano”, gerando o empreendedorismo capitalista), mas a da família Hoyer atual, mais próxima do modelo de ética interiorizada e individualizada à brasileira, tais como: auto-controle do comportamento, humildade, transformação social pelo testemunho cristão individual. É claro que esses dois tipos de ética protestante (a européia/americana e a abrasileirada) são também “tipos-ideais” e, como tais, não existem na realidade em formas “puras”. Inclusive nos valores e comportamentos da atual família Hoyer subsistem combinadas.
Objetivei sustentar o argumento de que a vida de Martinus Hoyer tornou-se um paradigma de conduta para a família. E passamos as últimas páginas mostrando como essa biografia foi reconstruída pelos Hoyer atuais, a partir de discursos consagradores proferidos por agências e agentes autorizados (principalmente pela ACM), e adequada às suas novas condições de existência e às exigências simbólicas de uma auto-representação da família diante de sua experiência presente, enquanto fundadores de uma igreja pentecostal. De fato, a vida de Martinus foi alçada à fonte do Ser para a família e parâmetro para construir outros antepassados como “herdeiros” das mesmas qualidades e valores de Martinus, procurando reforçar essa auto-representação para si e para os outros adeptos da igreja.
5.1.2 As auto-representações da família
Quando encontrei pela primeira vez o livro sobre Martinus Hoyer, ele estava na página eletrônica da Igreja COPT48. Instigou-me como o livro descrevia a trajetória da família Hoyer no Maranhão, de Martinus aos Hoyer do século XX, cujo estágio último era a fundação da COTP por William (autor do livro), sua esposa e filhos, além de suas atividades religiosas.
Nos escritos e nos relatos de família, um grande valor é atribuído à Martinus Hoyer (na página eletrônica da igreja COTP havia: “Martinus Hoyer, um Benemérito do Maranhão”) e, embora ele não seja o ascendente direto da atual família, certamente foi o que mais se destacou na sociedade maranhense. Exatamente por isso, a vida de Martinus torna-se uma fonte inesgotável de significado a informar as auto-representações da família. Podemos afirmar que corresponde a uma fundatio no sentido que estabelece valores e representações que são reorganizados e ressignificados no decorrer dos contextos históricos mutantes, e também um mito no sentido de sua capacidade de reprodução pela constante repetição ritual. Portanto um mito fundador. (CHAUÍ, 2001).
A história de vida de Martinus Hoyer, conquanto ligada a sua historicidade, assume, na reconstrução da memória da família Hoyer, significados que transcendem a peculiaridade do contexto do século XIX, agregando sentidos específicos para os diferentes contextos das sucessivas gerações – o que se percebe de forma expressiva na interpretação da conversão religiosa da família ao pentecostalismo e a conseqüente fundação da Igreja. Nesse sentido, a vida de Martinus Hoyer imprime linhas orientadoras de uma retrospectiva da história da família e de uma projeção para as ações do futuro.
Nos relatos da família e no livro escrito por William, a trajetória da família ganha um sentido, uma coerência, uma unidade que é a do sucesso dos ascendentes como
idealizadores de projetos, como espíritos adiantados, cultos, bem sucedidos em suas profissões apesar de uma infância cheia de dificuldades e de perseguições de terceiros.
A narrativa do início da historia de vida de Martinus e seus irmãos feita por William, quando comparada à narrativa de Viveiros, revela como na formalização da história da família ocorreu algo similar ao que Bourdieu (2005, p. 183) denomina “ilusão biográfica”, o que significa uma história de vida entendida como uma realização linear de um “projeto original”, presente “desde sempre”. Nesse caso, William seleciona de Viveiros (como informante da biografia de Martinus) certos acontecimentos que se tornam significativos, estabelecendo entre eles uma conexão para lhes dar uma coerência. Assim, William constrói uma retórica que determina a família em suas vocações “idealistas, militares, comerciais e espirituais” como heranças dos antepassados. As gerações da família seriam apenas continuadoras dessa “graça divina” presente “desde sempre”.
Sobre a constituição da rememoração, Eliade (2006, p. 111) diz que os capazes de recordar-se
se esforçam por unificar esses fragmentos isolados [das vidas anteriores], por integrá-los numa única trama, a fim de descobrir o sentido de seu destino. Pois a unificação, através da anamnesis [recordação], de fragmentos de história sem qualquer relação entre si, resulta igualmente em unir o “começo ao fim”: em outros termos, é preciso descobrir como a primeira existência terrena desencadeou o processo de transmigração.
Isso é muito claro na história escrita por William Hoyer, na qual há inserção de um elemento até então ignorado nas memórias da família – o fato de Martinus Hoyer e seus irmãos serem protestantes.
Para deixar mais claro a existência dessa vinculação entre o passado e o presente para os Hoyer, retomo o trecho em que William interpreta a recuperação desse passado – segundo ele, “injustamente esquecido” – à luz da sua vivência presente de convertido ao protestantismo e fundador de uma Igreja, tentando estabelecer um sentido de continuidade com esse passado histórico apropriado:
Mas Deus é fiel e quer fazer Sua JUSTIÇA!.
Mandou um descendente de Martinus Hoyer para o Maranhão. Esse descendente que era católico apostólico Romano, Deus converteu ao evangelho, para fazê-lo falar
a mesma linguagem do antepassado notável (a linguagem do Reino), e, agora, de forma sobrenatural, começou Deus a revelar a verdadeira história de Martinus,
que diz respeito exclusivamente a família direta, que não possui nem a sua fotografia... (HOYER, 1990, p. 58, grifo nosso).
Para William, a sua conversão religiosa fez parte de um projeto divino para restaurar a dignidade de Martinus (esquecido pela história do Maranhão) e fazer-lhe “JUSTIÇA”. Com Deus “revelando de forma sobrenatural, a verdadeira história de Martinus” por meio de um descendente que “fala a mesma linguagem do antepassado notável”.
Essa passagem é emblemática daquilo que Halbwachs observa na distinção e complementaridade entre a “memória coletiva” e a “memória individual”. “A memória coletiva contém as memórias individuais, mas não se confunde com elas” (HALBWACHS, 2006, p. 72). A memória individual possui alguma autonomia, mas o pertencimento do indivíduo a vários grupos sociais situa essa memória no entrecruzamento de muitas memórias coletivas. A perspectiva da memória individual muda conforme o lugar ocupado pelo indivíduo, o que varia conforme as relações mantidas com outros indivíduos e outros ambientes. Como cada lembrança se apóia sobre outras recordações, a memória individual nunca é completamente solitária49, ela só encontra seu sentido dentro de uma “validação mútua das recordações”. Portanto, “cada um elabora sua memória singular no interior de um quadro social”. (RIVERA, 2001, p. 32).
De fato, ainda que apoiando sua recordação numa memória coletiva – uma obra clássica da historiografia maranhense, de Jerônimo Viveiros, “História do Comércio do Maranhão” – William sente sua “memória individual” ser relegada pelos demais, e portanto, a sua produção histórica tem a função de restaurar a importância dos seus antepassados, invadindo a memória coletiva. Mas nesse trabalho a memória deixa de ser uma consciência
49Segundo Halbwachs, “Nossas lembranças permanecem coletivas e nos são lembradas por outros, ainda que se
trate de eventos em que somente nós estivemos envolvidos e objetos que somente nós vimos. Isto acontece