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2 AUTOAJUDA EM TEMPOS VITORIANOS: O DEVER E A MORAL

[...] as modificações nos modos de pensar, nas crenças, nas opiniões, não ocorrem mediante ‘explosões’ rápidas, simultâneas e generalizadas, mas sim, quase sempre, através de ‘combinações sucessivas’, de acordo com ‘fórmulas de autoridade’ variadíssimas e incontroláveis. A ilusão ‘explosiva’ nasce da ausência de espírito crítico.

(GRAMSCI, 2004) Neste capítulo, tem-se por objetivo apresentar a gênese e os principais elementos do discurso de autoajuda voltado às relações de trabalho. Sua origem remonta ao século XIX. Atribui-se ao publicista escocês, médico e administrador de estradas de ferro, Samuel Smiles (1812-1904), a publicação do primeiro livro de autoajuda intitulado Self- Help16, em 1859. Estudos mostram que o discurso de Smiles se propagou, principalmente na Inglaterra e nos Estados Unidos, formando toda uma escola de “escritores moralistas e pedagogos populares”. (BASTOS, 2000). Isso explica, em parte, a grande popularidade alcançada por seus livros em vários países, traduzidos em pelo menos 17 idiomas, porém pouco conhecidos do grande público no Brasil17. Ver- se-á que Smiles centraliza sua proposta de autoajuda na formação do caráter, na constituição de um sistema de valores, cujos princípios estão alicerçados no dever e moral determinantes de conduta na sociedade.

No presente capítulo, pretende-se evidenciar como as ideias do referido autor estão profundamente alinhadas ao ideário dos puritanos, estimulando uma moral e um dever para o trabalho. Por esta razão, apresenta-se um breve resgate de sua vida e síntese de sua principal obra, num primeiro momento, para posteriormente analisar suas

16 Para fins deste estudo, como já informado, Self-Help será referenciada pelo ano de

publicação de 1893, da qual se tem acesso, assim, como as demais obras do autor analisadas neste capítulo.

17 As obras do precursor desse tipo de literatura eram pouco conhecidas do grande público, ao

menos até 1996, quando Francisco Rüdiger publicou Literatura de auto-ajuda e individualismo.

publicações de maior repercussão e que guardam continuidade com os valores apregoados em Self-Help: Ajuda-te (1893), O caráter (1871), O dever: coragem, paciência e resignação (1880) e Vida e trabalho (1887)18.

2.1 TRABALHO EM TEMPOS VITORIANOS

No século XIX, a consolidação do poder da burguesia é favorecida pela constituição de uma “ideologia [liberal] que justifica e racionaliza os interesses do capital, servindo, dessa maneira, de sustentação e organização das sociedades capitalistas.” (SANTANA, 2007, p. 89). “O liberalismo também chamado clássico correspondeu à expressão ideológica do capitalismo em sua etapa concorrencial.”Dias (2007b) assinala que os liberais idealizaram o capitalismo como a expressão acabada da natureza humana, como a forma legítima de fazer a produção material, tendo o homo oeconomicus como o modelo das virtualidades do homem burguês pretendendo eternizar e naturalizar o capitalismo, a burguesia transformou seus princípios em leis da vida social e suas regras em leis do mercado.

Ao longo do século XIX, o processo de industrialização consolidou-se de tal maneira que o desenvolvimento das forças produtivas foi viabilizado por novas formas e métodos de administrar o trabalho com a passagem dos trabalhadores das oficinas para o espaço da manufatura. O trabalhador-artesão, que conhecia e controlava todas as etapas do processo, desde a sua concepção à elaboração, cede lugar ao trabalhador fragmentado e parcializado. De acordo com Marx (1968, p. 400), "a estreiteza e as deficiências do trabalhador parcial tornam-se perfeições quando ele é parte integrante do trabalhador coletivo."

Do século XVII ao início do século XIX soma-se um período de intensa luta entre capitalistas e trabalhadores, que se acirra com a divisão manufatureira do trabalho e a introdução da maquinaria, configurando uma longa história de luta de classes. Como destaca Marx (1968, p. 427): “Cinqüenta mil trabalhadores que até então viviam de cardar lã dirigiram uma petição ao Parlamento contra as máquinas de carduçar e de cardar de Arkwright”. O descontentamento dos trabalhadores com o maquinário causou “enorme destruição de máquinas nos distritos manufatureiros ingleses durante os primeiros 15

18 As obras estão assim referenciadas pelo ano originalmente de publicação, mas para fins deste

anos do século XIX, provocada principalmente pelo emprego do tear a vapor.” (MARX, 1968, p. 427. O movimento luddita19 como ficou conhecido, levou Marx a afirmar, conforme já apontado, que precisaria de tempo e experiência para que o trabalhador percebesse que o que deveria ser atacado era a forma social de exploração à qual estavam submetidos, e não a introdução do maquinário que poderia potencializar o trabalho humano.

Enquanto Marx denunciava a situação de exploração dos trabalhadores pelos capitalistas, Smiles exaltava o caráter industrial de expoentes ingleses, enfatizando o labor, a engenhosidade e desconsiderando as relações de trabalho e de exploração decorrentes do aperfeiçoamento da maquinaria. Smiles (1893, p. 41) escreve:

Arkwright chegou a ser denunciado como inimigo da classe operária, e um tear que construiu perto de Chorley foi destruído pela população em presença mesmo de um forte destacamento de polícia e de tropa. Os negociantes do Lancashire recusaram-se a comprar os seus produtos, apesar de serem por todos reconhecidos como os melhores. Negaram-se a pagar o direito de patente pelo uso dos seus engenhos e combinaram-se para esmagá-lo perante os tribunais. Com grande desgosto das pessoas sensatas, a patente de Arkwright foi anulada. [...] estabeleceu novos

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Os ludditas, conhecidos como os destruidores de máquinas, formavam uma organização de operários que se dizia estar sob as ordens de um general chamado Ned Ludd, de quem deriva a denominação. A destruição de máquinas continuou até meados de 1816. Segundo Huberman, os ludditas, nas suas manifestações, cantavam canções para externar seus sentimentos de revolta diante das condições sociais que viviam. Uma das canções dizia: “De pé ficaremos todos. E com firmeza juramos quebrar tesouras e válvulas e pôr fogo às fábricas daninhas.” (HUBERMAN, 1986, p. 186). Para os ludditas, a máquina seria a grande vilã na relação de trabalho. Interessante é observar a interpretação de Marx (1968) sobre essa relação. Para ele, “é incontestável que a maquinaria em si mesma não é responsável de serem os trabalhadores despojados dos meios de subsistência [...]. A maquinaria, como instrumental de trabalho que é, encurta o tempo de trabalho, facilita o trabalho, é uma vitória do homem sobre as forças naturais, aumenta a riqueza dos que realmente produzem, mas, com sua aplicação capitalista, gera resultados opostos: prolonga o tempo de trabalho, aumenta sua intensidade, escraviza o homem por meio das forças naturais, pauperiza os verdadeiros produtores.” (MARX, 1968, p. 506). O problema estaria, então, na relação social estabelecida – uma relação em que homens escravizam outros homens quando por meio da maquinaria poderia então libertá-los, conforme se observa nas palavras de Marx. “Era mister tempo e experiência para o trabalhador aprender a distinguir a maquinaria de sua aplicação capitalista e atacar não os meios materiais de produção, mas a forma social em que são explorados.” (MARX, 1968, p. 491).

teares no Lancashire, no Derbyshire e em New Lamark, na Escócia. O tear de Cromford passou também para as suas mãos quando findou a sua sociedade com Strutt e eram tais o número e a superioridade dos seus artefatos que em pouco tempo conseguiu ser o regulador desta indústria, a ponto que era ele quem fixava os preços e servia de norma nas principais operações dos outros fabricantes. [...] todos os mais ramos principais da indústria inglesa oferecem exemplos semelhantes de homens enérgicos para os negócios, que tem isso a causa de muitos benefícios para as localidades em que trabalhavam e de aumento de poder e riqueza para a nação em geral.

Smiles (1893, p. 58), ao referir-se ao movimento luddita, destaca que “algumas diferenças surgiram entre patrões e operários empregados na manufatura de meias e rendas da parte sudoeste de Nottinghamshire e nas circunvizinhanças de Derbyshire.” O ex-médico escocês limita-se apenas a descrever como os ludditas, como “uma organização cada vez mais secreta”, destruiam as máquinas empregadas na manufatura. Das numerosas fábricas cujas oficinas foram atacadas pelos ludditas, Smiles chama a atenção para o inventor da máquina de ponto de rede, Mr. Heathcoat, que, em 1816, teve dez de seus teares destruídos e que, depois de ganhar uma indenização do Tribunal do Banco da Rainha, comprou uma velha fábrica em Liverton, estabelecendo uma oficina de fundição de ferro. Smiles (1893, p. 61) considerava M. Heathcoat um

diligente educador de si próprio, por isso de boa mente, protegia os jovens operários em seu serviço, que o mereciam, estimulando-os o talento e a energia. [...] os dois mil operários que empregava o consideravam quase como um pai, e ele ocupava-se com solicitude do seu conforto e bem-estar. [...] edificou escolas para a educação dos filhos de seus operários.

Em tais passagens, Smiles apresenta apenas um lado da história, o lado capitalista, cuja engenhosidade e invenções, aspecto valorizado do povo inglês, são elementos fundamentais para o desenvolvimento da indústria. Esta versão da história não explicita como se configuraram as relações de trabalho. Em O capital, Marx (1968, p. 493) analisa que a

“história não oferece nenhum espetáculo mais horrendo que a extinção progressiva dos tecelões manuais ingleses, arrastando-se durante decênios e consumando-se finalmente em 1838.”

Do artesanato à chamada indústria moderna, Marx (1968, p. 435) sintetiza:

Com a afluência das invenções e a procura crescente de novas máquinas inventadas, cada vez mais se diferenciava em ramos autônomos diversos a produção de máquinas e se desenvolvia a divisão do trabalho nas manufaturas que construiam máquinas. A manufatura constitui assim em base técnica imediata da indústria moderna. A primeira produzia a maquinaria com que a segunda eliminava o artesanato e a manufatura nos ramos de produção de que se apoderava.

Nessa fala evidencia-se aquilo que Marx e Engels (1987), na Ideologia Alemã, diziam sobre uma forma de trabalho subverter a outra, à medida que esta se fixa. Assim, os homens fazem história e produzem sua existência a partir de circunstâncias dadas, e não de acordo com sua vontade, que uma geração jamais abdica das condições materiais existentes, utilizando-as como um patamar a ser alcançado.

O longo século XIX sedimenta o que se chamou de capitalismo concorrencial ou competitivo (BOTTOMORE, 2001, p. 285), em que “a mais-valia é apropriada principalmente sob a forma de lucro e a divisão do trabalho é coordenada e orientada pelos mercados nos quais as mercadorias são vendidas.” Não há dúvida de que as relações sociais se complexificaram, tanto assim, que os acontecimentos nesse período permitem tal afirmação. Segundo Hobsbawm (1995, p. 22), o longo século XIX foi “um período de progresso material, intelectual e moral quase ininterrupto, quer dizer, de melhoria nas condições de vida civilizada.”

A construção das estradas de ferro foi provavelmente o fator mais importante na promoção do progresso econômico europeu nos anos 1830 e 184020. A Inglaterra foi a maior beneficiada, uma vez que a

20 Marx também trabalhou nas estradas de ferro inglesas em meados da década de 50 do século

economia se diversifica e surge a necessidade de aperfeiçoar as ferrovias para que sejam usadas para o transporte de mercadorias e pessoas. Os polos de desenvolvimento econômico surgiram e a ferrovia significava valorização das terras e imóveis. Por volta da década de 30 do século XIX, as profundas transformações econômicas deflagradas pela Revolução Industrial e a reorientação intelectual propiciada pelo desenvolvimento da economia política burguesa - especialmente os trabalhos de Adam Smith (1723-1790) e David Ricardo (1772-1823) - foram as chaves tanto para a emergência de um novo mundo quanto para a disseminação de uma nova concepção de mundo. (RODRIGUES, 2002).

Esse é o período em que vive Samuel Smiles, autor que centraliza a discussão na formação do caráter do indivíduo, no cumprimento de deveres morais para o progresso de uma sociedade.

2.2 VOLTANDO ÀS ORIGENS21: UM POUCO SOBRE