2. O LUGAR DO PODER NO TRABALHO
2.2 Autoridade e Legitimidade
A palavra autoridade vem do latim auctoritas, que vem de auctor, e significa o fundador ou o responsável por alguma coisa, ou pela instituição. Então, autoridade designa o começo, a iniciativa de alguma coisa, e é por fazer esse inicio que se constitui a autoridade. A diferença entre os conceitos de poder e autoridade encontra-se na legitimidade e formalidade. Autoridade é uma espécie de poder, porém, um poder legítimo, que é concedido à pessoa por meio da hierarquia e do cargo que a pessoa ocupa em determinado momento, ou pela aceitação dos subordinados de que aquela pessoa realmente tem autoridade para ocupar tal posição. Já o poder, está relacionado com autoridade, mas, seu exercício não depende somente
da organização ou da aceitação das outras pessoas, mas depende também das características da personalidade da pessoa que vai exercê-lo.
A legitimidade, presente nas relações de poder, refere-se a uma condição de validação, de justificação, de aceitação, de reconhecimento dos sujeitos envolvidos. Não existe legitimidade universal, pois o que pode ser legítimo para determinadas pessoas, pode não ser para outras. “Se o poder for sancionado formalmente por uma organização (contratual) ou informalmente apoiado por indivíduos ou grupos (consensual), será descrito como poder legítimo”. (BOWDITCH; BUONO, 1992, p. 118).
A autoridade se estabelece em um reconhecimento de diferença de lugares. Possui a autoridade aquele a quem se reconhece a partir do lugar que ocupa que o que ele diz não tem o mesmo valor do que outra pessoa que não ocupa esse lugar. Existe uma diferença na fala de quem ocupa lugar de autoridade e de quem não ocupa, fala esta que é reconhecida simbolicamente.
Qualquer pessoa pode ocupar a posição de autoridade: o chefe, a faxineira, o professor... A autoridade não precisa estar apenas no lugar daquele que detém o poder, pois ela se dá no momento em que alguém ocupa um lugar simbolicamente reconhecido como diferente dos outros, não importa quem seja. Lebrun (2009, p. 96 ) explica que, “reconhecido simbolicamente como diferente implica que esse reconhecimento não dependa apenas da concordância do outro, mas antes da adesão a um pacto que antecipe e ultrapasse os interlocutores presentes”.
A autoridade, especialmente nos últimos tempos, vem sendo questionada. Quando dizemos que autoridade depende de obediência, normalmente estamos confundindo-a com o poder ou com alguma forma de violência. A autoridade não depende de meios de coerção, pois no momento em que precisamos utilizar a força, podemos dizer que a autoridade falhou. A autoridade não depende também de persuasão, que significa igualdade onde existem argumentações, pois no momento em que se tem argumentações de forma igualitária é porque a autoridade foi deixada de lado. Hannah Arendt (1957 apud Lebrun, 2009) diz que:
[...] A relação de autoridade entre aquele que comanda e aquele que obedece não repousa nem sobre uma razão comum, nem sobre o poder daquele que comanda; o que eles têm em comum é a própria hierarquia, da qual cada um reconhece a justeza e a legitimidade e, na qual ambos têm antecipadamente seu lugar fixado. (ARENDT, 1957 apud LEBRUN, 2009, p. 110).
Com isso, podemos compreender que exercer a autoridade implica no reconhecimento de um lugar diferente e na legitimidade de ocupar este lugar. Não podemos confundi-la com poder ou com autoritarismo, pois autoridade não significa agir com persuasão ou violência.
Quando as pessoas são forçadas a fazer algo pela aplicação da força ou apenas pelo lugar que alguém ocupa, dizemos que essa pessoa está submetida ao poder, e, quando a pessoa faz alguma coisa por meio do exemplo e do caráter, significa aplicação da autoridade.
O poder tem a capacidade de destruir relacionamentos, fazendo com que as pessoas façam alguma coisa somente por obrigação, já a autoridade tem a capacidade de construir relacionamentos, fazendo que a pessoa além de executar suas tarefas, as faça construindo relacionamentos. As pessoas dificilmente se esquecem de alguém que a submeteu por meio do poder, mas também não esquecem, e pelo contrário, lembrar-se-á com muito carinho de alguém que as influenciou por meio da autoridade.
O fato de falar implica imediatamente uma diferença de lugares, pois tem aquele que fala e aquele que escuta. Os campos da fala e da linguagem caracterizam as pessoas como seres humanos, e nisso está implicada uma diferenciação de lugares. A possibilidade de a autoridade ser reconhecida com legitimidade está no fato daquele que fala poder ocupar um lugar reconhecido não apenas pela fala, mas sim, pela coerência daquilo que é falado.
Pode-se dizer que existe determinada pessoa que ocupa um lugar de exceção, que é um lugar diferenciado, que não é o lugar que outras pessoas ocupam, mas deve ser pensado também na coerência disso que se fala. Isso sustenta a autoridade do doutor, do cientista, do professor. Essas pessoas estão em um lugar determinado pelas suas capacidades e competências para ocupar esse lugar, e foram reconhecidas como alguém que detém os conhecimentos necessários para ocupar tal posição, mas essa pessoa precisa realmente ter um saber reconhecido para sustentar sua fala, e não apenas ocupar esse lugar. (LEBRUN, 2009).
Existem duas divergências em questão, tratando-se no primeiro caso de alguém que é reconhecido por suas competências, dizemos que essa pessoa tem autoridade, e em outro caso quando a pessoa utiliza um saber para sustentar essa competência, dizemos que essa pessoa é a autoridade. São duas questões – o ter e o ser a autoridade.
Legitimidade é um fundamento do poder, que é aquilo que leva as pessoas a aceitarem, a partir do valor que se coloca, a obedecer a alguma coisa. É aquilo que diz se um comando
deve ou não deve ser obedecido. “No entanto, notemos que quem é normalmente – e historicamente - designado por autoridade visa, sobretudo à primeira forma de se legitimar”. (LEBRUN, 2009, p. 112) Quer dizer que se as pessoas submetem-se a algum comando, a alguma autoridade ou poder, é porque essa posição foi legitimada, aceita por todos. Se as pessoas não obedecem, ou seja, não aceitam a determinado “mando” é porque o lugar de autoridade ou de poder não foi aceito pelas pessoas, não foi reconhecido simbolicamente como um lugar diferente dos outros, e, não é legítimo.
As questões da autoridade, bem como da legitimidade são fundamentais quando se trata em falar sobre o poder nas organizações de trabalho. Dito isso, abordar-se-á a seguir mais especificamente sobre o poder relacionando-o com a subjetividade do trabalhador.