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Avaliação de software educacional

2.4 CONCEITOS SOFTWARE EDUCACIONAL, QUALIDADE EDUCACIONAL E AVALIAÇÃO

2.4.3 Avaliação de software educacional

A Educação depende de uma sábia política cultural de capacitação tecnológica, conforme Eco (1979), que promova habilidades e competências de agir e operar num mundo construído na medida humana, mas povoado por tecnologias, redes e fluxos que impactam múltiplas dimensões da vida. Temperar a recepção com a interpretação e uma rica emissão descondiciona as pessoas a aceitar passivamente os softwares freewares, sharewares ou licenciados impostos, segundo códigos da classe hegemônica. O controle e o gerenciamento da qualidade dos processos, dos produtos e dos serviços, segundo Drucker (1977), institui um processo contínuo, sistemático, organizado e capaz de prever o futuro, atuando de forma inovadora na tomada de decisões reais que minimizem riscos de toda a ordem.

Para tornar as tecnologias objeto de crítica é necessário impelir à liberdade de pensar, identificar e controlar, por conta própria, o momento em que a produção das formas imagéticas e comunicacionais estabelece redes de condicionamentos, que não trazem mais benefícios humanos. O esclarecimento, nas considerações de Adorno e Horkheimer (2006), livra o homem

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do ofuscamento, do temor da regressão conformista e investe-o na posição de soberano, que reconhece, analisa, julga e vigia a dominação em seus próprios pensamentos. Discernir o elemento esclarecedor é um movimento universal dos espíritos soberanos, sempre em contradição, para dissolução de mitos, através da reflexão.

Num processo social dinâmico, o homem conhece o valor das coisas através das práticas de pessoas, profissionais e equipes, que utilizam metodologias formais para avaliar simultaneamente a proporção entre qualidade das performances, objetivos alcançados e investimentos (equipamentos, produtos, capacitação, capital e trabalho). Koscianski e Soares (2007) ressaltam que muitos programas são tão difíceis - não funcionam e são abandonados - ou porque há comandos complexos, módulos que não operam corretamente e, quando combinados, são de difícil manuseio.

A insegurança na operação de programas contribui para a insatisfação do usuário e a criação de resistências à tecnologia educativa pela quantidade total de problemas pelos quais os desenvolvedores os fazem passar – irritação, cansaço e distração – que faz o usuário desistir de usar um SE. A sondagem, o diagnóstico e a avaliação da qualidade educacional devem anteceder ao ato de aquisição e acompanhar o uso do SE, para que “as interações consistentes com as expectativas do usuário pareçam agradáveis” (Nielsen, Loranger, & Lessa, 2007, p. 329) e possam gerar um fluxo eficiente e rápido de trabalho, com economia de tempo, movimento físico, operações cognitivas desenvolvidas e êxito na experiência.

Nos produtos tecnológicos, os interesses não são percebidos claramente, porque “função primeira da ideologia é afogar os significados dos signos em falsos significados, é apresentar como evidente algo que está longe de sê-lo” (Netto, 1980, p. 49). Em virtude de sua complexidade intencional ou de camuflagens as estratégias são canalizadas para fins específicos e interesses comerciais, fragilizando o processo pedagógico criativo e crítico, geralmente recoberto por uma visão conservadora e tradicional do sistema educacional, da sociedade, da escola ou da equipe de desenvolvimento.

Usuários de SE devem ser sujeitos ativos na interpretação conclusiva e atribuição, segundo Gomes Filho (2014), de índices de pregnância da forma, traduzindo os desdobramentos e articulações dos códigos de comunicação e das unidades figurativas constitutivas na sua relação coerente, regular e clara com a configuração visual, presente no trabalho de designers, desenvolvedores, empresas, sistemas, instituições e governos.

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No ato avaliador, há perda da ingenuidade e ganho de maturidade, percebendo-se as intenções resultantes da produção industrial na criação de andróides, interfaces e hibridagens humano máquinas. Da capacidade de fragmentação e de recomposição dos componentes simbólicos, lógicos, sociopolíticos, didáticopedagógicos, técnicos e estéticos dos SE resulta a complexidade do ato avaliador e incapacidade de determinar o controle ético das fetichizações e manipulações dos produtos softwares, ou de quem deles se apropria para determinados fins.

A tradição de avaliar e avaliar-se é basilar para definir estratégias, transversando as tecnologias e a criatividade nas práticas, planos, matrizes curriculares e projetos pedagógicos, assentados sobre bases humanas, científicas e tecnológicas e edificadas nos jogos de poder. A cultura de avaliar revigora, ininterruptamente, as concepções (docentes, gestores, alunos e pais), o contexto (com suas ameaças e oportunidades), o ambiente escolar (suas forças e fraquezas), os projetos pedagógicos (missão, metas e objetivos), os currículos (cursos ágeis e disciplinas relevantes), as estratégias gestoras e de ensinoaprendizagem (erros e acertos) e os resultados alcançados (eficácia e excelência educacional).

Argumentos fortes em favor da qualidade demandam diagnóstico, plano estratégico, equipes multidisciplinares de avaliadores, manual de rotinas com instrumentos e mecanismos, treinamentos, revisões e auditorias periódicas, inspeções, audiências e fóruns sobre qualidade e ciclo de vida dos SE. Para Luckesi (2000), a avaliação é inclusiva, democrática, amorosa e, por onde quer que ela passe, há diagnóstico, construção sem submissão, espontaneidade e liberdade sem medo - é uma arte que indaga e decompõe os véus e as camadas superficiais das aparências - para recompor a essência não mecânica da tecnologia.

Consoante Chauí (2010), a negação e o questionamento são componentes da atitude crítica e do esforço intelectual para confrontar ideias e desempenhos com as visões subjetivas do mundo - pré-concebido, pré-estabelecido ou pré-conceituado. Avaliar é um ato de coragem e exige audácia para começar uma discussão/reflexão sobre mudanças, que geralmente esbarra na atitude de resistência. Segundo Netto (1980), a novidade, totalmente original, introduz na mente do receptor médio, que possui um alcance limitado, a desordem total – como um fetiche a ser evitado -, que se contrapõe ao antigo, ao conservador e tradicional, por receio de mudanças.

A avaliação reflete a nobreza de equipes colaborativas, em que os agentes educacionais dissolvem e desorganizam estruturas preexistentes. Para Paiva (2004), a inovação implica forçar o outro a romper crenças e posturas as quais afetam a sua liberdade e a sua subjetividade,

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porque as transformações gestadas sem a participação e o protagonismo dos membros da comunidade escolar não alteram a rotina das instituições de ensino na direção da democracia e excelência educacional.

Os testes transformam-se em negócio lucrativo - centrados na memorização de informações, com sistemas de avaliação estandardizados de instrução e de treinamento - que exigem respostas, conhecimentos fragmentados e competências em determinadas disciplinas, enfatizando raciocínio lógico matemático e a leitura. A busca de uma visão de totalidade indivisa, de acordo com Morin (1977), de ação globalizadora mais humana desfragmenta o processo avaliador, na medida em que considera a perspectiva do conjunto global, a organicidade do universo e o sincronismo dos sistemas naturais, em síntese articuladora e relações intercambiantes constantes das unidades interdependentes com a totalidade. A visão mais holística do pensar sistêmico aplicado aos testes impõe a tarefa de substituir modelos de testes compartimentados por novos estilos de avaliação com diagnóstico das múltiplas dimensões e níveis de aprendizagens construída pelo ser humano - como ser indiviso - na relação com as áreas do conhecimento e contextos.

A urgência de apostar na frequência de avaliação de SE revela que na primeira vez em que novas faces do produto são vistas, as células respondem com um nível moderado. Entretanto com algumas exposições adicionais (apresentação de várias faces de softwares) aos sujeitos, as áreas do córtex visual extra-estriatal são ativadas e mudam de tal forma que “evocam uma resposta significativamente maior que outras (Bear et al., 2010, p. 735), “alargando o processo de avaliação e de certificação” (Graça, Aníbal, & Pinheiro, 2005, p. 12).

No Brasil, a opção dos governos e estímulo ao uso do software livre deve ser auditada na perspectiva dos consideráveis investimentos públicos e benefícios esperados: substituição de custos com contratos de licença por contatos de prestação de serviço; possíveis irregularidades nas licitações com a permanência das mesmas empresas (Positivo Informática, Digibrás, etc.) vencedoras dos pregões digitais; custo mais elevado das máquinas, reconfiguradas para acolher um sistema operacional LE, inexequível em diferentes arquiteturas; morosidade de instalação do aceso à Internet por empresas de telefonia; e obsolescência do modelo de hardware.

Conforme o “Relatório de Auditoria de Natureza Operacional” do Tribunal de Contas da União (TCU, 2000), do Programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo), há: subutilização do laboratório de Informática da escola (ociosidade de 4 horas diárias); insuficiente capacitação tecnológica dos NTE para atender todos os professores das escolas do ProInfo;

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inadequação do número de equipamentos ao número de alunos (ideal seria dois alunos por máquina); carência de técnico de informática, de coordenador de informática, de assistência técnica menos burocrática e de disponibilidade de insumos (disquetes, papel, cartuchos de tinta). Assim, o relatório do TCU (2000) recomenda que os NTE devem melhorar as estratégias de acompanhamento dos professores, formar alunos técnicos e otimizar recursos (diárias, passagens e/ou veículos) para visitar multiplicadores, verificando o acesso à Internet, inexistente em muitas escolas, e cumprimento dos contratos por empresas de telefonia.

Na medida em que a fonte (empresa ou instituição) acolhe e conhece as verdadeiras necessidades e os interesses dos usuários torna-se capaz de retroalimentar as correções de conduta, de desenho intencional e de procedimentos de manipulação e exploração, melhorando os níveis de qualidade dos produtos e a autonomia dos usuários na escolha de produtos vocacionados para a Educação.