2.6 EDUCAÇÃO DE QUALIDADE
2.6.1 Evolução dos cânones e normas de qualidade
A estrutura presente nos seres vivos, segundo Maturana (2004), resulta da história particular de sua autopoiése – o organismo se autogere –, e de suas interações constitutivas em que as mudanças estruturais foram congruentes com as mudanças do meio e das relações do organismo vivo com outros organismos e demais elementos do ecossistema. Essa evolução qualitativa da estrutura constitutiva hominídea fundadora gerou entes dinâmicos e autônomos, que cooperam, agem ou reagem de modo coerente com as emoções, circunstâncias e “desafios comuns que enfrentam” (Rompuy, 2014, p. 215). Em temporalidades específicas das diversas culturas humanas o estético e a criatividade criam fluxos contínuos, preservam ou recriam os arquétipos – cânones – que norteiam os critérios e normas de qualidade funcional, ética e estética autênticas, capazes de superar o “esteticismo presente na globalização cultural” (Paviani, 2004, p. 24).
O uso dos cânones por diferentes sociedades referenda que “a vida é criatividade, novidade, irredutibilidade daquilo que nasce àquilo que existiu. A verdadeira história é a história dessas novidades, a história dos homens superiores que souberam criar” (Vattimo, 2010, p. 23), reordenando e moderando as tensões, os graus de conflito e de equilíbrio. A definição de “cânone” torna-se imperativa.
A palavra grega kanóni significa "régua", "cana, de medir", vara de referência para medir com precisão, norma de produção original distinta (inventos ou obras primas), padrão de qualidade de manufatura ou habilidade acima do normal, tendente ao virtuosismo, à superioridade e à perfeição, padrão religioso de conduta moral ou conjunto de textos bíblicos autênticos. Historicamente, a palavra cânone vem sendo usada como unidade de medida, standards ou padrões de testes e sistemas de avaliação ou norma de representação, de relações de magnitude e proporções matemáticas, com fins ergonômicos e antropométricos.
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No âmbito educacional, conforme Fontanive (1997), os standards inserem-se nos movimentos de reformas curriculares em larga escola, nacionais ou internacionais, iniciados em 1985, na Europa e Estados Unidos, no sentido de criar sistemas de avaliação unificados e currículos nacionais rigorosos para elevar os níveis de aprendizagem. Entretanto, os cânones de qualidade educacional assumem conotações e interesses diversos: pré-requisitos elitizados por nações desenvolvidas, com sistemas de proteção social abrangente, domínio de conhecimento e de tecnologias capazes de legitimar seu poder de comparar, de julgar e de excluir; quando deveriam ser criados a partir do debate democrático e orientados para consensos das comunidades escolares e sistemas regionais e nacionais de ensino em torno da equidade.
Segundo Guimarães (2002), o mito grego de Procusto constitui uma metáfora de imposição de normas ou padrões e de intolerância com a diversidade, uma vez que o bandido submetia os viajantes ao ajuste no padrão de sua cama, justificando sua atitude pela necessidade de extinguir as desigualdades: deitadas na cama de Procusto, as pessoas maiores tinham o excesso amputado, enquanto as pessoas menores eram esticadas até atingir o padrão. As pessoas nunca se ajustavam ao padrão, porque Procusto mantinha, secretamente, duas camas, de diferentes tamanhos. Sua trajetória de terror continuou até que Teseu, herói ateniense, submeteu-o ao mesmo suplício.
O número tornou-se padrão de medida universal – o que não se reduz a números é ilusão - e o domínio do equivalente torna o heterogêneo comparável ao uno, reduzido à mônada, na medida em que “destruídas as distinções, o mundo é submetido ao domínio dos homens” (Adorno & Horkheimer, 2006, p. 21). Conforme Koscianskyi e Soares (2007), os egípcios já dispunham de padrões e instrumentos para obter padrões de qualidade. O artesão, o servo e o aprendiz e, posteriormente, os mestres das oficinas, que chefiavam equipes, controlavam a qualidade das máquinas e instrumentos, para evitar defeitos no processo de produção e no produto final.
Os cânones representam o momento histórico em que se definem os modelos e as estratégias representacionais de qualidade e “todos os cânones que nos chegaram até hoje em dia provém das Artes Plásticas” (Ribadeneira, 2012, p. 30). Os cânones artísticos simbólicos foram sistemas, determinados por estatutos religiosos, sociológicos e culturais, tratado sobre regras e proporções do corpo humano evidenciadas na estátua cânone, do escultor grego Policleto no século V a.C.. Os cânones estabeleciam as formas humanas, com uma funcionalidade e com relações proporcionais simbólicas em que as “estas formas se construyen
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por semejanza o metáfora y su articulación genera alegorías y discursos”1 (González, 2011, p.
16).
O primeiro antropômetro foi Quetelet, que, com sua metodologia, auxiliou na evolução dos cânones de Mirón e Zeuxis; Vitrúbio, Alberti, Leonardo, Dürer e Rafael e demais artistas de épocas posteriores até Le Corbousier. Segundo González (2011), os artistas quais articulam as modulações e proporções com sete cabeças e meia, para tipo humano médio de 1,70m de estatura (Canon de Rircher e de Langer); e o módulo de oito cabeças para tipo Heróico, com mais de 1,80m (Canon de Richer, Geyer e Schadow).
Na Baixa Idade Média, segundo Aranha (2006), “os aprendizes de qualquer ofício deviam seguir as regras da corporação” (p.125), viver na casa do mestre sem pagamento, aprender o ofício e submeter-se a um exame para se tornar um oficial, com autoridade conferida. Com a Primeira Revolução Industrial, no século XVIII, as oficinas organizaram-se por setores específicos de atividades, com mão de obra mais qualificada, chefias de controle, inspetores e supervisores, para controle de qualidade e dos defeitos dos produtos, uma vez que a mão de obra camponesa não possuía habilitação para máquinas de automação e produção em série.
Na Segunda Revolução Industrial, segundo Warschauer (2006), final do século XIX, criaram-se hierarquias verticais nas indústrias e controle de qualidade de dispositivos e equipamentos elétricos, de telefonia e máquinas de combustão. A partir de 1790, discute-se “a padronização do sistema de medidas” (Koscianski & Soares, 2007, p. 43) e, em 1874, o Tratado de Bern estabelece a Universal Postal Union com sistema padronizado de correspondência, adotado pelos países membros.
Na Terceira Revolução Industrial, desde meados do século XX, os computadores e as TIC organizaram-se em redes horizontais de desenvolvimento global, emergentes do capitalismo informacional, conforme Castells (1999), com acúmulo de conhecimentos em níveis e graus ascendentes de complexidade, flexibilidade de processamento da informação, sob a lógica das redes e convergência de tecnologias. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os equipamentos bélicos, o instrumental técnico da artilharia, as tecnologias e os transportes apresentavam problemas, decorrentes da falta de especificações quanto à metrologia, à proteção, à mobilidade e à calibração. Nas indústrias, a criação de postos de trabalho com chefes de inspeção possibilita aferição da conformidade e das diretrizes de controle da
1“estas formas se constroem por semelhança ou metáfora e sua articulação gera alegorias e discursos” (tradução
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qualidade, segundo Campos (2004), para garantir a segurança, eficácia e qualidade dos produtos em consonância com os custos de fabricação e de venda.
A partir de 1920, surgem os diagramas de controle estatístico da qualidade dos produtos manufaturados, das variações nas medidas e detectação de desvios. A melhoria contínua da qualidade e a satisfação dos clientes incentivaram a padronização internacional na área eletrotécnica e, em 1922, a criação da International Electrotechnical Commission (IEC). Na década de 40, surgem os organismos de controle de qualidade: a American Society for Quality Controle (ASQC), atual American Society for Quality (ASQ), e a ABNT.
No período de 1939-1945, durante a Segunda Guerra Mundial, houve dificuldades das empresas em produzir materiais e equipamentos militares com requisitos de qualidade, nos prazos pré-estabelecidos. Os computadores já estavam em uso para fins militares e acadêmicos (Koscianski & Soares, 2007), e nasce a Engenharia da Qualidade, capacitando profissionais a atuar como agentes de mudança da cultura organizacional, dos métodos e estratégias de qualidade da produtividade através do planejamento, da prevenção, do controle técnico e do gerenciamento dos custos da qualidade como fator competitivo.
Entre 1942 e 1948, Le Corbusier considerou que a felicidade só pode assentar-se no ajuste perfeito entre as necessidades humanas, definidas cientificamente, e os espaços de vida. Produziu pela razão o último cânone artístico: “el Modulor, un sistema de medidas en el que cada magnitud se relaciona com las demás según la Proporción Áurea”2 (González, 2011, p.
28), aplicável ao design funcional, estético e à arquitetura. Ao longo do século XX, o planejamento da qualidade associa-se à cooperação das equipes (cientistas, engenheiros e técnicos) que cuidam da mediação e da reinterpretação dos meios (instrumentos, aparelhos e máquinas), segundo Lévy (2011), através de jogos de desvios e operações combinatórias, complementadas pelas operações racionais de pensamento e de trabalho humano, que garantiram a qualidade do produto, com fins sempre instáveis, perpetuamente reconstruídos, negociados e contestados.
Em 1946, em Londres, uma conferência reuniu 65 delegados de 25 países para criar a International Organization for Standardization (ISO) (palavra com origem grega, que significa “igual”). A Organização Não Governamental ISO, criada em 1947, com sede em Genebra, na Suiça, é composta por organizações como International Federations of the National Standardizing
2 “o Modulor, sistema de medidas em que cada magnitude se relaciona com as demais segundo a Proporção
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Associations e a United Nations Standards Coordinating Commitee, com objetivo de recomendar padrões para documentos internacionais e normas de qualidade de produtos e serviços.
Entre 1950 e 1970, Deming (1990) e Juran (1993) abordam os custos da qualidade, em palestras no Japão, introduzindo o controle da qualidade total para conquistar novos mercados e melhorar a reputação dos produtos japoneses. Com aumento da velocidade de produção, conforme Campos (2004), surge a necessidade de automação da inspeção por amostragem estatística e o planejamento, controle e garantia da qualidade no ciclo de vida dos produtos em todas as fases, desde o planejamento, projetação, processo, produção, controle dos custos até o uso do produto, que atenda às necessidades dos adquirentes e usuários. Para Campos (2004), o Controle da Qualidade Total referenda a presença de auditorias, internas e externas, de sistemas, processos e produtos, destacando as metodologias de qualidade, que envolvem a participação de todos os membros da organização, dirigida ao controle de preços e à satisfação das necessidades dos adquirentes e usuários.
Nas décadas de 1970 e 1980, a qualidade torna-se estratégia para atender demandas dos adquirentes e necessidades dos usuários, relativas a produtos e serviços. Com o Controle da Qualidade Total, Feigenbaum (1994) sugere a criação da engenharia do controle da qualidade, que se coaduna com o desenvolvimento industrial e com a expansão das empresas multinacionais de computadores. A complexidade dos sistemas e as novas TIC substituem memórias lentas, caras e consumidoras de energia por microprocessadores robustos e ágeis, geograficamente descentralizados e integrados para processar e transferir dados, com queda de custos no hardware e nos softwares.
Nos anos de 1980 e 1990, com o acentuado processo de globalização capitalista e a criação da União Europeia, segundo Drucker (1999), o Bell Lab enfatiza o uso das TIC, dos computadores pessoais, das redes e da fibra ótica para acelerar processo de produtividade, competitividade, qualidade e satisfação das necessidades do cliente. Influenciado por normas norte-americanas e de defesa militar - Military Specifications - MIL SPECS -, o governo britânico persuadiu as organizações a adotar a BS 5750 como norma padrão internacional de qualidade dos produtos, que se tornou a ISO 9000, a partir do estabelecimento de critérios para julgar contratos e negociações na agricultura, tecnologia, saúde, petróleo, vidros, alimentos e construção.
A ISO 9000 subdividiu-se em três modelos de gerenciamento da qualidade: a ISO 9001:1987, de garantia da qualidade no design, desenvolvimento, produção, montagem e
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prestação de serviço na criação de novos produtos; a ISO 9002:1987, de garantia da qualidade na produção, montagem e prestação de serviço; e a ISO 9003:1987, de modelo de garantia da qualidade para inspeção final e teste do produto.
Atualmente, a ISO congrega mais de 160 países, com mais de 50 mil especialistas integrantes da IEC e subcomissões hierárquicas do Joint Technical Committee (JTCI), responsável pela criação de normas relacionadas às TIC, abrangendo, segundo Koscianski e Soares (2007), projeto, desenvolvimento, desempenho, segurança, portabilidade e interoperabilidade entre sistemas, harmonização de ferramentas, ambientes, vocabulários e ergonomia de sistemas, documentação, estudo, avaliação, métricas, gerência e ciclo de vida.
No Brasil, o referencial normativo provém da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), que representa a ISO e a IEC, subdividida em comitês, para preparação, verificação, implantação e uso das normas. A família de normas da linha 9000 trata da qualidade e a linha 14000 alude à responsabilidade socioambiental. Sob o código ABNT NBR ISO/IEC 14598-5: 2001 (ABNT, 2001), intitulada Tecnologia de Informação fornece requisitos e recomendações para a avaliação de produto software, aplicando os conceitos da ISO/IEC 9126.
Sob o código ABNT NBR ISO 9000:2005 (ABNT, 2005) a norma trata da gestão da qualidade, dos fundamentos e vocabulário a ela relacionados, enquanto a ABNT NBR ISO/IEC 25051:2008 (ABNT, 2008), referenda Software Product Quality Requirements and Evaluation (SQuaRE), requirementos for quality of Commercial Off-The-Self (COTS) software product e instruções para testes. Finalmente, a norma internacional, sob o código ABNT NBR ISO/IEC 12207:2009 (ABNT, 2009), da Engenharia de Sistemas e Software, estabelece a terminologia referenciada pela indústria e a estrutura comum para processos de ciclo de vida de softwares ( processos, atividades e tarefas aplicadas à aquisição, fornecimento, desenvolvimento, operação, manutenção e descontinuidade dos produtos.
Constituem, igualmente, organizações de padronização: o Instituto Latino Americano de la Calidad (INLAC), na América Latina; o INMETRO, gestor do Sistema Brasileiro de Avaliação da Conformidade (SBAC); e o Sistema Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (SINMETRO) para certificação da conformidade, no Brasil. O Código de Defesa do Consumidor criado pela Lei n.º 8.078 de 11 de setembro de 1990, é um instrumento público de proteção ao consumidor em defesa dos interesses sociais que eleva o nível de qualidade dos produtos e serviços prestados no país.
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Em 2008, sob a liderança do projeto europeu QualiPSo e do Centro de Competência Software Livre, da USP, foi fundada a rede internacional de centros de competência em software livre, usando a Plataforma Noosfera, reunindo instituições de ensino, governos, empresas, usuários, hackers, Organizações Não Governamentais (ONG) e cooperativas de tecnologias. A publicação do Manifesto for FLOSS Competence Centers como modelo ético confiável que incentiva a cultura colaborativa entre usuários de distintas regiões. No I Congresso Internacional Software Livre e Governo Eletrônico (CONSEGI), cientistas, educadores e estudantes de vários países (África, Brasil, Cuba, Equador, Paraguai e Venezuela) reavaliaram a credibilidade da ISO/IEC e, através do Manifesto CONSEGI, reafirmaram políticas em favor do software livre e os padrões ISO deixaram de ser, automaticamente, válidos para uso governamental.
Na definição dos parâmetros de qualidade para a Educação há: o LLECE, que retroalimenta políticas educacionais, provendo dados sobre os desafios da Educação sem exclusão; o Terceiro Estudo Internacional de Matemática e Ciências (TIMSS), que avalia os resultados do desempenho dos alunos em matemática e ciências dos países do Oriente, Leste Europeu, da Europa, Leste Norte-Americano, América Latina e África; e o PISA, projeto desenvolvido pela OCDE, que congrega 65 países e aplica a cada três anos, ao término da escolaridade obrigatória (cerca de 15 anos de idade), avaliação dos conhecimentos e competências em leitura, matemática e ciências.
No Brasil, o IDEB, criado pelo MEC/Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) verifica o cumprimento do esforço de todos para atingir as metas do PDE e avalia a qualidade da Educação pela observação do fluxo progressivo dos alunos ao longo do EF e do EM, a evolução dos sistemas, redução da evasão e da desigualdade educacional.
Alguns sistemas atuais de avaliação da qualidade estão arraigados ao foco econômico, mantêm testes, provas com indicadores numéricos de sistemas tradicionais racionais, que fragmentam o ensino e avaliam parcialmente, enquanto interesses criados como estratégias político ideológicas, sem reflexão e escolha das coletividades escolares para interpretar a qualidade real da Educação brasileira. Tais sistemas contrariam a legislação e as concepções explicítas na LDBN, que dispõem sobre a necessidade de avaliação contínua e cumulativa, enquanto parte integrante e estruturante do processo de ensinoaprendizagem, que acompanha a construção de conhecimento e a formação dos alunos, ao longo do período escolar, com prevalência dos aspectos qualitativos sobre os quantitativos.
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Percebido, nos sistemas de avaliação, como criatura dividida o ser humano é infeliz e as “as divisões dentro dele impelem recorrentemente ao uso de sua imaginação para fazer novas sínteses” (Storr, 2013, p. 419), que permitem viver mais livre em sociedades de reciprocidade, sem excessivas uniformidades e hierarquias. São enervações do corpo coletivo que transformam o ensinoaprendizagem, de uns com os outros, com as tecnologias, com o que acontece, toca e sensibiliza o humano.
Os atuais sitemas avaliadores, restritivos, matemáticos, classificatórios e sem embasamento teórico-metodológico sobre conceitos e vida escolar de qualidade, não acolhem a perspectiva dos membros das comunidades, que constroem e fazem acontecer o ensinoaprendizagem. Similar à escola tradicional e à atividade catalogatória de colecionadores, muitos sistemas de avaliação comparam e classificam os grupos humanos, desconsiderando a diversidade biológica (estrutural e comportamental), os valores desiguais e identidades culturais, emergentes da condição inicial, das disparidades regionais e locais, sociohistóricas e econômicas reforçadas nas trajetórias políticas de desenvolvimento das coletividades.
Muitos sistemas de avaliação tendem a valorizar a competição e correm risco de construir flagelos, posições de domínios, tensão e conflitos que destroem a equidade. Alves (in Gollo & Queiroz, 2013) reflete:
eu não conhecia a diferença entre os ricos e os pobres. Eu era pobre, mas vivia absolutamente feliz, na minha casinha de pau-a-pique, em Boa Esperança, interior de Minas Gerais, conhecendo os pássaros, as vacas, os bezerros, os riachinhos de água cristalina e as histórias que meu pai contava, à noite. Eu não sabia que era pobre, não sabia o que era pobreza e na infância eu não conhecia essa diferença, porque não havia comparação. A infelicidade chega quando a gente compara. A comparação dá início à inveja e apodrece tudo (p. 1).
Como “instrumento de gestão, os sistemas avaliadores retiram dos docentes a sua vontade de melhorar a educação” (Casassus, 2009, p.73), atribuem o insucesso educacional aos indivíduos, diminuem a motivação e ferem a dignidade dos alunos e dos pais, estimulando ambiente competitivo. A atribuição de poder demasiado ao sistema de avaliação vertical, quantitativa e aos standards internacionais, que se tornaram eixos das políticas públicas na maioria dos países, reforçam os mecanismos de dominação e as desigualdades sociais. A limitação dos sistemas avaliadores provém de não informar sobre a real qualidade da Educação, na medida em que desconsideram a percepção holística do ser humano, legitimando instrumentos obsoletos a custos dispendiosos para os governos.
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A avaliação pode ser uma atividade de conhecimento transformador, quando envolve o coletivo educacional e ajuda a esclarecer a incapacidade que os sistemas de ensino e as “instituições escolares têm para facilitar que as pessoas se transformem em melhores pessoas, que a sociedade se transforme em melhor sociedade” (Casassus, 2009, p. 74). As TIC têm seu valor auferido em “função das competências culturais do receptor” (Freire, 2011, p. 21), do grau maior ou menor de poder de controle dos usuários, de autocrítica à limitação e à dependência cultural, impostos pelo colonialismo mental, subdesenvolvimento e pelo capitalismo.
Organizações econômicas, financeiras e comerciais com características estratégicas e competitivas, infiltradas nas formações sociais latino-americanas, através de táticas de países desenvolvidos, condicionam financiamentos e destroem a possibilidade de autodeterminação das comunidades em desenvolvimento, através de comparações num ranking global, que, segundo a CF/88, leva ao abandono da tradição de educar com qualidade para a formação humana e construção de uma sociedade mais fraterna, pluralista e livre de preconceitos.