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3.3 Realização da pesquisa

3.3.1 Contexto da pesquisa

Ao longo dos séculos, conforme Gil (2012), o ser humano desenvolve sistemas diversos para conhecer o mundo, a natureza das coisas e o comportamento dos seres, atualizando continuamente os “conhecimentos já existentes na área em que ele se propõe a ser investigador” (Saviani, 1995, p. 58). Em face da complexidade da Educação, Harvey (2006) considera que não é possível dar respostas às questões fazendo abstração das forças (geopolíticas, sociohistóricas, culturais, financeiras e econômicas) que transformam o mundo.

Nesta pesquisa, que envolve um acordo internacional entre duas instituições (IFRN e UMinho) de dois países distintos (Brasil e Portugal), torna-se relevante expor as peculiaridades do contexto e dos habitantes do Município do Natal, enquanto lócus da pesquisa. A percepção da “diversidade das comunidades e dos ambientes escolares e as necessidades e origens dos alunos” (Lankshear & Knobel, 2008, p. 15) revela as linhas de tensão, as relações de sujeição ou de interdependência dos indivíduos às condições do cenário do Município do Natal.

A investigação sobre avaliação de SE foi realizada no Município brasileiro do Natal, capital do Estado do RN, localizado na Região Nordeste do Brasil, na mesorregião Leste Potiguar, com uma área territorial de 167,264 km² e situado a 30 metros acima do nível do mar. Segundo Ferreira (1986), norte-rio-grandense ou potiguar é o nome dado a quem nasce no RN, originário de potiguara, membro da tribo tupi, que habitava o litoral, e quer dizer “comedor de camarão”.

O relevo do Município do Natal é constituído por planícies, tabuleiros costeiros, falesias, dunas e praias. O clima tropical úmido, a diminuta formação vegetal, o solo seco com características desérticas e o baixo índice de chuvas favorecem a temperatura média de 24, 2º C e, segundo o IBGE (2010) um bioma de região semiárida, constituído de caatinga (arbustos pequenos, bromélias e cactos), reserva de mata atlântica e rica fauna nativa. Popularmente conhecida como a "Cidade do Sol", possui, aproximadamente, 265 dias de sol ao ano, é banhada pelo Rio Potengi e pelo Oceano Atlântico, recebendo brisas constantes, condição que garante o ar puro e renovável e longevidade da população.

De acordo com o IBGE (2010), a população estimada do Município do Natal é de 877.662 habitantes, com 46,99% de homens, 53,01% de mulheres, sendo que 49,84% da população se considera pardos, 44,31% brancos, 4,68% negros, 1,05% amarelos e 0,12% índigenas. Conforme o PNUD (2010), o índice de longevidade da população de 0,835, o índice de renda de 0,768 e o índice de acesso à Educação de 0,694 ajudam a compor o Indice de Desenvolvimento Humano

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Municipal de 0,765, considerado alto, uma vez que as faixas variam entre 0 (muito baixo) e 1 (muito alto).

O mapa da desigualdade social evidencia que em Natal a incidência da pobreza é de 40,86%, conforme o IBGE (2010) e, segundo o Relatório de Informações Sociais do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (2016), um total de 86.598 famílias (quilombolas, indígenas, ciganas, pescadoras, ribeirinhas, agricultoras, assentadas, acampadas, catadoras de material reciclável), que recebem até meio salário mínimo (R$440,00) mensal por pessoa, são beneficiárias de programas de transferência de renda. Consoante o “Cadastro Único dos Programas Sociais”, de 2016, do Ministério do Desenvolvimento Social e do Combate à Fome, 47.356 famílias recebem um valor médio de R$135,33, do Programa Bolsa Família, condicionado ao acompanhamento da frequência escolar diária dos filhos.

De acordo com a Federação das Indústrias do RN (2014), o Produto Interno Bruto (PIB) do Estado é de R$37,764 bilhões e o PIB per capita é de R$11.559. A base econômica do Estado situa-se na produção de energia eólica, na exportação de produtos: frutas, sucos, castanha de caju, extração vegetal e mineral, aquicultura, plásticos, petróleo, sal marinho e gemas preciosas. Conforme o IBGE (2014), Natal destaca-se na indústria do turismo, têxtil, de balas e caramelos, agropecuária, no comércio e na prestação de serviços.

Na Pré-história, o território potiguar foi habitado por povos caçadores-coletores, os quais deixaram vestígios de tradições artísticas nos sítios arqueológicos, datados de mais de 11 mil anos. Em 1500, ano do Descobrimento do Brasil, índios tapuias (denominados cariris e famosos por sua ferocidade) e índios tupis-guaranis (potiguares) habitavam, respectivamente, o interior e o litoral norte-rio-grandense.

Segundo Trindade (2010), em 1549, a presença de navegantes a serviço de realezas europeias forçou o governo português a ocupar o território brasileiro. A colonização foi um movimento de resistência dos portugueses, aliados aos potiguares, contra corsários europeus, em especial holandeses e franceses, mancomunados com indígenas hostis, para extinção do contrabando (de madeira, cereais, ervas medicinais, fios, redes e algodão) e do escambo de espécies da fauna e da flora nativa, peles e especiarias.

Em 1598, após a construção da Fortaleza dos Santos Reis, na Barra do Rio Grande, formou-se um agrupamento de colonos nas circunvizinhanças, com nome de Cidade dos Reis, originando, depois, a cidade do Natal. De acordo com o IBGE (2012), há duas versões sobre o

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nome da cidade do Natal: o dia em que a esquadra aportou na barra do Rio Potengi; ou o dia da demarcação do sítio, por Jerônimo de Albuquerque, em 25 de dezembro de 1599.

À força das armas portuguesas, juntaram-se as missões catequistas para pacificação e assentamento da igreja católica, em 1599. A substituição do sistema de capitanias hereditárias pelo Governo-Geral incentivou o confronto armado para expulsão dos franceses e o estabelecimento das parcerias com os holandeses para comércio de produtos brasileiros na Europa. Segundo Trindade (2010), a expansão marítima mercantil da agroindústria açucareira, do algodão e da pecuária, bem como, a política de demarcação de terras em sesmarias, freguesias e aldeamentos indígenas incentivaram a política de colonização do interior potiguar.

Conflitos entre colonos, jesuítas, indígenas e escravos provocaram a desconfiança nos governos, enquanto a fome e a seca excitaram o banditismo rural, representado pelo cangaço, os revoltos populares, motins urbanos, levantes de escravos e indígenas, contrários ao monopólio da terra. Para Cunha (2009), no Nordeste, consolidou-se um povo diferente, fruto do cruzamento do negro com o branco (mulato), no litoral, e do índio com o branco (caboclo), isolado no sertão. A miscigenação do temperamento aventureiro do colono com a impulsividade indígena preservou atributos culturais, vestes características, forte apego aos hábitos, folclore belíssimo e tradições, com exagerada religiosidade e honra.

Natal apresentou crescimento lento durante os 100 primeiros anos de existência, mas no final do século XIX, a população da cidade contabilizava 16 mil habitantes. Para Cascudo (1998), no início do século XX, a vida nos povoados e fazendas era setecentista e percebia-se no trabalho, na cultura (culinária, festas, superstições e rezas-fortes), na indumentária e no vocabulário, um atraso de mais de dois séculos em relação às metrópoles. No final dos anos de 1888, a abolição da escravatura e a difusão dos ideais republicanos favoreceram a organização do Estado brasileiro nos padrões das elites agrárias e do exército.

Desde a década de 1920, Natal, a “esquina do continente”, foi ponto estratégico e ponto de passagem obrigatório das rotas internacionais de aviação, para travessia do Atlântico com destino à Europa, África, Estados Unidos, Austrália e Japão. Em 1930, a empresa Latécoére instala o “Campo dos Franceses”, para pouso de aviões de correio postal, que saíam de Paris e passavam pelo Senegal (África), com destino a Buenos Aires e América Latina. De acordo com a Fundação Rampa (2015), Natal foi local estratégico da Operação Tocha, na II Guerra Mundial, após assinatura do Tratado de Havana, em 1940, quando foi instalada a Base Aérea de

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Parnamirim Field, em 1942, no esforço Aliado (Trampolim da Vitória) contra o nazi-fascismo na Europa. O povo e a cidade receberam forte influência norte-americana.

Nas décadas de 1920 a 1960, o “modelo econômico agroexportador entra em crise, cedendo lugar ao modelo industrial. Sai de cena a sociedade rural, entra a sociedade urbana” (Trindade, 2010, p. 229) e o populismo, de domínio oligárquico. Natal, capital de um dos Estados mais pobres do Brasil, cresce horizontalmente, concentrada no setor de comércio e prestação de serviços, orientados por táticas assistencialistas de gestores políticos interessados em proletarizar as camadas sociais que, no trânsito para a sociedade industrial, perderam sua identidade social e transformaram-se em massa de manobra.

Após 1964, o desmonte da estrutura democrática gerou desemprego em massa e o arrocho salarial, provocando fome, miséria, êxodo da população de mestiços pobres, sertanejos com pequenas posses ou despossuídos de terra e a migração desordenada do sertão árido e agreste para o litoral e para o centro-sul do Brasil. A inexistência de planejamento urbano e a chegada de levas de retirantes (pessoas migrantes que abandonam sua terra, no sertão nordestino, em virtude da seca e da miséria, com o sonho de uma vida melhor) fez com que Natal tivesse crescimento populacional desordenado. Houve assentamento irregular de mais de 70 favelas (termo originário de vicia faba – Cnidoscolus Quercifolius ou Cnidoscolus Phyllacanthus – planta nativa de espinhos urticantes do Bioma Caatinga, do Nordeste Brasileiro, segundo Ferreira (1986), designativo popular de moradias pobres nos morros e periferias da cidade.

Na década de 1970, inicia-se a atividade turística no município, consolidada através da infraestrutura de marketing e de promoção de eventos. A democratização da Educação institui-se como fator de desenvolvimento social, formação integral do ser humano, qualificação profissional e preparo de mão de obra para acesso ao mercado das profissões.

Dentro da organização da República Federativa do Brasil, o Município do Natal possui um sistema político de representação popular constituído pelo Poder Executivo (1 Prefeito Municipal) e pelo Poder Legislativo (Câmara de Vereadores), composto por 29 gestores públicos, eleitos pelo povo, por voto direito e secreto, para um mandato de quatro anos. O município não possui Poder Judiciário e rege-se pela Lei Orgânica Municipal, promulgada em 1990, pelas normas da União Federal e do Estado (RN), exceto nas matérias de sua competência exclusiva.

A organização e o funcionamento dos sistemas e das instituições educacionais regem-se pela CF/88, pela Lei n.º 9.394 de 20 de dezembro de 1996 (LDBN), pelos sistemas e normas

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da Educação Básica (Educação Infantil, EF e EM) e do ensino superior. Os sistemas inclusivos e as ações extensivas na Educação Especial, Educação de Jovens e Adultos, Educação do Campo, Indígena e Quilombola estão presentes em distintas instâncias da alçada municipal, estadual e federal.

Em Natal, os órgãos responsáveis pela Educação, em nível estadual, são a SEEC, o Conselho Estadual de Educação (CEE) e as DIREC. Em nível municipal, são: a SME, o Conselho Municipal de Educação (CME) em articulação com a UNDIME, as IES, as escolas, da rede pública e privada, que oferecem distintas modalidades de Educação.

A administração pública municipal do Natal e o conjunto de políticas públicas educacionais estão vinculados aos partidos políticos, congregações religiosas, fundações e entidades mantenedoras, os quais definem os administradores para a gestão dos órgãos e instituições de ensino. No município, a escolha dos gestores, a formulação das políticas e programas educacionais acontece numa arena, em que se articulam atores públicos e privados, para dialogar e interagir em disputas e contendas políticas e ideológicas.

A administração escolar depende de gestores com conhecimento, habilidades e competências no uso de ferramentas de gestão. No entanto, a ingerência política e a inépcia de gestores indicados induzem à má aplicação dos recursos, impedindo o atendimento de demandas recorrentes e reprimidas para superar desafios históricos: analfabetismo; evasão e repetência; infraestrutura precária; baixa qualidade da formação docente, do ensino e da aprendizagem; corrupção; desigualdades e exclusão social.

De acordo com o Censo Escolar (INEP, 2013), o índice de aprovação no EF, em Natal, oscila entre 100% e 75,47% e a taxa de abandono escolar entre 6,4% e 0,35%. Como etapa final da Educação Básica, o EM reveste-se de problemas, advindos de deficiências, ao longo da escolarização, que criam obstáculos ao ingresso dos jovens no mercado das profissões. Segundo Diagnóstico do Governo do RN (2009-2014), em 2013, a taxa de aprovação de jovens de 15 a 17 anos foi de 70,6%, mas a evasão escolar de 17,05%, sem investigação das suas causas, impacta os rankings de qualidade da Educação (Governo do Estado do RN, 2015).

A garantia do direito à Educação de qualidade é princípio constitucional, mas depende da participação da comunidade escolar na gestão democrática, articulando-se em prol da aplicação dos recursos públicos municipais, estaduais e federais na Educação, para consolidar as diretrizes do PNE 2014-2024, e qualificar o desenvolvimento humano, científico, cultural e tecnológico.

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