Katamara Medeiros Tavares Melo4
Verônica Maria de Araújo Pontes5
Francisco das Chagas Silva Souza6
GÊNERO: UMA BREVE INTRODUÇÃO
No decorrer da História, as sociedades assumem, acatam e obedecem a hierarquias, como a de gênero, daí o binarismo7 dos sexos feminino e masculino mantido até 4 Possui graduação em Enfermagem (UERN). Especialização em Saú- de da Família (UFRN) e em Educação Profissional (FIOCRUZ). Atualmente está cursando mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ensino (Posen- sino) da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN). E-mail: [email protected].
5 Pós-doutora em Educação pela Universidade do Minho (Portugal). Doutora em Educação pela Universidade do Minho (Portugal). Professora vi- sitante do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Gran- de do Norte, campus Mossoró. Professora do Programa de Pós-Graduação em Ensino (IFRN/UFERSA/UERN) e do Doutorado e Mestrado em Letras da UERN. E-mail: [email protected].
6 Doutor em Educação pela UFRN. Professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte, campus Mossoró. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ensino (IFRN/UFERSA/UERN) e do Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional (ProfEPT/IFRN). E-mail: [email protected].
7 Binarismos, ou relações binárias, abrigam o sentido de oposição e complementaridade entre os sexos, no âmbito da biologia. Assim, uma pes- soa é seu gênero na proporção em que não é o outro gênero. Esse entendi- mento restringe a compreensão de gênero dividido entre masculino e femini- no, macho e fêmea.
o presente. Conforme Harari (2017, p. 157), “O gênero se divide em homem e mulher (e algumas culturas reco- nhecem outras categorias). As chamadas características ‘masculinas’ e ‘femininas’ são intersubjetivas e passam por constantes mudanças”. Por conseguinte, o signifi- cado e a representação de masculinidade e feminilidade são variáveis entre sociedades e culturas, sendo os mitos, criados e reproduzidos culturalmente (e não a biologia), que definem os papéis, direitos e deveres de homens e mulheres (HARARI, 2017).
Uma contraposição, epistêmica e ideológica ao bina- rismo, foi concebida no interior do movimento feminista, que destacou discussões de gênero, mediante a negação da neutralidade e a denúncia das desigualdades entre os sexos fortalecidas pela valoração do masculino sobre o fe- minino (LOURO, 1997, 2001a). Foram problematizadas, também, as discussões sobre as pragmáticas e designa- das identidades de orientações afetivas sexuais atribuí- das às pessoas, conforme seus sexos ou suas genitálias. No âmbito das relações conflituosas entre os gêneros binários, feminino e masculino, são notórias as aborda- gens sobre as designações de poder e controle ao gênero masculino e de submissão ao gênero feminino. De fato, homens e mulheres não estabeleceram, ao longo da His- tória, relações iguais de poder (BEAUVOIR, 2016).
Considerando que as verdades são transitórias, haja vista que os saberes são mutantes e superáveis, tam- bém possuem potencial de performatividade quaisquer identidades sexuais e orientações afetivas, uma vez que existem diversas maneiras de materializar uma identida-
de em um contexto (BENTO, 2006). Assim, o feminismo, nas últimas décadas do século XX, pôs em discussão as categorias de análise de gênero que não se direcionas- sem apenas ao universo heterossexual (entre feminino e masculino). Urgia que os demais gêneros existentes, e transcendentes ao heteronormativismo, também fossem visibilizados e inseridos nas discussões e nas lutas por equidade de direitos (LOURO, 2016).
Dessa forma, as análises de gênero, realizadas pelo movimento feminista, colocaram também em evidência, além do binarismo unilateral dos sexos opostos, as diver- sidades sexuais existentes, e não visibilizadas, mas que estavam imbricadas nas relações de poder, estabelecendo sentido a essas relações (SCOTT, 1995).
A complexidade dos significados contemplados no termo gênero supera as restrições do contexto binário. A temática gênero, portanto, não se limita a “guerra entre os sexos”, porque ela exclui as diversas identidades se- xuais e sexualidades existentes, a exemplo das pessoas transgêneras (BUTLER, 2015).
Para compreendermos, contextualmente, a visibilida- de das diversidades de gênero, é necessário entender, em primeira aproximação, os significados dos termos cisgê- nero e transgênero que as constituem.
As pessoas cisgêneras estão identificadas como aque- las cujo sexo biológico corresponde aos papéis de gênero designados pelos enunciados culturais. Dessa maneira, espera-se que uma pessoa de sexo feminino (porque nas- ceu com uma vagina) se porte de acordo com o que foi es- tabelecido pela sociedade heteronormativa, ou seja: aten-
der à designação de que uma mulher deve se apresentar assumindo sua feminilidade. Em outras palavras, uma pessoa compreendida como homem, por ter um pênis, apropria-se da masculinidade esperada, exerce e repre- senta o papel de gênero que lhe foi instituído desde o nascimento, pela sua família (NOGUEIRA, 2017a).
Subvertendo a ordem linear designada entre o sexo, gênero e orientação sexual, constam as pessoas trans- gêneros. Seus comportamentos, identidades, predile- ções e desejos não se articulam ao esperado para o seu sexo biológico. Existe aqui, nessa lógica, a crítica contra a obrigatoriedade de assumir uma consonância linear entre sexo, gênero e sexualidade, esperada e designa- da pela família, Estado, escola e demais extensões so- ciais (BUTLER, 2015), ou seja: a identidade de gênero e a orientação afetiva sexual são construídas processual- mente, contingencialmente.
Portanto, gênero (ser masculino, ser feminino, ser masculino/feminino, ou não se enquadrar em nenhuma das alternativas impostas) não se articula, necessaria- mente, ao sexo biológico (NOGUEIRA, 2017a). Nesse caso, são contrariados os enunciados culturais normativos di- tados pela heterossexualidade compulsória que ainda es- tabelece padrões diferenciados – ser, pensar, comportar- -se e se relacionar – designados a homens e mulheres.
Mas, se, por um lado, o masculino se beneficia de pri- vilégios, por outro, também carrega o “peso da dominação masculina” (BOURDIEU, 2012), constituindo o reverso da medalha. Assim, o lado reversivo de ser dominador prejudica o próprio homem heterossexual, no momento
em que lhe são cobradas a fortaleza e a manutenção do poder. O peso da dominação se constitui uma cilada ao próprio universo masculino. Ademais, mesmo no contex- to homoafetivo, observa-se a projeção da submissão dos sujeitos que assumem o papel feminino perante os sujei- tos que assumem o papel masculino (BOURDIEU, 2012). Nessa direção, comenta Carrara (2009, p. 125):
A reprodução da norma heterossexista funciona também a serviço da reprodu- ção da dominação masculina. A mascu- linidade se constrói tanto em oposição à homossexualidade, quanto à feminilida- de: os meninos e os adolescentes são sub- metidos ao controle minucioso destinado a exorcizar qualquer sinal de atração por outros meninos, assim como qualquer atitude classificada como feminina.
Dessa forma, a prática heterossexual e/ou o sujeito heterossexual assumem posições centrais na cultura oci- dental moderna, que estabelece estrategicamente as nor- mas ditas naturalizadas para o sexo biológico e que devem se manifestar na expressão de posse dos desejos e praze- res sexuais compartilhados entre pessoas do sexo oposto. Isso causa a subordinação e aversão ao sujeito homosse- xual e outras manifestações de sexualidades desviantes dos padrões impostas para os sexos (LOURO, 2016).
Ademais, compreender as assimetrias dos gêneros pautadas apenas nas relações binárias limitadas ao con-
vívio entre os homens e as mulheres, no contexto bio- lógico do sexo genital, perde de vista o aprofundamento de quaisquer outras identidades e comportamentos que subvertam essa ordem. E essa percepção foi o elemen- to diferencial que permitiu transcender o entendimento epistemológico dos estudos de gênero, antes centrados nas discussões quanto às iniquidades existentes entre os universos masculino e feminino, com ênfase na catego- ria feminina heterossexual. Foi projetada, visibilizada e discutida a existência das identidades e relações trans- gêneras, consideradas abjetas, subversivas e desvalori- zadas (BUTLER, 2015).
Diante do exposto, entende-se que as instituições de ensino, do nível fundamental ao superior, deveriam ser espaços destinados ao acolhimento, à construção e à emancipação das pessoas, independentemente das di- ferenças e diversidades sexuais existentes. Porém, esses espaços, infelizmente, tendem a perpetuar os comporta- mentos heteronormativos, em vez de questionar e refle- tir sobre esses.
Pretendemos, neste texto, debater as temáticas de gênero no ensino (aqui nos restringiremos à Educação Básica) como estratégias de promoção do respeito às di- versidades. É nossa intenção contribuir para a reflexão e a superação das iniquidades de gêneros que projetam o Brasil como país onde acontece o maior número de crimes de homotransfobia8. Logo, defendemos a escola 8 Aversão, intolerância, desprezo e desrespeito às pessoas homoafe- tivas, travestis e transexuais. Poderá incluir outros grupos, pois a linguagem da diversidade sexual é ampla.
como espaço salutar da coexistência, reconhecimento e aceitação dos diversos gêneros e orientações sexuais.