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A LEI Nº 10.639/03 E SEUS REFLEXOS NOS ALUNOS DO PET

Léia Adriana da Silva Santiago22

Marco Antônio de Carvalho23

Ana Paula Araújo Martins24

Denner Alves Rosa Rodrigues25

INTRODUÇÃO

No ano de 2003, o então presidente Luís Inácio Lula da Silva promulgou a Lei nº 10.639/03, que visou dire- cionar o estudo sobre a África e a cultura afro-brasilei- ra nos bancos escolares, incluindo os temas História da 22 Possui graduação em História (UFSC), mestrado em Educação (UFSC), doutorado em Educação (UFPR), com estágio pós-doutoral na Uni- versidade Autônoma de Barcelona, Espanha, financiado pela Fundação CA- PES. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás. Coordenadora do mestrado profissional em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT), campus Morrinhos.

23 Pós-doutor em Currículo e Formação Profissional Agrícola pela Universidade Autônoma de Barcelona. Professor titular do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás. Professor do mestrado profissio- nal em Educação Profissional e Tecnológica (ProfEPT).

24 Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal de Uber- lândia (2003). Atualmente é psicóloga do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Goiás, campus Itumbiara, atuando na Coordena- ção de Apoio Pedagógico ao Discente. Mestranda em Educação Profissional e Tecnológica pelo ProfEPT/IFGoiano.

25 Possui graduação em História pela Universidade Estadual de Goiás (2014). Participou do Programa Institucional de Iniciação à Docência (PIBID). Atualmente é mestrando no Programa de Pós-graduação em Educação Pro- fissional e Tecnológica (ProfEPT), campus Morrinhos.

África e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cul- tura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinente à História do Brasil.

Enquanto currículo prescrito, a lei propõe um projeto de cultura comum para todos os membros de determina- da comunidade, sendo no contexto escolar oportunizado a todos os alunos, pertencentes aos mais diferentes ní- veis socioculturais e econômicos. Trata-se de currículo comum, que generaliza as recomendações de aprendi- zagem, implicando uma normatização cultural, de uma política cultural e de uma integração social A definição de conteúdos prescritos, seus códigos e meios configu- ra uma prática escolar, mediando a cultura possível nas instituições educativas (SACRISTÁN, 2000).

Nesse sentido, propomos neste artigo analisar como a construção do processo de “branqueamento” é apresen- tada pelos alunos do Programa de Erradicação do Tra- balho Infantil (PETI), da cidade X26, no interior do estado

de Goiás e se esta ainda tem permanecido, uma vez que compreendemos que a escola, a televisão, as redes sociais e outros meios de informação têm sinalizado esse pro- cesso como forma de ascensão do indivíduo às relações sociais consideradas como corretas.

A partir dessa problemática, expomos num primei- ro momento o PETI, acrescentando alguns dados de sua constituição na cidade X, no interior do estado de Goiás. 26 Optamos por não identificar a cidade, conforme normativas da co- missão de ética do Brasil.

Num segundo momento, descrevemos os resultados de uma oficina de desenhos, na qual crianças e adolescentes se au- torretratam caracterizando a cor da pele que se enxergam.

O PROGRAMA DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO

INFANTIL (PETI)

Desde os anos 1990, algumas medidas foram implan- tadas pelo governo federal para efetivar a integração de crianças e adolescentes em condições consideradas de ris- co e exploratórias.

Segundo essa perspectiva,

Em 1992 o Brasil passou a fazer parte do Programa Internacional para a Erradica- ção do Trabalho Infantil – IPEC, da Orga- nização Internacional do Trabalho, e em 1994, foi criado e instalado o Fórum Nacio- nal de Prevenção e Erradicação do Traba- lho Infantil, sob a coordenação do Ministé- rio do Trabalho com o apoio do Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF e com a participação de organizações não governamentais, empresários, represen- tantes de sindicatos, da Igreja, do Poder Legislativo e do Judiciário. No segundo se- mestre de 1996, o Fórum Nacional lançou o Programa de Ações Integradas, que tra- çou o caminho para a implementação do Programa de Erradicação e Prevenção do

Trabalho Infantil no país, orientado para o combate às chamadas "piores formas" desse trabalho, ou seja, aquelas conside- radas perigosas, penosas, insalubres ou degradantes (CARVALHO, 2004, p. 50).

Assim, o PETI foi criado envolvendo uma parceria entre o governo federal, os estados e os municípios, com prio- ridade às áreas que utilizam o trabalho infantil em larga escala e em condições especialmente intoleráveis, e se ex- pandiu significativamente, ao longo dos anos. Carvalho (2014) descreve que em 2000, o programa já atendia cerca de 140 mil crianças e adolescentes no país. Em 2001, hou- ve um grande aumento e em 2002 esse número chegou a 810.769, beneficiando 2.590 municípios em todas as uni- dades federadas.

Os municípios são responsáveis pela implementação de uma jornada ampliada no contraturno escolar, rece- bendo do governo federal uma quantia equivalente a R$ 20,00 por criança ou adolescente para a sua manuten- ção, devendo, assim, contratar monitores qualificados e propiciar espaços e materiais necessários para seu bom funcionamento. Almoço e merenda são oferecidos às crianças e adolescentes, como também são propiciados o reforço escolar e as atividades culturais, esportivas e de lazer, contribuindo para a melhoria do desempenho escolar, a ampliação dos seus horizontes e do desenvolvi- mento de suas potencialidades.

A expansão do PETI foi acompanhada por algumas re- definições, como a perda do seu caráter preventivo e o es-

tabelecimento de "metas" para os diversos estados, que as redistribuem entre os municípios. O programa se estendeu para áreas urbanas e metropolitanas e passou a contemplar um maior elenco de atividades que envolvem o trabalho precoce. Foi também estabelecido um tempo máximo de quatro anos para a per- manência dos beneficiários, que foi justificado pela Secre- taria de Estado de Assistência Social (SEAS), do Ministério da Previdência e Assistência Social, pela ampliação de seus objetivos e responsabilidades27.

No que se refere ao PETI da cidade X, no interior do es- tado de Goiás, a jornada ampliada se caracterizou a partir do ano de 2002, quando, em 15 de maio, a Secretaria de Ação Social do município assinou o documento que oficia- lizou a implantação de seu programa.

Por falta de documentação formal, não conseguimos encontrar o histórico do PETI desse município, desde sua implantação até a atualidade, para saber o número de crianças e adolescentes atendidas. O programa na cidade conta, como já citado, com a proposta da jornada ampliada, em que crianças e adolescentes recebem transporte, aulas de reforço escolar, aulas de circo, “Olodum mirim”, esportes – incluindo futebol e natação –, dança e música, além de receber lanches, de acordo com o turno frequentado.

O programa sofreu reordenamento no âmbito nacio- nal a partir do ano de 2013, abrangendo, segundo o por- tal do Ministério do Desenvolvimento Social, outras ações sociais, como a unificação dos recursos repassados pelo 27 PROGRAM DE ERRADICAÇÃO DO TRABALHO INFANTIL (PETI). Ministério do Desenvolvimento Social. Disponível em: https://goo.gl/v7qiTn. Acesso em: 19 ago. 2018.

governo federal para o trabalho com crianças, adolescen- tes e idosos.

SER BRANCO OU SER NEGRO: