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Entre Lactâncio, Eusébio e os vestígios arqueológicos

2.2. Basílicas constantinianas na chamada Terra Santa

Ao iniciar sua exposição a respeito dos templos cristãos construídos na região da Palestina e que são atribuídos ao período de Constantino, Bardill, em diálogo com Raymond Van Dam (2008: 297), afirma que as questões cristológicas debatidas no Concílio de Niceia, em 325, decerto despertaram o interesse do imperador acerca das questões relativas à história de Jesus de Nazaré. Isso porque, logo após o referido concílio, teriam sido construídos templos cristãos na chamada Terra Santa (Wilkinson 1993: 23-27), cujo objetivo aparente era “marcar locais associados à vida de Jesus.” (Bardill 2012: 255)51 Yoram Tsafrir, para quem o estabelecimento da religião cristã na Terra Santa teria sido lento e repleto de dificuldades, ao analisar o desenvolvimento da arquitetura eclesiástica na Palestina, afirma que esta região “sofreu uma das maiores mudanças culturais em sua história durante o período bizantino, quando o cristianismo triunfou sobre o paganismo e chegou ao poder.” (Tsafrir 1993: 1)52

51 Além disso, Bardill também dirá, em diálogo com outros estudiosos (Drijvers 1992: 59-72; Hunt 1997:

418 e 419), que “Constantino pode ter sentido a necessidade de uma presença imperial na Terra Santa por duas razões. Em primeiro lugar, ele teria temido que a agitação no Oriente desafiasse seu governo e, portanto, precisava ser acalmada. Em segundo lugar, ele teria pensado que a missão de sua mãe Helena o ajudaria a reforçar a imagem dinástica após a crise de 326.” (2012: 258) O ano 326 é marcado, na história da dinastia constantiniana, pelas mortes de Crispo – primogênito do imperador com sua primeira esposa, Minervina – e de Fausta, segunda esposa do imperador e, portanto, madrasta de Crispo, a mando do próprio Constantino, conforme registrou o escritor politeísta Zósimo (NH II, 29.2). Barnes tem observado que “após essa tragédia familiar, cujos detalhes são obscuros, Constantino enviou sua mãe para uma peregrinação oficial até a Terra Santa. Ela viajou para a Palestina para visitar os locais associados com a vida, a morte e a ressurreição de Jesus, com o poder (concedido por seu filho) para autorizar despesas ilimitadas do tesouro imperial em seu próprio direito a qualquer pessoa, grupo ou causa que ela considerasse importante. [...] Mas, os resultados mais espetaculares de sua viagem pela Terra Santa foram duas igrejas magníficas: uma foi a Igreja da Natividade, em Belém, a outra foi no Monte das Oliveiras, marcando a ascensão corporal de Cristo ao céu: Helena fundou a ambas e seu filho as tornou ainda mais ricas depois da morte dela.” (Barnes 2014: 43) Barbera, a respeito das mortes de Crispo e Fausta, sublinha que no mesmo ano de 326, Minervina teria sido executada, e que acerca dessas mortes atribuídas por Zósimo ao imperador Constantino, os escritores cristãos optaram pelo silêncio (Barbera 2013: 14).

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Para Tsafrir, que adota uma perspectiva de expansão acelerada do cristianismo a partir do governo de Constantino, é importante salientar que o processo de estabelecimento dessa religião na chamada Terra

Eusébio, em sua Vita Constantini, reproduz uma carta (VC III, 30-32)53 que o imperador Constantino teria enviado ao então bispo de Jerusalém, Macário (?-333). Tal carta, conforme analisa Franco, indica como as decisões imperiais acerca da construção de templos cristãos seriam praticadas. “A maior parte dos trabalhos seria financiada pelo Império enquanto os fundos para a compra dos materiais mais preciosos viriam do patrimônio pessoal do imperador.” (Franco 2009: 285) De acordo com a carta, Constantino deixa claro que seu intento principal era o de ornamentar a chamada Terra Santa com os mais belos edifícios (ὅπσο ηὸλ ἱεξὸλ ἐθε῔λνλ ηόπνλ). Conforme observa Bardill, após a Batalha de Crisópolis, em 324, na qual as tropas de Licínio foram derrotadas pelas tropas de Constantino, colocando fim à Tetrarquia, Macário teria recebido “uma carta semelhante à enviada a Eusébio, [...] na qual o imperador insiste a

Santa “começou no tempo de Jesus e dos Apóstolos, que lutaram com a monarquia e os habitantes pagãos, judeus e samaritanos da terra, culminando no ano 324, quando uma nova era começou sob Constantino, o primeiro imperador cristão. Uma vez que o país estava em suas mãos, o cristianismo se espalhou a um ritmo acelerado e ininterrupto até a conquista árabe em 630-640.” (Tsafrir 1993: 1) Ainda assim sabemos que, independentemente da velocidade com que todo esse processo se deu, apenas na região da Palestina teria sido constatada “a existência de nada menos do que 101 igrejas no período compreendido entre os séculos IV e VI.” (Silva 2010: 70; Rezende 2008: 48)

53 [30.1] Νηθεηὴο Κσλζηαλη῔λνο Μέγηζηνο Σεβαζηὸο Μαθαξίῳ. Τνζαύηε ηνῦ ζση῅ξνο ἟κ῵λ ἐζηηλ ἟ ράξηο, ὡο κεδεκίαλ ιόγσλ ρνξεγίαλ ηνῦ παξόληνο ζαύκαηνο ἀμίαλ εἶλαη δνθε῔λ· ηὸ γὰξ γλώξηζκα ηνῦ ἁγησηάηνπ ἐθείλνπ πάζνπο ὑπὸ ηῆ γῆ πάιαη θξππηόκελνλ ηνζαύηαηο ἐη῵λ πεξηόδνηο ιαζε῔λ, ἄρξηο νὗ δηὰ η῅ο ηνῦ θνηλνῦ πάλησλ ἐρζξνῦ ἀλαηξέζεσο ἐιεπζεξσζε῔ζη ην῔ο ἑαπηνῦ ζεξάπνπζηλ ἀλαιάκπεηλ ἔκειιε, π᾵ζαλ ἔθπιεμηλ ὡο ἀιεζ῵ο ὑπεξβαίλεη. [30.2] εἰ γὰξ πάληεο νἱ δηὰ πάζεο η῅ο νἰθνπκέλεο εἶλαη δνθνῦληεο ζνθνὶ εἰο ἓλ θαὶ ηὸ αὐηὸ ζπλειζόληεο ἄμηόλ ηη ηνῦ πξάγκαηνο ἐζέισζηλ εἰπε῔λ, νὐδ‟ ἂλ πξὸο ηὸ βξαρύηαηνλ ἁκηιιεζ῅λαη δπλήζνληαη. ἐπὶ ηνζνύηῳ π᾵ζαλ ἀλζξσπίλνπ ινγηζκνῦ ρσξεηηθὴλ θύζηλ ἟ ηνῦ ζαύκαηνο ηνύηνπ πίζηηο ὑπεξβαίλεη, ὅζῳ η῵λ ἀλζξσπίλσλ ηὰ νὐξάληα ζπλέζηεθελ εἶλαη δπλαηώηεξα. [30.3] δηὰ ηνῦην γνῦλ νὗηνο ἀεὶ θαὶ πξ῵ηνο θαὶ κόλνο κνη ζθνπόο, ἵλ‟ ὥζπεξ ἑαπηὴλ ὁζεκέξαη θαηλνηέξνηο ζαύκαζηλ ἟ η῅ο ἀιεζείαο πίζηηο ἐπηδείθλπζηλ, νὕησ θαὶ αἱ ςπραὶ πάλησλ ἟κ῵λ πεξὶ ηὸλ ἅγηνλ λόκνλ ζσθξνζύλῃ πάζῃ θαὶ ὁκνγλώκνλη πξνζπκίᾳ ζπνπδαηόηεξαη γίγλσληαη. [30.4] ὅπεξ δ‟ νὖλ π᾵ζηλ εἶλαη λνκίδσ θαλεξόλ, ἐθε῔λν κάιηζηά <ζε> πεπε῔ζζαη βνύινκαη, ὡο ἄξα πάλησλ κνη κ᾵ιινλ κέιεη, ὅπσο ηὸλ ἱεξὸλ ἐθε῔λνλ ηόπνλ, ὃλ ζενῦ πξνζηάγκαηη [αἰζρίζηεο] εἰδώινπ [πξνζζήθεο] ὥζπεξ ηηλὸο ἐπηθεηκέλνπ βάξνπο ἐθνύθηζα, ἅγηνλ κὲλ ἐμ ἀξρ῅ο ζενῦ θξίζεη γεγελεκέλνλ, ἁγηώηεξνλ δ‟ ἀπνθαλζέληα ἀθ‟ νὗ ηὴλ ηνῦ ζσηεξίνπ πάζνπο πίζηηλ εἰο θ῵ο πξνήγαγελ, νἰθνδνκεκάησλ θάιιεη θνζκήζσκελ. [31.1] Πξνζήθεη ηνίλπλ ηὴλ ζὴλ ἀγρίλνηαλ νὕησ δηαηάμαη ηε θαὶ ἑθάζηνπ η῵λ ἀλαγθαίσλ πνηήζαζζαη πξόλνηαλ, ὡο νὐ κόλνλ βαζηιηθὴλ η῵λ ἁπαληαρνῦ βειηίνλα ἀιιὰ θαὶ ηὰ ινηπὰ ηνηαῦηα γίλεζζαη, ὡο πάληα ηὰ ἐθ‟ ἑθάζηεο θαιιηζηεύνληα πόιεσο ὑπὸ ηνῦ θηίζκαηνο ηνύηνπ ληθ᾵ζζαη. [31.2] θαὶ πεξὶ κὲλ η῅ο η῵λ ηνίρσλ ἐγέξζεώο ηε θαὶ θαιιηεξγίαο Γξαθηιιηαλῶ ηῶ ἟κεηέξῳ θίιῳ, ηῶ δηέπνληη ηὰ η῵λ ιακπξνηάησλ [ἐπάξρσλ] κέξε, θαὶ ηῶ η῅ο ἐπαξρίαο ἄξρνληη παξ‟ ἟κ῵λ ἐγθερεηξίζζαη ηὴλ θξνληίδα γίλσζθε. θεθέιεπζηαη γὰξ ὑπὸ η῅ο ἐκ῅ο εὐζεβείαο θαὶ ηερλίηαο θαὶ ἐξγάηαο θαὶ πάλζ‟, ὅζα πεξ εἰο ηὴλ νἰθνδνκὴλ ἀλαγθα῔α ηπγράλεηλ παξὰ η῅ο ζ῅ο θαηακάζνηελ ἀγρηλνίαο, παξαρξ῅κα δηὰ η῅ο ἐθείλσλ πξνλνίαο ἀπνζηαι῅λαη. [31.3] πεξὶ δὲ η῵λ θηόλσλ εἴη‟ νὖλ καξκάξσλ, ἃ δ‟ ἂλ λνκίζεηαο εἶλαη ηηκηώηεξά ηε θαὶ ρξεζηκώηεξα, αὐηὸο ζπλόςεσο γελνκέλεο πξὸο ἟κ᾵ο γξάςαη ζπνύδαζνλ, ἵλ‟ ὅζσλ δ‟ ἂλ θαὶ ὁπνίσλ ρξείαλ εἶλαη δηὰ ηνῦ ζνῦ γξάκκαηνο ἐπηγλ῵κελ, ηαῦηα παληαρόζελ κεηελερζ῅λαη δπλεζῆ· ηὸλ γὰξ ηνῦ θόζκνπ ζαπκαζηώηεξνλ ηόπνλ θαη‟ ἀμίαλ θαηδξύλεζζαη δίθαηνλ. [32.1] ηὴλ δὲ η῅ο βαζηιηθ῅ο θακάξαλ πόηεξνλ ιαθσλαξίαλ ἠ δη‟ ἑηέξαο ηηλὸο ἐξγαζίαο γελέζζαη ζνη δνθε῔, παξὰ ζνῦ γλ῵λαη βνύινκαη. εἰ γὰξ ιαθσλαξία κέιινη εἶλαη, δπλήζεηαη θαὶ ρξπζῶ θαιισπηζζ῅λαη. [32.2] ηὸ ιεηπόκελνλ, ἵλ‟ ἟ ζὴ ὁζηόηεο ην῔ο πξνεηξεκέλνηο δηθαζηα῔ο ᾗ ηάρνο γλσξηζζ῅λαη πνηήζῃ, ὅζσλ η‟ ἐξγαη῵λ θαὶ ηερληη῵λ θαὶ ἀλαισκάησλ ρξεία, θαὶ πξὸο ἐκὲ εὐζέσο ἀλελεγθε῔λ ζπνπδάζῃ νὐ κόλνλ πεξὶ η῵λ καξκάξσλ ηε θαὶ θηόλσλ, ἀιιὰ θαὶ πεξὶ η῵λ ιαθσλαξη῵λ, εἴγε ηνῦην θάιιηνλ ἐπηθξίλεηελ. Ὁ ζεόο ζε δηαθπιάμνη, ἀδειθὲ ἀγαπεηέ.

todos os bispos para repararem, ampliarem ou reconstruirem igrejas, recorrendo aos governadores das Províncias acerca dos recursos necessários.” (Bardill 2012: 255)

A carta enviada a Eusébio que Bardill menciona está registrada em VC II, 4654. Nela, o imperador teria afirmado ao bispo de Cesareia, a quem chama de amadíssimo irmão (ἀδειθὲ πξνζθηιέζηαηε), que os edifícios de todas as igrejas se encontravam em ruínas por terem sido abadonadas ou em condições inadequadas e indignas por causa da iminente injustiça (πεπίζηεπθα θαὶ ἀθξηβ῵ο ἐκαπηὸλ πέπεηθα παζ῵λ η῵λ ἐθθιεζη῵λ ηὰ ἔξγα ἠ ὑπὸ ἀκειείαο δηεθζάξζαη ἠ θόβῳ η῅ο ἐπηθεηκέλεο ἀδηθίαο ἐιάηηνλα η῅ο ἀμίαο γεγελ῅ζζαη) praticada contra os cristãos. Graças, porém, à Providência Divina (ζενῦ ηνῦ κεγίζηνπ πξνλνίᾳ) – diz Constantino a Eusébio – o dragão (ηνῦ δξάθνληνο), fazendo alusão a Licínio, foi eliminado da gestão pública (η῵λ θνηλ῵λ δηνηθήζεσο). Gurruchaga nos lembra que, na interpretação de Heinz Kraft, toda a ideologia político-religiosa associada a Constantino é proveniente de Lactâncio, questionando com isso se houve qualquer relação entre o imperador e os cristãos antes até de 306, ano de sua ascensão ao poder em substituição ao seu pai Constâncio Cloro (Gurruchaga 1994: 238 e 239; Kraft 1955: 208), pois, em diálogo com Pio Franchi de Cavalieri, Gurruchaga também observa que “a única moeda na qual o cristograma repousa sobre a haste do lábaro, o qual atravessa uma serpente, foi cunhada em uma casa da moeda de Constantinopla em 326, logo após a vitória sobre Licínio.” (Gurruchaga 1994: 239; Cavalieri 1953: 151)

Constantino, certo de que estava agindo sob o comando divino, teria reforçado ainda, em sua carta a Macário, seu intento ambicioso de que não apenas os templos, mas também os edifícios anexos deveriam ser mais belos do que qualquer outra construção já existente em qualquer outro lugar (Bardill 2012: 255)55 e, além disso, que todos os 54 [46.1] Νηθεηὴο Κσλζηαλη῔λνο Μέγηζηνο Σεβαζηὸο Δὐζεβίῳ. « Ἕσο ηνῦ παξόληνο ρξόλνπ η῅ο ἀλνζίνπ βνπιήζεσο θαὶ ηπξαλλίδνο ηνὺο ὑπεξέηαο ηνῦ ζση῅ξνο ζενῦ δησθνύζεο, πεπίζηεπθα θαὶ ἀθξηβ῵ο ἐκαπηὸλ πέπεηθα παζ῵λ η῵λ ἐθθιεζη῵λ ηὰ ἔξγα ἠ ὑπὸ ἀκειείαο δηεθζάξζαη ἠ θόβῳ η῅ο ἐπηθεηκέλεο ἀδηθίαο ἐιάηηνλα η῅ο ἀμίαο γεγελ῅ζζαη, ἀδειθὲ πξνζθηιέζηαηε. [46.2] Νπλὶ δὲ η῅ο ἐιεπζεξίαο ἀπνδνζείζεο θαὶ ηνῦ δξάθνληνο ἐθείλνπ ἀπὸ η῅ο η῵λ θνηλ῵λ δηνηθήζεσο ζενῦ ηνῦ κεγίζηνπ πξνλνίᾳ ἟κεηέξᾳ δ‟ ὑπεξεζίᾳ δησρζέληνο, ἟γνῦκαη θαὶ π᾵ζη θαλεξὰλ γεγελ῅ζζαη ηὴλ ζείαλ δύλακηλ, θαὶ ηνὺο ἠ θόβῳ ἠ ἀπηζηίᾳ ἁκαξηήκαζί ηηζη πεξηπεζόληαο ἐπηγλόληαο ηε ηὸ ὄλησο ὂλ ἣμεηλ ἐπὶ ηὴλ ἀιεζ῅ θαὶ ὀξζὴλ ηνῦ βίνπ θαηάζηαζηλ. [46.3] ὅζσλ ηνίλπλ ἠ αὐηὸο πξνίζηαζαη ἐθθιεζη῵λ ἠ ἄιινπο ηνὺο θαηὰ ηόπνλ πξνηζηακέλνπο ἐπηζθόπνπο πξεζβπηέξνπο ηε ἠ δηαθόλνπο νἶζζα, ὑπόκλεζνλ ζπνπδάδεηλ πεξὶ ηὰ ἔξγα η῵λ ἐθθιεζη῵λ, ἠ ἐπαλνξζνῦζζαη ηὰ ὄληα ἠ εἰο κείδνλα αὔμεηλ ἠ ἔλζα ἂλ ρξεία ἀπαηηῆ θαηλὰ πνηε῔λ. Αἰηήζεηο δὲ θαὶ αὐηὸο θαὶ δηὰ ζνῦ νἱ ινηπνὶ ηὰ ἀλαγθα῔α παξά ηε η῵λ ἟γεκνλεπόλησλ θαὶ η῅ο ἐπαξρηθ῅ο ηάμεσο. Τνύηνηο γὰξ ἐπεζηάιε πάζῃ πξνζπκίᾳ ἐμππεξεηήζαζζαη ην῔ο ὑπὸ η῅ο ζ῅ο ὁζηόηεηνο ιεγνκέλνηο. Ὁ ζεόο ζε δηαθπιάμνη, ἀδειθὲ ἀγαπεηέ.» [46.4] Ταῦηα κὲλ νὖλ θαζ‟ ἕθαζηνλ ἔζλνο ἐγξάθεην ην῔ο η῵λ ἐθθιεζη῵λ πξνεζη῵ζη, ηὰ ἀθόινπζά ηε ηνύηνηο πξάηηεηλ νἱ η῵λ ἐζλ῵λ ἟γεκόλεο ἐθειεύνλην, ζὺλ πνιιῶ ηε ηάρεη δη‟ ἔξγσλ ἐρώξεη ηὰ λελνκνζεηεκέλα.

55 Esse caso particular diz respeito à construção da antiga Basílica do Santo Sepulcro, acerca da qual

trataremos a seguir com mais detalhes, pois, nas palavras de Bardill, “sobre as ordens de Constantino, como ele próprio afirmou estar agindo „sob o comando de Deus‟, o templo foi derrubado, a caverna foi

mais esplêndidos santuários de qualquer cidade fossem superados pela beleza daquela obra que por ele seria edificada (ὡο νὐ κόλνλ βαζηιηθὴλ η῵λ ἁπαληαρνῦ βειηίνλα ἀιιὰ θαὶ ηὰ ινηπὰ ηνηαῦηα γίλεζζαη, ὡο πάληα ηὰ ἐθ‟ ἑθάζηεο θαιιηζηεύνληα πόιεσο ὑπὸ ηνῦ θηίζκαηνο ηνύηνπ ληθ᾵ζζαη). Já nos últimos parágrafos da carta, o imperador teria feito referência às colunas e aos mármores (πεξὶ δὲ η῵λ θηόλσλ εἴη‟ νὖλ καξκάξσλ) que seriam utilizados nas construções, além dos detalhes acerca dos materiais e também da qualidade e da quantidade necessárias, inclusive do ouro a ser destinado para os revestimentos (ρξπζῶ θαιισπηζζ῅λαη). Hunt sustenta que o bispo Macário teria sugerido ao próprio imperador, em Niceia (Mapa 03), a construção de uma igreja em Jerusalém (Hunt 1997: 410). Bardill, apoiado nessa hipótese de Hunt, observa o quanto “tal sugestão teria sido oportuna, pois o Concílio de Niceia reconquistara oficialmente não apenas a posição privilegiada de Cesareia, mas também o reconhecimento de que Jerusalém era um lugar tradicional de honra.” (Bardill 2012: 255)

É importante salientar que esses trechos da Vita Constantini exemplificam não apenas a visão providencialista tão comum na narrativa eusebiana, ainda que ambos os casos sejam cartas atribuídas a Constantino, mas também demonstram algo que não ocorreu em relação aos templos cristãos construídos na cidade de Roma. Estes, conquanto tenham vestígios materiais, não são citados de modo direto nos textos de Eusébio – razão pela qual recorremos ao Liber Pontificalis. Já as construções atribuídas ao período de Constantino situadas na região da Terra Santa, além de outras no Oriente acerca das quais ainda trataremos, conquanto sejam mencionadas na obra eusebiana, não têm um vestígio material sequer que as situe com segurança já na primeira metade do século IV, tampouco durante a monarquia constantiniana (Barbero 2016: 326).

A carta que, segundo a Vita Constantini, foi enviada ao bispo Macário, explicita de uma maneira bastante direta a instrução imperial que ele recebeu: “preparar- se para construir uma magnífica basílica no local da crucificação e ressurreição de Cristo.” (Bardill 2012: 255)56 Hunt chega à conclusão de que uma basílica em

redescoberta e iniciou o trabalho de construção de uma basílica que Constantino esperava ser „superior às de todos os demais lugares [...].” (Bardill 2012: 255)

56 Segundo Bardill, a peregrinação de Helena, mãe de Constantino, em direção ao Oriente, “foi, sem

dúvida, intencional, ao menos em parte, para enfatizar a proeminência que a Terra Santa adquiriria na concepção que Constantino tinha para o seu Império, e coincidia com a sua importante decisão de construir a igreja no local do sofrimento e da ressurreição de Cristo. [...] Isso parece sugerir que Helena estava viajando não apenas em uma peregrinação pessoal, mas em uma missão governamental como Augusta e representante do imperador e seus filhos. De fato, pode ser que ela estivesse viajando no lugar do próprio Constantino, o qual tinha sido forçado a cancelar seu plano pessoal de visitar o Oriente, pois a controvérsia ariana exigia sua urgente atenção.” (2012: 258; cf. Drijvers 1992: 65; Hunt 1997: 409 e 410)

Jerusalém não apenas seria um monumento que ostentaria o triunfo de Constantino sobre Licínio, mas que também celebraria, de forma oportuna, o que os cristãos entendiam como unificação da Cristandade a partir das decisões oficiais do Concílio de Niceia (Hunt 1982: 7 e 8). Na interpretação de Bardill à carta imperial que foi registrada por Eusébio, “a salvação do povo romano e da Igreja seria comemorada por meio da construção de um monumento adequado para Cristo, o Salvador da humanidade, no local de sua morte e ressurreição.” (Bardill 2012: 255) Assim, se iniciavam as construções de templos cristãos na Terra Santa, tendo sido o primeiro a antiga Basílica do Santo Sepulcro, acerca da qual trataremos com detalhes no próximo tópico. Antes, porém, destacamos que a iniciativa de construções, ainda que administradas pelo Império, de outras basílicas no território palestino, não partiria do próprio imperador, mas de Helena, sua mãe, que peregrinou àquela região no ano 326 (Tsafrir 1993: 1), onde permaneceu até o ano 328.57 Conheçamos, então, a antiga Basílica do Santo Sepulcro para, depois, explorarmos aquelas resultantes das viagens de Helena58.

2.2.1. A Basílica do Santo Sepulcro

57 Mesmo sendo mãe do imperador, Helena foi ignorada na Vita Constantini até este período. Na

interpretação de Bardill, a narrativa eusebiana teria, até certo momento, desprezado a importância dela, sabendo da sua origem humilde e não tão influente. O próprio Constâncio Cloro, pai de Constantino, por volta do ano 289, teria se separado de Helena “para se casar com uma filha de Maximiano, chamada Teodora, cujo status mais interessava ao imperador, tendo em vista sua reputação social e política recém- adquirida. Após 306, Helena pode ter vivido em Tréveris, residência principal de Constantino, e, depois de 312, ela teria se transferido para Roma, onde possuía uma grande propriedade, incluindo o Palácio Sessoriano. [...] Depois de tudo, os meio-irmãos de Constantino, Flavius Dalmatius e Julius Constantius, que eram filhos de Constâncio Cloro com sua segunda esposa, Teodora, ainda eram potenciais rivais para o trono. Para resolver sua própria legitimidade enquanto minimizava a deles, Constantino escolheu elevar a posição de sua própria mãe, Helena. [...] Após a derrota de Licínio, Helena de repente tornou-se mais proeminente na vida pública, uma vez que ela, juntamente com a segunda esposa de Constantino, Fausta, foi promovida ao posto de Augusta. Moedas amplamente distribuídas mostravam um busto de Helena observando e, no reverso, uma figura feminina em pé identificada pela legenda como „Segurança da República‟ (SECVRITAS REIPVBLICE). Portanto, estava implícito que a segurança do Império descansava em Helena e, por consequência, em seu filho.” (Bardill 2012: 257; cf. Dam 2008: 302-306; Barnes 2014: 43; Donati e Gentili 2005: 218 e 219)

58 Para aprofundamentos em torno das peregrinações de Helena, sugerimos, junto com Bardill, as leituras

de Hunt 1982: 28-49; Potter 2004: 437-439 e Barnes 2014: 42-45. Por ora, sublinhamos a leitura de Tsafrir, para quem “a visita de Helena – a que muitas lendas seriam posteriormente anexadas, como a descoberta da Verdadeira Cruz e a construção da igreja no Monte Sinai – desempenhou um papel importante na aceleração da construção das primeiras igrejas. A corte imperial concedeu alta prioridade ao processo de cristianização da Terra Santa.” (Tsafrir 1993: 1) Destacamos, utilizando-nos das palavras de Bardill em diálogo com Averil Cameron, que “Eusébio não afirma que Helena tenha tido qualquer papel na construção do complexo do Gólgota” (Bardill 2012: 259; Cameron 2006: 100).

Eusébio, pouco antes de citar a carta que Constantino teria enviado ao bispo Macário, chegou a tratar (VC III, 25)59 da intenção do imperador de construir um templo cristão em Jerusalém, considerando tal cidade como um local sobremaneira feliz e abençoado (καθαξηζηόηαηνλ ηόπνλ), pois nela teria ocorrido o fenômeno da chamada Ressurreição do Salvador (ζσηεξίνπ ἀλαζηάζεσο). Tornando-se cada vez mais um ponto de peregrinação, aquela cidade receberia, segundo a narrativa eusebiana, um local de culto cristão, uma casa de oração (νἶθνλ εὐθηήξηνλ) a ser construída por Constantino, sob inspiração do próprio Salvador (αὐηνῦ ηνῦ ζση῅ξνο ἀλαθηλεζεὶο ηῶ πλεύκαηη). A antiga Basílica do Santo Sepulcro teria marcado, portanto, o processo de construção de templos cristãos na Palestina, onde a maioria deles, segundo Tsafrir, era composta por “basílicas. Um número considerável [...] foi construído em lugares sagrados. Muitas, porém, eram simplesmente igrejas congregacionais nas quais a missa era realizada, e podiam ser encontradas em todas as cidades, vilas e mosteiros.” (Tsafrir 1993: 4)

Bardill observa que “o próprio Constantino descreveu a descoberta da tumba por muito tempo enterrada sob um templo pagão para Afrodite, como um símbolo da restauração do mundo romano após a derrota de Licínio.” (Bardill 2012: 255) Acerca disso, a narrativa eusebiana informa (VC III, 26.1-3)60, entre tantos detalhes, que homens impiedosos (δπζζεβε῔ο), com a intenção de assim esconder a verdade (ηὴλ ἀιήζεηαλ ηαύηῃ πε θξύςαη) acerca da Ressurreição, teriam empregado todos os esforços (κόρζνλ) possíveis para soterrar o túmulo no qual o corpo de Jesus fora sepultado, cobrindo-o ainda com pedras (Barbero 2016: 185). A questão é que, na mesma narrativa, Eusébio informa-nos que naquele local foi construído um túmulo em honra às almas dos que ele chama de ídolos mortos (λεθξ῵λ εἰδώισλ), além de um espaço escuro 59 [25] Τνύησλ δ‟ ὧδ‟ ἐρόλησλ, κλήκεο <ἄμηνλ> ἄιιν ηη κέγηζηνλ ἐπὶ ηνῦ Παιαηζηηλ῵λ ἔζλνπο ὁ ζενθηιὴο εἰξγάδεην. ηί δ‟ ἤλ ηνῦην; ηὸλ ἐλ ην῔ο Ἱεξνζνιύκνηο η῅ο ζσηεξίνπ ἀλαζηάζεσο καθαξηζηόηαηνλ ηόπνλ ἐδόθεη δε῔λ αὐηῶ πξνθαλ῅ θαὶ ζεπηὸλ ἀπνθ῅λαη ην῔ο π᾵ζηλ. αὐηίθα γνῦλ νἶθνλ εὐθηήξηνλ ζπζηήζαζζαη δηεθειεύεην, νὐθ ἀζεεὶ ηνῦη‟ ἐλ δηαλνίᾳ βαιὼλ ἀιι‟ ὑπ‟ αὐηνῦ ηνῦ ζση῅ξνο ἀλαθηλεζεὶο ηῶ πλεύκαηη. 60 [26.1] ἄλδξεο κὲλ γάξ πνηε δπζζεβε῔ο, κ᾵ιινλ δὲ π᾵λ ηὸ δαηκόλσλ δηὰ ηνύησλ γέλνο, ζπνπδὴλ ἔζελην ζθόηῳ θαὶ ιήζῃ παξαδνῦλαη ηὸ ζεζπέζηνλ ἐθε῔λν η῅ο ἀζαλαζίαο κλ῅κα, παξ‟ ᾧ θ῵ο ἐμαζηξάπησλ ὁ θαηαβὰο νὐξαλόζελ ἄγγεινο ἀπεθύιηζε ηὸλ ιίζνλ η῵λ ηὰο δηαλνίαο ιειηζσκέλσλ θαὶ ηὸλ δ῵ληα κεηὰ η῵λ λεθξ῵λ ἔζ‟ ὑπάξρεηλ ὑπεηιεθόησλ, ηὰο γπλα῔θαο εὐαγγειηδόκελνο ηόλ ηε η῅ο ἀπηζηίαο ιίζνλ η῅ο αὐη῵λ δηαλνίαο ἐπὶ δόμῃ η῅ο ηνῦ δεηνπκέλνπ δσ῅ο ἀθαηξνύκελνο. [26.2] ηνῦην κὲλ νὖλ ηὸ ζσηήξηνλ ἄληξνλ ἄζενί ηηλεο θαὶ δπζζεβε῔ο ἀθαλὲο ἐμ ἀλζξώπσλ πνηήζαζζαη δηαλελόελην, ἄθξνλη ινγηζκῶ ηὴλ ἀιήζεηαλ ηαύηῃ πε θξύςαη ινγηζάκελνη. θαὶ δὴ πνιὺλ εἰζελεγθάκελνη κόρζνλ, γ῅λ ἔμσζέλ πνζελ εἰζθνξήζαληεο ηὸλ πάληα θαιύπηνπζη ηόπνλ, θἄπεηη‟ εἰο ὕςνο αἰσξήζαληεο ιίζῳ ηε θαηαζηξώζαληεο θάησ πνπ ηὸ ζε῔νλ ἄληξνλ ὑπὸ πνιιῶ ηῶ ρώκαηη θαηαθξύπηνπζηλ. [26.3] εἶζ‟ ὡο νὐδελὸο αὐην῔ο ιεηπνκέλνπ, η῅ο γ῅ο ὕπεξζε δεηλὸλ ὡο ἀιεζ῵ο ηαθε῵λα ςπρ῵λ ἐπηζθεπάδνπζη λεθξ῵λ εἰδώισλ, ζθόηηνλ Ἀθξνδίηεο ἀθνιάζηῳ δαίκνλη κπρὸλ νἰθνδνκεζάκελνη, θἄπεηηα κπζαξὰο ἐληαπζν῔ ζπζίαο ἐπὶ βεβήισλ θαὶ ἐλαγ῵λ βσκ῵λ ἐπηζπέλδνληεο· ηαύηῃ γὰξ κόλσο θαὶ νὐθ ἄιισο ηὸ ζπνπδαζζὲλ εἰο ἔξγνλ ἄμεηλ ἐλόκηδνλ, εἰ δηὰ ηνηνύησλ ἐλαγ῵λ κπζαγκάησλ ηὸ ζσηήξηνλ ἄληξνλ θαηαθξύςεηαλ.

dedicado à alma, por ele adjetivada como dissoluta, da deusa Afrodite, onde eram realizados sacrifícios interpretados pelo escritor como impuros e profanadores (ζθόηηνλ Ἀθξνδίηεο ἀθνιάζηῳ δαίκνλη κπρὸλ νἰθνδνκεζάκελνη, θἄπεηηα κπζαξὰο ἐληαπζν῔ ζπζίαο ἐπὶ βεβήισλ θαὶ ἐλαγ῵λ βσκ῵λ ἐπηζπέλδνληεο·). Joseph Patrich confirma que

Eusébio, ao descrever os atos de Constantino, menciona que Adriano construiu um templo para Afrodite no local do túmulo de Jesus. Como todos os templos romanos, este estava construído sobre uma plataforma elevada (podium) e, portanto, escondia o túmulo, deixando-o, porém, intacto. Depois que o túmulo e o aterro foram removidos dos fundamentos, o túmulo foi descoberto. [...] Juntamente com isso é possível que ali também existisse uma Basílica cívica, o que era comum em muitas cidades romanas. Neste caso, as ruínas romanas tardias no local podem seguramente estar relacionadas a esses dois edifícios. (Patrich 1993: 103)

Mais à frente (VC III, 26.6 e 7)61, Eusébio prossegue sua narrativa afirmando, entre outras coisas, que, sob inspiração divina (πλεύκαηη γνῦλ θάηνρνο ζείῳ)62, Constantino não recusou àquele mesmo local (ρ῵ξνλ αὐηὸλ ἐθε῔λνλ) para não deixá-lo cair (παξαδεδνκέλνλ νὐ παξηδώλ) no esquecimento e na ignorância (ιήζῃ ηε θαὶ ἀγλνίᾳ), conforme maquinavam (ἐπηβνπια῔ο) os seus inimigos (ἐρζξ῵λ). Mas, não aceitando a maldade destes (νὐδὲ ηῆ η῵λ αἰηίσλ παξαρσξήζαο θαθίᾳ), teria invocado ao auxílio do próprio Deus (ζεὸλ ηὸλ αὐηνῦ ζπλεξγὸλ ἐπηθαιεζάκελνο), o qual determinara (πξνζηάηηεη) a limpeza (θαζαίξεζζαη) de todo o espaço para que ali deixasse de ser uma terra contaminada para passar, por meio do trabalho do imperador, a desfrutar da magnificência divina (κεγαινπξγίαο). Segundo Eusébio, o imperador não apenas teria dado ordem (πξνζηάγκαηη) para se destruir (θαηεξξίπηεην) os chamados edifícios da perdição (πιάλεο νἰθνδνκήκαηα), como também para se derrubar (θαζῃξε῔ην) as estátuas e divindades (μνάλνηο θαὶ δαίκνζη), além de determinar (VC III, 27)63 que se

61 [26.6] πλεύκαηη γνῦλ θάηνρνο ζείῳ ρ῵ξνλ αὐηὸλ ἐθε῔λνλ ηὸλ δεδεισκέλνλ πάζαηο νὐ θαζαξα῔ο ὕιαηο ἐρζξ῵λ ἐπηβνπια῔ο θαηαθεθξύθζαη ιήζῃ ηε θαὶ ἀγλνίᾳ παξαδεδνκέλνλ νὐ παξηδώλ, νὐδὲ ηῆ η῵λ αἰηίσλ παξαρσξήζαο θαθίᾳ, ζεὸλ ηὸλ αὐηνῦ ζπλεξγὸλ ἐπηθαιεζάκελνο θαζαίξεζζαη πξνζηάηηεη, αὐηὴλ δὴ κάιηζηα ηὴλ ὑπὸ η῵λ ἐρζξ῵λ κεκηαζκέλελ ἀπνιαῦζαη δε῔λ νἰόκελνο η῅ο ηνῦ παλαγάζνπ δη‟ αὐηνῦ κεγαινπξγίαο. [26.7] ἅκα δὲ πξνζηάγκαηη ηὰ η῅ο ἀπάηεο κεραλήκαηα εἰο ἔδαθνο ἄλσζελ ἀθ‟ ὑςεινῦ θαηεξξίπηεην, ἐιύεηό ηε θαὶ θαζῃξε῔ην αὐην῔ο μνάλνηο θαὶ δαίκνζη ηὰ η῅ο πιάλεο νἰθνδνκήκαηα.

62 Barbero comenta – decerto não concordando – que “por inspiração divina o imperador fez demolir as

construções pagãs e escavar até que se descobrisse o túmulo, construindo na sequência, com alta despesa, um complexo monumental.” (2016: 185) Em nota, dialogando com Fausto Parente, Barbero ainda destaca que “Eusébio, como em outros casos, simplifica uma história que deve ter sido muito mais complexa, introduzindo a inspiração divina para resolver um problema longe de ser óbvio, ou seja, a descoberta do Sepulcro depois que os pagãos tinham eliminado toda a sua memória.” (Barbero 2016: 185; Parente 1987)

63 νὐ κὴλ δ‟ ἐλ ηνύηνηο ηὰ η῅ο ζπνπδ῅ο ἵζηαην, ἀιιὰ πάιηλ βαζηιεὺο αἴξεζζαη θαὶ πνξξσηάησ η῅ο ρώξαο

ἀπνξξίπηεζζαη η῵λ θαζαηξνπκέλσλ ηὴλ ἐλ ιίζνηο θαὶ μύινηο ὕιελ πξνζηάηηεη. ἔξγνλ δὲ θαὶ ηῶδε παξεθνινύζεη ηῶ ιόγῳ. ἀιι‟ νὐδ‟ ἐπὶ ηνῦην κόλνλ πξνειζε῔λ ἀπήξθεη, πάιηλ δ‟ ἐπηζεηάζαο βαζηιεὺο

removesse e se lançasse para o mais distante (πνξξσηάησ) todas as pedras (ιίζνηο) e a madeira (μύινηο) que sobrara da demolição do templo dedicado para Afrodite. Franco, a esse respeito, considerando a narrativa providencialista de Eusébio, afirma que

A descoberta do Sepulcro de Cristo é interpretada como um sinal claro do favor de Deus nos confrontos de Constantino, enquanto a operação ordenada pelo imperador é apresentada como um verdadeiro milagre e uma prova irrefutável da veracidade da religião cristã. Nesta perspectiva, o Sepulcro de Cristo que emerge da escuridão e retorna à luz após o esquecimento simboliza a morte e a ressurreição do Salvador. (Franco 2009: 280 e 281)

Vejamos que há um processo de apropriações do local tido como sagrado, pois “houve, ao que parece, um lugar tradicional em Jerusalém relativo à localização precisa da caverna em que Cristo teria sido enterrado, mas que, segundo Eusébio, ficou oculto por muito tempo devido à construção de um templo para Afrodite.” (Bardill 2012: 255) É bastante comum, apesar de complexo, esse processo de apropriação e reúso de locais sagrados por parte de tradições religiosas distintas (Eliade 1992: 25-61; Croatto 2001: 344-348). A propósito, Mircea Eliade (1907-1986) menciona um peregrino islandês chamado Nicolau de Thvera, cuja visita à cidade de Jerusalém no século XIII o levaria a escrever que o Santo Sepulcro é “o meio do Mundo; ali, no dia do solstício do verão, a luz do Sol cai perpendicular do Céu.” (Eliade 1992: 40) Essa prática de legitimar a importância simbólica do espaço tido como sagrado foi explorada por José Severino Croatto, entendendo, entre outras coisas, que “o lugar sagrado é um espaço „recortado‟ dentro do grande espaço cósmico ou telúrico.” (Croatto 2001: 347)64

A antiga Basílica do Santo Sepulcro, em Jersualém, que, de acordo com a leitura de Bardill, foi dedicada no ano 335, continha cinco amplos corredores e teria sido “construída em um local próximo ao túmulo e não exatamente sobre ele. Segundo Eusébio, a cúpula da basílica em si era um pequeno hemisfério, cercado por doze colunas e decorado com peças de prata.” (2012: 255) A partir de VC III, 33.1 até VC III, 39, a narrativa eusebinana é dedicada à exposição de detalhes arquitetônicos e

ηνὔδαθνο αὐηό, πνιὺ ηνῦ ρώξνπ βάζνο ἀλνξύμαληαο, αὐηῶ ρνῒ πόξξσ πνπ θαὶ ἐμσηάησ ιύζξνηο ἅηε δαηκνληθν῔ο ἐξξππσκέλνλ ἐθθνξε῔ζζαη παξαθειεύεηαη.

64 Segundo Croatto, “é importante lembrar a etimologia indo-europeia de „templo‟, latim templum, da raiz

(* tem-) que significa „cortar‟; de sua forma grega ηέκλσ (= tem-n-o) „cortar‟ deriva témenos, a palavra usada para designar um recinto sagrado. O espaço „recortado‟ não é uma parte do espaço, mas, sobretudo, sua reprodução em miniatura (um microcosmo). Ao ser o lugar hierofânico por antonomásia, é nele que se concentra a sacralidade cósmico-telúrica; o templo (e todo lugar que o represente, mesmo que seja aberto e sem edifícios) converte-se simbolicamente no „centro‟ do mundo por um lado, e em axis mundi por outro. Os dois aspectos complementam-se. Em muitas religiões, os lugares são considerados sagrados como reproduções de um arquétipo celeste.” (2001: 347)

decorativos dessa antiga basílica atribuída ao período de Constantino, possibilitando a reprodução, por parte de estudiosos, de uma planta dessa construção (Planta 08).

Após citar, na íntegra, a já comentada carta de Constantino ao bispo Macário, Eusébio afirma, legitimando seu discurso a partir de categorias teológicas, (VC III, 33.1) que além das ordens imperiais se cumprirem de maneira imediata, a construção65 da basílica nas proximidades do túmulo como uma espécie de marco fundador daquilo que os cristãos chamam de Nova Jerusalém66 evidenciaria a importância da morte sangrenta do chamado Cristo como algo capaz de expiar a culpa dos ímpios habitantes da velha Jerusalém, que o assassinaram (Ταῦηα κὲλ ἔγξαθε βαζηιεύο· ἅκα δὲ ιόγῳ δη‟ ἔξγσλ ἐρώξεη ηὰ πξνζηεηαγκέλα, θαὶ δὴ θαη‟ αὐηὸ ηὸ ζσηήξηνλ καξηύξηνλ ἟ λέα θαηεζθεπάδεην Ἰεξνπζαιήκ, ἀληηπξόζσπνο ηῆ πάιαη βνσκέλῃ, ἡ κεηὰ ηὴλ θπξηνθηόλνλ κηαηθνλίαλ ἐξεκίαο ἐπ‟ ἔζραηα πεξηηξαπε῔ζα δίθελ ἔηηζε δπζζεβ῵λ νἰθεηόξσλ).

Para Franco, “nesta passagem parece haver um conceito que é bem conhecido no contexto da polêmica antijudaica, ou seja, que uma „nova‟ Jerusalém cristã é construída em contraposição à antiga.” (2009: 288) Estaria representado, na narrativa eusebiana, o início do antijudaísmo que tanto caracterizará o cristianismo medieval? Na sequência (VC III, 33.2), Eusébio, em sua providencialista e teológica construção discursiva, salienta que, em frente à basílica, o imperador exaltou com rica e generosa recompensa a salvífica vitória sobre a morte, o que de certa forma já teria sido preanunciado pelos oráculos dos profetas, referindo-se à nova e segunda Jerusalém, muito exaltada nos incontáveis louvores inspirados por Deus (ηαύηεο δ‟ νὖλ ἄληηθξπο βαζηιεὺο ηὴλ θαηὰ ηνῦ ζαλάηνπ ζσηήξηνλ λίθελ πινπζίαηο θαὶ δαςηιέζηλ ἀλύςνπ θηινηηκίαηο, ηάρα πνπ ηαύηελ νὖζαλ ηὴλ δηὰ πξνθεηηθ῵λ ζεζπηζκάησλ θεθεξπγκέλελ θαηλὴλ θαὶ λέαλ Ἰεξνπζαιήκ, ἥο πέξη καθξνὶ ιόγνη κπξία δη‟ ἐλζένπ πλεύκαηνο ζεζπίδνληεο ἀλπκλνῦζη·). Franco chama nossa atenção para o fato de que

O adjetivo ἀληηπξόζσπνο (contraposição) e, depois, o advérbio ἄληηθξπο (em frente) não se referem apenas à posição geográfica dos edifícios sagrados construídos pelo imperador em frente às ruínas do Templo de Jerusalém, mas também a um considerável contraste em relação a eles. De acordo com essa perspectiva talvez seja