Após apresentar os trabalhos literários de Lactâncio a respeito de Constantino, cabe-nos tratar das produções, também indispensáveis em leituras acerca deste imperador, que são atribuídas a Eusébio, outro escritor cristão do início do século IV. Por ora, assim como fizemos no tópico sobre Lactâncio, nos preocuparemos com informações sobre a vida e o contexto intelectual de Eusébio, seus escritos acerca de Constantino e as características literárias das suas obras que aqui nos interessam.
1.3.1. Vida e contexto intelectual de Eusébio
Nascido entre os anos 260 e 269 (Ramalho 2013: 55-56), Eusébio pode ser considerado um intelectual cristão pré-niceno, ou seja, mais próximo das elaborações teológicas que antecederam o Concílio de Niceia, em 325, ainda que dele tenha participado e morrido quatorze anos depois. Embora prefiramos não fixar sua data de nascimento, optando por uma larga tolerância de dez anos, a maior parte dos estudiosos tem afirmado que Eusébio nasceu entre 260 e 265 (Drobner 2003: 231; Amerise 2005: 12; Migliore 2005: 5). Teria, portanto, nascido nos anos 260 (Franco 2009: 5).
Quanto ao local, a hipótese, apesar de incerta, de que tenha sido em Cesareia, cidade romana mais importante da Palestina (Mapa 07), é quase unânime desde o século XIV (Migliore 2005: 5). Por isso, optamos por entender que a associação do seu nome a essa cidade deu-se muito mais em função de sua ascensão, entre 313 e 315, ao episcopado que ali se sediava. De qualquer maneira, foi em Cesareia que ele viveu a maior parte de sua vida (Velasco-Delgado 2008: 16) e que sua formação cultural foi aperfeiçoada, especialmente após passar a frequentar a biblioteca e a escola ali fundadas
por Orígenes. Tornou-se desde então discípulo de outro intelectual cristão chamado Pânfilo, o qual, segundo Jerônimo, fora formado por Piério (?-309), um notável sacerdote de Alexandria (De Viris Illustribus 75-76).
Bibliotecário responsável por aquele imenso acervo de Cesareia, Pânfilo passou a ser auxiliado por Eusébio quando este tinha entre vinte e vinte e cinco anos (Barnes 1981: 94). Ambos, pouco tempo depois, seriam ordenados ao sacerdócio por Agápio (?-313), que com eles formaria uma equipe de intelectuais de altíssimo nível. Sua relação com Pânfilo, com quem dividiu a mesma casa por algum tempo, teria para Eusébio uma importância equivalente aos posteriores encontros com Constantino. Porém, vale salientar que, mesmo determinantes em sua carreira, os encontros com o imperador não foram tantos. “Eusébio teria visto Constantino em não mais que quatro ocasiões, e sempre na companhia de outros bispos” (Barnes 2014: 10). Assim, há que ser problematizada a relação próxima que o próprio Eusébio sugere ter havido entre ele e o imperador. São suas obras, porém, que também nos permitem concluir o contrário.
O contato com aquele mestre foi tão determinante na formação de Eusébio que, embora não tenha sido seu primeiro professor, pois iniciara sua carreira intelectual com um sacerdote bastante culto da cidade de Antioquia (Mapa 07) chamado Doroteu (Frangiotti 2000: 9), Pânfilo esteve presente desde muito cedo em sua vida. O erudito escritor e patricarca constantinopolitano Fócio I (820-890), em sua Epístola 144, defende que Eusébio foi, antes de tudo, escravo de Pânfilo. Segundo Gustave Bardy, tal hipótese se sustenta na fala do próprio Eusébio, ao declarar em sua obra De martyribus
Palestinae XI,1: “Entre estes mártires brilhou e fulgurou uma luz que tem o brilho do
dia, entre as estrelas radiantes, meu mestre Pânfilo, porque não tenho permissão para chamar a outro de verdadeiramente divino e abençoado” (Bardy 1960: 20).
Segundo Bardy, o termo grego δεζπφηεο (senhor), no uso feito por Eusébio pode significar “o dono de escravo” (1960: 21), evidenciando nesse trecho o sentimento de gratidão por ele em relação ao seu mestre e antigo senhor. Para Argimiro Velasco- Delgado, “a expressão „meu senhor‟, „meu dono‟, com a ênfase que Eusébio utiliza, demonstra a sua devoção e entrega ao mestre.” (2008: 18) Seja por tê-lo tirado da condição de escravo ou por tê-lo adotado como discípulo, Pânfilo teria sido homenageado por Eusébio não apenas na breve menção que lhe foi feita em De
martyribus Palestinae, mas também por meio de sua biografia, dividida em três livros e
escrita pelo próprio Eusébio (Altaner e Stuiber 1988: 219) e, por fim, de maneira ainda mais pessoal, no nome que o ainda jovem discípulo adotara para si mesmo:
Δὐζέβηνο ηνῦ Πακθίινπ (Eusébio de Pânfilo). Esse genitivo possessivo ηνῦ Πακθίινπ, segundo Velasco-Delgado (2008: 18) complementará o nome de Eusébio, desde os tempos de Jerônimo, nos cabeçalhos de todas as suas obras (De Viris Illustribus 81).
O último historiador eclesiástico grego Nicéforo Calixto Xantopoulos (1256- 1335), em sua História Eclesiástica (VI, 37) composta por vinte e três livros, dos quais sobreviveram apenas os dezoito primeiros, ainda interpretaria o ηνῦ Πακθίινπ como sendo a expressão de uma relação entre dois parentes. Para Xantopoulos, Eusébio era sobrinho de Pânfilo. Essa hipótese, porém, parece confrontar a História Eclesiástica do próprio Eusébio (VII, 32.24-26), na qual, além de reconhecer Pânfilo como um homem admirável, tanto por seu trabalho sacerdotal como por sua ampla erudição, afirma tê-lo conhecido na mesma época em que Agápio tornou-se bispo de Cesareia.
A propósito, sobre a problemática em torno do nome de Eusébio, o próprio Velasco-Delgado afirma que
Eusébio da Palestina o chamam alguns, Eusébio de Cesareia o chamam a maioria, a
começar por seus contemporâneos. Contudo, até o grande precursor do humanismo renascentista, Teodoro Metoquita (1260/61-1332), nada sinaliza expressamente sobre se Eusébio tenha nascido em Cesareia. A expressão de Cesareia após o nome é um recurso dos contemporâneos, que a empregam para distinguir o nosso Eusébio de seu homônimo, o influente bispo de Nicomédia (2008: 15-16).
Se não é possível saber o seu nome original, por que, então, ele escolheu para si, além do complemento Πακθίινπ, em homenagem ao seu mestre, o nome Eusébio que, por coincidência ou não, está associado à palavra εὐζέβεηα, muito usada por ele em seus panegíricos a Constantino e que significa piedade? Apesar da probabilidade de ter nascido na helenizada Palestina, a presença predominante da língua grega em sua vida e em seus escritos demonstra-nos que era um cidadão de origem helenística. Portanto, mesmo conhecendo o aramaico e o hebraico, o que não podemos afirmar com certeza (Bardy 1960: 20), sempre preferiu escrever em grego koiné (Gurruchaga 1994: 77).
Podendo contar com uma quantidade significativa de material, Eusébio dedicou-se tanto à organização daquela biblioteca como ao aprofundamento interpretativo dos documentos aos quais tinha acesso. Sua intenção apologética, caráter central de sua obra, seria fundamentada em um conjunto vasto de textos que compunham o número de leituras e pesquisas aprofundadas que ele fizera no período em que esteve cuidando, organizando e revisando aquele acervo. Para Velasco-Delgado
Pouco a pouco Eusébio acumulava um material exegético, apologético e histórico incomparável, quase tudo de primeira-mão, vindo de autores pagãos, judeus e, sobretudo, cristãos. No momento oportuno, todo este material foi tomando forma concreta em obras próprias ou em colaboração com Pânfilo (2008: 20).
É importante destacar que Eusébio não se limitou às consultas no acervo de Cesareia, mas também buscara informações em outras bibliotecas ainda antes da perseguição promovida por Diocleciano (Ramalho 2013: 60 e 61). Junto com Pânfilo que, como mártir cristão, morreria decapitado no ano 310, Eusébio escreveu uma obra dividida em cinco livros, intitulada Apologia em favor de Orígenes. Esse trabalho ainda teria um sexto e último livro escrito apenas por Eusébio, após a morte de seu mestre. Porém, dos seis livros, só seria preservado o primeiro, resultante de uma tradução feita por Rufino de Aquileia (345-410) para o latim (Drobner 2003: 231).
Após o martírio de Pânfilo, Eusébio dirigiu-se para Tiro (Mapa 07) e, em seguida, refugiou-se no deserto egípcio (Mapa 07), onde por algum tempo foi prisioneiro (Ramalho 2013: 65-68). Retornou à Palestina apenas depois que o imperador Galério publicou o Edito de Tolerância, em 311. Na ocasião de seu retorno, além de dar prosseguimento à produção de sua História Eclesiástica, “se pôs a refutar as acusações que Hiérocles, então governador da Bitínia, levantava contra os cristãos” (Frangiotti 2000: 17). Em sua obra, Hiérocles desenvolveu um estudo comparativo entre Apolônio de Tyane (ou Tiana) e Jesus de Nazaré. Em sua refutação, Eusébio pretendia “mostrar a um pagão fortemente encantado com a sua ciência, a ideia de que é possível ser simultaneamente um seguidor de Cristo e um cientista” (Bardy 1960: 24). Redigida por volta de 312, essa refutação intitulada Contra a tese de Hiérocles sobre Apolônio de
Tiana foi o primeiro dos escritos de Eusébio que serviu para inseri-lo no universo
literário de seu próprio tempo (Ramalho 2013: 61).
Conforme já dito, por volta de 313, ano decisivo na história do cristianismo devido à promulgação de mais um Edito imperial diretamente favorável aos cristãos, Eusébio foi elevado à condição de bispo de Cesareia. O que, porém, significava ser bispo no início do século IV? Até a metade do século III, um bispo agrupava ao redor de si mesmo todas as comunidades sob sua responsabilidade. Todavia, a expansão cristã, ainda que lenta, tanto em algumas cidades como em regiões interioranas, acabava por dificultar aquela intencional centralização (Daniélou 1984: 228-229).
Para Teja, existe uma considerável dificuldade em se entender o que significava ser bispo cristão na Antiguidade, pois além da complexa definição, o bispo
era uma figura inacessível(1999: 75). Embora apareça como um sacerdote, o bispo tem em sua bagagem um pouco de várias outras funções, tais como: jurista, político e orador. E, de um modo particular, “o bispo da Antiguidade Tardia apresentava-se como uma figura eminentemente laica, herdeira da política do mundo clássico greco-romano, mesmo que as bases do seu poder fossem religiosas.” (Teja 1999: 76)
A partir do século III consolidou-se a noção de hierarquia episcopal. Um bispo metropolitano de uma província civil era superior aos demais que a compunham. Em um contexto no qual surgiam as primeiras dioceses, era comum que a superioridade episcopal pertencesse ao bispo mais antigo. Sendo a primeira, a diocese do Egito, cujo patriarca era o bispo de Alexandria, era formada por várias províncias. Algo semelhante teria acontecido na diocese da África, na qual o bispo de Cartago desfrutava de tal preeminência, o que também ocorria na diocese do Oriente, onde o bispo de Antioquia era considerado a autoridade de maior importância (Daniélou 1984: 229).
No início do século IV, quando as figuras de Eusébio e Constantino, o bispo e o imperador, se tornaram protagonistas de um mesmo cenário, cada qual com seus interesses, a figura do bispo cristão consolidava-se, segundo Teja, como um poder emergente, ainda que em contraste com o poder do imperador e dos funcionários da corte (1999: 76). Mas, aos poucos as dinâmicas se aproximavam, até que nas cidades maiores “se decidem pela multiplicação das circunscrições territoriais, sobretudo nos subúrbios. Um sacerdote era posto à sua frente. Foi assim que se constituíram os tituli romanos, provavelmente nesta época” (Daniélou 1984: 228). Além disso, de acordo com Peter Brown, os bispos ganhavam importância nas cidades do século IV, associando-se de maneira pública e deliberada àquela parcela do povo antes ignorada, composta por viúvas, mulheres e pobres, que em troca colocavam seus bens e energias a serviço da religião (2009: 254-255). Simultaneamente
surgia entre os próprios bispos uma tendência a elaborar um suporte ideológico da figura episcopal em que se definem de forma clara o seu papel e as suas competências em relação à comunidade e aos demais poderes políticos. Esta imagem do bispo vinha configurando-se lentamente desde o século II na literatura apologética e patrística, nos cânones conciliares e nos tratados de disciplina eclesiástica (Teja 1999: 76).
Afirma-se que Eusébio tenha se tornado bispo “involuntariamente, pois nada em seu passado parecia predestiná-lo a exercer tão alto cargo, a não ser seu amor pela ciência e sua reputação como estudioso dedicado.” (Bardy 1960: 41-42) Sua eloquência era tão notável que foi ele o escolhido para proferir tanto o panegírico na ocasião da
festa de dedicação da Igreja de Tiro, em 315 ou 316 (Frangiotti 2000: 10), como o discurso panegirista a Constantino na solenidade dos trinta anos de ascensão ao poder, comemorado em Constantinopla no ano 336 (Barnes 1981: 266). Não há, porém, muitos indícios de que em 326, quando Constantino comemorou em Nicomédia (Kousoulas 2007: 375) vinte anos no poder, Eusébio tenha estado presente. Afirma-se, no máximo, com base no discurso do imperador e nos relatos do próprio Eusébio registrados na Vita
Constantini (III, 15-20), que o bispo teria participado, ainda em 325, de um banquete
que dava início às comemorações imperiais (Dam 2011: 149; Kreider 2013: 60).
Como articulador político, preocupado com as relações entre a Igreja e o Império, Eusébio foi bem mais que um teólogo pré-niceno, pois “situa-se, de cheio, na nova era constantiniana, agitada por tantas lutas” (Altaner e Stuiber 1988: 222). Em 325, no Concílio de Niceia, convocado e patrocinado por Constantino para resolver as problemáticas em torno da controvérsia ariana (Frangiotti 1995: 85-98), Eusébio participaria de modo direto, contribuindo, inclusive, com o símbolo de fé de sua igreja local, em Cesareia, que daria base para o texto que seria oficializado como credo niceno (Magalhães 2012: 94). Antes de Niceia, a religião cristã não possuía um credo oficial, único para todas as suas comunidades locais, com caráter universal. Cada comunidade elaborava e recitava seu próprio credo. Foi com isso que o símbolo de fé da igreja de Cesareia, que tinha Eusébio como responsável, fora aproveitado no Concílio, sofrendo apenas algumas adaptações e ampliações no intuito de atender às necessidades exigidas por aquela que seria a primeira reunião oficial do cristianismo (Perrone 1995: 23-45).
Eusébio, além de religioso, foi um homem, sobretudo, político, pois participou da divergência entre heresias e ortodoxia resultante das próprias estruturas institucionais em processo de consolidação e fortalecimento. O bispo de Cesareia, conforme afirma Alain Le Boulluec, “no século IV, impôs por muito tempo a imagem da unidade original da Igreja, atacada por „heresias‟ sobrevindas mais tarde. Esse quadro presidiu a historiografia, com poucas exceções, até o século XX” (2009: 64). Tendo o favorecimento do Império, a desde então chamada Cristandade passaria, aos poucos, a ser beneficiada com vantagens, entre as quais, além da organização do primeiro concílio ecumêmico, uma das mais emblemáticas se daria, segundo o próprio Eusébio, por meio da construção de templos com recursos dos cofres imperiais (Darras 1869: 57-72).
Em Jerusalém (Mapa 07), por exemplo, seria construída a Basílica do Santo Sepulcro, cuja solenidade de inauguração ocorrida em Constantinopla (Mapa 08) no ano 335, contaria com a presença do próprio Eusébio e de outros bispos da Igreja (Amerise
2005: 19-20). Na ocasião, o bispo de Cesareia foi o indicado para proferir o discurso oficial em homenagem ao referido templo, à glorificação de Constantinopla que se consolidava como nova capital do Império Romano e, sobretudo, à comemoração dos trinta anos de domínio do imperador Constantino (Velasco-Delgado 2008: 32-33).
Sobre o falecimento de Eusébio, rememorado nos dias 30 de maio pelo
Breviário Siríaco e 21 de junho pelo Martirológio Jeronimiano (Frangiotti 2000: 13),
há poucos detalhes na historiografia que o sucede. O máximo que sabemos é que foi em 339, dois anos após a morte de Constantino e pouco antes da morte de Constantino II, que teria ocorrido no mesmo ano ou, o mais tardar, em 340 (Migliore 2005: 9).
Nos tópicos seguintes, da mesma forma que fizemos ao apresentar os textos de Lactâncio, comentaremos tanto acerca das estruturas como das características literárias dos escritos de Eusébio. Apresentaremos, porém, apenas três de suas obras, que são as que tratariam, entre outras coisas, de representar o imperador Constantino, visto pelo bispo cristão como o escolhido de Deus para, antes de tudo, salvar o Império das opressões dos imperadores politeístas. A expansão da religião cristã, na perspectiva de Eusébio, seria uma consequência natural e imediata desse processo.
1.3.2. Três obras de Eusébio a respeito de Constantino
Estudar o Eusébio escritor já é uma tarefa por si só desafiadora, uma vez que entre seus muitos escritos há obras de caráter exegético, dogmático, apologético e histórico (Frangiotti 2000: 13). No entanto, são apenas alguns dos seus textos com aparentes pretensões históricas que aqui nos interessam (Liébaert 2000: 148-149). A primeira problemática que identificamos nessas obras de Eusébio consiste no fato de que, mesmo com suas supostas pretensões históricas, elas ficam marcadas, sobretudo, por suas tendências apologéticas e panegiristas. Portanto, a identidade de historiador antigo associada a Eusébio há que ser no mínimo questionada (Barnes 2014: 10-11).
Mesmo nos documentos que apresentaremos a seguir, cuja figura protagonista é sempre Constantino, o escritor Eusébio revela-se muito mais como apologista e panegirista do que como historiador (Grant 1980). Aliás, é importante que entendamos a diferença entre o Eusébio panegirista e o Eusébio apologista. Não podemos misturar esses dois conceitos, pois mesmo sendo duas características muito presentes em textos e discursos do mesmo autor, há que se esclarecer que ele se mostra um apologista ao se referir à religião cristã e um panegirista ao se referir ao imperador (Ramalho 2013: 64).
As obras de Eusébio que exploraremos são, portanto, as que tratam de alguma maneira a respeito de Constantino e do período em que este atuou à frente do Império, como tetrarca ou monarca. São elas a História Eclesiástica e as ainda inéditas no Brasil
Vita Constantini [Vida de Constantino] e Laus Constantini [Elogio a Constantino]. A
seguir, consideraremos as suas histórias, estruturas e particularidades, para na sequência tratarmos das características literárias da obra eusebiana de uma maneira geral.
a) História Eclesiástica
A primeira obra de Eusébio com interesse histórico intitulava-se Crônica e foi escrita fundamentalmente a partir de textos bíblicos e de obras de autores como o judeu Flávio Josefo e o escritor cristão Sextus Julius Africanus (?-245). No entanto, por ter sido publicada em duas edições até o ano 303, não teria tratado a respeito do imperador Constantino. Ainda que tenham sido preservados apenas fragmentos dessa obra, é possível identificar que Eusébio pretendia defender por meio dela que a tradição judaico-cristã seria a mais antiga de todas (Altaner e Stuiber 1988: 223-224). Para Barnes, contrariando a hipótese de que essa obra tenha tratado de questões do início do século IV, é mais coerente afirmar que ela teria sido concluída e publicada antes mesmo do final do século III (1981: 110-112).
Se pensarmos em uma perspectiva cronológica, a História Eclesiástica pode ser considerada uma continuação da Crônica que, a propósito, é citada logo no início HE I, 1.6. Nesse pequeno parágrafo o bispo de Cesareia afirma que na Crônica já havia um breve resumo dos fatos que seriam detalhados na História Eclesiástica.
Os primeiros três livros tratam do início do movimento de Jesus, com informações a respeito de João Batista, Pilatos, Áquila e Priscila, Paulo, Pedro, João e Tiago, relatos de Filo de Alexandria, os testemunhos de Flávio Josefo e a origem do Evangelho de Marcos. Neste bloco também há informações a respeito do período pós- apostólico, destacando a carta de Clemente de Roma, os ebionitas, os nicolaítas, as perseguições de Jerusalém e de outros locais, os martírios de Inácio de Antioquia e Policarpo de Esmirna e, por fim, referências a Papias e Quadrato (Ramalho 2013: 91).
Apenas uma atuação constante nas bibliotecas da Palestina, onde estava reunida boa parte da literatura cristã de até então, permitiria que as pesquisas de Eusébio resultassem, com tanta eficácia, em uma produção de tamanha importância. Será, portanto, em função dessa obra que ele ficará conhecido como “pai da história
eclesiástica” (Velasco-Delgado 2008: 37). Os seus objetivos são explicitados ao indicar “a sucessão dos bispos das principais igrejas, mostrando as dificuldades pelas quais a Igreja vai passando devido às perseguições, o diálogo ou o enfrentamento verbal com os pagãos, com os judeus, o surgimento das heresias e dos heréticos.” (Frangiotti 2000: 23) No Livro I, antes de abordar acerca da história do movimento de Jesus de Nazaré em seu início, Eusébio dedicou quatro capítulos de teor apologético-dogmático à defesa de conceitos cristológicos como a figura de Jesus enquanto Salvador e Cristo, sua preexistência e até sua divindade (Migliore 2005: 20). Sugeriu um suposto reconhecimento antecipado dessa figura por parte de importantes personagens da Bíblia Hebraica, tais como Moisés, Isaías e Davi. Apropriando-se de textos da tradição dos hebreus, Eusébio procura legitimar a perspectiva de que Jesus de Nazaré era o Messias que aquela civilização tanto aguardava (Barnes 1981: 126-129). A narrativa do nascimento de Jesus, porém, começará apenas no quinto capítulo do Livro I.