2.3 PERSPECTIVAS NEUROCIENTÍFICAS DO PROCESSAMENTO DA LEITURA MULTILÍNGUE
2.3.4 Bases neurais do processamento multilíngue
Os estudos sobre o processamento e a representação das línguas no cérebro multi- língue são escassos (DE BOT; JAENSCH, 2013), o que reflete a dificuldade de controlar aspec- tos linguísticos e psicológicos dessa população e a imaturidade da área de estudos. Esta revi- são de estudos com multilíngues, que não se limitou a estudos sobre o processamento da
leitura, porque os estudos são mais escassos,29 tem por objetivo identificar fatores que influ-
enciam a representação das línguas. Para esta revisão (Quadro 9, com legenda das siglas na borda inferior final, p. 107), privilegiamos estudos que contam com a aplicação de experi- mentos em geral, principalmente com RMf, mas em poucos estudos foram aplicados expe- rimentos com estímulos linguístico-visuais.
Quadro 9 – Estudos sobre bases neurais do processamento multilíngue Estudo Participantes e línguas Tarefa(s) Principais variáveis Principais resultados Yetkin et al. (1996) 5 multilíngues (inglês e diversas L2 e L3) Geração de palavras (por meio de le- tras) 1) Fluência 2) Representa- ção das línguas
Houve ativação no lobo frontal em to- dos os participantes para as línguas. A ativação foi mais espalhada nas línguas com menor nível de fluência.
Vingerhoets et al. (2003) 12 multilíngues (holandês/inglês/ francês) 1) Geração de palavras 2) Nomeação de figuras – palavras 3) Leitura de textos narrati- vos 1) Redes neurais 2) Diferentes habilidades lin- guísticas
Em geral, houve sobreposição das re- des para as línguas. Além disso, a tarefa 1 resultou em ativação bilateral frontal e do GTM. Na tarefa 2, houve mais ati- vação para a L2/L3 nas regiões frontais inferior/lateral esquerdas. Na tarefa 3, houve mais ativação na L1 para regiões mediais posteriores. Briellmann et al. (2004) 7 multilíngues (inglês/L2 e L3 diversas) Geração de palavras (com base em subs- tantivos)
1) Proficiência O processamento das quatro línguas ativou regiões sobrepostas do cérebro (rede da linguagem). Houve maior nú- mero de voxels nas línguas com menor nível de proficiência. Bloch et al. (2009) 44 multilíngues (línguas diver- sas): 1) bilíngues simultâneos; 2) bilíngues fa- lantes de heran- ça; 3) bilíngues sequenciais; 4) multilíngues tardios Narração Silenciosa - textos 1) Idade de aquisição
Participantes com exposição precoce à L2 demonstraram menor variabilidade na ativação neural nas regiões de Wer- nicke e de Broca para o processamento nas três línguas. Em contraste, na com- paração dos multilíngues tardios entre si, eles exibiram alta variabilidade (al- guns tiveram altos níveis de ativação, outros baixos). Abutalebi et al., 2013) 14 multilíngues (alemão/ italia- no/inglês) 14 monolíngues Nomeação de figuras - pala- vras 1) Estruturas subcorticais 2) Domínio de 3 línguas
Os multilíngues menos proficientes tiveram maiores níveis de ativação no putâmen esquerdo para a L2. Houve também aumento da massa cinzenta no putâmen esquerdo de multilíngues.
29 As pesquisas bibliográficas foram realizadas nas bases de dados citadas acima. Indexadores: Multilingualism
AND fMRI. Os estudos foram selecionados depois da leitura do resumo. Os critérios de seleção foram os mes- mos da pesquisa com bilíngues.
Quadro 9 (continuação) – Estudos sobre bases neurais do processamento multilíngue Andrews et al. (2013) 5 multilíngues (inglês/russo e outras línguas) 1) compreen- são de seg- mentos audi- tivos 2) Compreen- são de textos 1) Aprendiza- gem
O estudo longitudinal mostrou que aprendizagem do russo durante o es- tudo foi associada com ativações carac- terísticas encontradas nas condições em russo (houve ativação nos dois he- misférios).
Kaiser et al. (2015)
44 multilíngues (diversas línguas) com perfis seme- lhantes a Bloch et al. (2009)
Nenhuma 1) Morfometria 2) Idade de aquisição
O exame revelou que os multilíngues sucessivos, em comparação aos multi- língues simultâneos, tiveram índices de massa cinzenta maiores nas regiões associadas ao processamento linguísti- co: GFI e GFM bilaterais, GTM direito, GPPI esquerdo e GTI esquerdo. GTM – giro temporal medial; GFI – giro frontal inferior; GFM – giro frontal medial; GTM – giro temporal medial; GPPI – giro parietal posterior inferior; GTI – giro temporal inferior.
A pesquisa bibliográfica resultou em oito artigos – sete apresentados no quadro 2 e um na revisão sobre estudos com línguas minoritárias (VIDESOTT et al., 2010). O número de artigos encontrado é bem mais reduzido em comparação a estudos sobre representação das línguas por bilíngues. Entretanto, esse número poderia ser maior, pois em alguns estudos multilíngues são agrupados junto aos bilíngues (HIGBY; KIM; OBLER, 2013). Outro aspecto geral que realçamos é que a maioria dos artigos foi publicada nos últimos anos (ABUTALEBI et al., 2013; ANDREWS et al., 2013; KAISER et al., 2015; VIDESOTT et al., 2010).
Alguns pesquisadores investigaram as redes neurais do processamento das línguas (L1, L2 e L3), de forma análoga ao bilinguismo. O principal objetivo dos investigadores foi ve- rificar se os participantes processavam as três ou mais línguas em áreas convergentes ou di- vergentes do cérebro, por meio de tarefas de geração de palavras (YETKIN et al., 1996), flu- ência verbal fonológica, nomeação de figuras e leitura de narrativas (VINGERHOETS et al., 2003), geração de verbos com base em substantivos (BRIELLMANN et al., 2004) e nomeação de figuras (VIDESOTT et al., 2010). Percebe-se que a questão da convergência de processos neurobiológicos é crucial a diversos estudos sobre bilinguismo e multilinguismo. Como já si- nalizado neste trabalho, esta é uma das questões de investigação da área, pois ainda está na agenda da pesquisa neurocientífica sobre bilinguismo/multilinguismo.
Em todos os estudos reportados, foram encontradas redes de ativação semelhantes para as três línguas, da mesma forma que na maioria dos estudos com bilíngues, o que favo- rece a hipótese da convergência (GREEN, 2003) ou assimilação (CAO et al., 2013; PERFETTI et al., 2007). Houve ativação na rede tradicional da linguagem, que abrange áreas perissilvianas
do cérebro: córtex frontal (principalmente a região de Broca, giro frontal inferior esquerdo) e do córtex temporoparietal (sobretudo a região de Wernicke, ou giro temporal superior posterior). No entanto, como os estudos visam investigar o processamento de múltiplas lín- guas, essa rede não é suficiente para descrever todos os mecanismos que estão relacionados a esse complexo processamento. Áreas complementares podem ser necessárias para lidar com aspectos únicos envolvidos no processamento da língua adicional, resultantes de um nível de proficiência mais baixo e/ou da aquisição tardia da língua.
Em alguns estudos com multilíngues, também foram encontradas redes adicionais, no hemisfério direito, especialmente nas regiões frontais (VINGERHOETS et al., 2003; AN- DREWS et al., 2013), especificamente, pré-frontais (VIDESOTT et al., 2010). Essa ativação homóloga à região de Broca pode ser interpretada no sentido de processos cognitivos adici- onais e necessários para o processamento da língua menos proficiente, o que favorece a hi- pótese do spill-over (PRAT; JUST, 2008; PRAT; MASON; JUST, 2011) encontrada também em bilíngues (BUCHWEITZ, 2006). Outra hipótese para explicar a ativação adicional nas regiões frontais do cérebro é a necessidade de maior controle cognitivo para inibir a L1 durante o processamento da língua adicional (ABUTALEBI et al., 2008; HIGBY; KIM; OBLER, 2013).
Além das regiões corticais envolvidas no processamento das línguas (sobretudo a re- gião de Broca e de Wernicke), Abutalebi et al. (2013) encontraram diferenças entre multilín- gues e monolíngues na ativação e no volume das estruturas subcorticais do putâmen es- querdo. Os multilíngues teriam essa região mais desenvolvida e mais ativada. O putâmen faz parte dos gânglios basais do cérebro. No multilinguismo, está associado ao aprendizado de regras e faria parte de um centro, ou hub, em inglês, controlador dos processos a serem exe- cutados. Para o falante multilíngue, esse controle sobre as diferentes línguas precisa estar desenvolvido (BUCHWEITZ; PRAT, 2013). Na configuração linguística multilíngue, um reper- tório articulatório complexo, que fortalece estruturas articulatórias como o putâmen.
Outra variável investigada nos estudos com multilíngues é a idade de aquisição. Um estudo com multilíngues demonstrou que os níveis de ativação não são necessariamente dependentes da idade na qual cada língua é aprendida (BRIELLMANN et al., 2004), mas isso dependeria do nível de proficiência, justamente porque a idade de aquisição não determina, necessariamente, o nível de proficiência em cada uma das línguas, conforme vimos anteri- ormente. Entretanto, nesse estudo, foram aplicados testes de proficiência limitados, como teste de escrita de palavras e produção oral de história com base numa história em quadri-
nhos. Seriam necessários testes padronizados nas outras habilidades para determinar o nível de proficiência nas línguas, de modo a não confundir esse fator com idade de aquisição.
Por outro lado, Bloch et al. (2009) pesquisaram diferentes grupos (multilíngues simul- tâneos, sequenciais e tardios) em uma tarefa de narração silenciosa. Como resultado, os multilíngues com exposição precoce demonstraram menor variabilidade nos níveis de ativa- ção (Broca e Wernicke) nas três línguas do que os multilíngues tardios. Isso indica que a ex- posição precoce a mais de uma língua daria origem a uma rede que pode ser ativada de for- ma mais homogênea no processamento das múltiplas línguas. Outras diferenças entre multi- língues precoces e tardios foram encontradas por Kaiser et al. (2015), que investigaram a di- ferença entre os grupos de multilíngues simultâneos e consecutivos no que tange a caracte- rísticas morfológicas do cérebro, ou seja, ao volume da substância cinzenta das regiões da linguagem. Os multilíngues tardios tiveram maior volume em várias áreas associadas à lin- guagem – essa aprendizagem aumentaria o volume das áreas corticais associadas à lingua- gem, porque elas precisam ser mais exercitadas (o processamento das línguas não é auto- mático, como no caso dos multilíngues precoces). No cérebro dos adultos que aprenderam as línguas na infância, a aprendizagem não teve tanto impacto na volumetria.
Os estudos com multilíngues não são consensuais quanto aos efeitos idade de aquisi- ção. Dentre os poucos estudos realizados, parece haver uma influência dessa variável no de- sempenho dos participantes nas três ou quatro línguas (BLOCH et al., 2009; KAISER et al., 2015; VINGERHOETS et al., 2003). Porém, as tentativas de determinar o fator que desempe- nha um papel maior nos processos linguísticos, a idade de aquisição ou a proficiência, são inconclusivas (HIGBY; KIM; OBLER, 2013), também porque ambos os fatores, muitas vezes, se correlacionam. É necessário mensurar adequadamente o nível de proficiência em todas as línguas, de modo que o nível de proficiência e a idade de aquisição não sejam confundidos, como talvez seja o caso do estudo de Briellmann et al. (2004).
Não há consenso, também, como mencionam Andrews et al. (2013), quanto à ativa- ção bilateral no processamento da L2 ou da L3, pois esta não foi encontrada em todos os es- tudos, tanto com bilíngues quanto com multilíngues. Categorias linguísticas, como a exposi- ção às línguas, o status das línguas e a consistência ortográfica, no caso de tarefas de leitura, podem ser mais investigadas e controladas nos estudos. Seria interessante, ainda, incluir grupos maiores e mais homogêneos nas pesquisas, como no estudo de Videsott et al. (2010); entretanto, parear os grupos de modo tão uniforme é de difícil execução, pois a variabilida-
de dos falantes multilíngues é imensa, uma miríade de fatores faz experiência bilíngue e, por extensão, multilíngue, profundamente heterogênea e, potencialmente, altera as suas conse- quências (BIALYSTOK et al., 2009).
Considerando a representação das línguas por diferentes grupos, um dos propósitos deste estudo é investigar os processos neurobiológicos subjacentes ao processamento da leitura por falantes de HR, em comparação a não falantes. Em outras palavras, as redes neu- rais da leitura para o multilíngue hunsriqueano, se comparadas aos do outro grupo multilín- gue, apresentam diferenças ou semelhanças? Esta pesquisa propõe, portanto, a primeira in- vestigação neurocientífica do multilinguismo dos falantes de HR. A seguir, apresentamos, então os objetivos e as hipóteses desta investigação, bem como o delineamento do estudo.
3 DELINEAMENTO DO ESTUDO
Considerando o objetivo de investigar o processamento da leitura por falantes de hunsriqueano (HR), em comparação a não falantes de alguma língua minoritária de origem alemã, três experimentos foram desenvolvidos. Cada experimento tem relação com uma habilidade do processamento da leitura: consciência fonêmica, acesso lexical e compreensão de sentenças. O primeiro experimento consistiu, a cada instanciação, na apresentação audi- tiva de uma palavra, com a qual os participantes relacionaram uma sequência de grafemas. No segundo experimento, os participantes leram uma palavra por vez na tela e decidiram sobre a lexicalidade daquela palavra. Uma versão desse experimento também foi aplicada a um subgrupo de participantes na ressonância magnética funcional (RMf). No terceiro expe- rimento, exclusivo para os grupos de falantes de alemão standard (AS), GHA e GA (cf. o pró- ximo parágrafo), os participantes leram sentenças em AS e, com relação a cada uma, res- ponderam a uma pergunta. Além disso, os participantes preencheram um questionário e fi- zeram tarefas de memória de trabalho, controle inibitório e vocabulário, para a sua caracte- rização e para a composição dos grupos.
Três grupos de participantes integraram a amostra do estudo comportamental. Os dois grupos experimentais foram compostos de falantes de HR. O grupo GHA foi composto por multilíngues falantes de HR e PB (línguas adquiridas precocemente), AS e outras línguas, adquiridas em contexto escolar. No grupo GH, havia participantes falantes de HR e PB, tam- bém adquiridos precocemente, bem como de outras línguas. O grupo controle foi constituí- do de falantes de PB, AS e outras línguas. Os integrantes do grupo controle não possuíam conhecimento de qualquer língua minoritária de origem alemã. Os membros dos grupos par- ticiparam de uma sessão experimental (grupo GH) ou de duas (grupos GHA e GA).
Os experimentos se constituíram de propostas de pesquisa interdependentes, quanto à temática, isto é, o processamento da leitura por falantes de uma língua minoritária, mas também independentes, porque (1) contaram com a participação diferenciada dos grupos, (2) avaliaram aspectos diferentes do processamento da leitura (consciência fonêmica, acesso lexical e compreensão de sentenças) e (3) um deles contou com a aplicação suplementar de um exame de ressonância magnética funcional.
O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da PUCRS em 23 de março de 2016 (CAAE: 53895416.4.0000.5336). Antes de todo o procedimento de pesquisa,
solicitamos a todos os participantes que lessem com atenção o termo de consentimento li- vre e esclarecido (TCLE)30 e o assinassem como requisito para a realização da pesquisa.
Neste capítulo, apresentamos os objetivos e as hipóteses da pesquisa. Em seguida, apresentamos o método geral deste estudo: uma descrição geral dos participantes e da sua seleção, o procedimento de coleta de dados do estudo experimental e dos procedimentos de análise. Por fim, são descritos os procedimentos do estudo piloto.