2.1 BILINGUISMO E MULTILINGUISMO
2.1.8 Relações entre HR e AS
Esta parte do capítulo se dedica a focalizar as relações entre as línguas no que con- cerne aos aspectos linguísticos, sociais, culturais e didáticos que envolvem o HR e AS em contato com o PB. Primeiramente, descrevemos as línguas, contemplando semelhanças e diferenças. A seguir, discutimos algumas crenças sobre as línguas e a escrita em HR, perti- nente a este trabalho, uma vez que em dois experimentos há palavras escritas nessa língua. Por fim, discutem-se estudos sobre a aprendizagem de AS por falantes de HR.
2.1.8.1 Descrição das línguas
Contemplamos, nesta descrição, os níveis fonético-fonológico, léxico-semântico e morfossintático, focalizando os aspectos envolvidos nos experimentos. Esta descrição é es- sencial para a compreensão dos experimentos e dos resultados, que foram desenvolvidos com o intuito de investigar o processamento da leitura, com relação a determinados aspec- tos fonético-fonológicos, léxico-semânticos e morfossintáticos das línguas envolvidas.
2.1.8.1.1 Nível fonético-fonológico
O sistema fonético-fonológico do AS contempla 21 consoantes fonológicas (DUDEN, 2010). O sistema consonantal possui a variação nos róticos: R vibrante [ e R fricativo , ambos não se opõem fonologicamente, e o R fricativo é mais propagado. As consoantes [ e estão em distribuição complementar, não em oposição. Esses fonemas surgem em dife- rentes contextos, mas [é mais abrangente. No quadro 2, podemos visualizar as consoan- tes das duas línguas, de acordo com o modo de articulação, o vozeamento e o ponto de arti- culação.
Quadro 2 – Inventário das consoantes presentes no alemão standard (AS) e no hunsriqueano (HR): em vermelho, as consoantes exclusivas do AS; em azul, as exclusivas do HR; em verde, as consoantes
que podem ocorrer nas duas línguas bilabial labiodental alveolar pós-
alveolar
palatal velar uvular glotal
plosiva fricativa nasal aproximante tepe lateral vibrante
Fonte: Duden (2005, p. 34) e Altenhofen (1996, p. 344) – Adaptação
A característica mais proeminente das consoantes do HR é o desvozeamento e a aspi- ração das consoantes plosivas. Isso ocorre, inclusive, nos empréstimos do PB por falantes de HR (GEWEHR-BORELLA, 2014), sobretudo para falantes mais velhos (por exemplo, [g]uardar ~ [k]uardar). Não há, portanto, a oposição entre consoantes plosivas vozeadas e desvozea- das no HR (ALTENHOFEN, 1996), somente entre aspiradas e desvozeadas em início de pala- vra (GEWEHR-BORELLA, 2014).
O inventário vocálico do AS é composto de 16 monotongos, 15 deles podendo ser acentuados. A única vogal que não pode ser acentuada é o schwa []. As vogais tônicas são classificadas em dois grupos principais: vogais tensas e não tensas (Quadro 3). O sistema é construído de modo que cada vogal tensa corresponda a uma vogal não tensa (a vogal // em Miete corresponde à vogal não tensa // em Mitte). Desse modo, há diferença fonológica entre vogais longas (tensas) e curtas (não tensas). No quadro, apresentamos as vogais do AS e do HR, classificadas de acordo com a posição no trato vocal, o arredondamento dos lábios, a tensão e a abertura da boca.
Quadro 3 – Inventário das vogais presentes no alemão standard (AS) e no do hunsriqueano (HR): em vermelho, as vogais exclusivas do AS, e em verde as vogais que ocorrem nas duas línguas
Vogais anteriores Vogais posteriores não arredondadas arredondadas
tensas não tensas tensas não ten- sas
tensas não ten- sas
fechada
central
aberta
As vogais arredondadas (em vermelho) não existem em nenhuma variedade do HR. Outra diferença se refere aos ditongos. Em AS, o uso do ditongo [é generalizado, ao pas- so que no HR esse ditongo ocorre mais na variedade do tipo Deutsch: Ei , em comparação a Eu , na variedade do tipo Deitsch.
De modo geral, as sílabas de ambas as línguas possuem como núcleo da sílaba uma vogal (DUDEN, 2010). As consoantes podem estar combinadas em encontros consonantais de duas ou três consoantes em posição de ataque/onset silábico e/ou em posição de coda, havendo um número grande de sílabas CVC fechadas (SEYMOUR; ARO; ERSKINE, 2003).
2.1.8.1.2 Nível léxico-semântico
Nesta descrição, privilegiamos os substantivos e os verbos, classes de palavras-alvo contempladas nos experimentos. Em AS, os substantivos podem ter três gêneros (masculino, feminino e neutro) e são escritos com letras maiúsculas. Outra idiossincrasia dos substanti- vos em AS, mas também das outras palavras lexicais é a possível formação de palavras com- postas (Komposita). Segundo Duden (2005), Komposita são palavras complexas compostas de constituintes passíveis de formar uma palavra. Por exemplo, Wunderkind (Wunder ‘mila- gre’ + Kind ‘criança’), uma classe de crianças semanticamente mais especial que somente
Kind. Além disso, o léxico tem um número considerável de estrangeirismos e empréstimos,
principalmente do grego, do latim, do francês e do inglês (DUDEN, 2005).
No HR, as características dos substantivos são semelhantes às do AS. Ambas as lín- guas mantêm, inclusive, uma série de cognatos (ALTENHOFEN, 2010), foco das tarefas de acesso lexical neste estudo (exemplos nos apêndices E, F e G). Cognatos podem ser definidos como palavras que, devido ao vínculo etimológico, possuem similaridades entre as línguas, embora essa relação nem sempre é reconhecida na sincronia, somente na diacronia, como no duif, em holandês e Taube, em alemão, ‘pomba’ (MÖLLER, 2011). A relação etimológica entre as palavras pode ser direta (mesma origem) ou indireta, como no caso dos emprésti- mos (HELMS-PARK; DRONJIC, 2012). Palavras semelhantes entre duas línguas, oriundas de diferentes matrizes, são caracterizadas como falsos cognatos (por exemplo, Öl ‘óleo’ em alemão e Öl ‘tipo de cerveja ale’ em sueco).
Nos estudos psicolinguísticos, tem sido priorizada a relação sincrônica entre as pala- vras. Cognatos são, então, equivalentes semânticos entre as línguas, que (moderadamente)
se assemelham entre si na ortografia e/ou na fonologia (DIJKSTRA et al., 2010; TOKOWICZ, 2015). Pode haver variação da sobreposição de segmentos de parcial a total (VAN ASSCHE; DUYCK; BRYSBAERT, 2013). Para que cognatos sejam, de fato, reconhecidos, é necessário que as semelhanças sejam passíveis de descrição e de categorização. Para tanto, pode-se mensurar o grau de similaridade ortográfica por meio da medida de Van Order ou por meio da distância Levensthein (HEERINGA, 2004), que utilizamos nesta pesquisa. Segundo essa aferição da distância de duas sequências, dois grafemas ou dois fonemas (bem como traços fonológicos) são comparados em sequência. São computadas as omissões, adições ou substi- tuições de segmentos de uma palavra em relação a outra. A distância tem sido correlaciona- da em testes com cognatos inclusive por leigos (HEERINGA, 2004; MÖLLER, 2011). O quadro 4 exemplifica a comparação entre os fonemas das palavras Hose e Hos ‘calça’, esta última uma das quatro possibilidades de produção em HR (cf. ALTENHOFEN, 1996).
Quadro 4 – Exemplo de comparação entre segmentos por meio da distância Levensthein
Línguas 1 2 3 4 5
Alemão standard
Hunriqueano ∅ ∅
= Substituição Omissão Substituição Omissão
Para a palavra Hose, foram necessárias quatro operações, duas substituições e duas omissões. A distância entre as duas sequências seria de 4. Porém, a distância Levensthein relativa, que é a soma das incongruências dividida pelo número de segmentos (MÖLLER, 2011), resulta em 0,8 (total = 1,0). Essa palavra possui, portanto, sobreposição parcial de segmentos, e a palavra Fisch ‘peixe’ possui sobreposição total entre as línguas, porque é idêntica.
Além dos cognatos, outro aspecto chama bastante atenção no HR: a presença de vá- rios empréstimos do PB e neologismos, afinal, os conceitos não eram conhecidos no século XIX, como, por exemplo, Milje ‘milho’ e Teekui ‘cuia de chimarrão’. Devido à influência do PB, muitos falantes de HR consideram que falam “misturado” – como Spinassé (2005), inclu- sive, denominou a variedade. Altenhofen (2010) também menciona os relictos da região de origem, como Fixfeier ‘fósforo’, mantidos mesmo com o afastamento do país de origem. Es- sa variante também sofreu mudança linguística em algumas comunidades, sendo usada a
variante Fosfeier, que tem influência do PB. Além disso, o sufixo -ieren (ou -eere em HR) é bastante produtivo para a formação de verbos nas duas línguas, no HR devido ao contato com o PB (por exemplo, namorieren e misturieren).
Portanto, no âmbito léxico-semântico, ambas as línguas mantêm semelhanças, da mesma forma que no âmbito morfossintático, como pode ser constatado a seguir.
2.1.8.1.3 Nível morfossintático
A morfossintaxe do AS é julgada complexa por muitos aprendizes de L2, às vezes até mesmo antes de iniciar a aprendizagem (KAISER; PEYER; BERTHELE, 2010; ROZENFELD, 2007)14. Uma peculiaridade que pode provocar esse estranhamento é a marcação das fun-
ções sintáticas por meio dos casos gramaticais: nominativo (sujeito e predicativo), acusativo (objeto), dativo (objeto) e genitivo (complementos e adjuntos). A estrutura-padrão da língua é Sujeito-Verbo-Objeto (SVO), tipologia nominativa-acusativa (SIMONS; FENNIG, 2017). En- tretanto, há movimentos que enviam o verbo principal para o fim da sentença, resultando na estrutura Sujeito-Objeto-Verbo (SOV), como nas orações subordinadas, iniciadas por con- junções e pronomes e, ainda, em sentenças formuladas com tempos verbais analíticos (co- mo no Perfekt, exemplificado abaixo).
O verbo parece determinar a estrutura da sentença em AS, pois é o cerne da senten- ça e liga diferentes tipos de argumentos (DUDEN, 2005; EISENBERG, 2001). São seis os tem- pos no modo indicativo (EISENBERG, 2001). Somente o Präsens e o Präteritum têm formas simples (sintéticas) na voz ativa. Perfekt (pretérito perfeito) e Plusquamperfekt (pretérito mais-que-perfeito), os dois tempos futuros e todas as formas da voz passiva são analíticas (a seguir, exemplos do Perfekt). Os paradigmas verbais se caracterizam por marcar a pessoa e o número. A formação de palavras por derivação, tanto prefixal quanto sufixal, é muito produ- tiva em alemão, formando, inclusive verbos separáveis (er singt mit – er hat mitgesungen), nos quais o prefixo se separa do radical.
14 Lembro-me de relatos de alunos que mencionavam, por exemplo, que não entendiam por que a língua alemã
precisa ter uma gramática tão complicada (principalmente em relação aos casos gramaticais e em comparação ao inglês). Rozenfeld (2007, p. 17) reporta crenças (tipicalizadas, aquelas que apontam para a forte presença de estereótipos) de que o alemão é uma língua muito “difícil”, “incompreensível”, “impossível”, principalmente de alunos iniciantes. No entanto, essa percepção pode estar atrelada à distância tipológica entre o PB e o AS.
No experimento de compreensão de sentenças aplicado aos participantes desta pes- quisa15, eles leem sentenças-alvo no Präsens (presente do indicativo) e no Perfekt (pretérito
perfeito do indicativo). Essas sentenças são formuladas com verbos transitivos (nominativo- acusativo) e com os papéis temáticos agente e paciente, estrutura mais recorrente na língua e de processamento facilitado (KAISER; PEYER; BERTHELE, 2010).
A posição normal do verbo conjugado na sentença é a segunda e, quando este verbo é auxiliar, no caso do Perfekt, o verbo principal se movimenta para o fim da sentença, no particípio. Devido ao grande número de formas verbais analíticas, uma estrutura bastante recorrente em ambas as línguas em análise é a chamada Satzklammer. A expressão
Satzklammer é de difícil tradução, porque se trata de uma metáfora, ou seja, Klammer signi-
fica ‘gancho’ ou ‘parênteses’16. A Satzklammer funciona como parênteses que abrangem os
constituintes intermediários (Mittelfeld) da sentença (DUDEN, 2005). Cada “parêntese” é chamado de Klammer esquerdo e Klammer direito. Segundo Duden (2005), o campo inter- mediário pode ser preenchido por um número ilimitado de constituintes, sendo a restrição a inteligibilidade. O Vorfeld, que antecede o primeiro parêntese, pode ser ocupado pelo sujei- to (Quadro 5) ou por um sintagma adverbial. Pronomes podem aparecer nesse campo em perguntas abertas e em orações relativas. Suprimimos o Nachfeld (constituintes posterio- res), porque ele não aparece nos tempos verbais focalizados. Exemplificamos a Satzklammer com sentenças nas duas línguas, baseadas, em Duden (2005) e em Tornquist (1997).
Quadro 5 – Exemplos de sentenças em alemão standard (AS) e hunsriqueano (HR)17
Estrutura (língua) Vorfeld Constituintes anteriores Satzklammer esquerdo Verbo finito Mittelfeld Constituintes intermediários Satzklammer direito Formas verbais a) Afirmação no Präsens (AS)
Der Lehrer trinkt das Wasser. -
DEF professor beber-PRS.3.SG DEF-NEUT água - “O professor bebe a água.”
b) Afirmação no
Perfekt (AS)
Otto hat lange auf den Bus gewartet.
PR AUX-PRS.3.SG lange-ADV auf den Bus-IO PTCP-esperar-PTCP “Otto esperou bastante pelo ônibus.”
15 No item 5.2.1, fornecemos mais detalhes sobre os verbos e as sentenças, em associação com a Tarefa de
compreensão de sentenças.
16 Segundo pesquisa no dicionário Langenscheidt online: http://de.langenscheidt.com/deutsch-portugiesisch/
klammer. Acesso em 02 jan. 2017.
17 Glosas escritas de acordo com as regras de The Leipzig Glossing Rules (COMRIE; HASPELMATH; BICKEL, 2015).
Quadro 5 (continuação) – Exemplos de sentenças em alemão standard (AS) e hunsriqueano (HR) Estrutura (língua) Vorfeld Constituintes anteriores Satzklammer esquerdo Verbo finito Mittelfeld Constituintes intermediários Satzklammer direito Formas verbais c) Afirmação no Perfekt (HR)
Er hat de Bolo dreckig gemach.
PN.M.3SG AUX-PRS.3.SG de Bolo-DO dreckig-ADJ PTCP-fazer “Ele sujou o bolo.”
d) Pergunta no
Präsens (AS)
- Kommt der Bus gleich an?
chegar-V- PRS.3.SG
der Bus-SBJ logo-ADV PREF-V “O ônibus está chegando?“
e) Pergunta no
Präsens (HR)
- Tut de Ônibus bald komme?
AUX-PRS.3.SG de Ônibus-SBJ bald-ADV vir-V.INF “O ônibus vem logo?”
f) Afirmação no
Präsens (HR)
Ich tun viel treeme.
PN.1.SG. AUX-PRS.1.SG viel-ADV sonhar-V.INF
“Eu sonho muito.”
Fonte: O autor, com base em Duden (2005) Tornquist (1997)
Como podemos verificar nos exemplos, as estruturas de afirmações e perguntas no
Präsens e no Perfekt nas duas línguas têm mais semelhanças do que diferenças (TORNQUIST,
1997). Uma diferença importante é que no HR até mesmo as frases com verbo no Präsens podem possuir a estrutura de Satzklammer (exemplo f do quadro 5), uma vez que os falan- tes usam perífrases com o verbo auxiliar tun. Como o verbo principal se localiza na
Satzklammer direta, é possível introduzir constituintes no campo intermediário, e o verbo
principal permanece sempre na última posição na sentença. Acreditamos que essa diferença seja crucial para explicar possíveis diferenças no desempenho dos falantes de HR na com- preensão de sentenças.
No que concerne aos verbos em HR, eles também possuem semelhanças com o AS, porém o particípio é, por vezes, diferente, como na sentença Ich honn was koof (HR) – Ich
habe was gekauft ‘Eu comprei algo’. Outra diferença se refere aos modos verbais: o Präteri- tum (outra forma de passado) é usado somente em verbos modais e nos verbos haben ‘ter’ e sein ‘ser/estar’ no HR, talvez porque esse modo é mais associado a situações formais. Outra
diferença é a ausência do genitivo no HR e o enfraquecimento dos outros casos gramaticais (ALTENHOFEN, 1996). Para fins de posse, utiliza-se o dativo analítico (TORNQUIST, 1997, p. 52), que é uma forma de uso informal do alemão falado: Die Ketzchen sinn dem sein Amigos ‘Os gatinhos são os amigos dele’. Variantes como essa passam de relictos dialetais a varian-
tes estruturalmente próximas à variedade regionalmente aceita na Alemanha (MACHADO, 2016). O uso dessas variantes tem relação com a oralidade, tanto no HR quanto na língua alemã usada em contextos informais na Alemanha.
Em suma, a estrutura geral das sentenças em ambas as línguas descritas se manteve compartilhada, sobretudo na Satzklammer e nos verbos cognatos. Comparações como estas também motivam crenças sobre as línguas, que precisam ser desveladas e desconstruídas, conforme discutimos a seguir.
2.1.8.2 Crenças sobre línguas
Crenças podem ser definidas como um conjunto de ideias, imagens pré-estabelecidas que se tem acerca de pessoas, um objeto ou um fenômeno (ROZENFELD, 2007). Segundo Schneider (2007), crenças transparecem nas escolhas linguísticas e na valoração social dos traços de fala e das línguas dos grupos considerados minoritários no Brasil. Principalmente nesse contexto, é imprescindível desvelar essas ideias, a fim de desconstruir preconceitos e aprimorar práticas de uso das línguas.
Quanto ao HR, Altenhofen (2004, p. 91) afirma que a condição de “dialeto”, situado abaixo de uma norma standard, muitas vezes atribuída ao HR, deu margem a uma gama de valorações depreciativas. Rótulos como incapacidade de assimilação, desconhecimento da escrita e pouco conhecimento do PB acentuaram a valoração negativa do HR (ALTENHOFEN, 1996). Essa valoração tem sido concretizada por meio de asserções como “O bilíngue não sabe bem nem uma nem outra língua” (ALTENHOFEN, 2004, p. 91). A pesquisa atual de- monstra que essa asserção não tem sentido, porque o bilíngue não necessita ter conheci- mento pleno e idêntico em cada uma das suas línguas (GROSJEAN, 2008; 2010).
Devido a concepções errôneas como essa, como apresenta Altenhofen (2004), sur- gem denominações como verlorene Sproch (língua perdida), verbrochne Deitsch (alemão quebrado), Heckedeitsch (alemão do mato), alemão errado e sem gramática, língua de colo- no, até a afirmação de que “não é alemão”, ou sequer “uma língua”. Há, inclusive, questio- namentos sobre a utilidade dessa língua (ALTENHOFEN, 2002).
Essas denominações depreciativas partem tanto de professores quanto dos próprios falantes (ALTENHOFEN, 2004; STEFFEN, 2008) e contrapõem o fato de na Alemanha os diale- tos serem falados por boa parte da população. Segundo Lameli (2008), quase metade dos
alemães (48%) seria capaz de falar o dialeto da sua região. O HR, conforme Steffen (2008), é mais próximo ao prestigiado AS em comparação com outras variedades como o Plautdietsch (baixo alemão menonita). Muitos falantes, quando vão à Alemanha, conseguem se comuni- car com falantes de alemão “da Alemanha” em situações informais. Essa inteligibilidade en- tre as variedades foi trazida pelos imigrantes e ainda está presente nos dialetos do Hunsrück (LAMELI, 2008). Em muitas ocasiões, é possível notar que o HR e o AS são mutuamente com- preensíveis, com restrição a domínios mais informais. Essa inteligibilidade foi trazida pelos imigrantes e ainda está presente nos dialetos do Hunsrück (Figura 2).
Figura 2 – Região dialetal do centro-oeste da Alemanha: distância fonética dos dialetos com relação à língua padrão
Fonte: Lameli (2008, p. 4)
Nota: Em vermelho, estão sinalizadas distâncias maiores entre os dialetos e o alemão standard; em azul, dis- tâncias menores.
No mapa dos estados de Rheinland-Pfalz e Saarland, podemos ver o Hunsrück. Por meio de análises estatísticas, Lameli (2008) comparou os dialetos falados na região com a língua padrão, no que tange a aspectos fonéticos. As cores mais quentes simbolizam distân- cias maiores em comparação ao alemão standard, e as cores frias, distâncias menores. No
Hunsrück, podemos verificar que as distâncias menores predominam. Por isso, a comunica- ção entre falantes de HR e “o” alemão da Alemanha é facilitada.
Apesar da inteligibilidade e das similaridades, Schneider (2007) também identificou crenças sobre o AS. Essa variedade é denominada pelos falantes, segundo Altenhofen (2010), como Hochdeitsch ou Hofdeitsch (alto alemão) ou Feindeitsch (alemão fino). Confor- me Schneider (2007), o prestígio da variedade – como também relatado por Machado (2016) – se revela, por um lado, como um instrumento de promoção e valorização das raízes cultu- rais. Conforme Machado (2016), os falantes mais antigos ainda possuem certa competência nessa língua: a diglossia HR/AS não se desfez totalmente na percepção e na produção oral. Atualmente, na geração mais nova, a aprendizagem de alemão (DaF) nas escolas tem reinse- rido essa língua no cotidiano.
Por outro lado, conforme Schneider (2007), o AS pode ser um instrumento de estig- matização do HR e de seus falantes, através da frequente afirmação de que somente esta variedade seria “o alemão correto” ou “o alemão gramatical” ou, ainda, o “alemão clássico” (p. 190). De acordo com Altenhofen et al. (2007), essa variedade do alemão era aprendida na escola, com o auxílio de uma gramática que sistematizava e normatizava a escrita e, por isso, é denominada como ‘gramatical’. Atualmente, ambas as línguas possuem regras gramaticais claras, estudadas por linguistas.
No que tange às crenças sobre o PB em contato com o HR, alguns professores suge- rem que a língua minoritária seria responsável pelas dificuldades na aprendizagem do PB (ALTENHOFEN, 2004; SCHNEIDER, 2007). As dificuldades estariam, conforme os relatos apre- sentados por Schneider (2007, p. 195), relacionadas às “trocas de letras” ou ao “sotaque”, principalmente a neutralização da consoante vibrante e a (des)sonorização das oclusivas, sendo estas últimas raras na população escolarizada.
Essas concepções ainda podem ser identificadas em alguns discursos, especialmente dos próprios falantes. Por isso, acreditamos que seja imprescindível promover ações que vi- sem refletir sobre essas concepções, a fim de desconstruí-las. Essas ações de conscientização linguísticas (cf. ALTENHOFEN; BROCH, 2011; GARCÍA, 2008) consistem, basicamente, na
promoção do conhecimento explícito sobre línguas e a percepção consciente e sensível na aprendizagem, no ensino e no uso das línguas (GARCÍA, 2008)18.
Apesar das crenças negativas ainda estarem presentes, percebemos também durante a coleta de dados para esta pesquisa uma mudança de atitude por parte dos hunsriqueanos, para a manutenção da língua. Em algumas comunidades, o domínio da língua minoritária é convertido em marca distintiva de um prestígio local (ALTENHOFEN, 2004) e de afetividade, vinculada à aquisição precoce (ALTENHOFEN, 2002), como podemos ler na citação em HR:
En Sproch bedeit vill meh wie nure en List Wetter ore Grammatik. Es is ooch en Zeiche fo Identitet, unn hinner jedem Wott vesteckt sich en ganz Geschicht unn hauptsechlich Mensche mit eichnem Denke unn Wille, unn en ganz persenliche Oot, die Welt se beobachte. (ALTENHOFEN; FREY, 2006, p. 41)19
Um dos frutos da conversão da atitude perante o hunsriqueano, como intervenção no status das línguas pelas políticas linguísticas, tem sido as cooficializações20. Como relata
Altenhofen (2013), dois municípios oficializaram o HR: Antônio Carlos, em SC, e Santa Maria do Herval, no RS, estado que declarou esta língua como patrimônio cultural (segundo Lei nº 14.061, de 23 de julho de 2012). Não se pode refutar a importância desse tipo de lei como método de salvaguarda, mas são necessárias ações concretas para validá-las (ALTENHOFEN, 2013a). Também ações de políticas linguísticas estão sendo realizadas em âmbito familiar,