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2.1 BILINGUISMO E MULTILINGUISMO

2.1.6 Hunsriqueano riograndense (HR)

A língua minoritária Hunsrückisch (ALTENHOFEN, 1996) é uma variedade suprarregi- onal do alemão falado principalmente no sul do Brasil. O HR é considerado uma língua situa- da fora da matriz de origem europeia, por ser uma língua brasileira. Em contato com o PB, o HR possui empréstimos dessa língua (ALTENHOFEN et al., 2007). Além disso, segundo os au- tores, a língua minoritária brasileira não possui sistema padronizado de escrita. No entanto, o HR tem parentesco com outras variedades alemãs, por pertencer à família indo-europeia, do grupo germânico ocidental (Westgermanisch) (SIMONS; FENNIG, 2017)10. Essa língua se

fundamenta, segundo Altenhofen (1996), num contínuo dialetal formado essencialmente pelos dialetos trazidos pelos imigrantes alemães, principalmente a partir de 1824, cuja gran- de parte era oriunda da região do Hunsrück, no oeste da Alemanha, e composta por alemães de origem social diversa, mas principalmente agricultores. O Hunsrück se entende, normal- mente, da parte sudoeste da Serra de Ardósia (Schiefergebirge) entre os rios Reno, Mosel, Nahe e Saar.

Segundo Altenhofen (1996), as variedades que possuíam mais falantes na época da imigração eram o francônio-moselano (Moselfränckisch), o francônio-renânio (Rheinfrän-

ckisch) e o palatinado (Pfälzisch), que entraram em contato, no contexto brasileiro, com

elementos do PB, bem como com outras variedades do alemão. O HR assumiu, devido à maior proximidade com o alemão standard (conforme definido na próxima subseção) e ao maior número de falantes, o papel de variedade comum entre as comunidades, atuando como uma coiné11 entre as variedades dialetais do HR e as variedades do alemão (pomerano,

vestfaliano e boêmio, por exemplo). Essa integração pode ter sido um dos motivos para a sua manutenção e difusão. Na Alemanha, como explica Altenhofen (1996) e, como foi possí- vel constatar em visitas à região, os seus habitantes não costumam usar a expressão Huns-

10 Informações disponíveis em https://www.ethnologue.com/language/hrx. Último acesso em 18 set. 2017. 11 Trata-se de um processo de generalização de variedades linguísticas próximas entre si e de difusão diatópica

rückisch para designar a variedade usada na região, mas ocasionalmente Hunsrücker Platt,

acrescentando a qual lugar essa variedade se refere.

Diferentemente das variedades linguísticas diatópicas da Alemanha, o HR do Brasil pode ser caracterizado, conforme Steffen e Altenhofen (2014), como arquipélago linguístico, ao invés de configurar ilhas isoladas. Segundo Wiesinger (1980), ilhas linguísticas são comu- nidades linguísticas pontuais e regionais, relativamente pequenas e fechadas dentro de uma região maior, onde é falada outra língua. Os falantes de HR não dispõem de uma região es- pecífica de uso da língua, mas sim de colônias que se localizam espalhadas. No Rio Grande do Sul, por exemplo, os descendentes de alemães fundaram outras colônias, as denomina- das Colônias Novas (VERBAND DEUTSCHER VEREINE, 1999), como, por exemplo, Panambi, Selbach, Cerro Largo, entre outras (ver mapa no anexo A, com os pontos de pesquisa do pro- jeto ALMA-H)12. Há também falantes de HR em outras regiões do Brasil, como no sul do Pará

e no Mato Grosso do Sul, e no Paraguai (ALTENHOFEN, 2013b). Dessa forma, as redes de comunicação se espraiam sobre o estado e país, mas também sobre fronteiras nacionais. O termo ‘ilha’ sugere isolamento, e as comunidades têm a característica de um arquipélago, ou seja, uma gama de ilhas relacionadas, muitas delas contínuas (ilhas grandes), entre as quais ocorre comunicação (STEFFEN; ALTENHOFEN, 2014).

Essas diferentes comunidades compõem duas principais variedades do HR – o tipo

Deitsch e o tipo Deutsch (conforme a representação cartográfica disponível no anexo B). A oposição Deitsch/Deutsch (cf. ALTENHOFEN, 2010) é baseada na denominação dos falantes de HR de ambas as variedades. O tipo Deutsch [+ alto alemão] é uma variedade mais próxi- ma ao alemão standard, em comparação ao tipo Deitsch [+ dialetal]. A oposição ilustra duas grandes regiões nas Colônias Velhas do Rio Grande do Sul (parte inferior do mapa no anexo B). Os primeiros imigrantes (pontos RS01 a RS11) trouxeram uma variedade linguística com graus de dialetalidade mais altos. Por outro lado, os imigrantes mais tardios (pontos RS10, RS12 até RS16), vindos na segunda metade do século XIX (MACHADO, 2016) trouxeram uma variedade mais influenciada pelo alemão standard e, consequentemente, mais próxima des- sa língua. Conforme conjectura Altenhofen (2010), essa diferença deve ter tido relação com a maior distribuição da língua standard e a expansão da escolarização na Alemanha.

12 Informações sobre o projeto ALMA-H (Atlas Linguístico-Contatual das Minorias Alemãs na Bacia do Prata-

A oposição tipo Deitsch x tipo Deutsch se estende às regiões de Santa Catarina (SC), onde migrantes de ambas as grandes áreas do HR no RS se encontraram. É o caso de Itapi- ranga/São João do Oeste, uma Colônia Nova onde as variedades coexistem, mas a oposição se mostra correlacionada à idade: os falantes mais velhos usam a variedade Deutsch, en- quanto que os mais jovens usam a variedade Deitsch (MACHADO, 2016). É importante sali- entar que a coocorrência de variantes Deutsch e Deitsch não é exclusividade desse ponto, mas está presente, em grau maior ou menor, em todos os pontos investigados (MACHADO, 2016). Como podemos constatar no quadro 1, a coexistência das variedades se manifesta linguisticamente por meio de variantes divergentes.

Quadro 1 – Exemplos de variantes divergentes na comparação entre o tipo Deutsch e o tipo Deitsch do hunsriqueano

Alemão standard Variante do tipo Deutsch Variante do tipo Deitsch ei   Reis, Klein, allein  Rees, kleen, (a)llenn

ie   veliere, Schmier, namoriere  veleere, Schmeer, namoreere eu   Deutsch, Feuer, heut  Deitsch, Feier, heit

a   Hahn, saht, Calçada  Hoohn, sooht, Kalsoode pf   Fiesich, flanze  Pesch, planze

b   lebe, schreibe  lewe, schreiwe

Pferd, Gurke, Friedhof p. ex. Fead, Gorke, Friedhof p. ex. Gaul, Gummer, Kerrichuff Fonte: Altenhofen (2010)

A variedade mais próxima ao alemão standard (tipo Deutsch) desfruta mais prestígio entre as comunidades hunsriqueanas. Há a impressão de que essa variedade é o alemão mais bem falado no RS (ALTENHOFEN, 2010), porque ela se aproxima mais da variedade ofi- cial da Alemanha em comparação ao tipo Deitsch.

Os tipos Deutsch e Deitsch podem ser situados em pontos distintos ao longo do con- tínuo standard-substandard (cf. BELLMANN, 1983). O HR do tipo Deutsch está mais próximo da linha superior do contínuo (Figura 1), neste caso, do alemão [+ standard], uma vez que apresenta uma série de variantes linguísticas semelhantes ou iguais a variantes do alemão

standard. Já o HR tipo Deitsch pode ser posicionado mais próximo da base, isto é, do alemão

[+ dialetal], pois apresenta variantes linguísticas que se divergem mais do standard. Apesar da posição distinta do Deutsch e do Deitsch no contínuo, ambos os tipos se situam na região intermediária, na qual se localizam variedades que surgiram de contatos linguísticos com ou- tras variedades. Conforme explica Machado (2016), a dinâmica das variedades pode ocorrer

de baixo para cima ou de cima para baixo, pois há influências em ambas as direções, isto é, um fluxo contínuo entre variantes distintas. Quanto mais acima no contínuo, mais os con- trastes entre as variedades se atenuam, por isso a variedade standard se situa no topo.

Figura 1 – Variedades do contínuo alemão standard/hunsriqueano

Fonte: Machado (2016)

A variedade standard constitui uma espécie de Überdachung ‘língua-teto’ das outras variedades (BELLMANN, 1983, p. 114), que, segundo Coseriu (1982), envolve uma abstração que se realizaria em dialetos (variedades substandard), situados abaixo dessa língua-teto. O

Hochdeutsch regional, segundo Machado (2016), corresponde ao uso mais próximo à varie-

dade standard e dispõe de mais prestígio, sendo usado por falantes mais velhos ou em loca- lidades no Vale do Itajaí (ALTENHOFEN, 2010). No Hochdeutsch local, que está em contato com o HR na comunidade, é possível identificar uma série de traços próximos ao standard, correlacionados a fatores como a influência do ensino, da religião e de levas de imigração mais tardias (MACHADO, 2016). Entre o Hochdeutsch local e os dialetos de base se situam as duas variedades do HR. Um dialeto de base é uma variedade com graus de dialetalidade mais elevados e existência mais local (BELLMANN, 1983). Essas variedades podem se modifi- car, posicionando-se em outros campos do contínuo, mais próximos à variedade standard; esta, por sua vez, também pode ceder e se aproximar de outros pontos. A compreensão do HR como uma variedade situada em um contínuo linguístico revela a complexidade variacio- nal relacionada a esta língua, que está em contato com outras variedades. O uso das línguas

é dinâmico, e o mesmo falante pode se mover no contínuo, aproximando sua fala, por vezes, da base e, noutras vezes, da linha superior. O repertório linguístico dos falantes de hunsri- queano, portanto, é variável e não padronizado, o que confere uma dificuldade adicional no controle da seleção dos participantes e dos estímulos em experimentos psicolinguísticos. Por isso, é de suma importância selecionar uma das variedades do HR13.

Diante do arcabouço teórico sobre o HR, e considerando os objetivos da presente pesquisa, essa língua pode ser caracterizada, resumidamente, pelos aspectos que seguem:

a) Status de língua minoritária;

b) Posição marginal na sociedade brasileira;

c) Localização distante da matriz de origem europeia; d) Ausência de um sistema padronizado de escrita;

e) Repertório linguístico dependente da constelação de usos na comunidade; f) Aquisição precoce;

g) Uso dinâmico e variado.

Uma vez descrito o HR, em seguida, detalhamos o que se entende por alemão stan-

dard (AS), para, então, descrevermos as línguas envolvidas nesta investigação e os fenôme-

nos relacionados.