2.3 PERSPECTIVAS NEUROCIENTÍFICAS DO PROCESSAMENTO DA LEITURA MULTILÍNGUE
2.3.1 Processamento de palavras e rotas de leitura
A partir de uma tradição recente de estudos de neuroimagem funcional, estabele- cem-se padrões de ativação relacionados com o processamento da linguagem. De modo ge- ral, a linguagem, no nível lexical, é processada por regiões do hemisfério esquerdo do cére- bro (CATTINELLI et al., 2013), nas regiões perissilvianas, consistentemente ativadas durante a leitura e, de forma inata, atreladas ao processamento da linguagem oral. Trata-se da rede clássica da linguagem, que abrange áreas do córtex frontal (principalmente a região de Bro- ca, ou giro frontal inferior esquerdo) e do córtex temporoparietal (sobretudo a região de Wernicke, ou giro temporal superior posterior).
26 Caso o leitor iniciante em neurociência julgue necessária uma base para a compreensão dos estudos, dispo-
A contribuição da neurociência para o entendimento da leitura estabelece as evidên- cias para as bases neurobiológicas dos diferentes estágios de aprendizagem da leitura. Há estágios descritos empiricamente para a aprendizagem da leitura. O modelo de desenvolvi- mento da leitura mais conhecido e aceito no meio científico é o de Frith (1985), que postula três estratégias a serem desenvolvidas no leitor: a logográfica, a alfabética e a ortográfica. No primeiro estágio, o logográfico, a criança compreende palavras familiares, devido a tra- ços gráficos salientes, que agem como pistas para ativar a memória. A ordem das letras é ignorada pela criança, pois ela memorizou a sua forma visual, e os traços fonológicos são se- cundários. É como o reconhecimento de um objeto visual.
De interesse particular para este estudo são as etapas e estratégias alfabética e orto- gráfica (FRITH, 1985). A habilidade alfabética se estabelece com o aprender das correspon- dências entre grafemas e fonemas. É um estágio essencialmente associativo. A habilidade ortográfica se desenvolve subsequentemente com a leitura automática de palavras para além das relações regulares entre grafema e fonema. Ambas as habilidades são associativas, mas em níveis diferentes. Cada uma das habilidades se relaciona a uma rota de leitura do modelo de dupla rota, associadas a circuitos no cérebro: as rotas fonológica e lexical (COLTHEART et al., 1993).
A rota fonológica (estágio alfabético), também conhecida como rota dorsal pela for- ma como o circuito se espraia no cérebro, associa-se a uma rede de áreas temporoparietais e frontais do cérebro. Quando lemos palavras novas, raras ou pseudopalavras, o processa- mento da leitura passa por uma via fonológica, que subjaz a decodificação dos grafemas (as- sociação entre imagem visual e imagem acústica). A outra rota de leitura é a rota lexical (es- tágio ortográfico), conhecida também como ventral, que se associa a uma rede de áreas oc- cipitotemporais e frontais. Quando lemos palavras frequentes e irregulares, nossa leitura passa por uma via lexical, que recupera desde o início a palavra e seu significado e depois utiliza as informações para recuperar a fonologia (DEHAENE, 2012).
Ambas as rotas de leitura também podem ser identificadas no bilinguismo. Segundo Das et al. (2011), a rota lexical é recrutada na leitura de palavras em ortografias de línguas mais opacas em comparação com a leitura de palavras em ortografias mais transparentes, isto é, que possuem um mapeamento fonema-grafema multivalente; da mesma forma, a via fonológica é mais ativada, comparativamente, na leitura em línguas mais transparentes (BOLGER; PERFETTI; SCHNEIDER, 2005; DAS et al., 2011; PAULESU, 2001). De qualquer ma-
neira, ambas as rotas são fundamentais para a leitura. A figura abaixo (Fig. 7) ilustra as rotas ventral e dorsal, bem como a área da forma visual das palavras, no córtex occipitotemporal esquerdo, cunhada por Dehaene, como a porta de entrada para a leitura no cérebro (DEHAENE, 2012; DEHAENE et al., 2015).
Figura 7 – Rotas dorsal e ventral do processamento da leitura
Fonte: Buchweitz (2016)
Na figura, a região que identifica as palavras como tais (em vermelho) distribui essa informação a duas rotas ou circuitos (em rosa) que passam por centros da linguagem oral (em verde, a anterior, Broca, e a posterior, Wernicke) e chegam ao lobo frontal. Às vezes, a rota fonológica também precisa do suporte do lobo parietal inferior (giros angular e supra- marginal), que auxiliam na compreensão grafema-fonema. A região em vermelho é a res- ponsável pelo processamento visual das palavras, situada entre os lobos occipital e temporal do cérebro. A região em amarelo trata do processamento visual geral, e não é alterada pela aprendizagem da leitura (DEHAENE, 2012).
A especificidade da área da forma visual das palavras para palavras escritas emerge rapidamente durante a aprendizagem da leitura (DEHAENE, 2012; DEHAENE et al., 2015). Crianças com trajetória de aprendizagem da leitura de 2-3 anos já demonstraram essa espe- cificidade. Além disso, apesar da variabilidade existente entre todos os sistemas de escrita, a área da forma visual das palavras desempenha um papel central em todos os sistemas de escrita, incluindo hebraico, japonês (kana e kanji) e chinês (DEHAENE et al., 2015). Todavia, parece que a consistência da ortografia exerce uma influência importante nos padrões de ativação. Estudos que comparam o processamento de línguas transparentes com línguas
opacas demonstram diferenças no padrão de ativação. Em inglês, por exemplo, a ativação é mais estendida na área da forma visual das palavras, devido à complexidade da ortografia (PAULESU, 2001). O estudo de Das et al. (2011) também demonstrou essas diferenças na ati- vação da língua transparente, o híndi, em comparação com a língua opaca, o inglês.
De modo geral, a rede da leitura de palavras inclui, portanto, regiões visuais posterio- res (occipitais e o giro fusiforme, a área da forma visual das palavras) para os processos alfa- béticos, regiões temporais/parietais (sulco temporal superior e sulco frontal inferior) para aspectos fonológicos, e regiões mais anteriores (principalmente o giro frontal inferior, a re- gião de Broca) para aspectos mais semânticos (BOLGER; PERFETTI; SCHNEIDER, 2005; CATTINELLI et al., 2013).
Em suma, há bases neurais comuns entre as línguas para o processamento da leitura; porém, há diferenças no modo com o cérebro lê cada tipo de palavra, moduladas pela con- sistência da ortografia e pela familiaridade com as palavras. Nesta pesquisa, investigamos falantes de uma língua minoritária, a exemplo do estudo de Abutalebi et al. (2007), no qual, conforme discutido a seguir, os novos leitores da língua minoritária construíram um léxico ortográfico, mudando da rota fonológica para a lexical. Para o caso de outras línguas, sur- gem perguntas sobre os processos que se desenvolvem na aprendizagem da leitura na L1 em adultos.