O enigma para o conhecimento e sua produção, buscando compreender como trocar o objetivo em subjetivo, o material em ideal, tem sido um problema fundamental para a filosofia (MARX; ENGELS, 1986) e, em seguida, para a psicologia como ciência e profissão, considerando o que esta deve tratar, estudar e explicar no seu papel de ciência particular (VYGOTSKY, 1987, 1991, 1996). Se tivéssemos que falar do objeto da psicologia, esta seria uma proposta essencial ou ao menos uma parte importante de seu objeto de estudo.
Explicar o processo de fazer subjetivo o objetivo ou material é, de uma ou outra forma, falar do papel ativo do sujeito nesse processo, não obstante sua não total vontade para, por si mesmo, mudar o mundo, porque ele também está regido pelas leis históricas (MARX; ENGELS, 1986). Por essa razão, estas considerações têm estado presentes no trabalho de muitos filósofos e cientistas. Entretanto o problema ainda está muito distante de
ser resolvido, apesar de existir múltiplas e possíveis hipóteses que inclusive poderiam estar interconectadas ou relacionadas e solapadas umas com as outras. Considero que o materialismo dialético, por sua própria natureza, é o que permite continuar, da forma mais adequada, a busca de uma explicação sobre como se produz tão importante transformação na natureza, uma das últimas alcançadas no processo de formação e desenvolvimento de sua constituição, no período de conformação da vida e em especial da espécie humana, com a possibilidade de tomar consciência de sua existência. Do que se trata, em última instância, é precisamente isto, explicar como o ser humano consegue chegar pouco a pouco a ter consciência da natureza e de sua existência e pode criar a sociedade e a cultura, criando, assim, a si mesmo.
A diversidade de condições que devem ser consideradas e seu movimento tornam difícil essa explicação. Diríamos que se está tentando explicar o salto de uma qualidade a outra qualidade, ou seja, de como algo de uma natureza determinada constitui-se em outra de natureza muito diferente, porém a partir de suas próprias condições internas que se unem, e na união seus nexos mais internos mudam e mudam a qualidade. Tal e como ocorre entre o oxigênio e o hidrogênio para produzir a água, mudando de um estado gasoso a líquido; dois elementos inorgânicos a outro que é de base orgânica e que, mais tarde, este em um meio aquoso, com outros muitos elementos mais e a uma determinada temperatura, forma-se o vivo.
Por essa razão, organiza-se a seguinte pergunta: como se produz a mudança de qualidades tão diferentes? Para tanto, temos, inevitavelmente, que se apropriar e considerar a condição de que tudo está concatenado, como demonstra a dialética, ou interconectado, como defende a complexidade, que acaba sendo apenas um jogo de palavras, porém com o mesmo significado. Se não consideramos essa lei essencial desde o início, não poderemos enfrentar uma explicação sobre esse problema.
Toda a natureza, sua origem e sua gênesis, sua diversidade, desde o inorgânico ao orgânico e do orgânico à vida e desta ao consciente, é uma concatenação, uma sucessão, uma interconexão de fatos, processos e resultados muito diferentes, de saltos qualitativos, sendo que, por sua vez, uns dão lugar aos outros no meio de condições de uma complexidade que é muitas vezes difícil de apreender, no tempo ou na história do mundo
inorgânico, orgânico, da vida e, por último, o da consciência da nossa existência. A vida seria impossível sem a existência do inorgânico e do orgânico, assim como a cultura e a consciência não poderiam existir sem aqueles.
O consciente seria inexplicável sem o vivo e este, sem o orgânico e o inorgânico, e a própria consciência, sem o corpo humano e sem o cérebro, seria impossível de existir. O ser humano não teria sido produzido se a vida e sua evolução complexa não tivessem ocorrido. Sem dúvida, e o fato de que o ser humano esteja formado por um conjunto de substâncias químicas e bioquímicas, pela sua interação não é possível explicar sua constituição e funcionamento, muito menos sua consciência e personalidade tal como pretendem explicar alguns biologicistas atuais (CRICK, 2000). Que outros componentes e conteúdos produziram o “milagre” de chegar a saber que existimos, onde e como existimos, além disso trabalhar e produzir nossa existência e não depender apenas dos produtos diretos da natureza?
Nesta análise apresenta-se o processo relacionado com a questão de como desvendar ou chegar a conhecer o processo de conformação da consciência, do psicológico, do desenvolvimento psíquico para explicá-lo de modo mais adequado. A complexidade desse processo e a urgência de explicar os fatos que não se desvendam facilmente levou os seres humanos, no início, diante do enorme desconhecimento que os limitava, a criarem seus próprios deuses para sustentar sua existência e lutar pela vida.
Com esse fato já se mostra o poder e a relativa independência e força dessa consciência, dimensões ainda não conscientes, porém necessitada de um outro superior, dono do saber absoluto, das coisas que eles não possuíam, para contar, em sua imaginação, com a ajuda e proteção que necessitavam para seguir lutando pela vida e sobreviver. Essa é uma das primeiras demonstrações de como o ser humano necessita do símbolo, do signo e dos significados para poder ampliar as possibilidades de vida e de desenvolvimento. Isso indica o poder da subjetividade e do psicológico que esse novo ser vivo já possui e que é produzida por esse estado de desconhecimento e pela necessidade de sobreviver, o que produz vivência e sentidos que o impulsionam para procurar saber e, quando não sabem, recorrer aos deuses que são oniscientes e os protegem, fazendo oferendas.
Por essas circunstâncias, esses sujeitos já não são tão primitivos.
A teologia, ciência que se ocupa dos estudos da fé no ser humano, caminha atualmente mais de acordo com os conhecimentos científicos, aceitando e adequando-se às conquistas das ciências em relação à origem da vida e à evolução (LA BIBLIA LATINOAMERICANA, 1986). Não obstante, ainda resulta parte da obra do Deus o surgimento do Universo e a origem da consciência que, por causalidade, são os dois grandes problemas que nem a física nem a psicologia conseguiram explicar, porém o domínio e o conhecimento teológico impulsionam a ciência para buscar suas próprias hipóteses e explicações. Essa reflexão é uma tentativa modesta desse esforço. Caracteriza-se como uma relação dinâmica e interconectada das diferentes formas de conhecimento que o ser humano produziu e que os positivistas fragmentaram, sendo impedidos de ver, em sua unidade e diversidade, as contradições que em seu devir e nas explicações de tais contradições produzem mais conhecimento.
Torna-se necessário, diante dessa situação, tentar realizar o esforço para estruturar algumas hipóteses ou ideias, rascunhos de possíveis análises e hipóteses para organizar e ordenar, pelo menos, alguns dados que permitam avançar para o segundo plano que temos assinalado: o problema da origem da consciência e do psicológico humano, que ao longo da existência material desses seres vivos na natureza, de sua inter-relação com ela, das relações entre eles e a produção de meios para a subsistência e a adaptação, ou seja, da produção da cultura e do conhecimento no interior dela. Chamou-se também de diferentes maneiras: alma, psique, mente ou personalidade.
Essa produção tem sua origem no trabalho teórico-prático que tenho realizado, durante mais de quarenta anos, na educação, no desenvolvimento infantil, do escolar e da adolescência, na orientação e na psicoterapia, na elaboração de políticas e projetos educacionais, no trabalho acadêmico e científico sobre como fazer com que os seres humanos enfrentem sua vida real de modo mais adequado. Nesse processo, os desafios produzidos pela realização de um curso sobre os fundamentos da relação entre o trabalho e o descanso, em companhia de um dos melhores filósofos cubanos ou professor de filosofia, como ele prefere ser chamado, e os cursos sobre como produzir conhecimento, todos realizados na
Universidade de São Paulo, constituíram-se em um momento importante. Contribuíram também o trabalho realizado na formação de psicopedagogos e a abordagem de escolares que não aprendem em uma educação pública de baixa qualidade. Meus debates com as biólogas cubanas que destacam a existência de uma biologia não reducionista, dialética e flexível, têm sido essenciais nesse percurso das ciências. Por último, foi essencial na minha vida ter sido filho de um professor de matemática que, como d’Alembert (não o soube até pouco tempo), me dizia que a matemática era apenas a linguagem da vida real e que as matemáticas nunca teriam existido sem ela, a vida real. Elas eram para esse homem uma criação subjetiva e ideal, de signos e significados criados pelos seres humanos que necessitavam salvar suas colheitas e erguer monumentos, aqueles canais
para produzir os alimentos que asseguram sua existência.31
Nessa reflexão, decidi por um tema ou um problema que nos persegue por muito tempo e que poderia ser definido da seguinte maneira: como, em última instância, no marco dessa problemática, apresenta-se a relação estreita entre o objetivo e o subjetivo, entre o material e o ideal, entre a vida real dos seres humanos com a formação e o desenvolvimento de sua subjetividade, sua psique, do psicológico, a mente ou a personalidade? Ou como queiramos denominá-la (MARX; ENGELS, 1986).
Neste trabalho me proponho a contribuir para uma compreensão mais adequada das dificuldades que se apresentam no
31 Este homem, meu pai, não era nem marxista, nem histórico-cultural. Este homem, meu pai, não era nem marxista, nem histórico-cultural. Simplesmente um bom professor de matemática com quem aprendi muitas coisas, que ainda me são úteis. Minha mãe, uma campesina alfabetizada pelo meu pai, amante da natureza, também está presente, porque ela sempre as organizou, para dar-me a mensagem que, como boa campesina que era, me dizia: meu filho, da natureza tira-se tudo o que necessitamos, o problema é saber fazê-lo. Ratifiquei todo esse conhecimento proveniente da minha educação anterior na minha escola Raúl Cepero Bonilla, onde tiveram um papel essencial e decisivo as relações sociais que ali estabeleci com diretores, professores e sobretudo com meus condiscípulos, que depositaram em mim, como diz José Martí, os conhecimentos básicos sistemáticos que me permitem fazer o que tento fazer hoje. Muitos companheiros e colegas de trabalho na Faculdade de Psicologia constituíram-se por anos em meus opositores naturais. Não sei se é minha responsabilidade ou é a responsabilidade histórica do contexto e da inter-relação, porém o mais importante é que isto me tem sido muito bom e excelente. Sem essa oposição e esse debate constante com alguns de seus emergentes, em uma personalidade como a minha, essas análises, essas hipóteses explicativas teriam sido impossíveis. Por último, muitos agradecimentos aos operários e trabalhadores das fábricas e oficinas da minha querida Santiago de Cuba, que me ensinaram, quando tinha apenas 13 anos, uma visão prática, real, não acadêmica ou intelectualista do marxismo, que venho tratando de que não se corrompa até hoje, no meu processo de construção de conhecimento.
mundo de hoje, na sociedade moderna e pós-moderna, em relação com esse aspecto particular com que se encontram estreitamente relacionados os processos materiais e os ideais, o objetivo e o subjetivo, por exemplo o trabalho, o descanso e o desenvolvimento humano; o caráter histórico do social e do cultural e a formação e o desenvolvimento da personalidade humana; o individual e o social ou coletivo; o consciente e o inconsciente, que também são históricos e de natureza social e cultural, e muitos outros aspectos que estão presentes, sendo impossível abordá-los em um único texto, constituindo-se em temas para futuros trabalhos. Considero, não obstante, que o essencial da temática que pretendo abordar servirá para que outros se encaminhem com críticas e mais críticas para continuar este trabalho.