LETRAMENTO PARA O CURRÍCULO BILÍNGUE E NTERCULTURAL INDÍGENA APINAJÉ p
2. PERCURSOS METODOLÓGICOS
2.2. Bases teóricas e procedimentos metodológicos
Conforme afirmei anteriormente, a abrangência do contexto da pesquisa e a complexidade da temática comportam diferentes categorias de análise e múltiplas frentes teóricas. As áreas e subáreas do conhecimento e categorias elencadas, quais sejam: Etnografia, (Socio)linguística, Letramento, Currículo, Bilinguismo, Interculturalidade e Educação Indígena, dentre outros, se intercambiam, perpassando-se dialeticamente. Metodologicamente, a etnografia em suas vertentes crítica, participativa, interpretativa e educacional são os pilares da pesquisa. O objetivo deste capítulo é apresentar os fundamentos e o fazer etnográfico-crítico- colaborativo no qual a Tese se insere. Além disso, apresento a arquitetura da Tese em aquiescência com os pressupostos teóricos e metodológicos que possibilitaram a concretização da pesquisa, a qual se efetivou mediante utilização, com as devidas adaptações, de estudos de Maher (2010) e Albuquerque (1999), tendo como fundamentação um questionário de Joshua
Fishman (1967). Saliento que Maher e Albuquerque são pesquisadores que têm se dedicado a estudar os povos indígenas do estado do Acre e do Tocantins, em seus aspectos linguísticos, culturais e educacionais. Nessa perspectiva, apresento os pressupostos teóricos e as orientações metodológicas da pesquisa, uma etnografia realizada nas aldeias indígenas Apinajé de São José e Mariazinha, conforme o diagrama na figura 1 a seguir.
Figura 1. Construto teórico metodológico da pesquisa17
Como podemos perceber, a Etnossociolinguística é um construto, isto é, perpassa as teorias da Etnografia, (Socio)linguística, Letramento e Currículo. É, pois, um desdobramento de Educação Linguística, que assume um novo contorno a partir do radical Etno que se juntando a qualquer palavra do Português, passa a dar sentido a uma situação. Exemplo é a etnografia, que significa literalmente a escrita de um grupo social e cultural, originando etnia – raça. Etnia, por seu turno, diz respeito a um grupo social, pessoas que compartilham cultura, origens e história. Isso porque a complexidade do contexto da pesquisa e suas idiossincrasias demandam a necessidade de se estabelecer não somente desdobramentos teóricos, mas também novos significados que venham atender às demandas que inevitavelmente ocorrem quando se estuda sociedades em contextos de minorias étnicas. Cabe supor que o termo minoria é utilizado para referenciar grupos humanos inferiorizados uns em relação a outros, em diferentes aspectos. Segundo Hannah Arendt (2008), as minorias são grupos de pessoas marginalizadas no seio de
uma sociedade hegemônica devido a aspectos sociais, econômicos, físicos, religiosos, linguísticos ou culturais. Como exemplo, a autora apresenta a insana perseguição às minorias (Judeus, Ciganos, Negros, Homossexuais, Deficientes Físicos, dentre outros), protagonizada pela Alemanha nazista em meados do século XX.
Com efeito, os procedimentos da pesquisa etnográfica e sociolinguística situam-se no trinômio “Perguntas-Objetivos-Asserções”, que responsivamente evolui para "Perguntas, Objetivos específicos e Subasserções”, seguindo essa ordem. O intuito é uma descrição o mais clara possível que permita ao leitor compreender a dialética presente em cada uma dessas categorias metodológicas, considerando o contexto em que a pesquisa se realizou. É, também, uma forma de delinear o encadeamento teórico, uma vez que o arcabouço epistemológico perpassa todos os capítulos da Tese. A figura 2, a seguir, permite visualizar essa ocorrência.
Figura 2: Sequência responsiva da metodologia
No tocante às perguntas de pesquisa, Sousa (2006, p. 10-11) afirma que ao entrar em campo, o pesquisador deve ter em mente algumas questões, tais como: “[...] o que pesquisar, qual o objeto de estudo, o que focalizar, o que observar”, pois a partir daí é possível elaborar e elencar as perguntas norteadoras da pesquisa, e foi assim que procedi. Segundo Augusto L. Moura Filho (2000, p. 19), “[...] as perguntas ocupam um lugar central na investigação etnográfica”. Erickson (1986) argumenta que, ao elencar perguntas orientadoras o pesquisador estará minimizando os percalços de campo, antevendo situações que possam interferir no bom andamento da investigação. Os objetivos, por conseguinte, são um pré-requisito obrigatório
para a realização de qualquer trabalho científico, respondem às perguntas da pesquisa e norteiam as asserções. Assim, o Objetivo Geral é: “Revelar que a Etnografia a (Socio)linguística e o Letramento têm importantes contribuições para a implementação de um Currículo Bilíngue e Intercultural para a Escolas Indígenas Apinajé”.
Já asserção é uma lógica proposição afirmativa ou negativa enunciada como verdadeira e justificada pelos fatos, que pode ser ratificada, ou não, conforme o andamento da pesquisa. Segundo Erickson (1990), asserções são pressuposições de teor empírico de que se valem etnógrafos e pesquisadores para gerar dados. Sousa (2006, p. 11) amplia esse entendimento afirmando que “[...] as asserções auxiliam-nos nas respostas e nos objetivos traçados, pois podem ser confirmados ou desconfirmados no transcorrer da observação e na fase de análise e interpretação dos dados”. Então, a Asserção Geral é: “A Etnografia a (Socio)linguística e o Letramento dão suportes e diretrizes para a construção de um Currículo Bilíngue e Intercultural para as Escolas Indígenas Apinajé”. Nesse sentido, apresento o quadro a seguir com a sequência progressiva da metodologia, incluindo perguntas, objetivos específicos e as subasserções da pesquisa.
Quadro 1. Sequência progressiva da metodologia
PERGUNTAS OBJETIVOS
ESPECÍFICOS SUBASSERÇÕES
Quais procedimentos da pesquisa etnográfica permitem a geração dos dados sociolinguísticos nas comunidades indígenas de São José e Mariazinha?”
Descrever procedimentos e instrumentos da etnografia que serão utilizados para a geração de dados da pesquisa sociolinguística nas aldeias indígenas Apinajé de São José e Mariazinha.
A etnografia oferece procedimentos e instrumentos que permitem a realização da pesquisa sociolinguística nas comunidades indígenas Apinajé de São José e Mariazinha.
Quais as contribuições que a Etnografia, a (Socio)linguística e o Letramento apresentam para a proposta de implementação de um Currículo Bilíngue e Intercultural para as escolas indígenas Apinajé?
Identificar as contribuições que a Etnografia, a (Socio)linguística e o Letramento propiciam para a proposta de implementação de um Currículo Bilíngue e Intercultural para as escolas Indígenas Apinajé.
Os procedimentos da pesquisa etnográfica e sociolinguística, permitem identificar as contribuições que a Etnografia, a (Socio)linguística e o Letramento oferecem para a idealização e construção de um Currículo Bilíngue e Intercultural para as escolas das aldeias Indígenas Apinajé.
Quais bases teórico- metodológicas e categorias de análise permitem realizar a pesquisa etnográfica e sociolinguística nas comunidades Apinajé de São José e Mariazinha?
Identificar e apresentar as bases teórico-metodológicas e as categorias de análise que subsidiam a pesquisa
etnográfica e
sociolinguística, e também a geração de dados nas aldeias indígenas Apinajé de São José e Mariazinha.
A pesquisa etnográfica e sociolinguística, mediante suas bases teórico-metodológicas e categorias de análise, permite a geração de dados que podem auxiliar na proposta e implementação de um Currículo Bilíngue e Intercultural para as escolas indígenas Apinajé.
Qual a configuração étnica e linguística do Brasil indígena e quem são os povos indígenas que habitam no Estado do Tocantins?
Apresentar e descrever os indígenas do Brasil em sua configuração étnica e linguística, destacando a situação no Estado do Tocantins.
O Brasil possui uma ampla diversidade de povos indígenas e sua configuração étnica é tão complexa quanto a situação linguística, e o Estado do Tocantins é uma constatação dessa realidade.
Quem são os Apinajé, onde estão, quantos são, quais línguas falam, como se dá o contato com a sociedade envolvente e de que modo lidam com as questões ambientais, políticas e socioculturais da modernidade?
Delinear, expor e analisar dados informativos sobre os indígenas Apinajé, por meio de uma descrição etnográfica que revele sua situação atual, tendo em vista aspectos como demografia, educação, saúde e a assimétrica posição que se encontram em relação ao contato com a sociedade não indígena.
A pesquisa etnográfica permite identificar e descrever a Sociedade Apinajé, sua situação atual em relação aos aspectos socioculturais, ambientais, educacionais e linguísticos, considerando o permanente contato com a sociedade majoritária.
Quais as contribuições que a (Socio)linguística e o Letramento, em seu arcabouço teórico, oferecem para a Educação Escolar Indígena Apinajé e para a implementação de um Currículo Bilíngue e Intercultural que a sustente?
Apresentar o arcabouço teórico da (Socio)linguística e suas variantes, e do Letramento, identificando suas contribuições para a Educação Escolar Indígena Apinajé e a proposta de implementação de um Currículo Bilíngue e Intercultural. O arcabouço teórico da (Socio)linguística e suas variantes, e também do Letramento, têm importantes contribuições a oferecer para a Educação Escolar Indígena Apinajé, notadamente em relação à implementação de um Currículo Bilíngue e Intercultural para as escolas de suas aldeias.
Qual o perfil sociolinguístico dos indígenas Apinajé das aldeias São José e Mariazinha?
Identificar, mediante os procedimentos da pesquisa etnográfica e sociolinguística o perfil sociolinguístico dos indígenas Apinajé das comunidades de São José e Mariazinha.
Os procedimentos da pesquisa etnográfica e sociolinguística permitem identificar o perfil sociolinguístico dos Apinajé das aldeias São José e Mariazinha, preferencialmente em relação ao bilinguismo e bilingualidade dos indígenas.
Quais os tipos, modelos, eventos e práticas de letramento existentes nas comunidades indígenas Apinajé de São José e Mariazinha, e como é possível fazer esse diagnóstico?
Identificar, mediante uma pesquisa etnográfica e sociolinguística, o letramento dos indígenas, seus tipos, modelos, eventos e práticas, bem como a percepção da relação das comunidades Apinajé de São José e Mariazinha com a material escrito, considerando o bilinguismo e as línguas em situação de contato, Apinajé e Portuguesa.
A pesquisa etnográfica e sociolinguística pode desvelar não somente o letramento dos Apinajé, mas também seus tipos, modelos, eventos e práticas, e também permitem entender a relação que os indígenas mantêm com o material escrito, considerando as línguas em situação de contato, Apinajé e Portuguesa e o bilinguismo que daí provém.
Com efeito, os procedimentos da pesquisa etnográfica e sociolinguística permitiram responder às perguntas, alcançar os objetivos específicos e corroborar as subasserções elencadas no quadro 1, que perpassam todos os capítulos da Tese. Assim, nesse capítulo respondo à seguinte pergunta norteadora: “Quais procedimentos da etnografia e que instrumentos serão utilizados na geração dos dados da pesquisa sociolinguística nas comunidades indígenas de São José e Mariazinha?” Busco, também, alcançar o objetivo específico que é “Descrever procedimentos e instrumentos da etnografia que serão utilizados para a geração de dados da pesquisa sociolinguística nas aldeias indígenas Apinajé de São José e Mariazinha”. Progressivamente, corroboro a subasserção de que “A etnografia oferece procedimentos e instrumentos que permitem a realização da pesquisa sociolinguística nas comunidades indígenas Apinajé de São José e Mariazinha”. A seguir apresento o contexto em que se realizou a pesquisa.