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Os Javaé, segundo Albuquerque (2013), assim como os Karajá e os Karajá-Xambioá, são um dos poucos povos indígenas da antiga Capitania de Goiás que sobreviveram às capturas e grandes mortandades promovidas pelos Bandeirantes, à política repressora dos aldeamentos, às epidemias trazidas pelos colonizadores em épocas diferentes e também à invasão crescente do seu território. Com efeito, os próprios Javaé enfatizam suas diferenças e concebem a si próprios como um grupo étnico único e diferente dos Karajá e dos Karajá-Xambioá, considerando ofensivo serem chamados de Karajá. Do mesmo modo, os Karajá denominam os Javaé de Ixyju e se consideram superiores a estes. Enquanto os Javaé tentam se diferenciar dos Karajá no cenário político regional e nacional, os Karajá-Xambioá buscam uma aproximação, preferindo a autodenominação Karajá do Norte (ALBUQUERQUE, 2013).

39 Fonte: Francisco Edviges Albuquerque (2013).

40A Dança dos Aruanãs, ritual repleto de significados que os indígenas praticam, segundo o qual, desde que os

humanos de baixo ascenderam do Fundo das Águas, os xamãs e a coletividade masculina responsabilizaram-se em trazer, todos os anos, os Aruanãs (irasò) – ancestrais que permaneceram morando no nível subaquático, em sua maioria – para conhecer o mundo “aqui fora” e suas comidas diferentes. Fonte: http://pib.socioambiental.org. Acesso: 30-jul-2014. 15h45min. Foto: Fonte: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/javae/2123. Acesso: 30- set- 2015. 18h45min. Foto: http://pib.socioambiental.org/pt/povo/javae/2123. Acesso: 24-out-2015. 00h17min.

a) Nome: A palavra Javaé é de origem desconhecida, enquanto a palavra Karajá é de origem Tupi-Guarani, com o significado de “mono grande” (macaco guariba), provavelmente atribuída a esse grupo pelos Bandeirantes, que utilizavam a Língua Geral41.

b) Língua: O povo Javaé fala a Língua Karajá, pertencente ao tronco linguístico Macro-Jê. Divide-se em três dialetos pertencentes a três etnias distintas: os Karajá, os Javaé e os Karajá-Xambioá (RODRIGUES, 2002).

c) Localização: Há muitos anos os Javaé habitam no vale do rio Araguaia, em cujo médio curso está localizada a Ilha do Bananal, situada no estado do Tocantins, em uma área de transição entre o cerrado e a floresta amazônica. A área é constituída de inúmeros rios, lagos, savanas inundáveis (conhecidas regionalmente como “varjão”) e matas de galeria. Seu território possui cerca de dois milhões de hectares e é coberto pelas águas do rio Araguaia em quase sua totalidade durante a estação das chuvas (ALBUQUERQUE, 2013).

d) População: Segundo dados oficiais do Distrito Sanitário Especial Indígena DSEI (2010), a população Javaé é composta por 1.456 pessoas distribuídas por 13 aldeias. Dessa população, 84 indígenas estão desaldeados42, vivendo 83 na cidade de Gurupi e 01 na Lagoa da Confusão.

e) Contato: Os primeiros registros escritos sobre a presença dos povos falantes da língua Karajá no rio Araguaia datam do século XVII. No entanto − e em razão da presença histórica dos Karajá junto às margens do médio Araguaia, importante canal de navegação no centro do Brasil desde os primórdios da colonização −, há um número maior de estudos e registros sobre as relações de contato com os Karajá do que sobre os Javaé. Isso deve-se ao fato de estes últimos permaneceram isolados no interior da Ilha do Bananal e na bacia do rio Javaé até o início do século XX. Durante o século XIX, o contato dos Javaé com os não indígenas era feito por intermédio dos Karajá, de modo que o histórico do contato dos grupos com a sociedade nacional era até então impreciso (ALBUQUERQUE, 2013).

Esse autor informa ainda que em 1776 o governador de Goiás fundou o presídio de São Pedro do Sul e o aldeamento Nova Beira na Ilha do Bananal, os quais eram visitados pelos Javaé, Karajá e Karajá-Xambioá para realizar trocas de artefatos. O aldeamento e o presídio militar foram extintos em 1780, quando os 800 indígenas, entre Javaé e Karajá que ali

41 No Brasil, até 1750, falou-se uma “Língua Geral” baseada no Tupi Guarani, e Padre Anchieta fez uma gramática

chamada Língua Brasílica para facilitar a catequese nas diversas aldeias fundadas pelos jesuítas. A Língua Portuguesa tornou-se oficial mediante um decreto do Marquês de Pombal, conforme Rafael Campos (2012).

42 A denominação “índios desaldeados” refere-se àqueles indígenas que vivem nas áreas urbanas. Os motivos são

os mais diversos, desde a expulsão de suas terras, quando não reconhecidas oficialmente, até migração na busca de trabalho ou de educação.

habitavam, foram transferidos para o aldeamento São José de Mossâmedes, o maior e mais importante da Capitania. Os Javaé lembram ainda hoje que moradores da aldeia Manatèrè, dentre outras, foram aprisionados e levados em carros de boi e em batelões43 para um lugar

próximo a Goiás Velho, onde chegaram a realizar o ritual Iweruhuky44, sendo posteriormente

escravizados e suas mulheres violentadas, até o local extinguir-se.

f) Aspectos culturais: A cultura Javaé é muito peculiar, rica e variada. Segundo Albuquerque (2013), nas relações familiares, um homem quando se casa tem que viver com a esposa quase na condição de estranho na casa dos pais dela, submetendo-se à sua autoridade, tendo que retribuir pelo casamento aos sogros e cunhados, por um longo período da vida, pescando, caçando e plantando. Os Javaé afirmam que toda a atividade econômica da aldeia existe em função do “pagamento pela esposa”. A cerimônia tradicional do casamento arranjado pelas avós, praticamente inexistente nos dias atuais, dramatizava a hesitação masculina em contrair matrimônio, dado o caráter de desafio que este adquire para o homem.

g) Cosmologia: No aspecto cosmológico os Javaé autodenominam-se “O Povo do Meio” (Itya Mahãdu), pois acreditam que vivem em um plano intermediário do cosmos, situado entre o nível inferior ou subaquático (Berahatxi) − a origem da humanidade − e o nível superior ou celeste (Biu) − o destino ideal após a morte. A Ilha do Bananal também está situada na porção intermediária do rio Araguaia, o principal referencial espacial, entre os extremos do rio acima (Ibòkò) e do rio abaixo (Iraru), conforme Albuquerque (2013).

3.3.2. Karajá

Os Karajá são habitantes seculares das margens do rio Araguaia nos estados de Goiás, Tocantins e Mato Grosso, vivendo até hoje distribuídos em aldeias. O grupo tem uma longa convivência com a sociedade nacional, o que, no entanto, não os impediu de preservar costumes tradicionais do grupo como: a língua nativa, as bonecas de cerâmica, as pescarias realizadas em família, os rituais como a festa de Aruanã, da Casa Grande (Hetohoky), os enfeites plumários, a cestaria, o artesanato em madeira, bem como as pinturas corporais com os característicos dois círculos na face.

43 Batelão é uma barca grande, tipo canoa, para carregar artilharia pesada.

44 O Iweruhuky é um ritual de iniciação masculina não mais praticado desde a década de 1970. Fonte: