Figura 5. Oficina de Artesanato e Saberes Tradicionais Apinajé113.
Importante ressaltar que a atividade de preparação e confecção de produtos artesanais pelos indígenas Apinajé é um evento que envolve toda a comunidade. São crianças, jovens e anciões, homens mulheres, professores, estudantes e lideranças que se mobilizam para cortar a palmeira, prepará-la e fazer diferentes objetos que serão utilizados nas próprias famílias ou
112 Fonte: http://uniaodasaldeiasapinaje.blogspot.com.br/2012/11/1- Acesso: 26-set-2015. 12h05min. 113 Fonte: http://uniaodasaldeiasapinaje.blogspot.com.br/2012/11/1- Acesso: 26-set-2015. 12h03min.
vendidos para as pessoas que visitam as aldeias. Outro aspecto repleto de significados na cultura indígena Apinajé é o seu universo cosmológico, assunto tratado na seção a seguir.
4.6. Cosmologia
Estudos como os de Nimuendajú (1983), Da Matta (1976) e Giraldin (2000), comprovam que para os Apinajé, assim como para grande parte dos grupos indígenas brasileiros, os elementos da natureza, sobretudo os animais, nunca são vistos como únicos ou isolados; antes, são participantes de uma rede que aglutina, de uma só vez humanos e não humanos. Dessa forma, caçar tem como princípio interagir com forças simbólicas da natureza. Isso porque todo animal caçado tem uma espécie de “subjetividade inerente”, isto é, um “espírito” que define o “caráter” de uma determinada espécie animal, a qual coloca a relação predador/presa como uma relação intersubjetiva, por mais paradoxal que possa parecer. Para Giraldin (2000), a mitologia também atribui valores humanos aos animais, pois antes todos os bichos falavam. Isso eu percebi ao ouvir histórias proferidas pelos mais velhos, que afirmam serem os animais ex-humanos, pensamento totalmente diferente da cultura ocidental, que apresenta como condição comum entre humanos e bichos a animalidade, pois somos animais racionais.
A cosmologia Apinajé tem forte representatividade também no mundo dos mortos, sendo este um aspecto que permanece vivo na cultura do grupo. Na concepção Apinajé, assim como dos Timbira de um modo geral, o espírito dos humanos mortos “carõ” sofre metamorfoses. Os Apinajé que morrem passam a habitar os corpos de animais e vegetais como avatar, respeitando uma escala hierárquica regressiva, indo dos mamíferos superiores aos insetos, das plantas frutíferas ao pau podre, para posterior e finalmente transformarem-se em pedra, deixando para traz o mundo dos vivos. Não obstante, ao revelar uma hierarquia subentendida na ordem natural, no entendimento Timbira tais metamorfoses indicam que, sob apelo de um ente natural, o carõ é capaz de estabelecer contato perigoso com os humanos, inclusive com ameaças de morte. No entanto, desde que a pessoa viva aceite os termos oferecidos pelo carõ, recebe o privilégio de ser um xamã, adquirindo assim o poder de manter uma permanente interlocução com o “outro lado” ou mesmo o “poder da cura” (GIRALDIN, 2000).
A fala desse autor é elucidativa no sentido de corroborar o que presenciei enquanto estive na aldeia São José, quando pude constatar que a relação dos Apinajé com os mortos é
algo extremamente forte, e para quem não tem um entendimento mínimo do que ocorre, como foi o meu caso, é bem complicado. Tanto isso é verdade que eu não consegui entrar na casa onde estava acontecendo um ritual fúnebre, pois o desconforto que senti foi enorme e inexplicável. Porém, os mortos são relembrados também numa atividade festiva como é o casamento, quando as mulheres choram fartamente durante a cerimônia, evocando os entes queridos mortos que não podem desfrutar do momento de alegria que está acontecendo.
Segundo Giraldin (2010, p. 3), presente nas cosmologias não ocidentais, incluindo a sociedade Apinajé, o animismo114 nomeia os seres não humanos (animais, plantas, espíritos) de
disposições humanas e atributos sociais, conferindo-lhes, em algumas situações, ingredientes culturais, como hábitos, rituais, músicas e danças próprias. Recorrente nas comunidades tradicionais, essa concepção orienta comportamentos sociais, permite interpretar acontecimentos e tomar decisões, conclui o autor.
Até aqui descrevi e analisei os aspectos sociais, culturais e cosmológicos dos Apinajé. Na sequência delineio a situação atual do grupo, ilustrada por fotografias.
4.7. Situação atual
Atualmente os Apinajé enfrentam muitos desafios, inclusive em relação à preservação de seu território, e têm nas atividades agrícolas a manutenção de suas famílias, preparando roças onde plantam milho, arroz, mandioca, batata, mandioca, banana, e assim por diante. Uma preocupação das lideranças é que o cultivo da lavoura, que tem como finalidade primária a alimentação do grupo, comercializando apenas o excedente, não faça uso de agrotóxicos, o que contribui para uma alimentação saudável. Outra preocupação dos Apinajé é o desmatamento para plantio de eucaliptos e soja que ocorre no entorno de suas terras o que, segundo os indígenas, pode transformar o cerrado em deserto em poucos anos. Nesse sentido, Antônio Veríssimo (2015) argumenta que em reunião de caciques realizada no dia 25 de maio de 2015 na aldeia Patizal, para tratar da proteção territorial e sobre os empreendimentos no entorno da terra Apinajé, os líderes resolveram se deslocar até a região da fazenda Dona Maria, localizada na divisa da terra Apinajé como município de Tocantinópolis. O intuito foi investigar a
114 Crença de acordo com a qual todas as formas identificáveis da natureza (animais, pessoas, plantas, fenômenos
naturais etc.) possuem alma. O “animismo” é usado na antropologia da religião como um termo para o sistema de crenças de alguns povos tribais indígenas, conforme David Hicks (2010), especialmente antes do desenvolvimento de religiões organizadas, conforme Rowman Altamira (2010). (Fonte: https://t.wikipedia.org/wiki/Animismo. Acesso: 02-set-2015. 13h17min.
existência de área desmatada, provavelmente para plantio de soja e/ou eucaliptos115. Além de
tudo isso, os indígenas precisam lidar com queimadas que destroem a fauna e a flora do território. As fotos 23, 24 e 25 denunciam essa ocorrência e as consequências dessas ações.