LETRAMENTO PARA O CURRÍCULO BILÍNGUE E NTERCULTURAL INDÍGENA APINAJÉ p
2. PERCURSOS METODOLÓGICOS
2.6. Informações sobre o trabalho de campo: sete anos de etnografia
Data de janeiro de 2008, minha primeira visita à aldeia São José. Foi por ocasião de uma atividade da disciplina “Educação Indígena”, enquanto eu cursava Pedagogia na Universidade Federal do Tocantins (UFT), campus de Tocantinópolis, quando lá estive pela primeira vez e pude assistir a um ritual de casamento. Em agosto do mesmo ano, começamos uma pesquisa de iniciação científica visando à elaboração de uma monografia para conclusão do curso. O trabalho foi realizado nas aldeias São José e Bonito, com crianças de até seis anos de idade, quando estudamos a educação infantil, identificando a importância da cultura tradicional dos Apinajé na alfabetização. A pesquisa durou um ano, de agosto de 2008 a julho de 2009, período em que também mantive os primeiros contatos com os indígenas da aldeia Mariazinha. Em março de 2010, começamos outra pesquisa para a elaboração de uma Dissertação para obtenção do título de Mestre. O objetivo foi estudar a Educação Escolar Apinajé na perspectiva Bilíngue
e Intercultural, a partir de um estudo sociolinguístico nas aldeias São José e Mariazinha que terminou em dezembro de 201130.
Em março de 2012 teve início um novo trabalho investigativo nessas mesmas aldeias. Isso porque durante a pesquisa do mestrado fui, por reiteradas vezes, solicitada por professores para ajudá-los em relação ao conteúdo das disciplinas com turmas do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Então, como participante do “Projeto do Observatório da Educação Escolar Apinajé na Perspectiva Bilíngue e Cultural (2010-2011)”, ministrei algumas oficinas, o que não foi suficiente. Nesse ínterim, alguns professores e lideranças apresentaram-me a necessidade de construção de um currículo escolar, onde os aspectos socioculturais e linguísticos indígenas fossem contemplados. Então, após concluir o mestrado, iniciamos uma pesquisa mais ampla, um projeto de doutorado, cujo resultando descrevo e analiso na presente Tese.
2.6.1. Seleção, redação, interpretação e análise dos dados
A seleção dos dados da pesquisa etnográfica aqui relatada se efetivou mediante aplicação de um amplo instrumento de geração do corpo. Os procedimentos contemplaram observação, questionários, entrevistas etc. Parte da interpretação e da análise dos dados da pesquisa aconteceu simultaneamente, desde a estadia em campo, e efetivou-se de acordo com um rigoroso cronograma de execução do projeto. Refletindo sobre o momento de análise dos dados de uma etnografia, R. C. Bogdan e S. K. Biklen (1998) advertem que, ainda em campo, o pesquisador deve buscar estratégias de análisar os dados, mas deixar, a posteriori, a análise mais formal. Não obstante, os autores sustentam que estabelecer um planejamento, ficando no campo muito tempo, é demorado e também complicado para iniciantes, e aconselha tal procedimento para pesquisadores mais experientes. Bogdan e Biklen (1998) partem do pressusposto de que, quando se está em campo, há muito pouco a fazer em relação às análises, e malabarismos não são aconselháveis. Além disso, esses autores acreditam que novos pesquisadores muitas vezes não têm a formação teórica e substantiva para ligar questões e temas quando chegam na cena, e que para fazer a análise em curso é preciso ter um olhar para as questões conceituais e materiais a que estão expostos. No caso da nossa pesquisa, e sendo essa a terceira atividade de campo com os indígenas Apinajé, foi possível realizar algumas análises e interpretações enquanto se dava a geração dos dados.
30 Nesse trabalho fui contemplada com uma bolsa da Capes, mediante o Programa do Observatório da Educação
Escolar Apinajé na Perspectiva Bilíngue e Intercultural, sob a orientação do Prof. Dr. Francisco Edviges Albuquerque, com início em janeiro de 2010 estendendo-se até dezembro de 2011.
Segundo Bogdan e Biklen (1998), a análise pode ocorrer durante a geração de dados e o pesquisador deve decidir sobre um foco, pois é baseado no pensar e fazer julgamentos sobre as informações que se antecipam muitos questionamentos, os quais, com o passar do tempo, tendem a ficar sem respostas ou com respostas evasivas. Desse modo, a análise e o levantamento de dados da pesquisa precisam ter uma direção, caso contrário, os dados retidos podem não ser substanciais o suficiente para realizar uma análise posterior. Outra advertência desses autores é que, embora o pesquisador sempre consiga mais dados do que precisa, é primordial manter sempre um foco, e que essa é uma tarefa administrável. Contudo, depois de concluir o estudo, pode-se realizar os procedimentos de análise mais formais iniciados durante as atividades no campo, e foi assim que procedemos. Na maioria dos casos, o estudo da análise de dados é como um funil, advertem Bogdan e Biklen (1998). Tendo isso como aporte na etnografia realizada com os Apinajé, o primeiro procedimento foi uma recolha substancial dos dados, aglutinando todos os assuntos, explorando os espaços físicos e sociais das aldeias, buscando obter uma compreensão mais ampla do local pesquisado e dos participantes envolvidos com a pesquisa. O foco da investigação se manteve tanto “no que era possível fazer”, quanto “no que era do interesse do projeto”, priorizando o escopo da geração de dados.
Nesse sentido, Beaud e Weber (2007) entendem que a redação e a interpretação de dados de uma pesquisa etnográfica, como esta que realizamos nas aldeias Apinajé, é o momento de retornar do campo e fazer um caminho do universo da pesquisa para o universo próprio. Segundo Cardoso (2009), essa fase é propulsora de angústia, pois o pesquisador, diante de seus inúmeros materiais registrados, questiona-se acerca de o que deve fazer e, consciente que os dados que possui lhes são familiares, porque foram por ele colhidos, inicia a fase seguinte, onde a interpretação dos dados possibilitará a redação de um texto com variados objetivos. De acordo com Philippe Laburthe-Toira e Jean Pierre Warnier (1997, p. 437-438), a apresentação dos resultados de uma pesquisa visa à produção de novos conhecimentos, “[...] os quais devem ser apresentados na forma de relatórios de pesquisa, de tese, de publicação, de filmes, de exposições, de romance etnográfico, de diário, ou seja, sob a forma de um documento que também pode ser considerado um texto”. Para esses autores, tal documento é um “artefato”, resultado de um trabalho de produção de escrita num sentido amplo.
Mas, afinal, como proceder para analisar e interpretar os dados colhidos e recolhidos na árdua tarefa do etnógrafo em seu trabalho? Segundo Viégas (2007), é fundamental estarmos atentos a alguns aspectos. Primeiro: a análise do material construído a partir da pesquisa etnográfica é qualitativa (muito embora o quantitativo também faça parte do processo), e não
se inicia apenas ao final do trabalho de campo. Segundo: essa análise acontece ao longo de toda a pesquisa, desde quando é realizada a delimitação progressiva do foco, a formulação de questões analíticas, o uso de comentários e até mesmo as leituras e o aprofundamento da pesquisa bibliográfica.
No tocante ao trabalho com os Apinajé de São José e Mariazinha, desde o início, a pesquisa assumiu um caráter analítico, uma vez que cada ação desenvolvida exigiu momentos de profunda reflexão. As análises foram feitas a partir de critérios sociolinguísticos e estão descritos por tabelas, gráficos e excertos ao longo dessa Tese. Após a conclusão da fase de campo, esse processo transcorreu com mais intensidade, pois alguns dados levantados e descritos, discutidos e analisados à luz do referencial teórico escolhido, foram revisitados, surgindo novas reflexões, quando foi necessário, inclusive, voltar às aldeias. Ademais, este foi um momento em que retomamos alguns questionamentos que movimentaram a pesquisa, ao mesmo tempo em que surgiram novas perguntas, novos objetivos e foram acrescentadas novas informações, preenchendo algumas lacunas. Viégas (2007), sustenta que diferentemente da análise que apenas classifica e/ou quantifica com base em categorias prévias, na análise etnográfica as categorias decorrem do próprio processo de investigação. A redação, análise, discussão e interpretação dos dados sociolinguísticos obtidos durante a pesquisa etnográfica, notadamente nos momentos de observação do cotidiano das famílias, se efetivaram à luz das teorias do bilinguismo que individualiza os membros das comunidades. Uma análise qualificativa de dados quantitativos, cujos resultados são interpretados à luz das teorias da (Socio)linguística, do bilinguismo e do Letramento.
Diante de tudo que foi exposto até aqui, é perceptível o teor transdisciplinar que perpassa cada etapa da pesquisa etnográfica e sociolinguística realizada nas aldeias São José e Mariazinha. Sendo assim, e considerando que as bases metodológicas da pesquisa têm a complexa organização social dos Apinajé como contexto do estudo, e que a Etnossociolinguística e o Letramento são referências para a proposta de um Currículo Bilíngue e Intercultural, visando uma educação escolar, linguística e indígena, descrevo, a seguir, os aspectos transdisciplinares do fazer etnográfico no contexto indígena Apinajé.
2.7. A Perspectiva Transdisciplinar da pesquisa na realidade Indígena Apinajé: A Lógica