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1. Abordagens sobre afetividades

1.2 Beatriz Nascimento – “a mulher negra e o amor”

Esta pesquisa não pretende falar somente sobre sexualidade ou conjugalidade, temas que têm tido mais visibilidade quando discorremos sobre afetividade e mulheres negras, mas pretende abordar a construção afetiva como esfera importante na reflexão sobre emoções e subjetividades, e indagar a complexidade dessas ligações. Quando tratamos das populações negras, as pesquisas sociológicas e os dados numéricos geralmente evidenciam as mazelas em vários âmbitos (emprego, nível de escolaridade, renda, cargos diretivos no âmbito político, direitos, saúde etc.) e essas aparecem por meio da visão do pesquisador – em sua maioria homens e mulheres brancos e brancas. Com isso, adentrar o aspecto da afetividade do ponto de vista antropológico e ainda falando do “nós”, mulheres negras, é uma forma que encontro de habitar o estado de sermos uma só, dentro da grande diversidade do que somos e ocupamos, já que a subjetividade negra é bastante particular, ao mesmo tempo que tantas falas e emoções parecem mesclar-se no caminho. Proponho então, um falar sobre práticas do afeto como algo que tenho vivenciado neste campo de pesquisa e como essa rede tem se constituído sem que eu pudesse prever, sendo esse um dos encantos da Antropologia, seus tantos desdobramentos possíveis.

Temos criado e reinventado em cima das resistências e isso não seria possível sem nossas práticas afetivas, que são várias, mas não reconhecidas academicamente, como tenho percebido. Logo, apresento esta escrita como sugestão para o registro, de uma dessas tantas práticas, como a que tenho vivenciado (e me emocionado) com o grupo de mulheres negras na terceira idade, residentes num bairro “periférico” da cidade de Natal/RN.

Seria possível que nós, como mulheres negras preocupadas com o bem viver em tantos âmbitos, possamos atender aos traumas ancestrais que perpassam as nossas gerações familiares,

com tantos resquícios de brutalidade? Conseguiremos perceber que apesar de pouco reconhecido, o afeto é de importância central para nos reencontrarmos enquanto povo? O escravismo construiu para o povo negro, em especial, para as mulheres negras, uma espécie de cativeiro afetivo?

Dito de outro modo, é importante entender que os comportamentos e as subjetividades de uma geração não respondem somente a processos sociais recentes, mas que as experiências de outras gerações são também importantes para sua configuração atual e, portanto, para sua análise. Nesse sentido, são importantes as contribuições de Grace Cho (2008), que constrói uma sensível teoria sobre traumas que atravessam gerações. A obra “Hauting the Korean diaspora”, retrata o momento em que os traumas do passado encontram os traumas do futuro herdados pela Guerra da Coreia. A partir disso, a autora sugere um trabalho de Abraham e Torok (1994 apud

CHO, 2008) sobre “assombrações transgeracionais”, que se refere a um trauma indescritível que não desaparece com a pessoa que o experimentou pela primeira vez, mas adquire “vida” própria ao emergir de espaços onde segredos são ocultados.

Algo central para o percurso da obra é a figura da yanggongju, que se apresenta como um termo pejorativo para as mulheres coreanas que mantinham relações sexuais com americanos e por isso eram consideradas noivas de guerra. Aqui é importante afirmar que a partir dela temos os vestígios da devastação que advém de uma figura assombrada e assombrosa que transmite seu trauma através das fronteiras do tempo e do espaço. As memórias, ainda que antigas e silenciadas, continuam vivas. O passado não é passado, mas um presente contínuo, mesmo para aqueles que não vivenciaram fisicamente os traumas da guerra, e esses os assombram, mesmo que por gerações. Essa força invisível ou intangível se torna coletiva e reflete a noção de que um trauma não resolvido é passado inconscientemente de uma geração para outra, se tornando uma assombração transgeracional.

Nas lacunas dos silêncios e segredos mantidos pelas famílias (especialmente pelas mulheres dessas famílias) se cresce uma assombração produzida não tanto pelo trauma original, mas pelo fato de ser mantida oculta. É precisamente dentro da lacuna no conhecimento consciente sobre a história da família que os segredos se transformam em fantasmas. Assim, a diáspora é assombrada transgeracionalmente pelos traumas não verbalizados e não resolvidos da guerra, que constituem essa assombração. Se a condição histórica da possibilidade da diáspora coreana é a Guerra Esquecida, a condição psíquica é a do esquecimento forçado. É nesses termos que a autora se arrisca a adentrar espaços aparentemente vazios, para tentar aprender a ouvir no silêncio, no subliminar.

Novamente uma contribuição possibilitada por uma troca durante as formações políticas do movimento negro nacional ajuda na elaboração dessa ideia que, puxada pelas falas e reflexões das interlocutoras, sugere a importância de procurar o longo caminho das emoções e das práticas afetivas dessas mulheres e sua existência não apenas como materialidade do presente, mas como energia de outras ordens. A liderança Clementina, a quem entrevistei em um encontro de mulheres lésbicas e bissexuais negras, no final do ano de 2017, me falou do pouco que temos tratado das nossas cargas, que por vezes são subliminares e repletas de energias cósmicas:

Então essa questão é que a gente não dá conta, porque a gente não tem tempo de falar do subliminar da construção, por que o que a gente tá vendo aqui, eu tô vendo

você, mas o subliminar que você carrega, o que você vai ter de influência da energia cósmica, que a gente chama do emblemático. O quê que é o emblemático? O que eu falo é o que falo, mas o que eu sinto é o que eu sinto (Clementina em entrevista - grifos meus).

Beatriz Nascimento consegue articular vida material e psíquica à discussão, ao analisar a profunda desvantagem em que se encontra a maioria da população feminina e como isso repercute nas suas relações com o outro sexo. Segundo a escritora, numa sociedade em que a mulher negra enfrenta lutas diárias durante e após a escravidão no Brasil, essa foi contemplada com empregos onde as relações de trabalho evocam as mesmas da Escravocracia. São nesses termos que impossibilitam e reafirmam a não paridade sexual entre essa mulher e os demais elementos da sociedade.

Como quase via de regra, segundo Nascimento (apud RATTS, 2007, p. 128), nas camadas mais baixas da população cabe à mulher negra o verdadeiro eixo econômico onde gira a família negra, essa que, a grosso modo, “não obedece aos padrões patriarcais, muito menos os padrões modernos de constituição nuclear”, pois incluem todos aqueles que vivem em dificuldades de extrema pobreza, como filhos, parentes, maridos etc. Mesmo quando as mulheres negras que escapam para outras formas de mão-de-obra (se tornando exceções sociais) cruzam tais barreiras, variadas formas de discriminação racial dificultam os encontros desta mulher, seja com homens negros ou de outras etnias 13.

Nascimento (1990) toca no aspecto da parceria, por acreditar que a mulher negra que atinge determinado padrão social precise cada vez mais dessas relações, o que pode recrudescer as discriminações vivenciadas por ela, numa sociedade organicamente calcada no individualismo, distanciando ainda mais o discriminado das fontes de desejo e prazer. Com isso, a parceria, que é um elemento de complementação em todas as relações, é obstruída e restringida na relação amorosa da mulher. Ou seja, quanto mais a mulher negra se especializa profissionalmente, mais ela é levada a individualizar-se, pois sua rede de relações também tende a se especializar.

Muitas vezes a condição psíquica da mulher negra é forjada num embate entre a individualidade, que aqui é colocada como a vontade de ascender e se especializar; e a luta contra a discriminação. Tais itens tendem a surgir como impedimento à atração do outro – parceiro, pois este outro pode temer a potência dessa mulher. Ela também acaba por rejeitar os

13 Nascimento (1990) escolhe o tema ao fundamentar-se em histórias de vida e observação de aspectos da afetividade de mulher frente à complexidade das ligações heterossexuais (p. 127).

outros, por não aceitar uma proposta de dominação unilateral. Assim, ou permanece solitária ou irá se ligar a alternativas onde os laços de dominação podem ser afrouxados, o que limita ainda mais o trânsito afetivo-sexual, dentro de uma sociedade que privilegia os padrões estéticos opostos aos seus (NASCIMENTO apud RATTS, 2007, pg. 129).

Para nós mulheres negras que alcançamos determinados patamares o preço que a gente paga é muito alto. Que é tipo assim, você está numa relação aí você tem carro e o cara não tem carro; você ganha mais dinheiro do que ele; você é intelectualizada ele não é, ele é um homem do mundo, do povo; e em determinado momento o cara [vai] jogar isso na sua cara como se isso fosse um defeito, o seu salário é um defeito, ter um carro quando ele não tem é um defeito, você ser intelectualizada é um defeito, a forma como você fala, porque você tem uma fala muito erudita, é um defeito, você é um erro! Você é um erro, você constitui um erro e assim, eu faço o quê com isso? Como que eu vou apagar minha trajetória? (Luíza Mahin em entrevista, grifos meus).

É a partir destes termos que Beatriz Nascimento acredita que à mulher negra, cabe a desmistificação do conceito de amor, o transformando em dinamizador cultural e social, buscando paridade.

Acho que tem uma reflexão que ainda é muito nova para nós, mas quando eu estava começando a dialogar com Ana Cláudia Pacheco, que é uma coisa que a gente estava dizendo que é descolonizar os afetos, porque assim, nós pessoas negras não vivenciamos o afeto do mesmo modo que as pessoas brancas. Não é a mesma coisa, não é do mesmo jeito. Nós vivenciamos afeto de outra forma, então precisa ter essa reflexão de descolonizar os afetos (Luíza Mahin em entrevista – grifos meus).

Desse modo, ao rejeitar a fantasia da submissão amorosa advinda do amor romântico do modelo burguês europeu, uma mulher negra que não aceite e nem reproduza o comportamento masculino autoritário poderá surgir, tendo tal postura crítica acerca de sua própria história e subjetividade. Com tais condições é possível que essa mulher levante uma proposta de relação sexual capaz de se distribuir nas relações sociais mais amplas. Ou seja, no âmbito afetivo mais próximo a mulher negra pode repensar toda uma estrutura de sociedade, e quem sabe ao modificar seu âmbito pessoal e subjetivo, e passar isso às suas relações, não será impossível acreditar que está na mulher negra a possibilidade em mover estruturas. Afinal, segundo Angela Davis14, “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura se movimenta com ela”.

Até aqui, trouxe a abordagem do tema proposto por sujeitos negros que trataram não só da afetividade, mas também emoções, autoestima, parceria etc. A seguir, pretendo localizar os

14 O discurso ocorreu na UFBA, em julho de 2017, na cidade de Salvador/BA, em evento construído em homenagem ao 25 de julho, dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha.

trabalhos acadêmicos mais conhecidos na área das ciências sociais, que tenham tratado da afetividade da população negra, mesmo que com abordagens diferentes.