Foto 17: Registro em sala de aula cantando com os alunos
4. Belo prisma
O prédio do COLUNI consiste em uma construção diferenciada que se apropria de elementos e figuras geométricas para compor sua arquitetura, digamos, pós-moderna.
Logo na entrada do colégio você já se depara com quatro pilastras revestidas de pastilhas azuis que sustentam um telhado geometricamente construído, acima do qual se avista um prisma quadrangular cuja base se divide em oito triângulos isósceles, a princípio, a partir de uma visão grosseira.
Foto 2: Fachada do COLUNI
Fonte: página do CApCOLUNI/UFV
A propósito, que arquitetura sugestiva, não? Há quem defenda que “a arquitetura e a ocupação do espaço físico não são neutras”, de modo que “o espaço arquitetônico da escola expressa uma determinada concepção educativa”30. De fato o prisma possui uma forte simbologia para os estudantes do colégio. Diga-se de passagem, ‘O Prisma’ é o nome do jornal do grêmio estudantil da escola, que neste último novembro completou sua oitava edição, cuja abordagem compreende desde assuntos relacionados à comunidade interna a temas de relevância sócio-político debatidos nacional e internacionalmente e, também, é um espaço para sugestões culturais e manifestações artísticas como poesias e crônicas. Para além disso, compete ao imaginário individual e coletivo a representatividade da estrutura física do colégio, tendo em vista que “o traço geométrico, os sinais que o seu desenho mostra, os símbolos que incorpora (...) tornam inconfundível seu objetivo e permitem sua fácil identificação”31. Compreendo que, em si mesma, a arquitetura escolar representa um discurso a partir do qual um sistema de ideias e valores é sugerido e, em maior ou menor grau, absorvido pelas pessoas que compartilham o aquele espaço, estabelecendo-se a partir de então as posições sociais ocupadas por cada um nas relações de poder.
Adentrando o portão da entrada, de vidro, e subindo alguns poucos degraus, avista-se o anfiteatro da escola, palco onde ocorrem apresentações culturais e artísticas
30 DAYRELL, 2007, p.147.
dos estudantes, professores, convidados, amigos, etc, como também é lugar de reivindicações, debates, premiações e encontros, muitos encontros.
Foto 3: anfiteatro do COLUNI
Fonte: página do facebook do COLUNI Foto 4: apresentação teatral dos alunos
Fonte: página do facebook do COLUNI Foto 5: apresentação musical dos alunos
Fonte: página do facebook do COLUNI
Acima, há dois corredores que dão acesso tanto às salas de aula quanto aos gabinetes dos professores. No primeiro piso há também salas de aula e laboratórios. As paredes que circundam a escola são vazadas, o que em dias frios proporciona um frescor
desmedido. Lívia32 que o diga: Eu acordava 6h da manhã no COLUNI, então eu
acordava às 6h e chegava na escola 6:50h, 6:40h, 7h as vezes em maio, com as paredes furadas, um frio horrível, aulas 7h da manhã da Matemática. A propósito, há quem
verse que:
Pelas paredes furadas Entram sonhos Entram temporais
Entram sorrisos. Naquelas paredes furadas
Formam-se identidades Fazem-se amizades Vive-se a liberdade Ah, aquelas paredes furadas
Paredes inacabadas Paredes solitárias
Paredes do meu tempo de inocência Nessas paredes passam
O embrião sonhador O veterano lutador Passa o sol, a chuva,
A dor, o amor Passa o passado O presente O futuro O incerto Lá se vive Lá se morre Lá se ama
Lá você simplesmente se descobre33.
O telhado é de vidro, o que em dias quentes aquece de modo sem igual. Sim, parece que a arquitetura do COLUNI causa alguma indisposição climática no interior da escola, e isso gera incômodo em alguns momentos de temperatura extrema, sobretudo em momentos de aula. Mas como é bonita a estrutura dessa escola, com predomínio de cores fortes, amplo espaços destinados às salas de aula, gabinetes dos professores, área comum, anfiteatro, laboratórios, auditório, banheiros, cantina, salas reservadas à seção de expediente, seção de serviço e controle escolar, direção, coordenação e orientação pedagógicas e ao serviço de psicologia escolar.
32 Daqui a pouco você conhecerá a Lívia! E também o Raul e o João Paulo!
Ela funciona a portas abertas. O entra e sai de estudantes é permitido, inclusive entre uma aula e outra. Mas, há regras, como em toda escola, e elas são claras. É obrigatório o mínimo de 75% de presença dos alunos nas aulas de cada disciplina e no somatório final. Em minha experiência como professora nessa escola a ocorrência de ausência nas aulas de Matemática sempre foi baixa, e foram raras as ocasiões em que algum estudante ultrapassou o limite dos 25% no balanço geral da disciplina, isso na primeira série. A esse respeito faço considerações. Não, não sou a ‘super’ professora de Matemática cujos alunos e alunas jamais perderiam uma ‘super’ aula. Não se trata disso, acredito. Atribuo primeiramente ao fato de que os ‘embriões’ já chegam ao colégio ansiosos pelo que virá das aulas de todas as disciplinas e, de um modo um pouco mais acentuado com relação à Matemática dado o pré-anúncio de sua fama, anunciada pelos veteranos, como João Paulo mencionou e você poderá conferir páginas e páginas adiante. Portanto, Matemática? É preciso estudar, estudar e muito!!! Aquilo que vários estudos e pesquisas34 já sinalizam acerca do pouco apreço dos estudantes pela Matemática, levando-se em conta fatores como excessiva abordagem teórica nas aulas, o elevado grau de tensão na realização das provas, a associação direta entre bom desempenho em Matemática e inteligência, o medo e/ou aversão em relação à disciplina, entre outros aspectos, parece ser vivenciado no COLUNI em dose dupla, dada a pressão de pertencer ao “melhor dos colégios” e ter que dar conta de suas exigências. Nessa perspectiva, o que já é ‘tão complicado’ poderá piorar se eu me ausentar às aulas, certo? Esclareço que assumo a postura de que a ausência em quaisquer aulas, independentemente da disciplina, é atitude comprometedora para o êxito de uma formação o mais integral possível. Entretanto, a junção de um comportamento social com o fato de que a Matemática ocupa uma posição de domínio no âmbito educacional, culturalmente construída e imposta como uma disciplina difícil, reservada aos mais dotados de inteligência (!!!), fundamentam o conectivo lógico “se a aula é de Matemática, então não matarei”.
Outra característica é que não há uniforme imposto aos alunos. Ocorre que eles se organizam para fazer a camisa de cada turma, com suas tradicionais cores. Assim, ficam marcados pela identidade da turma. Explico. Cada série é composta por quatro turmas: A, B, C, e D, reconhecidas pelas cores azul, vermelho, amarelo e rosa,
respectivamente. Também por tradição, no início de cada ano letivo é realizada uma gincana com formato de competição entre as turmas, formada, portanto, por quatro equipes: equipe azul, composta por todas as turmas A das três séries, equipe vermelha turmas B, equipe amarela turmas C e equipe rosa, turmas D.
Foto 6: Gincana de confraternização - Turmas no anfiteatro
Fonte: página do facebook do COLUNI:
A gincana inspirou-se para ser um momento de acolhida aos estudantes ingressantes, com o compromisso social de arrecadação de alimentos e artigos para doação a instituições que assistem pessoas em vulnerabilidade socioeconômica. Os seus impactos na formação discente são sinalizados pela narrativa da Lívia, que destacou a importância de uma relação mais próxima entre professores e alunos para o processo de ensino e aprendizagem. Você verá.
Os professores são admitidos via concurso público, como já mencionei, tanto os efetivos quanto os substitutos. No primeiro caso, todos são professores com dedicação exclusiva pertencentes à Carreira do Ensino Básico Técnico e Tecnológico (EBTT), trabalham em um regime de quarenta horas semanais e, como são incentivados a se capacitar e se especializar, a maioria possui doutorado em sua área de atuação ou em áreas afins. Os docentes do COLUNI realizam as atividades de ensino, pesquisa e extensão, conforme previsto pelo regimento da UFV, além de cumprir com as atividades de cunho burocrático como coordenações de área e/ou comissões, direção escolar, cargo administrativo na UFV, etc. Ademais, todos devem dispor horários no contraturno para atendimentos das dúvidas e questionamentos dos estudantes, o que, a meu ver, favorece exponencialmente para a melhor fluidez da via de mão dupla do processo de ensino e aprendizagem. Os atendimentos funcionam da seguinte maneira: os professores de todas as áreas disponibilizam um mínimo de quatro horas semanais
para atender individualmente os estudantes em seus gabinetes para que possam esclarecer suas dúvidas quanto a algum conteúdo abordado em sala de aula, ou algum exercício do livro, das listas de tarefas disponibilizadas, como também dúvidas relativas ao conteúdo e que seja fora da rotina escolar. Os estudantes formam uma fila em frente às salas dos professores e aguardam a sua vez. Em alguns casos, especialmente na primeira série, as filas nas portas dos gabinetes dos docentes são extensas, sobretudo na Matemática e em véspera de semana de provas. Lembro-me que alguns estudantes eram assíduos aos atendimentos no decorrer dos bimestres, enquanto que outros só compareciam quando estavam no período de avaliações. Havia dias em que o corredor ficava tão lotado que eu sugeria a eles que entrassem em trio ou quarteto para tirar as dúvidas, caso fossem discutir dúvidas semelhantes. Algumas vezes o horário de atendimento tinha que se estender para que eu pudesse receber a todos, ou mesmo remarcado em horário extra para que todos conseguissem expressar suas dúvidas. Nas demais séries esse cenário é menos intenso. A partir das reuniões de conselho de classe que são realizadas bimestralmente, percebo – a partir de mim – que os professores da escola consideram, de modo geral, a presença do estudante aos momentos de atendimento de extrema importância para que ele compartilhe as suas dúvidas, melhore a sua relação com o conteúdo e alcance a autoconfiança necessária em sua prática de estudo. Falarei um pouco agora sobre a chegada dos alunos e alunas ao colégio.
O ingresso dos estudantes se dá através de exame de seleção que oferta cento e cinquenta vagas por ano. Em sua maioria os estudantes, cuja faixa etária gira em torno dos quinze anos, têm origem em cidades vizinhas à Viçosa ou região, moram em repúblicas com outros estudantes do COLUNI e/ou da graduação, ou moram sozinhos, em muitíssimos caso, longe das famílias. Há também os que vêm de outros estados do país como Bahia, São Paulo e Rio de Janeiro. São adolescentes de todas as classes sociais, etnias, gêneros, tamanhos, larguras, estilos, repertórios, interesses, habilidades, afinidades, potencialidades, possíveis. E é no entrelaço dessa multiplicidade de universos que se constroem as histórias individuais e coletivas desses jovens. Neles, ainda hoje encontramos, Joana35, o “óbvio e o improvável. Encontramos histórias de continuidade e histórias de transformação. Encontramos grandes sucessos e algumas desistências. Encontramos aqueles que, mesmo percorrendo um caminho incompleto,
35 Joana D’arc Germano Hollerbach é autora da Tese “O colégio universitário (COLUNI) da Universidade Federal de Viçosa (1965-1981): formar para a universidade e garantir a qualidade”, e na referida citação ela faz menção aos ex-alunos/alunas do COLUNI das primeiras turmas.
venceram com louvor. E encontramos outros que, cumprindo toda a cartilha, não quiseram seguir a trajetória definida pela história. Mudaram o curso do rio”36.
A expectativa de ingresso no COLUNI é tão expressiva que há casos, não eventuais, de alunos que após concluírem a primeira série e até mesmo a segunda série do ensino médio em outras escolas, prestam o exame de seleção e retornam à primeira série, já com dezesseis ou dezessete anos. Em conversas informais com muitos deles ao longos desses anos que atuo como professora da escola, ficou nítido o anseio dos estudantes de que no COLUNI alcancem uma base de estudos consistente que os auxilie a serem aprovados nos vestibulares mais concorridos, como é o caso da medicina em universidades públicas. Outro aspecto é que a cada estudante é permitida apenas uma reprovação durante o curso do ensino médio na escola, sob pena de ser ‘jubilado’, ou seja, de perder a vaga.
A tão desejada escola é referência nacional nesse nível de ensino e nos últimos dez anos ocupou as primeiras colocações no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) entre as escolas públicas do país. Com a oferta de ensino médio, pesquisa e extensão aos estudantes, o COLUNI tem, dentre outras, a função específica de propiciar aos estudantes de licenciatura da UFV espaço, ambiente e contextos para que possam experienciar a prática docente, nos estágios supervisionados, como pude vivenciar em minha época de estudante, a propósito. A esse respeito, narro brevemente nas próximas linhas.
Há também, como já mencionei, as semanas de provas que se instauram entre os períodos de aula e provocam algum desconforto nos estudantes, sobretudo aos ingressantes. Nesse período eles fazem duas provas por dia, esporadicamente uma, durante cinco dias. São dispostos em fileiras, alternadamente por série, de modo que alunos de uma mesma série não fiquem lado a lado. Ou seja, em semanas de provas as salas comportam filas de estudantes de primeira, segunda e terceira séries. Parece que um ‘novo jeito’ de fazer prova se impôs aos estudantes e isso que seria apenas um pequeno detalhe ganhou notoriedade na narrativa da jovem Lívia ao rememorar experiências com as práticas avaliativas no colégio.