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Foto 17: Registro em sala de aula cantando com os alunos

7. Queridos mestres

E por falar em professores cujas práticas pedagógicas e, porque não dizer, humanas, serviram de exemplo a tantos outros, Raul menciona em sua narrativa, carinhosamente a relevância de um professor de Matemática em sua vida, o Luciano, o

professor de Matemática da minha vida: foi por ele que eu quis ser professor. Sempre

que vai a Ubá e comenta com as pessoas da sua antiga escola que está se formando para ser professor de Matemática, eles apostam Ah, você vai ser o novo Luciano... e sempre

quando falam isso eu penso ‘poxa, tomara’. O fator determinante que o marcou a ponto

de querer se assemelhar ao referido professor, situa-se no plano da afetividade (!) e do compromisso com o ensino da Matemática.

Eu acho que não tanto em questão assim de metodologia, e etc., porque na época eu nem pensava nessas coisas de ‘ah, será que o que o professor está fazendo é certo’, claro sim, eu pensava mas não com a base teórica que eu tenho hoje, mas eu lembro dele com muito carinho e tenho nele assim um pouco de exemplo até porque ele tinha uma relação muito boa com a gente, ele fazia piadas, etc. Tinha uma página do livro, que era a 214, que ela era...tinha um texto enorme assim, aí quando alguém estava fazendo bagunça na sala, ou ele tirava meio ponto, ou ele mandava copiar a 214. Aí...aí beleza, aí tinha gente que copiava em casa pra já chegar e já ter pronto a 214 e tudo o mais. Aí teve um dia que pessoal se irritou e fez o velório da 214 no intervalo, aí quando ele chegou da aula estava todo mundo chorando com a página aberta na mesa, etc. Aí passou a mandar copiar o hino nacional que tinha no verso do livro (risos). Então ele sempre foi bem...ele tentava ter uma relação um pouco mais de brincadeira com a gente mas também sempre mantendo o objetivo de ensinar Matemática. Então com ele eu lembro que eu tinha uma relação muito boa.

Também eu tive minhas inspirações, Raul. Conto, rapidamente. Quando estava na sétima série tive um professor de Matemática que jamais pude esquecer, o qual chamarei por Tino. Famoso pelo jargão ‘cuidado, eu tenho o poder da caneta’, ele balançava uma caneta vermelha e intimidava a todos que não se comportassem da maneira que ele julgasse adequada em suas aulas. Essa prática servia para estabelecer com clareza as relações de poder nas aulas de Matemática e, quanto a isso, ninguém se impunha. Por outro lado, recordo-me com muita lucidez e carinho de sua pessoa e de sua competência profissional, seu jeito de ensinar, sua disponibilidade em nos fazer compreender os conteúdos; os livros daquela época trago ainda em minha biblioteca

particular e me são ótimas fontes de consulta e lembranças. O cheiro deles me remete ao ensino médio. Lembro que em um dos livros guardei um incenso...e esse cheiro ficou por um bom tempo...o livro, segue comigo.

Eu me lembro de uma situação em que o Tino, ao entregar as provas corrigidas, soltou algo do tipo: ‘Maria Tereza, eu esperava muito mais de você, vamos lá’? A prova valia 7,0 pontos e, se não me trai a memória, alcancei 4,0 pontos, ou seja, menos da média de 60%. A princípio aquela frase dita à meia voz me gerou um ligeiro constrangimento por ter desapontado o meu professor, afinal de contas, ele esperava muito mais de mim! Tão logo ressignifiquei essa emoção e reagi com desempenho superior àquele, na prova seguinte e, então, recebi elogios e sorrisos. Como me marcou! Esse era o Tino. E, a Matemática, passou a ser a disciplina em que eu mais me destacava e ele, com a ressalva do ‘poder da caneta’, conseguia me motivar aos estudos, tornando-se uma inspiração. A propósito nos falamos no início do ano de 2019, através de um grupo no whatsapp da turma do ensino médio. Poxa! Foi muito legal! Disse a ele sobre minhas boas lembranças da sua pessoa e que eu segui na carreira docente, na Matemática, o que o deixou bastante feliz.

Já na última série do ensino médio, em 2003, mudei para outra escola particular onde foram muito intensas as emoções que vivenciei no processo de escolha do curso superior. Até esse momento de minha trajetória já havia cogitado algumas profissões: professora de algumas disciplinas como Português (Sim! Sempre amei!), Educação Física (com frequência era capitã dos times de futebol e vôlei do colégio, apenas) e Matemática (era boa nisso, gostava da ideia de fazer um quadro cheio de equações, gráficos) ou, ainda, Fisioterapeuta (de longe!! Ser professora era algo forte!!), Economista (não, não mesmo!!), Musicista (tenho certa afinidade com a música, desde criança, por muito pouco não o fiz!). Contudo, no decorrer do ano letivo nessa escola, realmente me vi totalmente inclinada à docência e isso se deve a duas professoras/mestras na arte de ensinar Matemática: Nica e Dea, que foram sem dúvidas fontes de inspiração e motivação para que eu concorresse em quatro vestibulares para o curso de Matemática. A atuação dessas professoras, cada qual à sua maneira, era admirável e me movia interiormente com uma força intensa, como se mexesse com minha identidade. Há poucos dias resgatei uma antiga foto da minha formatura do terceiro ano abraçada com a Nica! Que feliz lembrança! Compartilho.

Foto 11.: Eu e Nica, em minha conclusão do ensino médio

Fonte: arquivo pessoal

De fato eu me via nelas, atuando, ensinando, escrevendo na lousa, pacientemente ou energicamente (as duas tinham temperamentos opostos) e, eu seria, em minhas aspirações, uma justa composição de ambas. Jamais me esqueci daquelas letras e da disposição da matéria no quadro. Prestei quatro vestibulares para o curso de licenciatura em Matemática. Com a divulgação dos resultados, a princípio eu iria para a Universidade Federal de São João Del Rey (UFSJ), mas no dia seguinte, com o resultado da prova da UFV, minha escolha foi parar em Viçosa e cá144 construir um caminho repleto de experiências e trocas, que me trouxeram até o COLUNI e até aqui. E junto a você145, à Lívia e ao João Paulo, no dinâmico processo de provar desse estudo, seguirei compartilhando, oportunamente, aspectos de minha trajetória formativa com todos que nele se envolvem. Continuemos a contar sobre você, Raul. A propósito, e o COLUNI?

Inclusive, utilizo essa autobiografia para fazer certo desabafo um tanto pessimista: ao lembrar-me das minhas experiências, vivências e amizades do COLUNI, reluto em aceitar que ainda hei de viver período mais feliz e produtivo (produtivo no sentido pessoal, e não econômico) do que o do ensino médio. Cresci e mudei muito com o COLUNI.

144 Nesse momento de tecer os fios da tese, estou na cidade de Viçosa, após morar dois anos em São Carlos em função das disciplinas do doutorado.