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BEM-AVENTURADOS OS MANSOS

No documento Download/Open (páginas 55-60)

No livro “O Sermão da Montanha”, de Rohden, esta bem aventurança corresponde como título da terceira bem aventurança.

Na Bíblia de Jerusalém, este versículo é lido assim: “Felizes os mansos porque herdarão a terra” (Mt 5,4).

Konings (p. 31) escreve: “Felizes os mansos, porque eles herdarão a terra” (Mt 5,5).

Na análise desta bem-aventurança, Rohden diz ser a mansuetude indício de inefável auto-realização (p. 26), sendo que a mansidão é o afastamento de toda a violência, seja física, moral ou mental, e pode ser substituída pela força do espírito.

Segundo o autor, a violência é como que uma parte constituinte dos seres vivos irracionais. O ser humano usa quase sempre sua força física ou de pensamento para conseguir seus objetivos, se não os conseguir pela justa causa.

Rohden exemplifica este tipo de violência quando a categoriza como “astúcia, sagacidade, política, diplomacia, exploração” (p. 26), e acrescentamos, a malícia, que é bem retratada quando Jesus fala da malícia dos fariseus, no momento em que é inquirido sobre a legitimidade do pagamento do imposto devido a César, ou a Deus.(Mt 22,15-22; Mc 12,13-17).

Continuando, explica: “[...] são certos argumentos analíticos de que se serve a inteligência para conseguir os fins próprios da personalidade do ego” (p. 26).

Para Rohden, este uso inadequado das forças do espírito “é sinal de fraqueza”, e torna-se necessário direcionar esta energia, física ou mental, “para integrar essa força no domínio superior da Razão espiritual” (p. 27). E mais, pois para Rohden, a decisão de usar a mansuetude é conquista daqueles que solveram suas ilusões no plano da verticalidade, a qual é característica do mundo das qualidades, e, quando um profano lança mão de sua violência, física ou mental, é porque desconhece a profunda força da mansuetude espiritual (p. 28). A mansuetude com a qual Jesus agia, era sua dimensão espiritual, o que é relatado por todos os evangelistas, e não há testemunho de que Jesus tenha violado a lei de amor, que é um dos componentes primeiros da mansidão.

Esta mansuetude não é sinônimo de ineficiência ou incapacidade ou mesmo conivência com a violência para escondê-la. O espírito de mansuetude é uma atitude interna, “metafísica”, no dizer de Rohden, e não uma atitude externa ou mundana (p. 30).

No plano da específica compreensão humana (sem egoísmo ou ideia de posse, mesmo a posse de pessoas ou sentimentos), a mansidão não é compactuar ou ser passivo frente às injustiças praticadas pelos seres humanos aos outros ou à natureza.

Observa-se que Rohden já se preocupava com o desgaste e consequente destruição da natureza pela ação violenta do ser humano.

Rohden enfatiza que [...] “no plano da natureza, da ecologia (como dizemos atualmente), a intelectualidade não espiritualizada do ser humano, é essencialmente inimiga da natureza” (p. 31).

Rohden expõe (p. 30): “É fato multimilenar que os homens que mais realizam em si a força do espírito do que o espírito da força são credores do amor, e [...] a não agressividade é privilégio de poucos homens da atual geração”.

Acrescentamos: há violência numa palavra, num gesto, numa atitude ou mesmo numa verdadeira ou pretensa defesa pessoal.

Explicamo-nos: se alguém, astuciosamente (ou não), diz algo que nos embaraça ou incomoda, damos-lhe uma resposta ríspida e rude, como se obrigássemos a pessoa a se calar abruptamente, também, as críticas, veladas ou não, afiguram-se-nos como uma violência. “Os violentos predominam ainda entre nós” (p. 30). O que vivenciamos, e sabemos desde a noite dos tempos, desde eras multimilenares, é a prática reiterada da violência.

Rohden diz causar estranheza a afirmação de que “os mansos possuirão a terra" (p.28), e que os livros sacros dizem que na plenitude dos tempos, haverá um novo céu e uma nova terra”. E será vitoriosa a força espiritual.

Após digressar sobre a sensibilidade de toda a natureza em razão da ação humana, Rohden termina com este ensinamento (p.32):

Toda a vida de S. Francisco de Assis é uma afirmação permanente de que a natureza não é inconsciente e que compreende a linguagem do homem, quando esta deixa o plano teórico da análise mental e passa para a misteriosa zona vital ou espiritual.

Para Rohden, alcançar a suprema racionalidade pela ladeira íngrime da metafísica não é algo fácil, mas “é mais fácil ascender [...] à suprema racionalidade pelo caminho do amor” (p. 32).

Argumenta: este é o caminho mais curto.

À continuidade do nosso diálogo com outros autores, buscamos os esclarecimentos de Ferreira (1978, p. 10), que nos oferece o entendimento do que seja a lei de amor, ensinada pelo Nazareno, fazendo um contraponto entre a lei evangélica e a lei humana:

Com relação ao Sermão da Montanha, temos visto até dirigentes de Comunidades acharem este trecho ‘muito esquisito’. Alguns acham que ele é uma lei muito rigorosa e impossível de ser cumprida, [...] era muito lindo [...] mas que é um ideal nunca atingido porque somos pecadores.

Ferreira (p. 10) continua explicando a diferença entre esta “lei” e a lei humana, no sentido da normatização das condutas humanas.

“Se olharmos o Sermão da Montanha como lei (como as leis de trânsito, pagamento de impostos etc.), realmente, será difícil entendê-lo e vivê-lo. Uma lei indica o que deve ser feito “[...] uma lei faz o homem ser visto pelas obras externas. A lei não transforma o coração” (p. 10).

Ferreira continua (p. 10):

O Sermão da Montanha não é lei (no sentido humano), mas Jesus mostra o retrato de seu próprio ser e de sua vida em comunhão com Deus. Para Ferreira, o Sermão alerta no sentido do agir contra a auto-suficiência, pois o coração das pessoas torna-se pobre e humilde para deixar Deus agir.

Quem estiver com Jesus de Nazaré vive as Bem-aventuranças (p. 11).

Carter (2002, p. 181) organiza esta bem-aventurança em Mt 5,5: “Bem- aventurados serão os mansos”. E, para este autor, os mansos não são os fracos, gentis, servis, passivos.

O Sl 37 descreve estes mansos como o impotente e o humilhado, que imploram para confiar em Deus para salvá-los do “mau” e os violentos pedem emprestado, mas não devolvem e oprimem. Devem procurar a justiça de Deus, “ainda que Deus pareça lento no agir” (2002, p.181).

Vejamos como a tradição judaica propiciava esta relação dos homens com a terra e, consequentemente, sua exploração, distribuição dos bens, comercialização, propriedade e subsistência.

Na cultura judaica, a cultura da terra era a fonte de economia e sustentação da população. A terra era o bem mais valioso que se podia pretender (2002, p. 181). A terra era para ser usada por todos, mas as relações sociais e econômicas retiravam os trabalhadores das terras, pelos altos impostos, pelos altos tributos que se deviam, sendo que a terra poderia ser tomada ou reivindicada por quem possuísse recursos para mantê-la e explorá-la. E, sabemos também, que o domínio romano era implacável.

Na nossa cultura, também, isto não mudou substancialmente. Todos os recursos que os seres vivos podem tirar para sobreviver, para sua subsistência, são tirados da terra. Assim, o valor da terra é inestimável. O grande desafio é como conduzir o pensamento para a moderação e a não ganância, evitando a violência?

Na visão deste autor, como será compreendida e vista esta bem- aventurança?

Vimos que Rohden afasta todo sentimento de posse e poder sobre qualquer objeto material que seja, assim como sobre pessoas e, inclusive, a terra.

Carter (p. 181) esclarece:

O ensinamento desta bem-aventurança é a promessa de que os mansos herdarão a terra, mas num sentido espiritualizado. As relações exploradoras de acesso à terra terminarão. O desproporcional acesso existente à terra, baseado em relações sociais exploradoras, terminará. A terra e seus recursos pertencem a Deus (Gn 1; Sl 24,1). Como administradores, os homens devem nutri-la (Gn 1,28-31), como base para a comunidade na qual todos têm acesso aos recursos necessários. Resistindo à exploração econômica, o princípio do ano sabático autorizava a terra a alqueivar cada sete anos. Resistindo à massiva acumulação de terra por meio de taxas e falta de pagamento sobre empréstimos de altos juros, que privavam as pessoas de acesso a recursos necessários para viver, o ano jubilar, a cada cinquenta anos, devolvia a terra a grupos de parentesco (Lv 25,23). O assunto em discussão é a soberania e a natureza justa da comunidade humana (p. 181). E, ‘terra’ é toda criação de Deus, como também afirma Mt 5,13-18.

Refletimos: hoje, a terra começa a ficar escassa, não só para seres humanos, mas para todos os seres vivos, inclusive para o meio ambiente.

O discurso de Jesus, para aliviar o sofrimento das pessoas pobres, diminuía sua revolta contra a opressão nativa e romana, e as injustiças que eram incompatíveis com a descrição do Reino de Deus, anunciado por Jesus no alto da montanha, para ser ouvido por judeus e romanos (p. 181).

Josaphat Oliveira (p. 61) diz ser a terra herança de Deus, e é sinônima de “Reino dos Céus”.

Zeilinger (p. 50-1) considera: “Felizes os que não fazem uso da violência”. Este versículo tem ligações com o tema da terra e com o dom salvífico de Deus. A herança da terra será para os pobres e oprimidos.

Com uma visão realista de nosso tempo, Zeilinger diz que os valores da humildade e a impotência são sem reconhecimento ou significado, e que o poder está cada vez mais forte. O egoísmo é camuflado, uma “impiedade” caracteriza nossa sociedade, o que é contrário à mensagem salvífica de Deus. O Salvador é a personificação da dedicação de Deus ao ser humano e que promete vida em abundância. Há, então, uma inversão no sentido da teologia: todo o poder aos miseráveis e impotentes (p. 53).

E, podemos aduzir em uma conscientização e melhoria do ser humano, menos egoísta e violento.

Deus criará um novo mundo...

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