O Sermão da Montanha, um discurso que é uma espécie de vivência aprofundada em si mesma e, em Deus. Muitos também consideram-no inacessível à prática da vida humana. Pergunta-se: por quê?
A razão afigura-se-nos pela pouca visibilidade que os humanos têm da vida espiritual. Por que?
Este dito foi pronunciado pelo Nazareno e, pela graça divina, foi ouvido e, depois, escrito por dois evangelistas: Mateus e Lucas.
A observância da Lei Divina é um traço que liga o humano ao criador. O “Sermão da Montanha”, assim chamado o primeiro discurso de Jesus de Nazaré à multidão (Mt 5,1-2) na palavra de Rohden (2008, p. 13) [...] “pode ser considerado como a plataforma do Reino de Deus”.
O Sermão da Montanha, na lavra de Rohden, e escopo nesta tese de doutoramento, não contém a integralidade dos capítulos que o constituem, no evangelista Mateus, objeto de nosso estudo.
As assim chamadas Bem-aventuranças, em cuja essência são os mais aperfeiçoados princípios de revelação do Amor do Creador (como diz Rohden) por suas creaturas, concitam os seres humanos à mais alta realização e compreensão do Reino de Deus, mas demandam uma alta, senão altíssima, compreensão de Deus, d’Aquele que está acima de toda a palavra humana para defini-lo.
Nestas palavras do Nazareno, o apelo e o desafio que são postos aos humanos, transcendem todo o alcance de nossa inteligibilidade, e, para tanto, Rohden leva-nos para o intuir e vivenciar espiritualmente estes ensinamentos.
Faremos a leitura de Rohden, do Sermão, em diálogo com outros autores, ciente de ser esta uma literatura extremamente ampla, e com várias abordagens cristãs.
No “Prólogo” de seu livro “O Sermão da Montanha” (2008, p. 13) Rohden comenta que “antes de Jesus iniciar sua vida pública, ele fez 40 dias de silêncio e meditação, no deserto”.
Qual não terá sido a razão de Jesus, o Filho do Altíssimo, ter passado 40 dias de silêncio e meditação na solidão do deserto e, em seguida, ter jorrado as pérolas da iniciação e consecução do conhecimento que poderia levar-nos ao Reino de Deus?
As primeiras palavras de Jesus, continua Rohden, “foram proferidas nas colinas de Kurun Hattin”, a sudoeste do lago de Genesaré [...]”e representam o programa da mística divina e da ética humana, visando a total autorrealização do homem” (p.13).
O ser humano, de forma geral, implementa sua existência, na necessidade para sobreviver, materialmente falando, na busca de manter-se em suas forças físicas, desenvolver as potencialidades intelectuais, morais e espirituais, como seu primado ou finalidade última. Mas, sempre pondo a realização espiritual em último plano, em última escolha, pois o materialismo é mais forte e mais desafiador. É certo que sem os bens materiais, não podemos realizar o que precisamos para avançar existencialmente falando. No entanto, isto sobrepuja a nossa busca espiritual.
“Deus pode esperar”, pensamos...
Como conciliar interesses e enfrentamentos tão contrastantes e, ao mesmo tempo, violentos? Como sobrepujar a própria natureza humana, sedenta de alcançar a felicidade?...
Rohden, ainda no seu “Prólogo” (p. 13-14), ensina que “a mensagem do Mestre é um convite para o homem se transmentalizar e entrar numa nova dimensão de consciência inédita e inaudita, paradoxalmente grandiosa”.
Pode-se iniciar este caminho, este percurso para Deus, estudando e aprendendo as bem-aventuranças do Sermão da Montanha, mas o ser humano deve “vivenciar e viver, não analiticamente, mas espiritualmente. Sentir o mais profundo de seu Eu Divino, plenificado pela harmonia crística” (2008, p. 14).
A intuição espiritual de Rohden levou-o a priorizar a unidade da manifestação espiritual em sua compreensão racional do ensino crístico, na amplitude de uma totalidade, ou dedutividade, acessível à consciência humana, e não a considerar analiticamente a experiência mística.
“O homem que queira ser crístico, não apenas cristão, necessita viver uma vida 100% sincera consigo mesmo, e não se iludir com paliativos e camuflagens que lhe encubram a verdade sobre si mesmo” (p. 14).
Rohden pergunta (p. 15): “Quem é proclamado ‘bem-aventurado’, feliz? Quem é chamado ‘filho de Deus? Quem é que ‘verá a Deus’? De quem ‘é o Reino dos Céus”?
Rohden considera que o Sermão da Montanha “é integralmente espiritual, cósmico, ou melhor, ‘místico-ético’, não uma teoria que o homem deva ‘crer’, mas uma realidade que ele deve ‘ser’” (p. 15).
A experiência mística de Rohden propiciou-lhe a compreensão de que o Reino de Deus dar-se-ia não por teorias ou explicações ou processos analíticos, mas pela realidade do “ser”, considerando a mística do “amor a Deus” conforme o primeiro mandamento, como afirmara Jesus, e o segundo mandamento como o “amor ao próximo”, a ética de todo ser humano, para o Reino de Deus poder estar dentro de nós (p. 15).
Em sua obra “Deus” (2001, p. 16), esclarece que “[...] podemos ter absoluta certeza (sobre a existência de Deus), não por provas analítico-intelectuais mas, sim, por intuição racional (espiritual)”.
A dialeticidade de Rohden manifesta-se neste trecho aqui transcrito, quando afirma que a “vivência espiritual é convergente e harmonizadora” e que a “análise intelectual é divergente e desarmonizadora” (2008, p. 16), uma vez que Rohden vivenciava a consciência na sua plenitude e não como elemento de separatividade da vivência com Deus.
Jesus Nazareno também disse que “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30).
No apêndice de seu livro “Paulo de Tarso” (s.d., p. 279), ele trata da “Filosofia Univérsica”, no subtítulo ”A bipolaridade do Mundo e do Homem”, onde expõe: “O Eu corresponde ao Uni do Universo, e o Ego ao elemento Verso. [...] O homem profano só cultiva o seu ego, atrofiando o Eu. O místico tenta realizar somente o Eu sem o Ego”.
O homem cósmico, univérsico, porém, realiza o seu Eu através do seu ego, porque sabe que o Eu ou Uno é Fonte, e o Ego ou Verso é canal pelo qual as águas vivas da nascente fluem e beneficiam sua vida” (p. 282).
Jesus, antes de proferir o Sermão da Montanha, sintonizou-se com as profundas emanações do Alto, como em profunda comunhão com Deus.
Sabe-se que o ser humano age em função de seu pensamento e sentimento e, Rohden diz que para alcançarmos este espírito crístico, temos que ir além do inteligir, temos que ir para o intuir (2008, p. 18).
Os sentidos e o intelecto foram considerados os usurpadores do trono de Arjuna, ator do drama místico da Bhagavad-Ghita (ROHDEN, 2008, p. 99).
Tal afirmação, para nós ocidentais, é uma parte da teoria do conhecimento, onde é dada a possibilidade da origem do nosso conhecer tanto no sensível quanto no inteligível, e Rohden compara a construção da vida espiritual a uma gigantesca construção vertical da alma humana para o Infinito.
Van Acker (1981, p. 19) afirma que “[...] sendo os sentidos e a razão as duas únicas fontes do conhecimento pessoal, dividem-se igualmente os filósofos modernos em ‘racionalistas’ e ‘empiristas’, conforme lhes parecem mais certas ou fundamentais as ideias da razão ou as experiências dos sentidos”.
No que tange à experiência espiritual, o conhecimento é “relação com o Mistério” (CROATTO, 2004, p. 63), é o silêncio que se torna o grande transmissor do vivenciar do Espirito. O processo discursivo e explicativo passa, depois, e então, à ordem da razão.
Por sua vez, Rohden diz que [...] “A vivência íntima do espírito do Cristo necessita de um grande silêncio - silêncio material, mental e emocional; “[...] e uma profunda contemplação interior” (p.18).
Rohden refere-se ao Sermão da Montanha como um “Tratado de Paz”.
O Reino de Deus está sintetizado nestes dizeres do Sermão e “[...] estas palavras são o mais veemente clamor para despertar o ser humano da sua longa dormência e proclamar a ‘gloriosa liberdade dos filhos de Deus’” (p. 18).
Feitas essas apresentações, às bem – aventuranças proclamadas por Jesus de Nazaré e que foram e são o ensinamento por excelência para conduzir o ser humano na compreensão de uma existência que passa pelo profundo entendimento do reino de Deus. E na visão de Huberto Rohden, esta visão não é uma “[...] ‘teoria’ que o homem deva ‘crer’, mas uma realidade que ele deve ‘ser’” (ROHDEN, 2008, p. 15); “[...] ultrapassando os ditames de seu intelecto analítico” abrindo-se para a “experiência intuitiva” (2008, p. 13).