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CONTEMPLAI OS LÍRIOS DO CAMPO COMO CRESCEM

No documento Download/Open (páginas 87-90)

Este versículo está inserido no Cap. 6, v. 28, 2ª parte, Evangelho de Mateus, na Bíblia de Jerusalém (2010, p. 1714).

Konings (2005, p. 41) escreve no versículo 28, capítulo 6, Evangelho de Mateus, como se segue:

Cap. 6, v. 28: “É a respeito da vestimenta, que vos preocupais? Estudai os lírios dos campos, como crescem. Não labutam nem fiam”.

Na exposição desta bem-aventurança, observa-se o pensamento de Rohden, como se um profundo veio poético e lírico despontasse em sua alma, para descrever, esteticamente, a percepção da beleza da natureza nas plagas vividas e amadas pelo Divino Mestre de Nazaré. Afigura-se-nos, também, como a demonstração de perfeição absoluta, exarada da mente divina, se assim pudermos nos expressar, apresentando à nossa inteligência e sensibilidade toda a beleza de que é constituída a mãe-natureza. E, isto leva-nos a dela nos aproximarmos, admirando-a, respeitando-a e ajudando-nos a refletir sobre a grandeza que nos cerca e que é realização suprema de Deus, no mundo natural.

Nesta bem-aventurança, descrita por Rohden, fazemos uma incursão estética, reconhecendo o poder creador de Deus e Sua infinita plenitude. O que envolve, a consciência e o dever categórico do homem em ser e estar em comunhão com Deus e sua creação.

Rohden, neste tema, como que felicita a natureza por sua extraordinária perfeição, como tudo o que é de Deus, com a beleza em si mesma, sem esperar qualquer aplauso ou juízo teleológico.

Poderíamos acrescentar, que a arte imita a natureza (ou a natureza imita a arte, como querem alguns), mas a estética na natureza não depende da artificialidade ou reprodução do pensamento humano para se expressar.

Rohden chama a esta perfeição na natureza, que não passou pela mente (ou mão humana), como o reflexo direto do espírito divino, uma vez que a natureza, tendo sido diretamente creada por Ele, está em perfeita harmonia com Ele.

A filosofia espiritual de Jesus Nazareno atinge o fascínio da poesia mística. Rohden observa que Jesus chamou a atenção de seus discípulos para a “serenidade da natureza em derredor” (p. 63), quando caminhava com eles, e os ensinava, sobre Deus e Seus desígnios.

Rohden então expõe que o homem espiritual é afinizado com a natureza, com esta parte da creação que não foi projetada nem construída pelo homem, e entende que “o ego consciente humano se opôs ao Eu superconsciente [...]“e a natureza subconsciente declarou guerra ao homem” (p. 63-4). Por esta situação, prossegue Rohden, o homem paga um preço mais que considerável por sua hostilidade à natureza, seja mineral, vegetal ou animal, e enquanto não fizer as pazes com o mundo natural, a guerra existirá entre o humano e a natureza.

Descrevendo esta imagem tão lúcida e delicada de Jesus com a natureza, Rohden expõe (p. 64):

Estava o Nazareno sentado à beira dum caminho onde floriam numerosos lírios vermelhos como púrpura, muito comum na Palestina, e o divino poeta cósmico, apontando para este grupo de filhas gentis da Flora, fez ver a seus ouvintes que a inteligência humana, com toda a sua ciência e técnica, é incapaz de produzir um tecido tão perfeito e delicado como o que a inteligência divina produz...

Entre os humanos, por mais que seja desenvolvida a inteligência e a percepção do artista, por mais que ele se aproxime da perfeição da natureza em sua criação, jamais o ser humano alcançará a grandiosa beleza e perfectibilidade do que foi creado por Deus.

Rohden também observa a perfectibilidade que se reflete nas coisas que são da natureza, como o tecido orgânico nas espécies naturais, nas células das plantas, na asa de um mosquito, numa teia de aranha, e isto representa uma obra perfeitíssima que a arte (areté) não alcançaria nunca.

E, adianta: a quem estas creaturas da natureza pedem aplausos? Reverências? Elogios estéticos? A ninguém. A beleza é desinteressada, a verdadeira e legítima obra de arte é existente por si mesma, na natureza, e no plano social, o verdadeiro artista não produz sua arte para agradar por interesse.

Como a criação artística é um tema por demais amplo, não entraremos neste momento no discurso da estética das obras de arte na arte.

Rohden diz que o espírito cósmico e desinteressado do homem crístico realiza “com amor e entusiasmo” as tarefas sem esperar por “resultados ou aplausos” (p. 66).

Observe-se que Rohden refere-se ao espírito cósmico como sendo o que está plenamente identificado com o espírito crístico.

E na sua concepção místico-metafísica, Rohden (p. 64) está explicando que o homem [...] “não buscou, ainda, devidamente, o reino de Deus e sua verdade ... e que todas as outras coisas seriam dadas por acréscimo” (p. 66).

Atitude interesseira no homem, em relação à natureza, deve ser mudada para atitude desinteressada. Antipatia ou intolerância pela natureza, instinto de violência ou destruição com e para ela, deve ser transformada em simpatia e respeito. E, cuidado.

Rohden termina este versículo dizendo “[...] que o Evangelho de Jesus Cristo não é apenas um caminho seguro para o Reino de Deus, [...] mas também uma norma segura para a obtenção de todas as coisas necessárias para uma vida dignamente humana aqui na terra” (p. 67).

O teólogo Carter (2002, p. 212) indica que o Cap. 6 é uma continuidade do Cap. 5. O orador é o mesmo (Jesus), a audiência (discípulos) e o local (montanha) continuam. E, o ponto central é a piedade.

Carter atenta para a roupa com que Jesus se refere à vestimenta de Salomão, e a audiência é dirigida para a criação, conclamando: “examinai/aprendei de perto dos lírios do campo” (p. 236), esta observação do teólogo não quer dizer que Jesus tenha falado da fragilidade, mas o cuidado de Deus pelas flores (p. 237).

Zeilinger (2008, p. 221) titula esta parte do Evangelho de Mateus como “O evangelho das preocupações” (Mt 6,25-34), no v. 28b está; “Observai os lírios do campo, como crescem [...]”, e comenta que na redação atual, esta seção corresponde ao “gênero literário das exortações sapienciais” (p. 223).

Ele explica que o termo “evangelho das preocupações” é usado tendo em vista que o texto é marcado pela palavra “preocupar(-se)” (p. 224).

“Obsevai os lírios do campo, como crescem [...] é um dos exemplos tirados da natureza e corresponde a uma mudança em relação aos outros versículos”, diz Zeilinger (p. 224).

Jesus exorta os discípulos e seguidores para que confiem em Deus e Sua infinita proteção, lembrando o cuidado do Creador, narrando-lhe a parábola dos lírios do campo, frágeis seres da natureza existentes pelo poder de Deus, tanto mais o fará aos seres humanos que fazem a vontade d’Ele.

Paz na Terra a todos os seres que, de boa vontade vivem e cumprem o Reino de Deus.

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