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SUMÁRIO

CAPÍTULO 1 Lutas simbólicas em torno da música popular brasileira.

3.1 Um sambista osso duro de roer

3.1.2 Benito a todo vapor

Após o insucesso de seu disco de 1971, Benito conseguiu no ano seguinte gravar um novo álbum pela mesma gravadora, intitulado Ela (PAULA, 1972, LP), que novamente apresentava um repertório eclético, contendo sambas, baladas românticas, um frevo e um baião. Contudo, apesar dessa semelhança, o

disco de 1972 parece ser fruto de uma concepção diferente daquela do LP de estreia do artista de Nova Friburgo. Isso se percebe, sobretudo, pelo fato de que nele não havia mais canções de sucesso da época e sim um número maior de canções inéditas: quatro delas eram de autoria do próprio Benito, outras três foram compostas por Carlos Magno, que, segundo Araújo (2007, p. 106), era um músico que trabalhava com Benito nas noites de São Paulo50, além da canção “É pranto”, que foi composta por José Wilson, Adilson Salvador e Barbosa. Quanto às demais, três delas eram versões de canções mais antigas que, diferentemente do disco anterior, não eram os “grandes sucessos do momento”. São os casos de “Fale baixinho” (Portinho / Heitor Carrilho), presente no LP A noite do meu bem de Elza Laranjeira (1960, LP); “Maria do céu” (René Bittencourt / Raul Sampaio), gravada por Orlando Correa (1958, LP); e “Fui eu” (Aloysio Figueiredo / Nelson Figueiredo), incluída no disco Uma noite no Cave de Almir Ribeiro (1957, LP). Além dessas, havia ainda uma versão do samba “Antonico”, composto por Ismael Silva e gravado por Alcides Gerardi (1950, LP). Merece destaque também o fato de que, se no disco de 1971 apenas duas canções poderiam ser consideradas como samba, metade do repertório do LP Ela é composto de sambas: “Violão não se empresta a ninguém”, “Antonico”, “Quem vem lá”, “O bom é o Juca”, “Formiga desunida” e “Ela”.

Tais características sugerem que o que estava orientando a produção desse disco não era o desejo de fazer sucesso através da regravação de canções consagradas no mercado da música popular daquele período, mas um esforço de dar legitimidade a Benito di Paula. A inclusão de “Antonico” talvez seja o sinal mais claro disso, já que esse samba havia sido incluído no show Fa-tal – Gal a todo vapor da cantora Gal Costa, um dos mais importantes acontecimentos musicais daquele ano (ZAN, 2010, p. 165), lançado posteriormente em LP

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As canções compostas por Benito eram “Violão não se empresta a ninguém”, “Quem vem lá”, “Frevo gingado” e “Ela” e as compostas por Carlos Magno eram “O bom é o Juca”, “Paraíba” (em parceria

(COSTA, 1971, LP). Na versão da cantora, “Antonico” recebeu um tratamento musical que lhe conferiu um caráter bastante melancólico que fez com que o drama vivido pelo personagem da canção se transformasse em uma metáfora do drama que o Brasil enfrentava sob o jugo da ditadura militar. Era um fonograma, portanto, que se inseria num contexto de contestação política e que, também por isso, alcançava um alto grau de consagração no campo. Com isso, ao também incorporar essa canção a seu repertório, interpretando também com considerável melancolia, era como se Benito estivesse buscando se aproximar do segmento consagrado da MPB, do qual Gal Costa fazia parte.

Outra canção desse disco que sugere esse mesmo tipo de aproximação com a MPB é “O bom é o Juca”, de autoria de seu companheiro Carlos Magno. Conforme a análise de Araújo (2007, p. 105-6), sua letra empregava o mesmo recurso da linguagem da fresta que se fazia presente nas canções engajadas dos compositores consagrados da MPB. Essa composição se refere a um personagem chamado Juca, afirmando que “se ele for presidente, / resolve os problemas do morro de vez: / arranja remédio pra quem está doente, / arruma colégio pros filhos da gente, / só temos três bicas, coloca mais três”. Tal personagem lembra um pouco o “malandro benfeitor” da canção “Charles Anjo 45”, “Protetor dos fracos e dos oprimidos / Robin Hood dos morros, rei da malandragem / Um homem de verdade, com muita coragem”, composta por Jorge Ben e gravada em 1969 (BEM, 1969, LP).

De qualquer modo, Benito di Paula lançava a canção “O bom é o Juca” em um período no qual a imprensa nacional exaltava os altos índices de popularidade do então presidente do Brasil, Emílio Garrastazu Médici, sob o slogan de “Médici é o maior” (ARAÚJO, 2007, p. 105). Para que a crítica ao governo, portanto, não fosse prontamente identificada pelos censores, o verso final da canção afirmava que o Juca deveria ser, sim, presidente, mas da escola: “O bom é o Juca e tem que ser / presidente da escola”. Sem desconsiderar a possibilidade de Benito di Paula e Carlos Magno estarem descontentes com o

regime militar e, por isso, assumirem uma postura engajada nessa canção, também não se pode esquecer que tal posicionamento pode ter sido buscado pelo fato de que, desde a década anterior, o engajamento do artista era um sinal de distinção e acabava se constituindo como um elemento de prestígio.

A se julgar pelo crítico Aramis Millarch, parece que tais esforços surtiram efeitos, já que o mesmo teceu vários elogios ao LP e ao artista, apontando ainda outros fatores que seriam responsáveis pela qualidade do disco:

As doze músicas reunidas no álbum que se intitula ELA foram cuidadosamente selecionadas e o produtor Alfredo Borba – cujo bom gosto dispensa qualquer comentário – esmerou-se na escolha dos arranjadores que são Leo Peracchi Portinho e José Briamonte. (...) Pelos cuidados que mereceu de sua gravadora, pela qualidade fora do comum de suas interpretações, Benito Di Paula está fadado a conseguir mais um grande sucesso na carreira com este LP ELA. (MILLARCH, 11- 03-1973, p. 22)

Todavia, as previsões mais otimistas de Millarch não se concretizaram, já que o disco não foi o sucesso de vendas que o crítico imaginava, passando, por exemplo, sem ser citado pelas listagens do IBOPE ou do NOPEM. De seu repertório, a canção que parece ter alcançado maior sucesso foi o samba “Violão não se empresta a ninguém”, já que é a única canção do disco presente nas coletâneas de 1991 (Copacabana), de 1996 (Polydisc), 2002 (Som Livre) e 2009 (EMI). De qualquer modo, por mais que o LP Ela não tenha alcançado números expressivos de vendagem, ele sugere mudanças na carreira de Benito, que começava a se apresentar mais como compositor do que como crooner e também se mostrava mais próximo ao samba, tanto pela maior quantidade de canções ligadas a esse gênero quanto pelo maior destaque alcançado com “Violão não se empresta a ninguém”.