SUMÁRIO
CAPÍTULO 1 Lutas simbólicas em torno da música popular brasileira.
4.1 A Vila Isabel dá samba outra vez
4.1.2 A comunidade do samba
Por outro lado, ao mesmo tempo em que se consolidava na carreira militar, Martinho também estreitava sua ligação com o carnaval e a música popular. Isso aconteceu principalmente pelo fato de que estava surgindo em sua comunidade a escola de samba Aprendizes da Boca do Mato, da qual ele afirma ter participado desde sua fundação: “Eu saía na bateria, tocando frigideira, até que a frigideira foi proibida pela polícia. Aí, passei a tocar tarol” (CABRAL, 1996, p. 358). Por fim, de integrante da bateria, Martinho logo passou a ser um dos compositores da escola e também “puxador” do samba enredo. É o que descreve brevemente em seu samba “Poeira no caminho”, lançado no LP Tendinha de 1978, cuja letra diz: “Já cantei partido alto / Já saí na bateria / Puxei samba no asfalto / Até o romper do dia”. Ainda segundo o depoimento do sambista, essa passagem de membro da bateria para compositor aconteceu de maneira bastante natural:
A gente jogava num time de futebol que acabou virando uma ala da escola. Naquele tempo, havia aquele negócio de música de ala. Foi aí que comecei fazer uns sambinhas que a gente cantava quando voltada do futebol e que ficavam como sambas da nossa ala. (CABRAL, 1996, p. 358, grifos no original)
No ano de 1957, aos dezenove anos, Martinho conseguiu pela primeira vez colocar um samba enredo de sua autoria, composto em homenagem a Carlos Gomes, para ser desfilado pela Acadêmicos da Boca do Mato, que ainda competia pelo segundo grupo. Nos anos seguintes, Martinho voltou a vencer os concursos para a escolha do samba enredo em sua escola. Em 1959, a Boca do Mato se sagrou campeã do carnaval em sua categoria, habilitando-se para desfilar no ano seguinte junto às escolas do primeiro grupo. Nesse ano, o samba enredo, em
homenagem ao escritor Machado de Assis, também foi composto por Martinho (CABRAL, 1996, p. 358-61). Contudo, já no desfile do ano seguinte, a escola não conseguiu se manter e foi rebaixada, desfilando o carnaval de 1961 novamente no segundo grupo (MARTINHO, 1997, p. 5).
Martinho ainda continuou compondo para a Acadêmicos até 1965, mas nesse ano já estava também ligado à Unidos de Vila Isabel, transferindo-se exclusivamente para ela no ano seguinte. O sambista explica que,
naquela época, a Vila e a Aprendizes estavam percorrendo caminhos opostos. A Vila havia subido do terceiro para o segundo grupo e, depois, a Boca do Mato passou do segundo para o terceiro. (CABRAL, 1996, p. 362)
De qualquer modo, em sua entrevista, Martinho não considera que sua transferência para a Vila foi apenas decorrente das diferentes situações vivenciadas pelas duas escolas, mas interpreta sua saída da Acadêmicos como uma espécie de retribuição de favores:
Houve um problema na Associação das Escolas de Samba – não me lembro de que se tratava – que deixou a Aprendizes da Boca do Mato em situação difícil. Aí, David Correia, que não era o compositor, mas o representante da Vila na Associação, entrou firme na defesa da nossa escola. Ficamos muito gratos a ele. É bom que se diga que, naquela época, a Aprendizes da Boca do Mato era bem maior do que a Unidos de Vila Isabel. Cansamos de ganhar da Vila. Mas estávamos agradecidos a David Correia e fomos fazer uma visita à Vila Isabel. Daí em diante, quase sempre estávamos lá. Fui ficando muito amigo do David e ele acabou me convidando para entrar na escola. Naquela época, a Vila Isabel era muito desorganizada. A Boca do Mato, não. (CABRAL, 1996, p. 361-2)
Mesmo assim, em 1967, a Unidos de Vila Isabel já estava desfilando ao som de “Carnaval de ilusões”, primeiro samba enredo composto por Martinho para a nova escola, concebido em parceria com Gemeu. Também foi em referência a esse período que o sambista compôs “Boa noite”, gravado em seu primeiro LP, no qual Martinho saúda os integrantes da referida escola, lembrando ainda o fato de estar no bairro carioca onde nasceu Noel Rosa, considerado como um dos mais importantes sambistas da história da música popular brasileira.
Boa noite
Martinho da Vila Boa noite, Vila Isabel
Quero brincar o carnaval na terra de Noel Boa noite, diretor de bateria
Quer contar com a sua marcação Boa noite, sambistas e compositores
Presidentes, diretores,
Pra Vila eu trago toda minha inspiração Quero acertar com o diretor de harmonia E com as pastoras
O tom da minha melodia
Até aquele momento, percebe-se que a música popular não aparecia para Martinho como uma profissão, mas quase como um lazer, afinal compor, para ele, era praticamente uma extensão do futebol que praticava por diversão. É lógico que quanto mais ele se envolvia nas escolas, mais aumentavam suas responsabilidades e preocupações, tal como relatado pelo próprio quando de sua passagem de integrante da bateria para compositor da Aprendizes da Boca do Mato: “Já não mais ia para o desfile despreocupado como desfilava antes. Me ligava com tudo, queria saber o que estava faltando, o que estava funcionando, aquelas coisas todas” (CABRAL, 1996, p. 360). Ainda assim, Martinho parecia não alimentar a esperança de se sustentar por intermédio de sua produção de sambas, o que fez com que continuasse insistindo em sua carreira militar até o final do ano de 1968 (MARTINHO, 1978, p. 8). Mesmo depois disso, o sambista ainda duvidava de sua carreira artística, conforme se percebe numa entrevista publicada em dezembro de 1969, após já ter alcançado expressiva vendagem de seu primeiro LP. Nesse depoimento, ele afirmou que jamais imaginava que faria tamanho sucesso, pois tinha a pretensão apenas de “gravar algumas das minhas músicas, umas três ou quatro, no máximo umas cinco músicas, para gravar num disco pra guardar lá em casa” (CABRAL, 25-12-1969 a 01-01-1970, p. 5). Quando questionado sobre suas inquietações diante da possibilidade de não mais fazer sucesso, o sambista declarou: “Não, isso não me preocupa, porque o meio artístico não foi feito pra gente ficar toda a vida” (CABRAL, 25-12-1969 a 01-01- 1970, p. 5).
Mesmo com certa desconfiança, o fato é que, a partir de 1967, Martinho começou a trilhar um caminho de cada vez maior sucesso. Nesse ano, deu-se sua
primeira inserção na televisão através da classificação de “Menina moça”, de sua autoria, para o III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record. A canção foi apresentada no dia 14 de outubro com interpretação de Jamelão, acompanhado pelo Regional do Caçulinha e por um grupo de pastoras, sem, contudo, ser classificada para as finais. De acordo com Mello, apesar de Martinho, ainda “desconhecido em São Paulo”, ter voltado “para o Rio sem conseguir nenhuma repercussão para seu ‘Menina moça’”, a letra de sua composição recebeu elogios do poeta Augusto de Campos (MELLO, 2003, p. 201-2). Tal fato merece destaque uma vez que foi nesse mesmo festival que Caetano Veloso e Gilberto Gil se apresentaram respectivamente com “Alegria, alegria” e “Domingo no parque”, canções que foram vaiadas por parte do público, mas que receberam elogios do mesmo Augusto de Campos (1968), fator que contribuiu bastante para dar legitimidade à obra desses dois artistas. Além desse “prestígio” obtido, Martinho teve sua primeira composição veiculada pela televisão e também registrada no LP do festival, interpretada pelo grupo vocal O Quarteto (3º FESTIVAL, 1967, LP).
No ano seguinte, Martinho voltou a participar do festival da TV Record, classificando “Casa de bamba” no IV Festival da Música Popular Brasileira. Dessa vez, coube ao próprio compositor interpretá-la no dia 2 de dezembro, acompanhado pelo grupo Os Originais do Samba (MELLO, 2003, p. 453). De acordo com o crítico José Ramos Tinhorão, esse festival mostrava que “a geração dos compositores saídos das camadas mais baixas da população” havia sido “definitivamente afastada dos mecanismos de comunicação do disco e da TV” e que a presença de Martinho deveria ser encarada como uma “mera ‘curiosidade’, para dar um toque democrático de crioulismo ao Festival” (UM FESTIVAL, 1968, p. 55-6). Contudo, segundo Mello (2003, p. 313-4), o produtor de Jair Rodrigues, Manoel Barenbein, ao ver o ensaio de Martinho, simpatizou com sua canção e pediu-lhe autorização para gravá-la. Assim foi feito e, no ano seguinte, Jair lançou seu LP Jair de todos os sambas (RODRIGUES, 1969, LP), no qual estava gravada não só “Menina moça”, mas também “Pra que dinheiro”, ambas compostas por
Martinho. Além disso, assim como no festival anterior, a canção defendida pelo sambista foi gravada no LP do certame (IV FESTIVAL, 1968, LP), interpretada por José Ventura. O sambista de Vila Isabel aumentava, com isso, sua inserção na indústria do disco, ainda que por intermédio de outros intérpretes.