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SUMÁRIO

CAPÍTULO 1 Lutas simbólicas em torno da música popular brasileira.

1.2 Mas não me altere o samba tanto assim

1.2.1 O samba caiu na moda!

Após esse percurso através do qual uma parte da canção popular brasileira foi se transformando no segmento “legítimo” e de “bom gosto” da MPB, começava a surgir, nos anos 1970, uma série de canções ligadas ao samba que voltava a receber críticas de jornalistas, de acadêmicos e até mesmo dos próprios músicos. É o caso, por exemplo, de Tom Zé21 com sua canção “Lá vem cuíca”, gravada em seu LP de 1978 (ZÉ, 1978, LP), cuja letra pode nos conduzir na análise desse cenário.

Lá vem cuíca

Tom Zé / Vicente Barreto O samba caiu na moda, na esquina e na escola,

Tamborim ficou de fora, pandeiro pedindo esmola.

E lá vem cuíca e lá vem cuíca. Lá vem cuíca e lá vem cuíca.

O piano da criada já foi no psiquiatra, O reco-reco que padece, encostou no INPS.

E lá vem cuíca e lá vem cuíca. Lá vem cuíca e lá vem cuíca.

As violas reunidas contrataram advogado

E levaram no ministério um grosso abaixo-assinado. Uma reza milagrosa, eu já fiz até promessa

Pedindo a São Noel Rosa pra socorrer o samba depressa.

E lá vem cuíca e lá vem cuíca. Lá vem cuíca e lá vem cuíca.

Pode ser um samba triste, partido-alto ou maxixe, Pode ser um samba à toa, a malvada não perdoa.

E lá vem cuíca e lá vem cuíca. Lá vem cuíca e lá vem cuíca.

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Ainda que a canção de Tom Zé expresse elementos do debate simbólico entre o samba da década de 1970 e a MPB, convém destacar que, em 1978, esse cancionista já não fazia mais parte desse segmento de prestígio. Desse modo, há indícios de que os valores legados pela instituição MPB não ficavam circunscritos apenas aos artistas a ela ligados, mas orientavam a produção musical do período de maneira

Um primeiro aspecto apontado por essa canção é a popularidade do samba, que “caiu na moda” nos anos 1970, tanto na “escola”, possivelmente se referindo a todo um circuito musical universitário onde o samba já se fazia presente desde a década anterior, quanto na “esquina”, nas ruas, ou seja, em espaços ainda mais amplos. Tal opinião também se encontra presente em uma matéria do jornalista Tárik de Souza quando narra que “a noite em São Paulo parece ter agora um único senhor: o samba” (SOUZA, 7-11-1973, p. 96) e que esse gênero também se fazia presente “na linha de frente das paradas de sucessos” e em “copiosas rodas de sambas dos clubes e churrascarias cariocas” (SOUZA, 15-10-1975, p. 121-2).

Ao se comparar duas análises de Sérgio Cabral, distantes dez anos uma da outra, sobre a situação do samba na vida musical brasileira, percebe-se que a popularização deste gênero foi um acontecimento datado dos anos 1970. Na primeira delas, uma matéria de sua própria autoria publicada no jornal Pasquim no ano de 1969, nota-se sua preocupação com o fato de que os sambistas Cartola, Zé Keti, Nelson Cavaquinho e Ismael Silva, que haviam alcançado elevado prestígio nos anos 1960, estavam praticamente desaparecidos do cenário musical ao final daquela mesma década. Cabral considerava esse dado como sintomático de um desaparecimento do próprio samba, intitulando sua matéria como “O samba saiu de moda” (CABRAL, 06-1969, p. 15), ou seja, exatamente o oposto do que se ouve na canção de Tom Zé.

Por outro lado, em uma entrevista concedida por ele à revista Veja no ano de 1979, Cabral afirmava que o samba era, naquele momento, “uma moda em expansão”, uma vez que, tanto no Rio de Janeiro quanto em São Paulo, as gafieiras estavam tomando o espaço até então ocupado pelas discotecas. O jornalista lembrava ainda o considerável número de novos sambistas surgidos na década, dentre os quais citava Beth Carvalho, Jorge Aragão, Nei Lopes e Wilson Moreira, além de artistas ligados a outros gêneros, como Gonzaguinha e Zezé Mota, que aderiram ao samba durante o referido período. Por fim, Sérgio Cabral

concluía que o sucesso do samba era “um fenômeno de todos os anos 70, onde o samba entrou – e nunca mais saiu – das paradas de sucessos” (CARVALHO, 1979, p. 3-4).

À semelhança de Sérgio Cabral, o texto “Samba, artigo de consumo nacional”, da jornalista Margarida Autran, publicado originalmente no ano de 1979, também associa o sucesso do samba aos anos 1970. A autora inicia seu texto afirmando que “esta foi a década do samba” e ainda destaca o ano de 1975 que, em suas palavras, “ficou definitivamente marcado, para as gravadoras, como o ‘ano do samba’” (AUTRAN, 2005, p. 72).

No que se refere à popularidade do samba, as afirmações de Tárik de Souza, Sérgio Cabral e Margarida Autran podem, pelo menos em parte, ser confirmadas pelas informações presentes no trabalho de Eduardo Vicente. A partir dos dados do NOPEM22, o pesquisador elaborou uma tabela de vendagem de discos, separando-os entre os segmentos repertório internacional, trilhas de novelas, pop romântico, romântico, MPB, samba, rock, infantil, sertanejo, soul/rap/funk e disco. Através dessa tabela é possível observar que, entre os anos de 1968 e 1971, houve uma redução na quantidade de discos de samba entre os mais vendidos, começando com oito, diminuindo para seis, depois para cinco e, finalmente, três. Já no ano de 1972, esse número dobrou, aumentando ainda para sete no ano seguinte. Nos anos de 1974, 1975 e 1976, com, respectivamente, nove, nove mais uma vez e, depois, onze discos entre os mais vendidos, o samba superou o segmento romântico e se tornou o segundo segmento com mais citações na lista, ficando atrás apenas do repertório internacional. Já a partir de 1977 o gênero começou a apresentar certo declínio, empatando em nove discos com o segmento romântico neste ano e sendo por ele superado nos dois anos seguintes, contando com apenas cinco discos entre os mais vendidos em 1978 e

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O NOPEM (Nelson Oliveira Pesquisas de Mercado) é uma empresa de pesquisa de mercado que trabalha exclusivamente com a área fonográfica e que publica, desde 1965, uma lista com os cinquenta

voltando a nove no ano seguinte. Já em 1980, o samba teve nova queda, apresentando novamente cinco discos entre os mais vendidos e sendo superado também pelo segmento MPB (VICENTE, 2002, p. 226-7). Mesmo com esta diminuição ao final da década, Vicente partilha da opinião dos outros autores citados e afirma que possivelmente tenha sido o samba “o grande fenômeno de massificação do mercado musical dos anos 70” (VICENTE, 2002, p. 76).