5. OS DISCURSOS DE BENTO XVI NO V CELAM EM APARECIDA
5.1. BENTO XVI E OS JOVENS NO CELAM
No discurso de abertura do CELAM em Aparecida, ao final Bento XVI faz uma breve menção aos jovens considerados “amigos de Cristo”, “não temem o sacrifício, mas, sim, uma vida sem sentido”. Afirma que os “jovens encaram a existência como uma grande descoberta, não se limitando às modas e tendências comuns” e os incentiva ao enfrentamento das “fáceis ilusões da felicidade imediata e dos paraísos enganosos das drogas, prazer, álcool e todas as formas de violência” (BENTO XVI, 2007, § 5).
Notamos aqui que a concepção de jovem não é descritiva, mas prescritiva. Bento XVI constrói um modelo de jovem como aquele que renuncia, sacrifica seus desejos em nome de um bem maior, aquele que enfrenta as tendências seculares rejeitando-as em seu conjunto. Em maio de 2007 diante de uma plateia estimada de 35 mil jovens advindos dos Estados brasileiros e da América Latina e selecionados por seu engajamento paroquial e por sua liderança, Bento XVI fez seu pronunciamento tendo como objetivo convencer os jovens da sua importância enquanto membros da ICAR e da sociedade. Representantes das comunidades novas, as associações privadas de fiéis como a paulistana Aliança de Misericórdia e a cearense Shalom, por exemplo, diziam da importância de “escutar o papa e achar uma direção em suas vidas”. O evento foi relido pelos jovens que o compararam a um “show de rock” ou “final da copa do mundo”57. Entre bandas gospel católicas nos ritmos de rock, funk e axé, Bento XVI levantou questões morais como o exercício da castidade, do casamento e da família:
[...] O matrimônio é uma instituição de direito natural, que foi elevado por Cristo à dignidade de Sacramento; é um grande dom que Deus fez à humanidade. Respeitai- o, venerai-o. Ao mesmo tempo, Deus vos chama a respeitar-vos também no namoro e no noivado, pois a vida conjugal que, por disposição divina, está destinada aos casados é somente fonte de felicidade e de paz na medida em que souberdes fazer da castidade, dentro e fora do matrimônio, um baluarte das vossas esperanças futuras (BENTO XVI, 2007, Pacaembu).
Bento XVI convoca os “jovens da Igreja” para a missão de recuperar outros jovens que “andam como ovelhas sem pastor” para viverem sob “valores morais universais” e aqueles que estão preparados dentro da “vida cristã” não serão “presas fáceis do laicismo e materialismo” muito presentes no mundo secular. O laicismo58 identificado aqui não é o mesmo pensado por Pio XI que o associava a “ideia comunista”, mas vai na direção e é muito similar ao que a ICAR no Brasil, na década de 30, observava: como um “mal moderno” reverenciando a “liberdade absoluta do indivíduo”. Emancipado de Deus e rompendo com a tradição cristã o laicismo, também na acepção de Bento XVI, abandona os “ensinamentos sólidos do cristianismo que levam à estabilidade social” e constrói um ordenamento social instável enfraquecendo assim o “principio de autoridade” (DIAS, 1996). Outro aspecto que caracteriza o pronunciamento no Pacaembu é a ideia de construção de valores morais universalmente válidos, isto é, um conjunto de regras relacionado com ações permitidas ou proibidas, realizadas universalmente e incondicionalmente válidas. Há aqui uma tendência constante do catolicismo em universalizar seus próprios valores morais e legitimá-los independentemente das circunstâncias históricas em que foram produzidos.
No entanto, este modo de pensar a juventude como um “todo homogêneo” possui a desvantagem de não entender o jovem nas suas diferentes realidades. Na medida em que enfatiza um princípio explicativo único do “ser jovem”, Bento XVI contribui para formar uma visão uniformizadora destes sujeitos. Por exemplo, manifestações contrárias à visita também foram detectadas fora do estádio. Grupos de manifestantes reagiam contra com dizeres como: “O Papa mente” e “A religião é uma farsa”59. Estas reações pró e contra Bento XVI acenam para uma sociedade de transição como a brasileira. Os jovens de Bento XVI são um receptáculo ideológico das suas esperanças e medos:
“[...] Muitas vezes sentimos trepidar nossos corações de pastores, constatando a situação de nosso tempo. Ouvimos falar dos medos da juventude de hoje. Revelam- nos um enorme déficit de esperança: medo de morrer, num momento em que a vida está desabrochando e procuram encontrar o próprio caminho da realização; medo de sobrar, por não descobrir o sentido da vida; e medo de ficar desconectado diante da estonteante rapidez dos acontecimentos e das comunicações”. (Idem, 2007).
Este excerto diz respeito aos três medos dos jovens, muito similar ao que Novaes (ALMEIDA; EUGENIO, 2006)60 chama de “marcas geracionais”. O medo de sobrar refere-
58 O laicismo pode ser identificado como uma atitude de protesto contra os valores universais propostos pela ICAR. (PACOMIO, 2003).
59 Ver Folha On-Line, 10 maio 2007. Acesso em 09 jan. 2013. 60
Conferir texto de Regina Novaes sobre políticas públicas de juventude, balanço e perspectivas in: http://www.abep.nepo.unicamp.br. Acesso em 09 jan. 2013.
se ao mundo do trabalho em que não há garantias de empregabilidade mesmo com diploma em mãos. O segundo temor é o medo de morrer muito ligado a correr riscos e sofrer com a violência urbana e o medo de se tornar desconectado ou excluído do chamado mundo digital. Comumente chamada de geração Y61 (CARVALHO, 2011), jovens situados entre 18-30 anos, nascidos no final da década de 80 são considerados a geração da internet ou aquela que vivenciou e vivencia os avanços tecnológicos frutos da modernidade contemporânea. Esta geração conectada vai priorizar mais a realização pessoal e construir para si um rol de expectativas que não mais se afinam necessariamente com a família ou religião. Ao contrário, priorizam as relações de amizade, a televisão, a internet como ferramentas de construção de significados e formação de identidades cada vez mais importantes e acessíveis. Segundo Novaes (2006), a juventude vive “marcada por ambivalências. Ser jovem é viver uma contraditória convivência entre a subordinação à família e à sociedade e ao mesmo tempo, grandes expectativas de emancipação”. Vivem a partir dos seus próprios interesses, hiperconectados, versáteis etc.