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Academic year: 2021

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(1)15. INTRODUÇÃO. Esta pesquisa estudou quatro comunidades católicas leigas na região do Grande ABC Paulista. A comunidade Fanuel 1, também chamada de “comunidade em células”. Fundada em 1996 por um leigo, casado, S.F.P. e sua esposa, co-fundadora. Comunidade situada na periferia de Santo André mais precisamente na região do parque regional e botânico do Pedroso, bairro Represa. Com quinze anos de existência, a comunidade instalouse também em Campo Grande, Mato Grosso e na cidade de Botucatu, interior de São Paulo. A comunidade Chagas de Amor 2 em Santo André, fundada em 2004, por R.A., leigo, casado, coordenador regional da RCC da região de Utinga (SA) e militante também na paróquia Santo Antônio do Arraial no parque das nações em Santo André. Comunidade Coração Sagrado 3, situada na cidade de Ribeirão Pires e fundada por E.S.S. em 2009. A comunidade Árvore da Cruz 4, fundada em 2003 pelo leigo consagrado R.R.S. está situada num bairro de periferia urbana de São Bernardo do Campo. Como esta tese tenta demonstrar, são formas organizacionais alternativas, se comparadas com as estruturas paroquiais cujo domínio está sob orientação do padre católico. Estas comunidades leigas, embora estejam atuando sob o olhar do clero local, possuem sua própria forma de organização e autonomia. Autonomia de se organizar a partir dos seus próprios recursos: financeiros e simbólicos. Autonomia de criar suas maneiras de culto e ritos e, por fim, autonomia para estabelecer “networks afins”, sem perder o vínculo com a hierarquia católica. Isso nos levou a pensar a discussão sobre a ideia de autonomia num contexto mais amplo. Hoje existe um consenso entre estudiosos da sociedade contemporânea 1. Conferir site www.comunidadefanuel.com. Conferir site www.chagasdeamor.com.br. 3 Conferir site www.coracaosagrado.com.br. 4 Conferir site www.arvoredacruz.com.br. 2.

(2) 16. (GIDDENS, 1991; TOURAINE, 2002; DUMONT, 1985) de que o seu centro mais categórico é a gradativa autonomia alcançada pelos diversos setores sociais. O ser humano moderno descobre sua subjetividade. O avanço da autonomia se estendeu também na realidade econômica, política e religiosa, o que permitiu visualizar que o exercício da autoridade, as estruturas sociais e as riquezas produzidas eram resultados de decisões humanas (GIDDENS, 1995, p. 222-223). Buscam-se linhas de conduta mais afinadas com as expectativas individuais e sociais contemporâneas. Como cenário histórico, essa nova consciência determina os “nossos olhares” em relação ao sistema social e em particular ao religioso e esse processo emerge como irreversível em se tratando de realização humana. Este movimento contemporâneo autonomizador não mumifica a experiência religiosa o que, além de tornar verossímil sua compreensão, mostra sua fluidez constante. Por outro lado, e em sintonia com a contemporaneidade, percebemos que não há uniformidade e homogeneidade na transmissão das normas e orientações dos indivíduos. Estes acabam por traduzir estas normas e orientações pautadas em suas próprias subjetividades ou como elucida Dumont, que o indivíduo moderno é aquele que está “no mundo”, construindo a sua própria identidade. Os espaços por ele construídos tornam-se domínios muito peculiares, muito diferentes das chamadas sociedades tradicionais em que os indivíduos estavam cimentados, articulados e integrados, por exemplo, ao sistema religioso (DUMONT, 1985, p. 33-35). Na situação moderna verificamos um estágio de desenvolvimento religioso muito diferente daquelas configurações societárias pré-capitalistas, aonde o elemento central que sustentava estas sociedades era a separação entre sagrado e profano (ELIADE, 1999; DURKHEIM, 1989). Tal separação se encontra na modernidade contemporânea diluída socialmente, e mesmo que a instituição religiosa tente garantir esta separação através da sua ortodoxia, os fiéis conseguem romper com este dualismo selecionando-os de modo a adaptá-los às suas vidas. A ruptura deste dualismo pré-moderno marca a fase de privatização da religião na contemporaneidade. Esta situação acentua a instabilidade de qualquer tipo de tradição religiosa que queira se firmar através da especialização e instrução dos seus fiéis. Primeiro, porque ela não é a única detentora do saber e de um sistema de plausibilidade que constrói significados; segundo, porque esta segmentação societária característica do nosso tempo, libertou esferas da vida, do controle advindo de estruturas de significado institucionalmente pré-definidas. Estes espaços privados, isentos não totalmente do controle da instituição - é o que Berger e Luckmann (1991) designam por “esfera privada”. Tais comunidades católicas laicas estudadas nesta pesquisa assemelham-se aos espaços privados. Nós aqui arriscaríamos.

(3) 17. um termo e o chamaríamos de “espaço de autonomização religiosa” que o clero católico não alcançaria com seus aparatos institucionais e uniformizadores. São nestes “espaços”, nestes arranjos comunitários alternativos católicos que o agente religioso ou o católico leigo constrói maneiras de conceber sua crença de forma autônoma e que corresponda mais à sua cotidianidade. Isso implicaria a abertura de inusitados caminhos de reflexão da doutrina e da prática religiosas.. Paralelamente à tradição oficial da Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR), temos as “tradições” em vias de construção pelos católicos leigos destas comunidades que, (re)elaboram por si mesmos com seus próprios recursos materiais e simbólicos – a doutrina religiosa católica. Estas “tradições”, por sua vez, são construídas a partir de agentes religiosos que estão na base do catolicismo. Se a tradição oficializada pela ICAR funda-se numa autoridade externa ao indivíduo, que o controla e o protege, as “tradições” possuem mais a face daqueles que de fato, recompõem e reformulam a doutrina religiosa recebida a partir dos seus próprios universos lingüísticos e culturais. Portanto, esta pesquisa analisou a articulação interna organizacional dos arranjos comunitários alternativos católicos na região do grande ABC, por meio de fatores como: orientação para tarefas ou pessoas, grau de hierarquia, flexibilidade nas decisões, descentralização, criação de redes sociais, uso da mídia “internet (blogs, facebook, twitter etc)”, individualismo e coletivismo e capacidade de adaptação e inovação (flexibilidade organizacional).. SOBRE O CONCEITO DE “ARRANJO COMUNITÁRIO ALTERNATIVO CATÓLICO” ARRANJO:. Os. grupos. católicos. leigos. estudados. ordenam. ou. conciliam/combinam seus próprios anseios, expectativas e autonomia com a tradição católica oficial, que por sua vez está vinculada a um ordenamento religioso mais fixo no tocante às doutrinas e dogmas. Estes arranjos leigos possuem maior liberdade que o agente especializado, no caso o clero católico. Quem produz arranjos como estes, aprenderam a utilizar/manipular a simbologia católica oficial à sua maneira. Estas comunidades leigas possuem a sua própria linguagem religiosa e a utilizam com certo grau de criatividade, seja nos seus rituais, nos seus discursos ad-intra comunidade, no uso dos símbolos religiosos, seja na sua articulação e diálogo com a modernidade contemporânea. Não se pode constituir um arranjo como estes se os seus militantes não possuem um conhecimento prévio da doutrina católica e de sua administração. Cada arranjo busca, ao seu modo, o melhor.

(4) 18. equacionamento/equilíbrio da doutrina religiosa católica com determinada situação da vivência cotidiana manifestada por aqueles que os procuram. Uma de suas características é a busca da variedade simbólica (uso dos santos; rituais de cura e libertação transpassados por músicas de estilo country, reggae, samba; prédicas temáticas e que não se repetem em cada encontro) no que já está sendo utilizado sem, no entanto, romper com as estrutura prefixada do catolicismo tradicional. O público-alvo trabalhado pelos arranjos deve ser direcionado para um elemento principal, como por exemplo, a “cura e restauração do sujeito egoísta” para que aquele não tenha sua atenção desviada. Por fim, o conceito “arranjo” nos faz pensar na idéia de hibridismo de Nestor Canclini (1997). São estruturas organizacionais que constroem práticas religiosas que combinam elementos do catolicismo tradicional, como o culto aos santos, a Virgem Maria e à cruz de Jesus, com formas e métodos contemporâneos senão corporativos – principalmente o uso da imagem e da mídia (internet, blogs, twitter, youtube) – gerando sínteses imprevistas, mas controladas por estes grupos. COMUNITÁRIO. – O conceito de comunidade é utilizado aqui porque cria uma. relação aonde os fins são racionalmente sustentados pelos seus participantes principais, as lideranças. Todos “participam” utilizando e potencializando suas qualidades subjetivas. Criam-se laços de amizade a partir das condições de trabalho ou de modo de pensar ad-intra grupo. ALTERNATIVO. – o conceito ligado ao anterior se refere à ideia de opção, de. alternar a maneira de veicular o catolicismo na modernidade contemporânea. Alterna-se o que? Atitudes, gestos, rituais, visão dos símbolos religiosos etc. É um catolicismo que se quer diferente da estrutura paroquial, mas sem romper com ela. Alimenta-se da cosmovisão da estrutura carismática da RCC, sobretudo quando lida com a idéia de “glossolalia” e de “cura e libertação”, mas sem vínculos estreitos. Visa atingir interesses dimensionados em sua missão e visão elaborados pelos seus fundadores e co-fundadores. Mesmo reproduzindo algumas práticas ritualísticas e jargões da RCC, confundindo-se com ela, afirmam sua própria identidade de grupo católico. Estes são instrumentos criados por alguns leigos católicos para externar sua autonomia, sua concepção de mundo e de religião comprometido com um atendimento mais focado nas necessidades e conflitos interiores dos sujeitos contemporâneos. A expressão alternativa caracteriza um tipo de catolicismo não afinado ao catolicismo tradicional no que se refere ao modelo de estrutura paroquial clerical e o tipo de atendimento à clientela católica difundida nestes lugares. Este catolicismo alternativo representa uma opção pelo conteúdo que oferece e pelo tipo de abordagem realizada sem, no entanto, dispensar o vínculo com o catolicismo convencional e institucional. Além disso, estes arranjos.

(5) 19. possuem estrutura administrativa própria, livros e boletins informativos, sustentando-se a partir da venda do material produzido, doações e ajuda financeira advinda não de paróquias, mas de membros simpatizantes e que mantêm certo vínculo com eles.. A pesquisa em questão efetivou-se em três cidades da região do ABC Paulista, Santo André, São Bernardo do Campo e Ribeirão Pires (ANEXO A). As cidades de Santo André 5 e São Bernardo do Campo foram marcadas economicamente pela produção automobilística, química, têxtil e de móveis, emancipando-se gradativamente com a expansão da industrial e comércio desde fins do século 19. Na década de cinquenta do século vinte, estas cidades sofreram uma mudança sócio-econômica importante, de modo que os setores automobilísticos, siderúrgicos e mecânicos expandiram-se criando um parque industrial, potencializando assim o crescimento regional. Esta expansão sócio-econômica regional atingiu seu auge na década de setenta do século XX. No entanto, a recessão dos anos oitenta favoreceu a crise de tais setores, com o surgimento do movimento operário, das greves entre anos setenta e oitenta (78-80) e o despontar do movimento sindical e do partido dos Trabalhadores (PT) (LIMA, 1999; GIANNOTTI, 2007). Atualmente, a desaceleração do crescimento industrial ou sua pulverização a partir dos anos noventa, conta com a emancipação do setor de serviços e comércio (PRATES, 2005). Situada entre São Bernardo do Campo e Mogi das Cruzes, Ribeirão Pires 6 cresceu e se desenvolveu com a construção da ferrovia Santos- São Paulo utilizada para o escoamento de matérias-primas – madeiras, tijolos e telhas. Nota-se ainda que as olarias foram as principais fontes de progresso da cidade a partir da segunda metade do século XIX. Na década de quarenta, Ribeirão tornara-se cidade turística, com a construção de casas de veraneio para moradores provenientes da Baixada Santista, em busca de áreas de lazer. Emancipou-se enquanto município no início da década de cinquenta. Enquanto, neste mesmo período, o crescimento industrial era a tônica nas demais cidades da região, Ribeirão Pires não foi afetada, devido a localização e a topografia acidentada. Embora tendo uma economia que se assenta na produção de móveis e alimentos, atualmente tornou-se uma estância de eventos turísticos – como, por exemplo, a festa do chocolate que ocorre todo ano no inverno. Também chamada de cidade-dormitório, porque a população economicamente ativa desloca-se ou para São Paulo, ou outras cidades da região. 5. Verificar site oficial da cidade de Santo André: http://www2.santoandre.sp.gov.br. Acessado em 12/09/11. Conferir site da prefeitura municipal de Ribeirão Pires: http://ribeiraopires.sp.gov.br.. 6.

(6) 20. Os arranjos católicos são organizações católicas de grande importância, pois demandam crescimento geográfico acelerado atestando cada vez mais a paisagem religiosa regional do Grande ABC. Os arranjos estudados, embora sejam organizações de pequeno porte e possuam visibilidade, também não dispõem de estatutos que os oficializam juridicamente, estando sujeitos ao monitoramento/acompanhamento de sacerdotes católicos indicados pelo bispo diocesano local. A partir do exposto, analisamos o público-alvo destes grupos e como eles se organizam para capturar a atenção daqueles. A comunidade Chagas de Amor, embora liderada por jovens entre vinte e cinco a trinta anos, atua com um público mais eclético – geralmente adultos de trinta e cinco a quarenta anos -, com programação semestral das atividades realizadas na chamada “casa de missão” e no salão da paróquia Santo Antônio do Arraial. A Fanuel possui uma atuação descentralizada - reúnem-se em casas de famílias pelo bairro, construindo assim uma rede de comunicações. Este catolicismo leigo desdobra-se em células – cada casa é uma célula em potencial e tem por finalidade atingir os católicos “afastados” e os “descrentes”. A comunidade Árvore da Cruz desenvolve suas atividades na sua própria casa de missão com os chamados “aconselhamentos espirituais”. O foco da comunidade Coração Sagrado é trabalhar alguns eventos com os jovens: retiros, cristotecas, aulas de inglês, de dança country e de violão para crianças, jovens e adultos, Preocupa-se na captação de jovens: “jovens para Cristo”. Neste sentido, perguntamos ainda por que a missão destas organizações é diferenciada no tocante ao público-alvo? Outra questão foi a importância e o impacto dos lugares de celebração dessas arquiteturas comparando-as com as formas institucionalizadas do catolicismo tradicional. A comunidade Fanuel, por exemplo, possui uma chácara. Já a Comunidade Coração Sagrado em Ribeirão Pires se reúne em uma casa alugada com três andares de estilo arquitetônico “alemão”. Os arranjos católicos investigados nesta pesquisa constroem para si uma tradição tendo por base, a figura do seu fundador, tensionada com a ICAR local. Embora pautados muito mais na subjetividade e na “experiência do Espírito Santo”, possuem regras e normas de comportamento dos seus membros, além de uma pequena estrutura e planejamento organizacionais. Falam a partir de um “lugar social”, utilizando seus próprios costumes, seus documentos e seus agentes transmissores (suas lideranças). Sob um conjunto dos símbolos católicos, os membros transmitem a identidade do grupo ao seu público-alvo integrando-os com elementos culturais contemporâneos, combinando a linguagem, os hábitos, a maneira de ser católico numa realidade em constante mutação..

(7) 21. A tradição religiosa católica institucional sofre transformações e inovações ao longo da história. Na medida em que precisa esclarecer seu patrimônio religioso ao homem/mulher contemporâneos, adapta-se às condições históricas, culturais e políticas esforçando-se para não diluir-se na lógica secular o que lhe comprometeria a “identidade”. Podemos dizer que, do ponto de vista clerical, o catolicismo sobrevive da tensão com a modernidade contemporânea manifestada em dogmas, ritos e também de sua própria configuração interna. Por outro lado, os leigos católicos, por estarem mais em contato com o entorno social, sofrem mais diretamente sua influência, pois o grau de passividade e submissão diante do clero católico diminuiu em decorrência das mudanças de mentalidade da contemporaneidade. Outra questão também emerge: o enfoque dado pelo Concilio Vaticano II, incentivando os leigos a um “novo protagonismo” no mundo moderno, talvez não seja suficiente para apagar a idéia de que o “leigo só é tal por obediência ao clero”. Os leigos destes arranjos católicos, em sua maioria jovens, manifestam sua autonomia de pensar e agir e construir seus próprios espaços de significação simbólica. Quanto aos aspectos sociais, esta pesquisa identificou ao menos três deles: Em primeiro lugar, as redes de integração, isto é, os vínculos de amizade adquiridos a partir da convivência comunitária; Em segundo, o forte engajamento das suas lideranças nas atividades religiosas das suas comunidades de modo que os fundadores deixaram o mercado de trabalho, optando por viverem “da missão”. Fizeram da comunidade o seu trabalho. Por fim, analisou a estrutura destas organizações leigas vinculadas à figura e o carisma do fundador. Considerando o plano estratégico de cada um destes arranjos, eles possuem visão, missão e objetivos a alcançar e o seu sucesso dependerá de como seus membros se comportam em relação às metas e aos objetivos da organização. Esta pesquisa encarou o problema da ausência de estudos mais consistentes sobre estas comunidades. Há uma diversidade de hipóteses elaboradas por pesquisadores que indicam caminhos de compreensão do fenômeno religioso aqui estudado. Esta pesquisa deparou-se com problemas empíricos como, por exemplo, qual o tipo de catolicismo extraparoquial apresentado pelos arranjos: tradicional ou moderno? Somente a observação e comparação dos fatos e o conhecimento adquirido empiricamente puderam acenar um caminho de compreensão razoável. Deparamo-nos com um problema conceitual: podemos chamar este modelo de catolicismo laical de arranjos alternativos? Seria este o conceito mais apropriado? Qual seria então o seu significado mais exato?.

(8) 22. Tivemos também um problema teórico, isto é, a explicação conjuntural deste fenômeno utilizando um arcabouço teórico adequado. Para relacionar as circunstâncias históricas do catolicismo na atualidade com o catolicismo oficial, estruturado em torno de Bento XVI e seu predecessor João Paulo II, utilizamos a leitura troeltchiana da história. Ao reconhecer o impacto das circunstâncias históricas sobre a formação do cristianismo, Troeltsch sublinha que cada evento religioso deve ser visto em relação ao todo, ao seu contexto histórico. Aplicando o tipo ideal weberiano, Troeltsch (1987) contrasta diferentes formas ou configurações do cristianismo: Igreja e Seita, e que podem ser visualizados tanto em ambientes protestantes quanto católicos. Neste sentido, tais categorias foram utilizadas no entendimento dos arranjos católicos identificados aqui como um tipo misto de Igreja-seita, com tendências para o segundo modelo. Outros dois contributos teóricos forneceram as bases para o entendimento destes grupos, analisando-os nas perspectivas de Durkheim (1989) e Bourdieu (2000; 2008). As discussões em torno da coesão, do sagrado-profano, dos estados coletivos de consciência foram emprestadas do quadro conceitual durkheimiano a fim de compreender os aspectos morais e simbólicos - desses arranjos católicos. Revisitamos ainda, os principais conceitos bourdianos, tais como campo, capital e habitus e sua implicações e aplicabilidade no âmbito dos estudos do nosso objeto de pesquisa. De forma geral, propusemos questões que acentuaram mais de perto esta articulação conceitual Durkheim-Bourdieu com os arranjos católicos: Quais afinidades ou tensões entre as lideranças desses arranjos com a autoridade da ICAR regional? Podemos chamar estes arranjos de comunidades morais em estados de consciência coletiva? Quais fatores serviram de coesão ao grupo, já que se trata de um fenômeno que acontece em um contexto moderno secularizado em que as relações são mais fluídas e pouco afeiçoadas ao estabelecimento de relações mais sedimentadas e duradouras? Como foram constituídos seus sistemas simbólicos e como estes os definiram? A justificativa principal que acionou este estudo surgiu das relações que se efetivaram na modernidade contemporânea entre tradição religiosa constituída historicamente e a emancipação dos leigos. Os argumentos da autoridade e da tradição pesam pouco em nossos dias, o discurso do magistério soa ineficaz porque demasiadamente teórico, formal, universalizante e uniformizador, para não dizer também controlador 7 das possíveis condutas ambivalentes. Se pensarmos que a doutrina religiosa é demasiada teórica e formal para o leigo 7. Cabe ao magistério a responsabilidade particular de discernir diante das várias expressões populares as que respondem melhor à doutrina religiosa. Podemos verificar esta mentalidade em um texto da CNBB que ainda faz a distinção entre igreja docente e igreja discente. Conf. doc. 62 da CNBB, sobre a missão e ministérios dos cristãos leigos e leigas (1999)..

(9) 23. católico, de modo a não se adentrar nos diversos setores da sua vida concreta, isso não lhe serviria de pressuposto ao desencadeamento. de uma ação de busca de sentido e. discernimento da doutrina católica - em outras fontes religiosas ou não que a sociedade oferece? Se muitos aspectos de tal doutrina permaneceram impensados, pendentes e reprimidos ao longo do processo de construção de uma tradição, construirá esse católico atuante uma imagem multiforme e ambivalente do catolicismo ortodoxo? Pensar o Sagrado hoje é pensá-lo na sua volatilidade, fluidez e que dificilmente as instituições, sobretudo as instituições religiosas, tem poder de controlar totalmente a conduta e a maneira de pensar dos seus fiéis. Estes podem aparentemente seguir suas normas, mas intimamente se sentem desobrigados e materializam determinadas posturas e reflexões que soam um pouco estranhas do ponto de vista da ortodoxia católica, mormente aquela que diz respeito à religiosidade popular. Isto também se verifica nestas formações alternativas do catolicismo, os arranjos católicos? 8 No sentido macro e em relação à Igreja Católica Romana (ICAR), notamos um processo de des-tradicionalização, como apontou Hervieu-Leger (1997b). Por um lado, a destradicionalização está dissociada à idéia de que a religião assegura continuidade do seu quadro simbólico - as instituições, as normas, as crenças, os ritos, maneiras de agir - através da sucessão das gerações. Por outro lado, implicaria dizer que o indivíduo em sociedades que são regidas pelo imperativo de mudança, tem a sua liberdade de escolher a melhor forma de construção simbólica da sua crença. Neste sentido, podemos colocar a seguinte questão: ao serem influenciados pela tradição oficial católica através de um processo de assimilação contínuo, o católico destes arranjos pode garantir a continuidade dessa tradição oficial? Será, como afirma Hervieu-Leger, que ocorre um processo semelhante de des-tradicionalização dentro das fronteiras do catolicismo ou podemos pensar, ao contrário, num processo de reconstrução a “partir de baixo” da doutrina religiosa, isto é, uma re-tradicionalização proporcionada pelos arranjos? Dentro da estrutura da instituição católica, o leigo possui posições diferenciadas em relação ao padre e, de outro lado, é receptor ativo da doutrina religiosa. Mas, ao mesmo tempo, é encarado pela hierarquia como um agente religioso que pode criar situações de 8. A quinta conferência do CELAM reunido na cidade de Aparecida do Norte, São Paulo – em maio de 2007 produziu um texto denominado “Documento de Aparecida” e no parágrafo trezentos (300) há uma preocupação de acompanhar a chamada “religiosidade popular” de forma a promover uma educação religiosa apropriada que desenvolva as “virtudes evangélicas” na consciência popular. A ortodoxia católica, em vista de um determinado tipo de negligenciamento e de desvios da fé da religiosidade popular, procura reorientar esta “fé popular” para que ela ganhe “maturidade e profundidade”. Seguindo esta discussão conferir texto elaborado pela Igreja católica, intitulado “Diretório sobre piedade popular e liturgia: princípios e orientações”..

(10) 24. ambivalência. que. precisam. ser. corrigidas,. de. forma. a. não. comprometer. a. desconstrução/recomposição ou até mesmo o questionamento da doutrina religiosa. Os arranjos católicos já estão fora dos limites paroquiais, contrastando com os leigos circunscritos neles. Não estaria aí a possibilidade de repensar um catolicismo laical construído com outras bases organizacionais e simbólicas? Quanto aos seus objetivos, este trabalho investigou as estruturas e as práticas religiosas oriundas dos arranjos comunitários alternativos católicos. Neste sentido, perguntam-se os antecedentes sócio-religiosos - faixa etária, papel e função dentro do espaço religioso, etc. - que estão por detrás destes católicos, possibilitando estabelecer seus perfis. Analisamos também os antecedentes sócio-religiosos destes leigos católicos atuantes, a estrutura interna destes arranjos por meio da análise das variáveis: grau de hierarquia, poder, organização das atividades, criação de redes sociais, uso da mídia - internet, logs, facebook, twitter, etc. - e por fim, discutimos sua capacidade de adaptação organizacional (flexibilidade) frente ao entorno social e de que forma os arranjos católicos foram constituídos como espaços de coesão moral e simbólica. As quatro novas comunidades católicas ou “Arranjos Comunitários Alternativos Católicos” do grande ABC foram estudados com base em dados bibliográficos - fontes primárias e secundárias e em material coletado por entrevistas e participação de cultos. É uma pesquisa de caráter qualitativo com inserção no campo através da observação participante. A priori, visitamos as comunidades supracitadas em dias e horários diferentes. A pesquisa de campo envolveu a exploração da observação direta e intensiva dos ambientes, dos rituais, registrando-os em fotos e pequenas filmagens quando permitidos. As entrevistas auxiliaram no sentido de materializar a inquirição dos fatos tal como ocorrem ou como ocorreram histórico, rituais, cotidiano das práticas religiosas. Identificou e interpretou também a opinião que os membros destes arranjos têm sobre sua conduta e experiência religiosa construída. Nesta fase padronizamos as perguntas propostas, de modo que as respostas obtidas, além de comparadas, permitiram identificar diferenças interpretativas entre os respondentes - liderança das comunidades e público-alvo das mesmas. As entrevistas foram aplicadas somente às lideranças e militantes mais ativos dos arranjos católicos, registrando em suas falas os seus pontos de vista e suas experiências. Nos procedimentos etnográficos reunimos uma série de informações a partir das diferentes perspectivas apresentadas pelos arranjos, no tocante às suas estruturas administrativas e simbólicas. Empregamos três tipos de dados: descrições dos locais - casas.

(11) 25. de missão 9, citações dos respondentes e excertos de documentos. Inicialmente, não procuramos mediações do clero católico para a entrada no campo. Contatamos in locus as lideranças envolvidas com as atividades da sua comunidade. Apresentamo-nos como cientista social e pesquisador no intuito de desenvolver o trabalho sobre as comunidades católicas leigas na região do ABC Paulista. No segundo semestre de 2010 e primeiro semestre de 2011, iniciamos a pesquisa com as comunidades Fanuel e Chagas de Amor, ambas em Santo André. A primeira é localizada em um bairro tradicional de classe média alta. A segunda, localizada em região de periferia urbana, próxima ao parque do Pedroso, no bairro Clube de Campo. As comunidades Árvore da Cruz, em São Bernardo do Campo e Coração Sagrado, em Ribeirão Pires, pesquisadas a partir do primeiro semestre de 2012, foram dois outros arranjos católicos analisados neste trabalho. Posteriormente a uma primeira visitação, permanecemos em contato com estas comunidades via e-mail tentando por este canal fixar-nos. Dentre todos os arranjos estudados, obtivemos menor receptividade na comunidade Coração Sagrado. Os moderadores ou fundadores das comunidades disponibilizaram seu tempo para as entrevistas e o fizeram sem reserva. Salientamos que não foram realizadas entrevistas com os fundadores das comunidades Fanuel e Coração Sagrado, respectivamente. Ambos delegaram seus representantes mais diretos, adequando-os aos interesses da pesquisa. A pesquisa destas comunidades se apoiou no método etnográfico. Houve a necessidade de uma inserção prolongada. Participamos diretamente das atividades do grupo, principalmente dos rituais de “cura e libertação”. Todos eles realizam-no sem exceção. Em vez de partir de dados documentais: cartilhas, folders, sites, manuais - dispositivos estes necessários e também utilizados, iniciamos nossa pesquisa detectando os informantes e lideranças das comunidades e a partir delas, estabelecemos uma seleção daqueles(as) que deliberaram seu “aceite” na efetivação das entrevistas. Esta seleção foi gradativa e demorada porque houve a necessidade de adequação de dias e horários que melhor atendiam o interesse dos entrevistados. A abordagem etnográfica envolveu observação constante durante todo o ano de 2012 nos locais das referidas comunidades investigadas. Os locais variavam entre as “casas de missão” ou em eventos realizados nas imediações. Em exemplo, temos o arranjo Chagas de Amor que realiza suas orações coletivas, alternando-as entre terças à noite no salão da paróquia Santo Antônio do Arraial e às sextas, no interior da paróquia referida. Quanto ao seu evento de maior amplitude, de concentração pública, o “Embriagai-vos no Espírito Santo”, se concentra no ginásio poliesportivo Noêmia Assunção, em Camilópolis, Santo 9. As casas de missão são espaços de atuação das lideranças junto aos seus respectivos público-alvos sob o aval da ICAR local..

(12) 26. André. Destacamos que este veio etnológico impresso em nossa pesquisa, ao contrário da investigação positivista que concentra estudos em grande escala, centrou-se nas experiências do cotidiano destas comunidades, preservando, obviamente, o distanciamento acadêmico e assim, procurou compreender melhor as práticas religiosas existentes. Alguns espaços não nos foram permitidos por se tratarem de situações específicas, como é o caso do “aconselhamento espiritual particular” praticado com mais visibilidade no arranjo Árvore da Cruz. Neste caso, tais aconselhamentos assemelham-se muito com a chamada “confissão católica” em que o padre agenda um horário para atendimento do fiel. No mesmo Arranjo, não pudemos realizar as visitas às casas das famílias atendidas pela mesma razão do “aconselhamento”. O argumento que obtivemos foi de que as famílias atendidas poderiam estranhar a visita de um “não consagrado”. Mesmo na observação participante, esta abordagem não nos permitiu incursionar nas atividades que ocorrem em todos os micro-espaços dos arranjos mencionados. O processo de pesquisa teve o intuito de ocupar uma posição de neutralidade nestas comunidades. Talvez esta aspiração fosse utópica em nosso caso. São lugares, situações contingentes e instáveis em que o pesquisador, mesmo fidelizando uma prática que requer de si um posicionamento neutro, foi condicionado necessariamente ao processo de interação. Por exemplo, o co-fundador do arranjo católico Coração Sagrado, ao final do segundo dia de entrevistas realizadas na casa de missão, em Ribeirão Pires, falou-nos que “Deus tinha tocado a sua mente e o seu coração naquele momento” e solicitou-nos duas “latinhas de tinta” para utilizá-las na “obra de Deus”, em troca da entrevista concedida. Mesmo que o objetivo da abordagem seja observar sem se “filiar” ou “militar na causa”, acabaram por impactar o comportamento dos atores sociais. Nosso posicionamento enquanto pesquisador social nestes arranjos favoreceu-nos a construção de um “status” aceitável aos atores da pesquisa, como de um “estrangeiro católico integrado”, mas não filiado ao grupo. Enfim, construímos uma posição, convencendo as lideranças da importância da pesquisa e de sua viabilização acadêmica neste catolicismo leigo especifico. As entrevistas proporcionaram o entendimento do campo, sobretudo recolheram os pontos de vista dos interessados e forneceram perspectivas, olhares do exercício da militância dos atores, contribuindo paralelamente com a observação feita em campo. Viabilizou ainda a comparação das experiências religiosas exteriorizadas dos sujeitos. Foram realizadas quinze entrevistas entre os meses de fevereiro e julho de 2012. Os sujeitos entrevistados se restringiram às lideranças e foram distribuídos da seguinte forma: Três homens e uma mulher no arranjo Fanuel; uma mulher e dois homens - um deles consagrado da comunidade de Vida no arranjo Chagas de Amor; um homem e uma mulher – ambos consagrados da comunidade de Vida no arranjo.

(13) 27. Árvore da Cruz e, por fim, três homens e uma mulher - todos da comunidade Aliança – do arranjo Coração Sagrado. Foram entrevistados ainda, um membro do clero católico da diocese de Santo André e o bispo da região do grande ABC. Os dados recolhidos foram sistematizados e organizados conforme os objetivos da pesquisa e analisados principalmente no capítulo quarto desta tese. O roteiro de questões foi elaborado tomando por base os mesmos objetivos e está contemplado no (ANEXO B). Durante a investigação houve a necessidade de ampliação das questões relacionadas ao campo que pareceram importantes, sem comprometer o teor da análise. Utilizamos o registro cursivo e a gravação dos depoimentos dos informantes. Numa primeira etapa, foi feito o levantamento das fontes documentais e de bibliografia geral e especifica acerca do tema e a leitura do material bibliográfico de apoio. Numa segunda etapa, frequentamos sistematicamente as atividades religiosas destes arranjos comunitários de modo a detectar a organização e administração dos arranjos católicos. Selecionadas previamente pelo pesquisador, as lideranças destas comunidades, foram contatadas mediante solicitação, autorização e cujos nomes foram preservados; na terceira etapa, foram sistematizadas as observações realizadas, a transcrição das entrevistas e a construção de um acervo de fotos dos arranjos. De forma a analisar o tema em estudo, formulamos as hipóteses de trabalho que serviram como guias para a pesquisa: Na primeira hipótese admitimos que ao arranjos católicos expressam uma busca intimista e emocional do sagrado frente à burocracia da ICAR no grande ABC paulista. A tendência de toda burocracia é o exercício de controle sobre os indivíduos, no tocante às informações que circulam e as atividades realizadas. A ICAR organiza-se em forma hierárquica. Os direitos e responsabilidades do alto e baixo clero estão circunscritos pelas posições que ocupam. Tal fixidez burocrática atenua desvios de idéias e de condutas equalizando o sistema desembocando assim, na estabilidade e padronização das relações que ali se estabelecem. No caso dos arranjos católicos, a burocracia é atenuada e às vezes até descartada para atender com mais eficácia às buscas dos sujeitos que preenchem estes espaços. Como segunda hipótese, os arranjos combinam a flexibilidade e a eficiência da modernidade contemporânea em processo de contínua mudança, com elementos da tradição religiosa relida pela membresia destes arranjos. Estes, no entanto, transparecem minimamente certo grau de hibridismo. Suas composições evidenciam a convivência de elementos simbólicos modernos e pré-modernos. Isto é, a justaposição e a combinação de produtos religiosos - terço, literatura santorial e de autoajuda, livros de “cura e libertação”, vendas de cd e dvds dos fundadores e afins- e, tecnologias - utilização de blogs, sites, e-mails redes.

(14) 28. sociais, entre outros recursos Por fim, configuram-se como um tipo de catolicismo de consultoria, isto é, realizam atendimentos de cura espiritual no que diz respeito à distribuição dos bens simbólicos católicos. Como terceira hipótese, há nestes arranjos uma tendência à sectarização. Em outras palavras, não afirmamos aqui que estas comunidades laicas se caracterizam como seitas porque perderiam sua legitimidade institucional, mas constroem um catolicismo ao seu modo. Consentidas pela ICAR a exercerem suas atividades, sob o controle direto de padres selecionados previamente pelo bispo diocesano, estas comunidades laicas exercem sua autonomia de grupos religiosos católicos extra-paroquiais, caracterizando-se como comunidades alternativas, disponibilizam aos seus usuários, bens simbólicos católicos associados com sua missão, visão e valores. O primeiro capítulo tem por objetivo demonstrar as condições do diálogo/relacionamento entre o catolicismo e a modernidade contemporânea, a partir dos pontificados de João Paulo II e Bento XVI. Examinamos ainda os componentes institucionais e a mentalidade dos pontificados supracitados em relação aos aspectos da modernidade contemporânea que, segundo a ICAR, acionam desconfortos institucionais como, por exemplo, a “ditadura do relativismo”, o “ateísmo” e “liberdade sem critérios axiológicos”. Em contrapartida, observa-se que esta tensão com a modernidade emerge de pontificados que remontam desde Pio IX, no século XIX e os documentos oficiais da ICAR de cunho mais social procuram visualizar não somente os pontos por eles denominados “nefastos” da modernidade, mas aqueles em que a Instituição católica possui mais afinidade, servindo de canal para suas intenções de evangelização. O segundo capítulo apresenta brevemente as mutações do cristianismo. O eixo teórico deste capítulo teve por base o pensamento de Troeltsch e sua contribuição para a compreensão do cristianismo como evento histórico e factual. Destacamos especialmente a relação da ICAR no ambiente brasileiro. Diante dos obstáculos interpostos, o catolicismo, embora hegemônico no Brasil, está em vias de enfraquecimento institucional. Há um processo de secularização em curso no Brasil e os movimentos religiosos ocupam seus espaços como agentes legítimos. Como ficaria então o catolicismo neste campo religioso? Para sua sustentabilidade institucional, o catolicismo necessita também da assessoria laical dos Arranjos Comunitários Alternativos Católicos, isto é, um tipo de catolicismo na modernidade contemporânea que impacta e repercute na ICAR local ou regional através das suas formas de organização e métodos de evangelização. O terceiro capítulo discorre sobre o lugar do leigo como cerne da ICAR, conforme os textos do Concilio Vaticano II e posteriormente nos pontificados de João Paulo.

(15) 29. II e Bento XVI. Estes eventos foram vistos como úteis e necessários do ponto de vista institucional. Eles proporcionam relativa flexibilidade e adaptação do clero católico às circunstâncias históricas mediante o apoio concedido aos novos movimentos eclesiais e em particular dos jovens. O quarto e quinto capítulos possuem um cunho descritivo e analítico, respectivamente. O quarto capítulo apresenta os resultados da pesquisa empírica dos quatro arranjos católicos: Fanuel, Chagas de Amor, Árvore da Cruz e Coração Sagrado. Destacamos ainda, as estruturas destes arranjos: suas configurações administrativas, as articulações internas - burocracias-rotinas-inovações, o exercício dos rituais religiosos, a captação de recursos financeiros e humanos, a criação de networks e a importância do papel social dos fundadores. Por esta razão o capítulo em questão é o mais extenso. Por tratar de um campo de estudos ainda incipiente no Brasil decidimos oferecer aos leitores abundante informação. Sua contribuição está em preencher lacunas sobre este catolicismo laico e que atualmente tem assumido um crescimento significativo na região do Grande ABC. No quinto e último capítulo exploramos a seara da linguagem religiosa e simbólica dos arranjos católicos sob a ótica de dois autores da sociologia: Durkheim e Bourdieu. A análise aproveita conceitos destes autores para o estudo do aspecto religioso e social dos arranjos católicos verificando o papel dos fundadores, como agentes integradores, assim como, os elementos simbólicos - sites, totens e os santos baluartes - que reforçam a coesão destes arranjos..

(16) 30. CAPÍTULO I CATOLICISMO E MODERNIDADE CONTEMPORÂNEA. Este. capítulo. discute. as. relações. entre. catolicismo. e. modernidade. contemporânea. A autoridade eclesiástica em Roma, através da gestão dos seus pontífices, continua a ensinar como se sua autoridade não dependesse do movimento histórico. Tal organização, constituída sob uma base hierárquica e reivindicando sua autoridade apoiada numa tradição, não consegue encontrar maneiras bem sucedidas de inserção na realidade. Uma dos aspectos mais distintivos da modernidade é a diferenciação e especialização de diferentes domínios dentro da esfera social levando também à marginalização da religião da esfera pública. A cultura contemporânea enfatiza e maximiza o valor da subjetividade em detrimento de qualquer tipo de validação de uma autoridade externa ou superior. A ICAR, fragilizada com este ambiente social, opera com discurso apoiado na ideia de “obediência” e “fidelidade” à uma doutrina veiculada também pelas encíclicas papais. Neste sentido, o presente capítulo discorre brevemente em primeiro lugar sobre as tensões entre ICAR e a modernidade desde Pio IX até Bento XVI 10. Em segundo lugar, verifica como o catolicismo romano posiciona-se mediante suas encíclicas sociais apoiando certos aspectos da modernidade contemporânea. As encíclicas sociais desde a Rerum Novarum podem ser representadas como “modernas” porque nelas há reação e até mesmo uma aceitação “com. 10. Optamos por verificar a relação da ICAR com a modernidade em Bento XVI e não o atual papa Francisco por duas razões. A gestão de Bento XVI teve uma durabilidade histórica suficiente para analisar sua atuação a partir do acúmulo de materiais disponíveis em jornais e encíclicas. A segunda razão, complementar a anterior, diz respeito que, a nova gestão precoce do papa Francisco não nos permitiu inferir imediatamente algumas respostas sobre sua postura eclesial e de relações públicas com a modernidade e as novas comunidades católicas..

(17) 31. moderação” de diferentes aspectos da modernidade, mormente aqueles referidos à economia e à moral.. 1. (DES)ENCONTROS ENTRE IGREJA CATÓLICA APOSTÓLICA ROMANA E A MODERNIDADE Comecemos com algumas questões: o que é a modernidade? O que a caracteriza? Quais de seus elementos e atributos afetam mais diretamente a Igreja Católica Apostólica Romana? Como se posicionava Bento XVI frente às questões modernas? Essas questões nortearão este capítulo. Contudo, antes de avançarmos, ampliando a nossa reflexão, devemos fazer algumas considerações prévias sobre qual o significado da modernidade. Em sentido mais amplo, a modernidade foi gestada num processo histórico e cultural a partir do século XVII. Tanto Giddens (1991) quanto Touraine (2002) assumem este período histórico como o início da experiência moderna: o renascimento cultural, a descoberta do Novo Mundo, a mudança da mentalidade teocêntrica para antropocêntrica, isto é, a substituição da atitude de colocar Deus e aqueles investidos da autoridade religiosa no centro de qualquer visão do mundo e de qualquer interpretação da história, a Reforma Protestante que de alguma forma contribuiu para a afirmação do individualismo moderno e as convulsões sociais como a Revolução Burguesa, tanto a inglesa quanto a francesa, proclamando o primado do indivíduo e de sua liberdade. Podemos dizer que a modernidade é uma mudança de atitude do homem ocidental diante do mundo e de si mesmo. O ser humano passa a indagar sobre a possibilidade de mudança da realidade e não se convence mais sobre aquilo que já se encontra pronto, determinado pela revelação divina. Implode-se a visão na qual Deus era o centro: A idéia de modernidade substitui Deus no centro da sociedade pela ciência, deixando as crenças religiosas para a vida privada. (TOURAINE, 2002, p. 18). A modernidade assinalou a morte de Deus no sentido de que a sociedade organiza-se a partir não mais de uma única referência ou de um único núcleo. No período medieval, a religião era o cerne do sistema simbólico. Atualmente a religião tem sido incorporada e integrada ao sistema simbólico da modernidade. Ela passou a ser pensada segundo a lógica da subjetividade. A religião enquanto “instituição”, pelo contrário, teme esta autonomia do sujeito moderno porque além de este enfatizar e acentuar a ordem temporal privilegia também a relativização das mentalidades e dos costumes. Por exemplo, a chamada “civilização cristã ocidental” caiu no descrédito da.

(18) 32. juventude como pôde se notar em um encontro de Bento XVI com a juventude alemã, na cidade de Colônia (Alemanha) no verão de 2005. Tal encontro teve pouca repercussão entre os jovens alemães se comparado àqueles presentes ao evento vindos de outras regiões do mundo. (PARADA & VOGT, 2006, p.136-138). Embora se perceba o esforço de evangelização da Igreja Católica Romana dando mostras da sua resistência institucional, a modernidade cria gradativamente um abismo entre a doutrina do magistério católico e a vida prática, pelo menos no que se refere à dogmática e moral. A modernidade é um movimento de ideias e maneiras de agir influenciadas pelo culto à razão, por sistemas filosóficos e políticos, pela irrupção da tecnologia (fotografia, vídeo, animações, blogs, páginas, internet) e também pela religião. A modernidade acentua a racionalização dos meios de vida produzindo uma cultura objetivista e avessa à ideia de que a história caminha para um fim idealizado por um projeto divino. O homem vale por aquilo que produz. A fundamentação dos valores foi conduzida a consensos sociais subjetivos.. 1.1. IGREJA CATÓLICA ROMANA CONTRA A MODERNIDADE Desde a Reforma Protestante no século XVI, a Igreja Católica Romana fechou-se exageradamente ao ritmo e ao estilo de vida proposto pela modernidade. Pensamos que a modernidade se inicia para a Igreja Católica com a emancipação da razão e da consciência leiga no século XIV, com a Renascença, até eclodir a Revolução Francesa no século XVIII. Neste período, os Estados pontificiais ou Estados papais, se mantiveram como estados independentes por onze séculos (756-1870). Esta autonomia rui quando o Estado moderno se emancipa e os movimentos revolucionários nacionalistas italianos do século XIX reivindicam politicamente a unidade nacional, anexando os resquícios dos territórios pontificais em 1870 sob a gestão de Pio IX (1846-1878). Somente em 1929 a Igreja Católica consegue recuperar o direito a um Estado Soberano a partir do Tratado de Latrão. Tal tratado, consumado entre Benito Mussolini e Pio XI (1922-1939), concedia a este um território independente dentro de Roma. O próprio Pio XI considerou essa concessão como manifestação da “Providência divina” (SASSOON, 2008 p. 152). Em contrapartida, a Igreja Católica reconhecia Mussolini como legítimo titular do governo da Itália como estado soberano. Nascia assim, o Estado do Vaticano como ele é hoje: o menor país independente do mundo, com um território de 44 hectares, em Roma, mas sob jurisdição pontifícia. Historicamente, e em se tratando de consciência moderna, os ideais revolucionários são captados pelo catolicismo como anticlericais e perigosos. São vistos como.

(19) 33. a prolongação da Reforma Protestante do século XVI. O catolicismo experenciou a revolução burguesa de forma traumática, como triunfo da deusa Razão sobre a fé, como triunfo da liberdade sobre a ordem instaurada por Deus, como triunfo do Estado leigo sobre a Igreja Católica Romana. Leva muito tempo até que o catolicismo romano considere adequados os lemas da Revolução Francesa: liberdade, igualdade e fraternidade. Esta simpatia se pronuncia nas gestões dos papas João XXIII (1958-63) e Paulo VI 11 (1963-1978). Os papas que vieram anteriormente, principalmente Pio IX (1846-1878) empreenderam uma campanha contra os liberais. A Igreja Católica, preocupada com sua unidade, com a fé e a moral, reagiu em relação à modernidade através de um texto do magistério católico intitulado Syllabus, escrito por Pio IX que esteve à frente da Igreja Católica por trinta e um anos. Na encíclica Quanta Cura de 8 de dezembro de 1864, Pio IX condenou dezesseis proposições que contrariavam a visão católica na época. Esta encíclica foi acompanhada pelo famoso Syllabus errorum, que condenava o que ele entendia por “erros modernos”, como o panteísmo, naturalismo 12, o laicismo, a liberdade religiosa, tidos como incompatíveis com a religião católica (MARTINA, 2005, p.240) Nesse documento são listados oitenta erros advindos dos modernistas. O octogésimo "erro" indica que "o Pontífice Romano tem de se reconciliar e acordar com o progresso, o liberalismo e a civilização moderna". O Syllabus condena enfaticamente qualquer tipo de manifestação liberal inclusive dentro das fronteiras eclesiais. O modernismo pretendia construir um diálogo entre os princípios do pensamento moderno e a doutrina católica. Esta encíclica criticava abertamente aquilo que naquele momento era conhecido como a heresia do americanismo: a liberdade de religião, liberdade de pensamento, separação entre Igreja e Estado 13. Outro momento importante do pontificado de Pio IX foi a convocação do Concílio Vaticano I (1869-1870) que significou uma retaliação às tendências desagregadoras e racionalistas dentro e fora da Igreja Católica. O Concílio enfatiza a autoridade divina da revelação, a a infalibilidade papal. Esta postura trouxe como consequência prática a união forçada de “toda Igreja Católica presente no mundo” com Roma. 11. Este papa nomeou para o Colégio Cardinalício aqueles que seriam seus três futuros sucessores: Karol Wojtyla (João Paulo II) em 1967, Albino Luciani (João Paulo I) em 1973 e finalmente Joseph Ratzinger (Bento XVI) em 1977. 12 O indivíduo é determinado pelo ambiente e pela hereditariedade. 13 Apesar de a Igreja Católica continuar a rejeitar fortemente o modernismo (nomeadamente o relativismo religioso e moral e o subjetivismo teológico), ela soube, a tempo oportuno, separar e dissociar o direito humano à liberdade. A atual posição católica sobre a liberdade religiosa é clarificada pela declaração Dignitatis Humanae do Concílio Vaticano II. Neste decreto, a Igreja Católica defende e reconhece a liberdade religiosa como um direito humano inalienável e indispensável para a livre adesão do homem ao plano de Deus..

(20) 34. O Concílio silencia o princípio de subsidiariedade, segundo o qual o papa governa ordinariamente através dos bispos. Já no início do século XX, outro papa, Pio X (1903-1914), defendia intransigentemente a ortodoxia doutrinária, e rotulava o modernismo como a "síntese de todas as heresias". Dois documentos oficiais o condenam, Lamentabili Sane Exitu (LSE) de 1907 e Pascendi Dominici Gregis (PDG) de 1907 14. Além disso, Pio X formulou a obrigatoriedade de um tipo de “juramento antimodernista” para todos os padres, bispos, catequistas e seminaristas que deveriam informar a Santa Sé se os mesmos executavam tal prescrição: A fim de que as coisas aqui determinadas não fiquem esquecidas, queremos e mandamos que, passado um ano da publicação das presentes Letras, e em seguida, depois de cada triênio, com exposição diligente e juramentada os Bispos informem a Santa Sé a respeito do que nestas mesmas Letras se prescreve e das doutrinas que circulam no clero e particularmente nos seminários e outros Institutos católicos, não excetuando nem sequer aqueles que estão isentos da autoridade do Ordinário. Ordenamos a mesma coisa aos Superiores gerais das Ordens religiosas, com relação aos seus súditos. (PDG VII). Curiosamente, tal juramento só foi abolido em 1967, por Paulo VI (LENZENWEGER, 2006). Teria sido Paulo VI um modernista? Com atitudes antimodernas e durante três séculos, o pensamento católico oficial romano denunciava e retaliava qualquer tipo de ameaça que lhe sobrepusesse. Neste sentido, oferecia antídotos contra o modernismo e o intelectualismo que se emancipavam não somente com a aurora da modernidade, mas que se faziam presentes também dentro das fronteiras católicas. Pio XI (1922-1939), em 1931, com a encíclica Quadragesimo anno motivado pela grande depressão de 1929 e por ocasião dos quarenta anos da encíclica Rerum Novarum de Leão XIII, reitera a condenação do comunismo. Também critica fortemente o socialismo considerando-o inteiramente incompatível com a prática e a fé católicas (RAUSCH, 2000). Nesse mesmo documento condena os abusos do capitalismo e do livre mercado, a concentração de renda e de poder e afirma que sem justiça social e caridade e sem atenção à reta razão e aos preceitos evangélicos não haverá uma ordem econômica justa. Na carta Mortalium Animos 15 (MA) de 1928, Pio XI adverte aos católicos que, aderindo ao movimento ecumênico ou ajudando-o, estariam, ao mesmo tempo, atribuindo a uma “falsa” religião toda a credibilidade e negando a unidade promovida pela Igreja Católica:. 14. Conferir site do Vaticano: www.vatican.va. Conf. http://www.vatican.va/holy_father/pius_xi/encyclicals/documents/hf_p-xi_enc_19280106_mortaliumanimos_po.html. Acesso em: 20 jan. 2010. 15.

(21) 35. [...] o caminho para a realização da unidade da Igreja: ela não pode resultar senão de um só magistério, de uma só lei de crer, de uma só fé entre os cristãos. Sabemos, entretanto, gerar-se facilmente daí um degrau para a negligência com a religião ou o Indiferentismo e para o denominado Modernismo. Os que foram miseravelmente infeccionados por ele defendem que não é absoluta, mas relativa a verdade revelada...” (MA 15) Assim, Veneráveis Irmãos, é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes às reuniões de acatólicos por quanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela. Dizemos à única verdadeira Igreja de Cristo: sem dúvida ela é a todos manifesta e, pela vontade de seu Autor, Ela perpetuamente permanecerá tal qual Ele próprio A instituiu para a salvação de todos (MA 16). Pio XII (1939-1958) condena, entre outras coisas, aqueles que questionam o magistério da Igreja Católica e sua sociedade hierárquica perfeitamente constituída, mas faz alusão também àqueles que reconheceram a verdade revelada e veiculada por ela. Com relação à questão modernista, escreve uma encíclica intitulada Humani Generis 16 (1950) sobre as “falsas doutrinas”.: [...] As falsas afirmações de semelhante evolucionismo pelas quais se rechaça tudo o que é absoluto, firme e imutável, vieram abrir o caminho a uma moderna pseudofilosofia que, em concorrência contra o idealismo, o imanentismo e o pragmatismo, foi denominada existencialismo, porque nega as essências imutáveis das coisas e não se preocupa mais senão com a "existência" de cada uma delas. (HG 6). Pio XII pensava num ordenamento verdadeiro que subjugasse toda a humanidade. O mal se manifesta e se alastra, segundo ele, devido ao abandono de Deus e da autoridade da Igreja Católica (LIBÂNIO, 2000, p. 62).. 1.2. DA MODERNIDADE ASSUMIDA DO CONCÍLIO VATICANO II PARA A MODERNIDADE MODERADA DE JOÃO PAULO II. Esse clima de resistência, hostilidade e reticência emanado das autoridades da Igreja Católica frente à mentalidade moderna foi amenizado com o chamado Concílio Ecumênico Vaticano II, proposto pelo pontífice João XXIII eleito por ocasião da morte de Pio 16. Disponível em: http://www.vatican.va/holy_father/pius_xii/encyclicals/documents/hf_pxii_enc_12081950_humani-generis_po.html. Acesso em 20 jan. 2010..

(22) 36. XII, em 1958. João XXIII recebe uma instituição religiosa fundamentalmente centralizadora e hierárquica e propõe um aggiornamento, uma “atualização” da mentalidade eclesial católica tanto no âmbito dogmático, como no relacionamento da Igreja Católica com a modernidade. Tal aggiornamento, no entanto, não significaria uma abertura à liberdade, à permissividade e à tolerância irrestritas. O Concílio Vaticano II representou um esforço da instituição católica em se ajustar a um mundo sobre o qual ela não exercia mais o controle temporal e espiritual. Este empreendimento católico ocorrido na década de sessenta produziu também reações contrárias de setores que suspeitavam que o Vaticano II era um concílio com tendências modernistas. Sobre ele, assim escreveu o arcebispo Marcel Lefebvre: Aderimos de todo o coração, com toda a alma, à Roma católica, guardiã da fé católica e das tradições necessárias para a manutenção da fé, à Roma eterna, mestra de sabedoria e verdade. Negamo-nos pelo contrário, e nos temos negado sempre, a seguir a Roma de tendência modernista e neoprotestante, que se manifestou claramente no Concilio Vaticano II e, depois do Concilio, em todas as reformas nascidas dele. Esta reforma nasceu do liberalismo, do modernismo e está totalmente envenenada, vem da heresia e conduz à heresia, ainda no caso de que seus atos não sejam formalmente heréticos. É pois impossível a qualquer católico consciente e fiel adotar esta reforma e submeter-se a ela de qualquer maneira que seja. (Apud FERNANDEZ-ARMESTO & WILSON, 1996, p.338). Lefebvre foi um arcebispo católico francês que se recusou a admitir as reformas empreendidas pelo Concílio Vaticano II e iniciou, em 1970, uma organização religiosa católica destinada à formação de sacerdotes no espírito pré-conciliar.. Nasce assim a. Fraternidade Sacerdotal de São Pio X. Embora sofrendo frequentes sanções de Paulo VI, Lefebvre continua ordenando sacerdotes tradicionalistas formados no espírito antimodernista. O conflito com o Vaticano se acirra e só em 1988 forja-se um acordo, celebrado pelo então cardeal Joseph Ratzinger, para regularizar a situação da Fraternidade São Pio X com a condição de não mais ordenar sacerdotes. Em face às reticências de Lefebvre, João Paulo II o adverte sobre as ordenações ilegais e o excomunga no documento intitulado Ecclesia Dei (ED) em dois de julho de 1988. O documento em forma de motu proprio, isto é, “de iniciativa própria”, foi elaborado pessoalmente por João Paulo II 17:. 17. Bento XVI também redigiu recentemente um motu proprio intitulado Summorum Pontificum (traduzido por “preocupação pontifical”) em relação às regras específicas da liturgia latina prescritas no missal romano. O decreto afirma a validade e a pertinência do chamado “rito tridentino” que estipula a liberdade de celebração em latim nos atuais ritos litúrgicos nas igrejas católicas espalhadas pelo mundo. Conferir página do Vaticano www.vatican.va. Acesso em 02 jan. 2010..

(23) 37. Em si mesmo, tal ato foi uma desobediência ao Romano Pontífice em matéria gravíssima e de importância capital para a unidade da Igreja, como é a ordenação dos bispos, mediante a qual é mantida sacramentalmente a sucessão apostólica. Por isso, tal desobediência - que traz consigo uma rejeição prática do Primado romano constitui um ato cismático. Ao realizar tal ato, não obstante a advertência formal que lhes foi enviada pelo Prefeito da Congregação para os Bispos no passado dia 17 de Junho, Mons. Lefebvre e os sacerdotes Bernard Fellay, Bernard Tissier de Mallerais, Richard Williamson e Alfonso de Galarreta, incorreram na grave pena da excomunhão prevista pela disciplina eclesiástica. (ED 3). O pano de fundo deste conflito está na quebra da unidade proposta pelo pontífice romano. A liberdade era vivida dentro da Igreja Católica sob condições preliminares que assegurassem a continuidade da tradição religiosa promulgada por Concílios oficializados pela Igreja Católica Romana. A Fraternidade rebateu as acusações e em vinte e quatro de Janeiro de 2009, a excomunhão foi revogada por Bento XVI. No que diz respeito à unidade interna da Igreja Católica, esta postura indica uma preocupação muito mais doutrinal do que das relações externas à Igreja Católica. Esta decisão arrancou elogios dos adeptos lefebvrianos em todo o mundo e recebeu um manifesto positivo no site brasileiro da Associação Antimodernista Cultural Montfort 18. A revogação da excomunhão da Fraternidade São Pio X e de outros quatro bispos cismáticos, dentre eles o bispo inglês Richard Williamson, que negou a existência de muitas mortes de judeus no Holocausto, causou reação imediata da comunidade judaica mundial. 19 Bento XVI exerce seu pontificado sob o contexto de uma modernidade carregada de ambiguidades que ora oferece confiança, ora oferece riscos. O ritmo de desenvolvimento das tecnologias, particularmente daquelas que se referem à mídia informacional – internet, por exemplo – coloca-nos em conexão com diferentes partes do globo. Bento XVI percebeu o alto valor estratégico das novas tecnologias para divulgar a Igreja Católica. Em declaração feita em vinte e quatro de janeiro de 2009, Bento XVI afirma que as novas tecnologias ou o ciberespaços são um “verdadeiro dom” 20. O reconhecimento desta modernidade digital confirmada por Bento XVI remonta uma preocupação antiga da 18. A associação leiga foi criada por Orlando Fedeli, historiador católico brasileiro, em 1985. A associação de cunho integrista difunde através de vários mecanismos de divulgação (palestras, páginas na internet) a supremacia do catolicismo frente às demais religiões. Fedeli participou durante 30 anos da organização Tradição, Família e Propriedade da qual se desligou porque considerou-a incompatível com os ensinamentos da tradição católica. Se posiciona contra o Concíclio Vaticano II, a liberdade religiosa, o modernismo, a maçonaria e é reticente com alguns setores mais progressistas da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Conf. Site: www.montfort.org.br. Acesso em: 20 jan. 2010. 19 Conferir Revista Veja 04/02/2009 - acervo digital: http://www.veja.com.br/acervodigital/home.aspx acessado em 27/01/10. 20 Conferir mensagem do papa Bento XVI para O 43º dia mundial das comunicações sociais cujo tema é “Novas tecnologias, novas relações. Promover uma cultura de respeito, de diálogo, de amizade”. Conferir texto na íntegra em http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/communications/documents/hf_benxvi_mes_20090124_43rd-world-communications-day_po.html, acessado em 27/01/10..

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