4. O CATOLICISMO DE CONTRA-ATAQUE – 4º CELAM EM SANTO DOMINGO
4.2. SANTO DOMINGO E O PROJETO DE AÇÃO MISSIONÁRIA PERMANENTE (PAMP)
É comum que após o término de qualquer Conferência, venha o processo de aplicação e adequação das conclusões aprovadas pelo episcopado católico latino americano. Cada país, seja latino-americano ou não, possui sua Conferência Nacional. É uma instituição de caráter permanente, que consiste na assembléia de bispos de um território determinado. No caso do Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) organiza direcionamentos pastorais e doutrinários adequados às peculiaridades culturais em todo território nacional, mas em sintonia com os “critérios de eclesialidade”, isto é, afinados com as diretrizes da metrópole, o Vaticano. A CNBB é uma organização descentralizada, isto é, geograficamente dispersa. O Brasil é dividido em regiões: Norte, Nordeste, Sul, Centro-Oeste, Oeste, Noroeste. Cada região administra burocraticamente seu espaço, mas as decisões de maior monta são tomadas pela administração central. Não existe uma organização em que todas as decisões sejam tomadas unicamente pela alta administração, da mesma forma que não existe uma organização em que todas as decisões sejam tomadas por subordinados.
A Igreja de Roma define as linhas mestras e cada conferência do CELAM se adequa a elas e as distribui, descentralizando as funções nas regiões episcopais. Cabe a estas elaborarem seus próprios subsídios e distribuí-los às sub-regiões. Do ponto de vista administrativo, a centralização ou a descentralização de caráter decisório é a que maior importância tem. A região do Grande ABC inscreve-se na Região denominada Sul 1 e Sub- Regional São Paulo II37.
A regional Sul 1 elaborou em 2004, doze anos após a Conferência de Santo Domingo, e em sintonia com ela, um subsídio intitulado Projeto de Ação Missionária
Permanente (PAMP) dividido em três partes: a) Fenômeno religioso e o homem urbano; b)
Evangelização: graça e vocação própria da Igreja; c) Ação missionária. O título expressa a preocupação constante da Igreja Católica com o dinamismo social presente na realidade paulista que provoca, segundo ela, inquietantes desafios suscitados pelo quadro ou mapa religioso brasileiro, diante da imprevisibilidade e espontaneidade características do comportamento humano e social. Parto da premissa de que o que é constante e permanente na vida social é o seu aspecto de mutabilidade. Enquanto instituição, a CNBB representada aqui pela regional Sul 1, refém de um comportamento regular e previsível, apresenta um texto preocupando-se com a perda dos seus espaços de significação e influência no território brasileiro frente ao pentecostalismo crescente. Palavras chave como permanência,
estabilidade e conservação da ordem cabem dentro de uma instituição do porte do catolicismo
romano.
O contra-ataque que responde e dá sentido a esta mudança no mapa religioso brasileiro detectado pelo Censo 2000 do IBGE, SEAD e Atlas da Filiação Religiosa, é a
evangelização permanente. Apoiado por dados de pesquisa sobre o campo religioso no Brasil,
sobretudo no Estado de São Paulo, o PAMP confirma a tendência de diminuição do número de católicos e de aumento de adesões aos pentecostais e a outros grupos religiosos, bem como do número dos que se declaram sem religião. Para a compreensão deste fenômeno o PAMP se coloca com uma postura não reducionista evitando, como afirma o texto, ter uma imagem
preconceituosa ou reducionista dos pentecostais, apenas como empresas fundadas na “cura divina” e preocupada com o dinheiro dos fiéis (PAMP, 2004, p.8). Faz um levantamento
prévio dos evangélicos de missão e pentecostais estimados em São Paulo e caracteriza-as a
37 A Comissão Episcopal Regional Sul 1 organiza-se em Comissões Sub-Regionais. Cada Sub-Regional tem um Bispo Presidente Coordenador e um subsecretário escolhido entre os coordenadores diocesanos de pastoral da Sub-Regional. São constituídos por 8 Sub-regionais: Aparecida, Botucatu, Campinas, Ribeirão Preto I, Ribeirão Preto II, São Paulo I, São Paulo II e Sorocaba. Informações extraídas no site da regional Sul 1: http://www.cnbbsul1.org.br
partir da sua localidade, etnia, público alvo que atingem, grau de educação, remuneração. Os dados se ampliam quando se trata dos pentecostais:
[...] Os pentecostais apropriaram-se do conhecimento e da prática das ciências gerenciais, socioculturais e psicológicas. São empreendedores, não só pelo aspecto religioso, mas também financeiro e político. Possuem templos por todas as partes, reaproveitando os espaços de antigas casas de espetáculos e galpões abandonados, construindo muito pouco. Conseguem ter presença marcante nas ruas, realizam passeatas e penetram em diferentes locais públicos e particulares. Usam novas tecnologias, tais como rádio, TV e internet, para anunciar o Evangelho e influenciar a cultura. (PAMP, 2004, p.11)
Outras religiões, como a espírita, afro-brasileira, neo-cristãs, judaísmo, hinduísmo, islamismo também são indicadas brevemente. Atenção especial se dá aos pentecostais, cujo grupo de maior crescimento são os da Congregação Cristã no/do Brasil e a IURD. Em segundo lugar, estão as religiões de fundo espírita e as diferentes formas de esoterismo. Consciente da intensidade das mudanças, da secularização em marcha, de uma sociedade brasileira cada vez mais pluralista, a ICAR no Brasil repensa seus métodos de evangelização. Será aqui um indicativo de que o catolicismo brasileiro reconhece a eficácia dos métodos pentecostais e quer aprender com eles? O fato é que em nenhum momento, o documento católico paulista deixa transparecer esta ideia.
O PAMP concentra sua atenção na metodologia pentecostal de arregimentação de adeptos e isso se dá a partir dos seguintes tópicos: conquista de adeptos, visitas domiciliares frequentes, promoção de inclusão no grupo, valorização das pessoas no tocante às suas necessidades estruturais, envolvimento no culto religioso, doação, orientação e manuseio das Escrituras, monitoramento moral para que haja uniformidade de atitudes, descentralização do espaço de culto, instalação permanente de salas de culto, cobrança de compromissos e fidelidade à igreja, realização de escolas dominicais, oferecimento de auxílio financeiro, cobrança do dízimo, padronização do vestuário, uso de linguagem simples, intimista e emotiva e quando possível - se os recursos financeiros o permitirem – realização de investimentos na mídia utilizando a internet, a TV e o rádio, utilização da figura de Jesus como aquele que tem “poder”, curandeiro e realizador de milagres, afirmação de que ter fé é o único ingrediente cabível como fonte de esperança vital, a crença em que os vícios são a materialização do demônio, comportamentos, ataques à Igreja Católica etc. Estes são alguns dos pontos que o PAMP levanta e que servirão como pistas de ação para articular um contra- ataque religioso e missionário.
Neste sentido, o campo religioso católico é desenhado e rearticulado a partir da atuação do outro ator religioso, no caso, o pentecostalismo. Poderíamos dizer que este mapeamento religioso pentecostal evoca duas constatações para a ICAR: a) a face do catolicismo se desgastou dando oportunidades para o surgimento de novos movimentos religiosos; b) a hegemonia de sentido de que o catolicismo brasileiro dispunha até finais do século XIX já não dá mais conta das novas configurações culturais (república, liberalismo, protestantismo de missão, outros grupos religiosos e o próprio pentecostalismo).
Atualmente, as brechas culturais que permitem a inserção de outras configurações religiosas são muito maiores que o Vaticano, e nem a CNBB consegue controlar. A ideia de sociedade perfeita e hierarquicamente organizada que refletia o mundo perfeito já não condiz com uma sociedade que se moderniza também no sentido da variabilidade, provisoriedade das circunstâncias. Não seria razoável afirmar aqui uma premissa pensada por Thilich no século XX de que o princípio protestante ou o seu espírito já não se encontra mais no protestantismo de missão – devido a sua consolidação na sociedade brasileira – e que aquele migrou para o mundo pentecostal? O pentecostalismo, analisado superficialmente no PAMP, não indicaria uma adaptação sem traumas à modernidade e a tudo que ela acarreta? Se o PAMP detecta a rebeldia dos pentecostais contra a Igreja Católica é sinal de que o movimento pentecostal rejeita o modelo eclesiástico e administra com facilidade a descentralização de poderes.
A segunda parte do PAMP, mais doutrinária, reflete que a única forma de cristianismo é o cristianismo eclesial. A Igreja (subentenda-se católica), diz o texto: “[...] esteve na intenção de Jesus, foi fundada no tempo do Jesus terreno e do Cristo pascal, convoca os Doze cujo ato fundante foi a instituição da Eucaristia” (PAMP, p.23). O PAMP reafirma e persiste no seguinte imperativo:
Apesar da divisão entre cristãos, a Igreja de Jesus Cristo não está dividida em várias Igrejas. Ela subsiste na Igreja Católica. A Igreja Católica possui todos os elementos de eclesialidade que encontramos no novo testamento: a mesma fé, a totalidade dos canais da graça que são os sacramentos, a sucessão do ministério petrino exercido pelo Papa, o ministério da Palavra, mas também como magistério autêntico, isto é,
como ensino normativo em nome de Cristo. (PAMP, p.24 – grifo nosso)
E continua: “[...] em nenhum outro lugar se encontra, como na Igreja Católica, a plenitude dos meios salvíficos queridos por Cristo[...]” (PAMP, 2004, p.21-24). Se, como dizia Durkheim (1989) em sua obra As Formas Elementares da Vida Religiosa, a “religião é um sistema unificado de crenças e práticas relativas a coisas sagradas”, pressupõe-se que
aquilo que não diz respeito a estes padrões serão colocados à parte e excluídos. Para sobreviver ao turbilhão moderno, a ICAR no Brasil necessariamente precisou estabelecer balizas no campo religioso. A delimitação de fronteiras é desenhada a partir da presença do “outro” que incomoda e que não são mais os protestantes do início do século XX, mas a constelação pentecostal.
Esta uniformidade de diretrizes e normas que remonta àquilo que Troeltsch chamava de cultura eclesiástica se preserva no século XXI. A centralização assegura a uniformidade de diretrizes e normas. Assim, a coordenação e a efetivação da missão tornam- se mais fácil porque não há muita autonomia. Na terceira e última parte do PAMP delineia-se não só a metodologia da missão, mas também o campo sobre o qual ela se insere. Sublinha-se a importância da missão na cidade por ser um novo espaço social de concentração de pessoas, mas também onde se forja um “novo modo de viver”. A vida das pessoas se desenvolve em diversos espaços, daí a nova concepção de paróquia como “comunidade de comunidades” (PAMP, 2004, p.59-60).
SD propõe metodologia similar a dos pentecostais: utilizar a Bíblia em todos os momentos, mormente quando se está evangelizando, doar Bíblias aos que não têm acesso a ela, editar Bíblias nas quais se destaque a identidade católica, reforçar as devoções à Virgem Maria através da Eucaristia, exigir obediência e respeito ao sumo-pontífice e aos próprios bispos das dioceses católicas, estabelecer visitas, manter o vínculo com as pessoas visitadas, realizar as festas dos santos mais populares (Santo Antônio, São Cosme e Damião etc), manter as igrejas abertas, organizar equipes de acolhimento e plantões de orientação social, psicológica, médica, jurídica etc., ter maior presença na mídia e, por fim, adquirir “novos espaços eclesiais, tendo em vista a exploração demográfica de determinados lugares ou regiões” (PAMP, 2004, p. 32-44). Talvez aqui devêssemos nos concentrar rapidamente nestes
novos espaços eclesiais.